Fix Me
1 Capítulo 1
Leila me encarou profundamente enquanto prendia a respiração, o que acabou deixando seu pescoço vermelho e seus olhos estreitos.
—Repete! — Ordenou ela, a voz fina soltada em um sopro.Limpei a garganta e cocei a ponta do nariz, como sempre fazia quando algo me incomodava, e na situação, Leila era uma grande dor de cabeça.—Houve um incidente, Srta. Belcost. As impressoras pararam e as capas das revistas foram todas alteradas.- Tento dizer de forma que a personificação de Barbie fajuta entendesse. O fato era que Leila Belcost não levava jeito para administrar a New People, a revista diplomática mais famosa do continente, e todos ali sabiam disso. Leila era minha chefe há exatos dois meses, e eu pude tirar essa conclusão no meu primeiro dia de estágio, quando ela arremessou a revista da editora concorrente, Scarface, pela janela aos berros quando viu que eles haviam publicado uma matéria sobre ela usar casacos de peles de animais.Leila me encarou friamente, e nesse momento o departamento de visual congelou, curiosos para saber se eu seria a mais nova estagiária sem a cabeça no pescoço.— Arrumem essa porra! — Ela gritou, apontando o dedo pra mim. — O novo sócio irá visitar esse chiqueiro em menos de quinze minutos, e vocês estragam tudo. Me controlo para não revirar os olhos e aceno com a cabeça.—Temos os melhores técnicos nisso. Tudo vai correr normalmente em menos de cinco minutos.- assegurei enquanto seguia Leila até sua sala.Fazer jornalismo na faculdade foi a melhor coisa na minha vida. Eu era destemida e inocente ao mesmo tempo e no começo eu queria escrever para um jornal local, ter minha própria coluna em que eu poderia discutir sobre política, sociedade, ou qualquer coisa que não a mesma que eu era obrigada na New People: Fofocas.Eu fiquei meio consternada quando recebi a proposta, pois nunca passara na minha cabeça escrever sobre a vida das pessoas. Não demorou pra mim sacar que eu também não iria escrever sobre isso. Invés de jornalista, comecei na New People como assistente de Leila, e ela realmente sabia como ser irritante.Leila era filha de um dos maiores empresários dos últimos trinta anos, ser uma Belcost em Nova York fazia dela a princesa perdida da Inglaterra. Ela era um fenômeno mundial, além de embarcar como jornalista — e meu demônio encarnado — , ela era a jovem mais bem paga do estado. Ela chefiava uma marca de roupas que fazia sucesso em horrores na América Latina, as blusas com o slogan fajuto " Belcost Family " costurado na frente por mãos de alguma criança que era obrigada a trabalhar condições péssimas no terceiro mundo fazia dela a Patricinha De Nova York. E acredite, ela adorava isso.— Onde está meu bebê, Harley? — Perguntou ela se referindo ao seu cachorro sem menos olhar para trás para verificar se eu estava acompanhando seu passos.—Está no seu apartamento do centro, mandei-o pra lá quando soube que passaria alguns dias aqui pra receber o sócio. — Informo enquanto passo em sua frente para abrir a porta de seu escritório.Ela sorri enquanto joga a bolsa em cima da mesa e se vira pra mim, encarando-me com olhos totalmente irônicos.—Sabe, se eu não te conhecesse acharia que está tentando me bajular. — ela sorri maliciosamente, depois se perde nas unhas vermelhas recém pintadas.—Só faço meu trabalho, senhora. Ela faz um gesto com a cabeça e logo meu celular vibra, com uma mensagem do porteiro, sr. Gonzales: " O novo Sócio está subindo ".Aperto a saia e devolvo o celular no bolso do meu casaco.—Srta. Belcost, o novo sócio está subindo.Ela levanta as sobrancelhas e depois se olha no grande espelho colocado a esquerda de sua mesa.—Como estou? — Antes que eu pudesse responder ela me corta, rindo asperamente. — Linda, como sempre.Ignoro e volto a minha mesa, fechando a porta de sua sala. Respiro profundamente aguardando o novo sócio. A reunião acontecerá ali mesmo na sala de Leila, e eu, obviamente terei que recepcionar o Sr. Green. E eu logo sabia que ele seria mais um senhor de meia idade, com uma leve barriga saliente por baixo do terno caro, que logo ao ver Leila ficaria louco de tesão e aceitaria qualquer proposta que ela quiser.Suspirei ao ouvir sussurros no corredor e me levantei, pronta para ver um senhor... Extremamente lindo.Green não tinha nenhum dos adjetivos que eu achei que iria ter, não tinha se quer olhos gentis que um homem de meia idade e obeso poderia transmitir.Vendo-o caminhar determinado e com um olhar assassino, pude ver que ele não era uma garça, mas sim um tigre cuidadoso e observador. Os olhos negros estavam perdidos enquanto sua secretária o seguia cochichando algo em segredo com o nariz torcido, seus ombros eram largos e seu corpo precisava de atenção detalhada de um alfaiate, pois ternos comuns seriam difíceis de caber num corpo tão musculoso e esculpido igual ao dele. Eles ainda não haviam notado minha presença, e nem haviam chegado a dois metros de mim e pude sentir o poder que aquele homem exalava. Os Cabelos negros estavam meticulosamente penteados para trás, e seus lábios carnudos estavam apertados. Era perceptível que ele não estava se sentindo confortável, e eu não o culpei, pois toda atmosfera gritava "Leila Belcost" e ninguém se sentia confortável num ambiente desses.
