Fix Me

2 Capítulo 2


Eu não conseguia achar um local para estacionar perto do escritório de Green, e a única opção foi deixar meu carro numa das ruas de trás. Bati a porta do carro, furiosa e andei apressada em direção ao enorme prédio onde Ethan devia estar metido. Ainda faltando alguns metros, percebi que estava chovendo, e meu cabelo pouco a pouco começou a ficar encharcado, assim como minhas roupas. Apertei o passo e entrei na recepção do prédio, recebendo olhares de indignação e torcidas de narizes. Bufei, era óbvio que não me encaixava naquele lugar, pelo que pude perceber, todos usavam roupas caríssimas, seus cabelos eram penteados com ouro provavelmente, pois os olhares que o meu recebeu foi de nojo. Ainda bufando, fui até o mural onde estavam os denominados andares, bem no topo, quase um metro acima, o nome Ethan Green se destacava, pois era maior e brilhava. Suspirando, fui em direção ao elevador, apertei o andar da cobertura e bati os dentes. Uma onda de adrenalina passava pelo meu corpo, meu cabelo cacheado pingava água e quando sai do elevador, deixei-o todo molhado.

A mesa de Rachel, estava no meio do Hall. Ela estava falando ao telefone e eu sabia que ela não ia deixar eu entrar na sala de Green, porque eu também não deixaria se fosse o meu caso. A cadeira dela estava um pouco virada e ela parecia discutir firmemente com alguém do outro lado da linha, tão absorta que seria minha chance. Rapidamente, corri até a porta de mogno, Rachel percebeu meus movimentos e tentou me interceder, mas eu já havia entrado na sala. Ethan estava parado em pé , olhando pra vista incrível que uma cobertura poderia proporcionar. Ele se virou pra porta e seus olhos esbarraram nos meus. Assim que vi seu rosto, minha raiva queimou.

—Me desculpe, senhor. Eu...- Rachel começou a falar.

—Tudo bem. Pode se retirar- disse, sorrindo para mim.

Rachel saiu e fechou a porta silenciosamente.

—Eu fui demitida! Por sua causa. -Gritei, indo direto ao assunto.

Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça e um sorriso, dessa vez sem mostrar os dentes, pintou seus lábios.

—De certa forma.- ele diz. Abri e fechei a boca por alguns segundos não acreditando que ele se rendera tão facilmente.- Estava esperando que viesse.

Franzi a testa, a adrenalina pouco a pouco deixou meu corpo, e eu estava começando a sentir frio.

—Então fez eu perder o emprego de propósito?- perguntei, achando tudo aquilo um absurdo.

Ele anuiu com a cabeça e fixou os olhos nos meus.

—Queria que soubesse que aquele não é o seu lugar.

—O meu lugar? Eles me pagavam. As pessoas precisam de dinheiro pra se manter, você sabia? Ninguém possui mil filiais no país igual a você.- disparei.

Ele ergueu as sobrancelhas.

—Parece que alguém fez o dever de casa.- ironiza, indo se sentar.

Ele me oferece a poltrona à frente com um leve gesto de mão.

—Não, obrigada. Não quero molhar sua poltrona, algo me diz que ela custou caro.- murmuro.

Ele ri, uma risada leve e expontânea mas parecia meio sem jeito, como se não estivesse habituado a dar risadas por aí.

—Você realmente é peculiar.

—Não tenho requintes, isso deve ser novidades para o senhor.

—Como o quê, por exemplo?

—Não falo francês e não possuo o nariz arrebitado como uma Belcost. Muito menos saio comprando poltronas que equivalem meu salário.- considero por alguns segundos- Ou o que eu tinha como salário, já que agora eu sou desempregada.

Os olhos dele faíscam.

—Eu posso te ajudar nisso.

Bufo, divertida.

—O que? Vai me oferecer um cargo em uma de suas filiais?

—Isso.- ele diz, como se fosse óbvio.

Encaro-o por alguns segundos, confusa.

—Não, obrigada.

Surpreso, ele se encosta na poltrona, cruzando os braços.

—Achei que tinha vindo aqui me cobrar um emprego.

