Notas iniciais
Tem tanta coisa que eu gostaria de dizer e me desculpar pela demora terrível, mas acho que essa nota ficaria maior do que o capítulo em si. Primeiramente, gostaria de agradecer a vocês que chegaram até aqui e esperaram com paciência um capítulo novo. Eu espero que gostem desse e que também esperem pelo próximo. Posso dizer que faltam, no máximo, uns 3 capítulos. Fix You terá seu fim e eu acho que fico bem travada com finais. Não sei lidar muito bem, mas inevitavelmente isso um dia irá acontecer. Bom, eu não achei que ia voltar a escrever esse semestre. A faculdade tem sugado minhas energias e inspiração. Mas com algumas coisas que aconteceram eu acabei precisando fortemente voltar a escrever ou ia ficar louca. E eis o resultado. Boa leitura :)

Capítulo 39

Low.

Living in perfect symmetry
But nothing is as down or as up as us

Ele nunca soube lidar com perdas. Talvez ninguém soubesse. Mas todas as perdas que ocorreram em sua vida, naquele momento, foram preenchidas por essas palavras:

— Vai ser um menino.

A doutora sorriu para eles. Não era a primeira vez que Rose era consultada pela Dra. Brown. A mulher acompanhara a primeira gravidez anos atrás. Conhecia Rose com carinho e participou do desenvolvimento de Zoe com dedicação. Rose não contava a história que ela teve com Scorpius e o motivo de no começo ele nunca ter ficado presente. A doutora reconhecia que eles tinham seus problemas e não cabia a ela julgar suas pacientes. Mas com certeza ela não mentiria estar surpresa por ver que Scorpius acompanharia a gravidez dessa vez.

Com um sorriso de “você estava certo”, Rose olhou para Scorpius. Ele tinha uma expressão de quem estava tentando entender a imagem do ultrassom na máquina ao lado da cama onde Rose estava deitada. A mesmíssima expressão que Rose se lembrava de ter visto no rosto dele, mais de 9 anos atrás, quando ela entregou a foto do ultrassom de Zoe para ele em uma cafeteria.

De tudo o que ele gostaria de ter falado, a novidade de um novo filho, e um filho garoto, fez Scorpius apoiar o braço na mesa e dizer apenas:

— Ok.

Ok.

Ele era péssimo em demonstrar tudo o que ele queria demonstrar. Rose derrubou a blusa para baixo, voltando a se sentar depois que a sessão de ultrassom do mês terminou. Ela passou os últimos trinta minutos conversando e fazendo inúmeras perguntas à doutora. Scorpius ficou ouvindo superficialmente. Ele tentou prestar atenção, mas internamente permaneceu pensando “é um menino”, o que significava que era real. Ele ia ter outro filho. Com Rose.

Rose não deixou de transparecer o quanto ficou chateada com a reação dele. No carro, quando estavam voltando para casa, Scorpius não tinha falado nada embora estivesse pensando muito. Rose conhecia o jeito dele, então respeitou o silêncio. Mas ela estava incomodada. Ela queria que ele falasse alguma coisa.

— “Ok”? Ficamos lá por duas horas e tudo o que você consegue dizer é “ok”? Está decepcionado?

— Não é isso — ele respondeu frustrado consigo mesmo. — Achei que eu estava preparado, mas então veio o ultrassom e mostrou que já tem um sexo determinado, o que quer dizer que realmente vou ter outro filho. E eu achei que nada mais poderia me deixar assustado, sabe, porque eu tenho uma filha e eu sei como é um pouco, pelo menos. Mas... me deixou assustado pra caralho. Eu sei que você está esperando uma reação melhor, mas acredite, eu estou feliz. Muito. Não consigo colocar em alguma ação ou palavra, é muita coisa.

— Eu sei que está. Só que “ok”...

— Eu não devia ter só falado “ok”. Foi ridículo. Desculpe.

Rose acabou soltando uma risada.

— Foi tão você. Eu juro que pensei “é, estou tendo outro filho com Scorpius Malfoy”.

— Terei uma reação melhor quando ele nascer — garantiu Scorpius, fazendo Rose rir ainda mais exasperada.

— É bom que tenha!

Assim que saíram da clínica, cumprindo sua promessa, Rose ligou para dar a Narcissa a informação do sexo do bebê. Sua reação foi dizer essas palavras:

— Um garoto. Scorpius terá a chance de passar o que aprendeu com Lucius a ele. Só espero que não o faça um advogado, porque, pelo amor de Deus, chega de advogados nessa família.

E ela concordou inteiramente com isso.

Draco não teve uma reação melhor do que a de Scorpius quando os dois se encontraram em um restaurante para almoçarem juntos. Nos últimos dias, aquilo estava acontecendo. Um tempo entre pai e filho que os dois não tiveram por muitos anos. Eles conversavam sobre as novidades e quando Scorpius contou que seria um menino, Draco moveu a cabeça em um sinal positivo.

— E tudo o que eu falei para Rose foi “ok” — Scorpius disse lamentosamente.

— Sabe o que eu fiz quando sua mãe me contou que você seria um menino?

— O que?

— Eu disse “interessante”.

Scorpius abanou a cabeça, rindo.

— Ainda foi mais do que uma sílaba.

— Cresce na família. São notícias que afetam. Mas isso não quer dizer que seja uma coisa ruim. Não quer dizer que por dentro você não esteja feliz. Quero dizer, sei que eu estou feliz por você.

Ele entendia.

— Obrigado, pai.

— Contaram para Zoe?

— Ainda não. Mas ela é tão esperta que já sabe. Dentro dela, ela já sabe que vai ser um menino.

Zoe não ficou surpresa com a notícia que seus pais deram a ela em um jantar comum no apartamento naquela semana. Rose disse que seria realmente um irmãozinho e Zoe, com toda sua postura confiante, respondeu:

— Eu já sabia. Quando você fala para eu conversar com sua barriga, eu sempre imagino um garotinho. Ele se chama Brownie.

Rose engasgou enquanto limpava a boca com o pano.

— Brownie?!

— Sim. Aí teremos um cupcake e um brownie em casa.

— Coisinha, você sabe que será um bebê humano e não um cãozinho, certo? — disse Scorpius.

— Por que ele não vai poder se chamar Brownie? — perguntou Zoe em um tom chateado.

— Porque... porque... — Rose procurou ajuda, olhando para Scorpius.

— Porque aqui em casa nosso sistema é democrático. Teremos que fazer votação para decidir o nome dele.

— Então enquanto vocês ainda não decidem, eu vou chamar meu irmãozinho de Brownie e ninguém vai me impedir.

— Você tem todo o direito disso — apoiou Scorpius, rindo e observando a filha se levantar da mesa para levar os pratos até a pia.

Desde o momento em que ela descobriu que Rose estava grávida, Zoe tentava ser prestativa em todas as tarefas que ela via os pais fazendo no dia-a-dia. Coisas que crianças não precisavam ficar se preocupando toda hora, mas que ela gostava de ajudar. Parecia à Scorpius que ela crescera uns trinta centímetros desde aquela noite do acidente. Ela já queria ter a ideia de que ela era irmã mais velha e escutara de Narcissa uma vez que “irmãs mais velhas são exemplos”. Tendo se recuperado bem do choque e dos machucados daquela noite horrível em que fora sequestrada, Zoe passou a fazer as coisas com mais independência do que antes ela já tinha. Agora até brigava com Rose para fazer o próprio lanche para levar à escola. Sua resposta era sempre a mesma.

— Eu já sou grande!

Suas lições estavam sempre perfeitas. Ela preenchia toda noite uma página de seu caderno de caligrafia, pedindo para Scorpius verificar se a letra estava ficando boa. Ela se cobrava, ela era perfeccionista, ela tentava ser boa em tudo, exatamente como seus pais. Não havia mais reclamações de professores sobre seu temperamento difícil com outros colegas; Rose só era chamada para a escola porque queriam elogiar Zoe e seu desempenho. Ela, com quase nove anos, estava passando de uma fase “criança” para uma em que ela era, agora, mais do que criança. Ela era uma menina, uma garota e, não só isso, mas alguém que estava criando opiniões e moldando sua personalidade. Sua curiosidade sobre as coisas desse mundo estavam ampliando de uma forma que Rose não conseguia parar para ficar refletindo ou pensando no passado. Ela se a obrigava a ser uma mãe madura o suficiente para responder e ensinar as dúvidas de Zoe, tanto em relação a vida quanto em relação aos problemas do mundo.