Nego com a cabeça.

—Vim me certificar que ficasse ciente que perdi o emprego por sua causa.

—Eu sei. E estou tentando consertar isso.

Sorrio e me dirijo a porta.

—Não quero ser uma de suas máquinas.

Ele me encara sem entender.

—O que quer dizer com isso?

Sorrio ironicamente, voltando a encara-lo.

—Ah, qual é? No meio tempo em que entrei nesse prédio, atrás de você, fui sondada por pessoas de "alto padrão". Me encaravam como se eu tivesse uma doença contagiosa.-estremeço.

Ele me avalia por vários segundos, e eu estava decidida em deixá-lo ali mesmo e voltar para casa. Estava cansada demais para isso. Mas ele sorri torto e diz:

—Você não quer ser tratada do mesmo jeito que foi se trabalhar aqui? Este é o seu medo?

Nego mais uma vez com a cabeça, exausta me dirigindo para a porta de novo:

—Não, senhor. Tenho medo de ficar igual a eles.-digo, saindo.

Fecho a porta silenciosamente atrás de mim e respiro fundo, indo até o elevador. Aperto o botão e me viro para Rachel, que me encara com nojo. Sorrio para ela e levanto o dedo do meio, me virando para o elevador que acabara de chegar.

Entrei e estava prestes a apertar o botão do térreo quando Ethan interrompe as portas com a palma da mão.

— O que está fazendo? — pergunto ao vê-lo se plantar ao meu lado.

—Me certificando que não seja tratada novamente com desrespeito.

Rachel se apressa e mantém a porta aberta, encarando-o com surpresa.

—Mas senhor, há compromissos importantes agora...

—Cancele.- ele diz, então Rachel se afasta, as portas se fecham e eu me vejo a sós com Ethan Green num cubículo de metal.

Suspiro e tremo.

—Está com frio.

Não havia sido uma pergunta mas eu confirmo com a cabeça.

Assim que o elevador volta a se abrir, percebo que já havia escurecido. Coço a testa e saio, com Ethan logo atrás de mim. O hall ainda está cheio, e os olhares de supresa direcionados a Green me surpreende. Talvez não o vejam saindo muito com uma garota toda molhada de seu escritório.

—Onde deixou seu carro?-pergunta ele assim que deixamos o prédio.

—Na rua de trás.

—Vou acompanhá-la. Não devia andar sozinha a essas horas.

Paro de caminhar e me volto para ele, que estava a alguns passos atrás de mim.

—Sei me proteger, se é o que está pensando.

Ele dá de ombros, novamente com as mãos dentro dos bolsos.

—Não tenho dúvidas quanto a isso.

Balanço a cabeça e me dirijo aonde deixei meu carro, mas ao invés de encontrar minha lata velha, não há nada no lugar aonde a deixara.

—Ah, meu Deus. Meu Deus, Meu Deus. Aonde está?- grito enfiando meus dedos no cabelo, desesperada.

Ando de um lado para o outro, desconsolada.

—Você o estacionou aqui? Bem aqui?- ouço a voz de Ethan atrás de mim.

—Sim! — Grito. — Mas que merda!

—Você o estacionou na vaga preferencial.- Ethan disse, apontando para a placa ao lado, avisando sobre o guincho.

Olho para a placa e depois volto a olhar para Ethan, me sentindo um lixo.

—Eu fui guinchada. -murmuro cabisbaixa. — Esse é o pior dia da minha vida!

Escuto ele rir atrás de mim.

—É sua culpa tudo isso.- grito acusando-o.

Ele levanta as mãos, como se rendendo.

—Eu? Não pedi para que viesse aqui, muito menos estacionar aí.

Bufo e inutilmente tento achar meu celular nos bolsos da minha jaqueta. Nada.

—O que está fazendo ?

—Vou chamar um táxi.-murmuro.

—Seu celular não está aí, né?-ele ri.

Bufo.

—Eu o deixei na minha bolsa. E ela está dentro do carro.

Ele ri mais alto ainda. Fico tentada em lhe dar um soco, mas percebi que estava exausta demais ate para isso.