E Scorpius sabia que quanto maior estava ficando barriga de Rose, maior também estava ficando Zoe. Ele já não conseguia acompanhar todas as mudanças ao seu redor. Imaginou como seria se ele não tivesse tomado alguma atitude e não estivesse tão presente na vida dela. Ele perderia tudo sobre Zoe, sobre Rose e perderia também como era sentir um bebê chutando na barriga. Perderia as horas que os três ficavam discutindo para votarem em um nome que não tivesse referências a chocolate e bolos. Perderia risadas e o motivo de sua felicidade.

Essas mudanças que estavam ocorrendo, contando com a iminência de seu casamento com Rose, fizeram Scorpius amenizar sua raiva pelas coisas. Ele sabia que muitos problemas que ocorreram foram pelo excesso de mágoa, raiva, até mesmo ódio dentro dele. Perder sua mãe o fez ficar amargo. O acidente que quase matou sua filha parecia ter ocorrido há milhares de anos e Rookwood ainda andava pelos corredores como se não estivesse envolvido. Ele era um homem influenciável, então colocá-lo atrás das grades requeria uma grande ousadia.

E contatos certos.

Em uma manhã de maio, Scorpius estava quase perdendo as esperanças de que Rookwood fosse preso pelo que causou a sua filha por motivos egoístas de sua empresa, quando Portia entrou em sua sala para dizer a ele:

— Miles Jackson está aqui.

Todo advogado tinha um cliente favorito. Naquele caso, o cliente tinha um advogado favorito. Scorpius Malfoy era o de Miles Jackson. Homem poderoso que contratou seus serviços com um aperto de mão e uma garantia de amizade mútua. Scorpius sabia que não era sensato pisar no calo de Miles Jackson, mas os dois haviam passado por muitos tribunais juntos para que uma traição um dia acontecesse. De fato, ambos eram considerados até amigos.

O homem de quase setenta anos entrou com seu terno perfeito e sua postura aristocrata. Ele era o que você poderia chamar de líder de uma máfia poderosa. Scorpius o livrara de inúmeras prisões. Miles Jackson devia à ele muitos favores naquela amizade.

— Em que mundo é esse que você chama seu cliente para a sala, Malfoy? — ele perguntou, sentando-se na poltrona e cruzando as pernas.

— Um mundo em que homens como Augustus Rookwood andam pela rua.

Scorpius jogou uma foto de Rookwood sobre a mesa e se aproximou dele.

— Nós somos amigos, não somos, Miles?

— Absolutamente, Scorpius.

— E eu ajudei você bastante nos últimos meses.

— Sem dúvida alguma.

— Eu preciso de um favor.

— Então está mesmo desesperado.

— Ele quase matou minha filha. Ele estava envolvido nisso.

— Scorpius, ele não será punido. Homens como ele escapam e você não é idiota para não saber disso.

— Eu sei.

— Você quer que eu o mate?

— Não — ele disse lentamente.

— Então quer que ele sofra.

— Muito.

— Posso improvisar isso.

E antes de Miles ir embora, Scorpius deixou uma coisa clara.

— Nós nunca tivemos essa conversa.

Miles sorriu.

— Que conversa?

***

Ralph Thomas costumava pegar besouros e colocá-los em um frasco de vidro para levar para casa. Naquela tarde, no horário do recreio, Zoe teve que ser sincera:

— Isso é nojento.

— Nojento seria se eu comesse o besouro. Quer ver?

— Não! Que nojo!

Ele começou a rir da expressão dela, mas não fez aquilo. Zoe girou os olhos e voltou a se sentar no balanço. Enquanto o amigo procurava na grama um bicho interessante para pegar na mão, ela balançava fraquinho distraidamente, pensativa.

— Eu vou ter um irmão, sabia?

— E ele vai ser chato que nem você.

— Cala a boca. Tira esse besouro perto de mim!

— Você é fresca que nem todas as outras meninas.

— Eu não sou fresca.

— Então pegue o besouro na mão.

— Não vou fazer o que você está me mandando fazer.

— Fresca.

— Sai daqui, Ralph Thomas!

Ela o empurrou com as duas mãos e se afastou batendo os pés. A professora estava observando os dois bem na hora e chamou a atenção de Zoe.

— Não o empurre dessa maneira, Zoe!