— Eu vou lhe dar uma carona.- ele anuncia pegando o celular do bolso.

Me viro apressada para ele e tento me recompor.

—Não vai ser necessário, obrigada.

Ele levanta os olhos da tela do celular e levanta uma sobrancelha:

—Pretende criar asas, Srta. Donovan? Porque, caso o contrário, não vai conseguir chegar a zona norte caminhando ainda esta noite.

Abro a boca pra retrucar, quando algo em minha mente estala:

—Não me lembro de ter lhe dito meu sobrenome. Muito menos meu endereço.- digo.

Ele ri e encosta o celular no ouvido, em uma ligação.

—Digamos que eu também faço meu dever de casa.

Ele me olha de maneira incisiva e sorri calmamente. Bufo e me viro de costas pra ele enquanto ele pede para trazerem seu carro.

Olho o céu e vejo que logo mais voltaria a chover, e se eu recusasse a carona de Ethan, eu não chegaria em casa seca, e não nessa noite, como ele dissera.

Bati os dentes de frio, e cruzei os braços numa tentativa de afastar o frio. Eu estava sentindo que passaria o fim de semana desempregada e gripada, duas coisas que eu odiava. Parei de pensar ao sentir algo quente em meus ombros, franzi a testa ao ver que Ethan havia me dado seu paletó.

—Obrigada, mas eu...-comecei a dizer, me virando.

—É, já sei. Você não quer estragar meu paletó caro.- ele me corta.

Sorrio torto e fungo.

—Na verdade eu ia dizer que não tava muito afim de sentir esse seu perfume de 300 dólares- Torço o nariz como se o cheiro dele fosse desagradável, o que foi um leve esforço, já que o aroma de seu paletó era tão gostoso que me fazia me sentir melhor em todos os níveis.

Ele riu no mesmo instante em que um carro preto, de última geração mas que eu não poderia dizer qual pois sou uma negação com máquinas desse tipo, se aproximou da gente e diminuiu a velocidade . Um cara alto, musculoso e de cabelos ruivos saltou dele, indo abrir a porta para Ethan.

—Não será necessário, Jordan. Eu vou dirigir hoje, Obrigada.

Levantei os olhos, me perguntando porque eu havia ficado surpresa com o fato dele ter um motorista particular.

—Tudo bem, senhor. Aqui estão as chaves, vou voltar caminhando até seu escritório e de lá peço um táxi.- Jordan disse de forma polida e profissional enquanto lhe entregava as chaves.

—Pegue meu carro que uso para ir para casa, ele está no estacionamento da empresa.- Ethan disse, abrindo a porta para mim.

Passo pelo muro de músculos denominado Jordan.

—Olá, tudo bem? — Pergunto indo em direção ao carro.

Jordan parece um pouco norteado mas me responde com um simples sorriso e um aceno de cabeça. Entro no carro e aguardo Ethan entrar em seguida.

—Não precisava ter falado com ele.-Ethan disse, ao sentar atrás do volante.

—Porque?

—Ele é só um empregado.

Olho pra ele, estupefata.

—Ser educado não vai me custar caro, Ethan.

Ele me encara quando pronuncio o seu nome.

—Fale de novo.- ele ordena, os Olhos escurecendo mais.

—Ser educado...-comecei.

—Fale o meu nome.- ele me interrompe.

O encaro sem entender, estreitando os olhos.

—Ethan.-digo, num sussurro.

Ele me avalia por alguns segundos, os olhos de predador sob minha pele fazendo-a formigar.

—Bom.- ele sussurra e liga o carro.

Olho pra frente tentando entender o que acabara de acontecer , e depois de alguns minutos noto que ele dirigia sem saber meu endereço, pelo menos meu endereço completo.

—Eu moro no...

—Apartamento 348, no prédio 31 da avenida Sholter.

Eu o encaro de boca aberta.

—Eu... Como sabe disso?

Ele ri, sem tirar os olhos da rua.

—Eu disse que fiz meu dever de casa.

—Você é o que? Um...stalker?- pergunto chocada.

—Não!- ele diz de forma ofendida.- conheço um cara que é.

Arregalo os olhos e esfrego a testa.

—Mandou me espiar? Investigou a minha vida? -Grito.

Ele dá de ombros, virando o carro numa esquina.

—Você fez a mesma coisa.

—Você é uma figura pública! Seu endereço estava num tabloide. E era o da sua empresa, não dá sua casa.

Ele ri.

—Cada um com seus meios investigativos.

Dou de ombros:

—Eu poderia te processar.

—Mas não vai.- ele diz naturalmente.

E não ia mesmo. Puxo o ar para meus pulmões e tento organizar minhas ideias. Esse foi um dos dias mais loucos da minha vida, nem mesmo Angie, minha melhor amiga, conseguiria deixar meu dia de pernas pro ar, coisa que ela sempre tentava.

Angie e eu nos conhecemos na república da faculdade, ela tentou me paquerar e depois da segunda semana de amizade, ela se convenceu que eu era totalmente hetero.

—Um dia você vai se arrepender de não ter pegado Angie LocWood.- ela disse uma vez.

—Eu já estou satisfeita com a sua amizade- lembro de ter respondido, rindo.

Relembrando esses momentos, percebo que não avisei a ela aonde estaria, e provavelmente ela estaria preocupada. Olhei as horas ao lado do volante e suspiro, mais uma vez esquecendo que estava sem o celular quando fui caçá-lo no meu bolso.

—Esqueceu de avisar alguém que estaria me importunando no trabalho?-Ethan pergunta estacionando em frente ao meu prédio.

Reviro os olhos.

—Sim, uma amiga.

Ele me olha nos olhos, pendendo a cabeça para o lado.

—Você é...

—Não, não sou lésbica.-Interrompo.- Engraçado seu stalker não ter achado isso.

É a sua vez de revirar os olhos.

—Touché.

Sorrio e abro a porta do carro.

—Obrigada pela carona. — deixo o paletó no banco e saio do carro, mas lembro de algo e volto até a janela, ele a abre e eu sorrio:

—E quanto ao meu emprego: vá se foder.

Ele ri e me afasto.

—Adeus, Sr. Green.

Caminho em direção ao meu prédio sem olhar para trás, apenas ouço seu carro dando partida.

Assim que entro no meu apartamento, Angie aparece ao lado da porta com os braços cruzados e o olhar malicioso.

—Harley, onde você estava? São onze da noite. — ela diz, os olhos preocupados.- Você nunca esteve fora a esse horário e ainda por cima não atendia minhas ligações! Achei que estava trepando.

Reviro os olhos e pego minha toalha, que estava sob uma cadeira.

—Bom, eu posso explicar...

—Se a resposta não for transando, eu não quero saber.

Rio e vou em direção ao banheiro, ela me segue, parando na porta fechada.

—Ande, me conta- exige ela, curiosa.

Tiro minha jaqueta e minha camiseta enquanto explico pra ela o ocorrido, de forma resumida.

—Você foi até o escritório do cara? Uau, desde quando minha menininha cresceu? -ela diz atrás da porta.

—Você se surpreenderia.

—Mas o carro foi guinchado? Droga!

O carro era Usado por nós duas, eu usava durante uma semana e ela durante outra, ou quando dava tempo, eu lhe dava uma carona até seu trabalho.

—Sim, sinto muito. Mas vou passar lá amanhã e vejo o que posso fazer.

Entro no banho e lavo meus cabelos.

—Não tem problema. Já que você perdeu o emprego, posso usar a bike até conseguirmos o dinheiro pra pagar a multa-ouvi ela dizer por baixo do som do chuveiro. Suspirei, Angie sempre foi um doce. Mesmo com tantos problemas, ela mantinha os pensamentos positivos. Diferente de mim.

Assim que sai do banheiro fui ver como ela estava. Usava um dos vestidos preferidos, um amarelo de mangas compridas com margaridas estampadas, os cabelos louros longos iam até a cintura, os olhos dourados mantinham-se fixos a parede.

—Não se preocupe, Angie. -tentei.

Ela sorriu.

—Tá tudo bem.

Fui até meu quarto e desabei na cama, torcendo para que o dia seguinte fosse melhor.