— O Ralph Thomas é chato, fica me chamando de fresca, mas ele que tem problema e eu odeio ele!

Não era verdade, mas ultimamente o amigo tem tirado ela do sério. Estava toda hora fazendo coisas estranhas, como colecionar insetos. Sem contar que quando fazia trabalhinho em dupla com Zoe, ele não ajudava em nada, ficava atrapalhando e provocando ela com brincadeiras idiotas de garotos. Ela decidiu que não estava mais dando certo ficar com ele no recreio, então acabou se afastando para passar mais tempo com outras amigas.

Ralph Thomas nem reclamou.

— Eu não suporto ele! — reclamava Zoe para Scorpius naquele final de tarde em que voltavam juntos para a casa. — Aaron é bem mais legal que ele.

— Aaron? Tem certeza? Esse Aaron parece ser bem...

— Incrível. Ele tem uma bicicleta e, diferente do Ralph Thomas, não tem rodinhas.

— Não acredito que vou dizer isso, mas não acha que está sendo injusta com o Ralph Thomas?

— Injusta? Pai, de que lado você está?

Foi exasperador convencê-la de que ele estava do lado dela contanto que o lado dela não tivesse esse tal de Aaron. Mas quando chegaram ao prédio, Zoe desistiu de falar sobre isso, descobrindo que falar sobre seu futuro irmãozinho era mais interessante. Os dois subiram o elevador, com Scorpius perguntando outras coisas sobre a escola, e o assunto só foi interrompido quando entraram no apartamento.

Scorpius parou imediatamente com a presença de Miles Jackson na sala. Ele estava conversando com Rose quando chegaram. Depois de olhar para Scorpius, sorriu para Zoe com sua mochila nas costas. A menina reconheceu Miles na hora. Não era fácil esquecer feições amigáveis e, querendo ou não, ele tinha uma.

— Você é o cara que faz mágicas!

— Esse mesmo — disse Miles, levantando-se e ajeitando o terno com um sorriso.

— Zoe, coloque suas coisas no quarto — pediu Scorpius antes que Miles fizesse outra mágica para impressionar Zoe. A filha ia protestar, mas o olhar de Scorpius vencia qualquer discussão.

Quando ficaram sozinhos, Rose foi a primeira a dizer:

— Ele me contou o que você pediu a ele, Scorpius.

— Rose, eu não tinha-

Ele ia começar a se explicar, mas Rose estava longe de estar zangada por isso.

— Rookwood quase matou minha filha, eu quero vê-lo apodrecer.

Scorpius olhou para Miles. Zoe voltou para a sala e interrompeu a conversa. Ela logo percebeu que algo estava estranho. Rose precisou mandá-la tomar banho e deixar os adultos conversarem agora. Zoe fez o que ela pediu.

— Eu queria mostrar isso a vocês dois.

Miles Jackson pegou um gravador dentro do bolso do paletó e apertou o botão que disparava o som de uma gravação.

Rookwood estava confessando que havia influenciado Corey Archner a sequestrar “a filha de Malfoy” para assustá-lo e chantageá-lo com informações importantes de um caso que ele precisava vencer imediatamente. A confissão não foi feita de modo involuntário.

Scorpius sabia que ele tinha sido agredido, mas isso não foi registrado na gravação.

— É o suficiente para levar à polícia e prendê-lo — informou Miles, entregando a gravação nas mãos de Rose.

Rose não estava acreditando. Quando Scorpius questionou o que ele fez para conseguir essa confissão, sua resposta foi simples:

— Digamos que ele está se recuperando no hospital. Isso irá impedi-lo de entrar em contato com alguém para impedir o processo. — Antes de ouvir qualquer outra coisa, Miles se afastou até a porta. — Eu preciso ir embora. Acho que agora estamos quites, Scorpius. Obrigado pelo chá, Rose. Boa sorte com o novo bebê.

Zoe saiu do banheiro quando Miles fechou a porta e foi embora. É claro que ela ouviu tudo. Scorpius se agachou a altura dela, segurou seus braços e disse baixinho:

— Eu sinto muito pelo que passou naquela noite, querida.

— Quem é ele?

— Miles Jackson? Bem, ele é um-

— Não. Quem é Rookwood?

— Um nome que pretendo não ficar repetindo dentro dessa casa.

Ela estava séria. Zoe não gostava desse assunto, isso era claro em sua expressão. Suas feições ficavam mais rígidas e ela parecia muito mais velha quando entrava nesse assunto. Ela tinha um acompanhamento mensal com a psicóloga e toda vez que esperava pela visita da moça, Zoe virava um vidro que tanto Scorpius quanto Rose tinha medo de pisar.

Depois da visita de Miles Jackson, nunca mais se ouviu falar de Rookwood. Pelo menos, não dentro daquela casa. Tento a prova do que Rookwood causou à sua filha, Scorpius resolveu os detalhes que faltavam e começou a apenas esperar que, na prisão, o homem recebesse o que merecia.

***

Zoe não gostava de como suas amigas falavam mal de Ralph Thomas. Tudo bem, ele não era o melhor garoto da escola, mas não era justo ouvir aquilo. No período em que os dois estavam brigados, ela secretamente sentiu falta de passar o recreio com ele, mas se descobriu orgulhosa demais para voltar a falar com ele. Ficou olhando de longe o que ele fazia e não era muita coisa. Ficava caçando insetos e colocava em frascos de vidros. Depois passava o restante do recreio sozinho, sem provocar ninguém.

— Ele é tão estranho! — ria Giovanna com Samantha e April, enquanto brincavam no pátio da escola. — Não sei como você conseguia andar com ele, Zoe.

Zoe não riu com elas. Ficou observando com aflição o modo como seus outros colegas só tiravam sarro dessa nova mania de Ralph Thomas em colecionar insetos. Os garotos mais velhos, do quinto ano, roubaram o frasco de vidro dele para provocá-lo. Todo mundo estava rindo da perseguição que Ralph Thomas fazia para pegar de volta o frasco de vidro de Aaron.

Foi uma decepção muito grande ver Aaron fazendo aquilo contra o Ralph Thomas. Todas as crianças riam dele e aplaudiam Aaron, que estava exibindo suas habilidades em corrida. Zoe se levantou e falou furiosamente para as meninas que estavam rindo:

— Parem de rir!

— Você é mais estranha que ele — disse April totalmente para ofender. Zoe a ignorou e foi até Aaron, chamando pelo nome dele.

Ela tinha uma quedinha inocente por Aaron, mas naquele momento ela nem se importou mais.

— Devolve pra ele. Isso não tem graça. Ele não fez nada pra você.

Aaron olhou para ela como se não acreditasse que uma garota do tamanho dela fosse tentar defender um garoto contra ele. Aaron não fazia o tipo valentão, ele só queria atenção.

— Devolve ou vou contar para a sua professora.

Isso era pedir para ser chamada de chata até a formatura. Mas Zoe estava falando sério então ninguém duvidou daquilo. Aaron ia devolver a Ralph Thomas, mas o frasco caiu no chão e o vidro espatifou. O inseto desapareceu pelo gramado do pátio.

— Você fez de propósito — acusou Ralph Thomas antes de avançar contra Aaron e tentar agredi-lo.

A briga foi a mais feia que Zoe já presenciou. Ambos saíram sangrando e machucados. Só pararam quando a professora berrou e afastou os dois, levando-os imediatamente para a diretoria. A avó de Ralph Thomas foi chamada para resolver o problema.

Zoe não o viu naquela tarde.

E não o viu no dia seguinte.

Nem no próximo.

Ralph Thomas faltou a semana toda até que, na sexta-feira, Rose entrou no quarto de Zoe para contar uma notícia. Ela estava finalizando seu caderno de caligrafia quando a mamãe entrou no quarto e se sentou na cama rosa, olhando para as costas da filha sentada a frente da escrivaninha.

— A avó do Ralph Thomas ligou para mim hoje, achou que deveria avisar já que você era muito amiga dele.

Zoe esperou as próximas palavras sem parar de mover a mão para escrever.

— Ele saiu da escola.

— Ele foi expulso — corrigiu Zoe, que já ouvira os boatos.

Rose suspirou.

— Mais ou menos. Ele seria expulso na próxima briga que entrasse, então a sra. Thomas preferiu tirá-lo de Hogwarts.

— Foi minha culpa.

— Por quê?

— Porque eu deixei ele sozinho no recreio. E os meninos mais velhos tiram sarro dele quando eu não estou com ele.

— Não foi sua culpa, querida.

— Foi sim. Eu fui muita injusta com o Ralph Thomas. Ele só queria colecionar insetos e eu o chamei de idiota e nojento. E eu empurrei ele e disse que o odiava.

Zoe encostou o queixo no braço, arrependida.

— Por que você ficou brava com ele? Ele te provocou?

— Não.

— Então por que você foi injusta assim?

— Porque ele me chamou de fresca e disse que meu irmão ia ser chato que nem eu.

— Foi errado ter empurrado ele, Zoe, e foi errado ele falar isso. A verdade é que ele gosta muito de você. E quando garotos gostam da gente, eles são idiotas. Pergunte ao seu pai, ele sabe disso.

— Mamãe — chamou Zoe quando Rose se levantou para voltar à cozinha. — Eu nunca mais vou ver o Ralph Thomas?

— Quando quiser vê-lo, podemos dar um jeito nisso.

Antes de sair do quarto, Rose espiou uma folha da agenda dela e se deparou com o nome de Aaron furiosamente rabiscado.

A primeira decepção a gente nunca esquece.

***

Quando Scorpius chegou com os dedos entrelaçados aos de Rose na casa de teatro de Londres, ambos vestidos perfeitamente para a ocasião, não havia uma grande multidão à espera da estréia de As Noites de Clarisse, mas também o local não estava vazio. Os espectadores eram mais velhos, recatados, com olhares críticos e prontos para julgarem ao que Narcissa gostava de definir como sua obra. Antes, era ela quem possuía o mesmo olhar – sempre causara pânicos entre os diretores de teatros. Suas críticas eram fervorosas e influenciáveis. Ela fora responsável pela ascensão e pela queda de muitas peças de teatro, de muitos atores e atrizes. Sua opinião tinha valor. Agora ela queria demonstrar que criticar não era a única coisa que sabia fazer.

A classificação da história exigiu que Rose deixasse Zoe com Albus e Michael naquela noite. Scorpius até garantiu a Rose que não haveria problema se ela não quisesse ir e preferisse ficar com Zoe, mas tal sugestão a deixou incrédula.

— Está brincando? Estou curiosa!

E Scorpius também estava. Só pelo fato de saber por Draco que Serena dedicou incontáveis horas praticando e decorando suas falas fazia-o pensar que a peça não seria algo com o que se envergonhar ou esperar por um fracasso de sua avó e ele queria ver o resultado.

Narcissa não queria conversar com ninguém e era assim que ela demonstrava seu nervosismo. Sendo fechada e direta. Pediu para que ninguém aparecesse no camarim para desejar boa sorte, pois isso a desconcentraria. Scorpius descobriu naquele momento que Narcissa não apenas escreveu todas as falas, ações, rubricas, como também faria um papel essencial de Clarisse no palco.

As Noites de Clarisse contavam a vida da personagem em três diferentes épocas de sua vida. Antes de Serena, uma jovem bastante talentosa se passou por dezesseis anos (embora todos soubessem que ela fosse mais velha) ao interpretar Clarisse em sua adolescência. Clarisse tinha um gênio forte, complexo, cheia de palavras de efeitos e era muito sarcástica, o que acabou trazendo um carisma fora do comum para o público. De repente, todos gostaram dela.

Não dava tempo de respirar, sempre tinha alguma coisa interessante acontecendo. As cenas de sexo não eram autenticas, mas eram boas. Por um momento Scorpius esqueceu que era uma peça escrita por sua avó e passou a entender que era o trabalho de uma mulher com experiências de vida. Havia muitas mensagens e reflexões. Clarisse virou uma prostituta, nos anos 50, envolvendo-se com homens de classe alta. Apaixonou-se e sofreu. E esse sofrimento foi derramado para a platéia com o talento de Serena. Ela era dramática na medida certa. Se em algum momento ela falhou em suas falas, ninguém percebeu. Serena foi Clarisse.

Sua parte terminou quando Clarisse ficou doente. Anos se passaram na história e Narcissa ocupou o palco. Scorpius queria que Lucius estivesse vivo para ver aquilo. Narcissa estava maravilhosa. Lágrimas escorriam pelas bochechas de Rose e foi quando Scorpius percebeu que ela estava emocionada com a história, assim como o restante do público.

E isso não era fácil.

Foi realmente uma cena forte.

Narcissa se postou ao centro do palco, onde um único feixe de luz acompanhava seus passos. Escondia suas mãos nas costas. Esperou ter certeza de que todos os olhares estivessem sobre ela quando revelou que segurava uma arma na mão. O enredo de sua história chegou até o momento em que Clarisse apontou uma arma contra sua têmpora. Narcissa citou essas palavras:

— É a única forma de não sentir. Ou sentir.

E atirou.

Foi real demais, tanto que Scorpius se moveu inquieto percebendo que ficou em pé como se quisesse correr a tempo de salvá-la no palco.

Mas os aplausos fortes o fizeram voltar à realidade e perceber que tudo não passava de ficção. Era só uma peça de teatro. Era só encenação.

E foi uma das coisas mais incríveis que ele já havia assistido.

Draco também estava surpreso enquanto aplaudia.

***

O vestido branco estava apertado. Narcissa não tinha conseguido fechá-lo nas costas para Rose.

— Sua barriga cresceu. É melhor casar logo antes que nenhum vestido sirva em você no dia da cerimônia.

Rose se observou no espelho da loja. Ela estava incrível. A saliência na barriga chamava muita atenção e claro que as pessoas iam reparar que ela estava se casando grávida, mas tendo passado por tudo o que passou, até parece que se importaria com as opiniões alheias.

Ela não queria um casamento barulhento. Ela queria algo simples, algo inesquecível, algo em que ela pudesse aproveitar somente com sua família e com as pessoas que a conheciam. Mas com Narcissa no comando dos preparos do casamento enquanto ocupava a cabeça para esperar pelas críticas de sua peça de teatro naquele mês, obviamente nada seria simples.

Nas primeiras semanas de preparos, Rose ficou assustada com todas as coisas que Narcissa sugeriu para o casamento. Mas chegou um momento, talvez em um dos momentos que os hormônios estavam afetados com a gravidez, que Rose deixou tudo na mão dela e decidiu confiar na avó de seu noivo. Rose só queria casar.

Quando ela disse isso a Scorpius, ele ficou ligeiramente preocupado.

— Rose, comece a esperar trapezistas no casamento, então.

Claro que ele só estava sendo o Scorpius sarcástico de sempre, mas com o tempo que Narcissa se ocupava entrando em contato com lojas e colocando-a a par das coisas que ela havia encomendado para a festa, Rose começou a não duvidar de Scorpius.

Seus pais ajudaram bastante também. Hermione participou de todas as vezes que Rose foi experimentar vestidos de noivas. Elas também tiraram um dia inteiro apenas para acharem o vestido perfeito de daminha de honra para Zoe. Apesar de Rose e Hermione terem gostado de um estilo, a própria Zoe gostou de outro e insistiu em usar aquele. Por sorte, ela e Narcissa pareciam ter o mesmo gosto. Caso contrário, Narcissa iria brigar. E, sinceramente, era difícil saber quem venceria uma discussão entre as duas.

Enquanto elas passaram um tempão decidindo os vestidos, Scorpius resolveu a questão de seu terno em poucos dias. Ele tinha um alfaiate de confiança. Há muito tempo os Malfoy encomendaram suas medidas com ele . Quando Scorpius saiu acompanhado de Draco para experimentar o terno com o qual iria se casar, verificou-se no espelho e ajeitou o nó da gravata, bonito e elegante.

Scorpius costumava usar muitos ternos. E de todos os que usou em sua vida, aquele tinha um peso extremamente diferente.

Notas finais
Foi um capítulo particularmente difícil de escrever. E sim, quem acertou #teamScorpius venceu! Eu sei que ele merece pagar todos os pecados ainda, mas acho que Zoe tem o resto da vida pra assustar ele né? hahah E a vinda de um garotinho pode fazer Scorpius ensinar alguns valores que ele gostaria de ter tido. Sabe, ensinar a não fazer merdas. Eu estou usando a internet da minha faculdade pra postar esse capítulo hoje. Ainda não respondi os comentários, mas prometo fazer isso o mais rápido possível. É que essa semana o wi-fi tá bosta, o que me ajudou a escrever também. hahaha Bom, espero que tenham gostado. Desculpem por ter trazido um capítulo tão pequeno comparado a demora, mas as outras coisas que quero mostrar seriam melhores se eu encaixar no próximo capítulo. Até lá :) @pokie_says
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.