Quando eles estavam próximos o suficientes, ouvi Green dizer para a secretaria: — Não quero demorar mais que dez minutos com essa vadia. Se ver que essa merda de reunião passar disso quero que finja que tenho um compromisso urgente, me entendeu? A secretaria concordou e sorrir divertida. Senti o encanto amolecer e desaparecer em questão de segundos. Era óbvio que ele ostentava o que todos os homens ricos tinham: muito dinheiro e pouca educação.—Estamos aqui para uma reunião com Leila. — a secretaria disse, tomando as rédeas e ficando na frente de Green, atrapalhando qualquer contato visual que podíamos ter, e eu agradeci por isso.—Me acompanhem, por favor. — tentei dizer polidamente, enquanto me virava para ir em direção a porta do escritório de Leila. —Você não é muito nova para trabalhar? — Uma voz grave, rouca e baixa o suficiente pra saber que não pertencia a secretaria. Green estava ao meu lado, e sua pergunta , carregada de ironia e humor sem graça, me fez parar meus movimentos. Me virei pra ele e notei seus olhos negros, para a minha surpresa, escurecerem ao ter a minha atenção.—Tenho o suficiente pra saber cuidar da minha própria vida. O senhor deveria tentar o mesmo. — disparei sem pensar direito, e quando dei por mim eu já tinha dito. Green me avaliou surpreso e sua secretária se aprumou:—Petulante, você sabe com quem está falando? A verdade é que eu não sabia, e eu me senti dez vezes menor. Se ele disser algo para Leila sobre isso, tenho certeza que ela vai me despedir e se certificar que eu nunca publique nada pelo resto da minha vida. Abri a boca pra me desculpar mas Green me interrompeu.— Tudo bem, Rachel. Tudo bem. — Seu sorriso era neutro, não sabia se era um sorriso que demonstrava felicidade ou não. Desgrudei os Olhos de seu rosto e bati na porta de Leila antes de abrir e dar passagem para Green e Rachel passar.— Oh, meu querido Ethan. Sempre acompanhado de sua fiel escudeira,Isabel. — Leila exclamou alto, sorrindo igual criança em noite de Natal.—O nome dela é Rachel, Srta. Belcost. E vc parece ter mudado de secretaria. — Green diz enquanto caminha até a cadeira em frente à mesa de Leila.—Ela não é uma graça? Ótimo, eu sou o assunto e provavelmente ele vai pedir minha demissão agora.—Pode se retirar, Harley. — Leila diz sem me dar muita atenção, enquanto ela volta a se sentar em frente aos convidados. Suspirei aliviada, pronta para sair quando Ethan interveio: — Na verdade, eu quero que ela fique. Paralisei, assim como Leila que me olhou com notório ódio que só ficou visível para mim. —Se é o que deseja. — ela murmurou. — Fique, Harley. Assenti pesadamente e juntei as mãos trêmulos à frente do corpo.—Bom, como sabe Ethan, temos planos muito importantes para fazermos juntos.- Leila começou enquanto se sentava lentamente a sua cadeira de veludo, à frente de Green.—Temos? Você parece ter me dado uma ordem quando solicitou essa reunião.Leila riu e jogou os cabelos louros para trás, lançando um olhar de cadela no cio para Ethan, sem se importar comigo e Rachel.—E eu odeio ordens. — completou Green, fuzilando-a sem nenhum pingo de humor.Leila pareceu não se importar.—Ora, tenho uma proposta a fazer,meu caro.—Tempo é dinheiro, Belcost.- ele ruiu.—A firma é sua, se aceitar a proposta.Levantei as sobrancelhas surpresa. Ela estava oferecendo a firma? —Que seria...?Leila sorriu, e sem eu acreditar, apertou os seios, quase oferecendo-os. Notei Rachel fazer careta.—Ora, o que todos os homens do país deseja: ser meu noivo.Eu e Rachel, ao mesmo tempo, engasgamos. Tentei não rir da situação, que parecia embaraçosa de mais pra eu estar ali, tentei sair de fininho mas Ethan bradou, ainda de costas para mim:—Ninguém deixou você sair, Harley.Quando ele pronunciou meu nome, foi como uma dose de raios direto na minha veia, os pelos na minha nuca se arrepiaram e eu, por alguns segundos, tremi.Leila franziu a testa para ele e voltou a me encarar com ódio por míseros segundos, os dois convidados podiam não ter percebido, mas eu conheço quando Leila Belcost fica puta da vida, ainda mais quando é comigo.— O que acha, Harley?- Ethan perguntou, sem tirar os olhos de Leila.- O que acha de um casamento entre mim e Leila? Minha garganta secou, e eu demorei pra entender o que ele estava perguntando.O olhar de Leila tremeu sob o dele e eu pude ver que ela soava. Nunca vi Leila assim.—Senhor, creio que não têm porque eu me entremeter e...—Responda!- ele disse, firmemente.Olhei para Rachel que parecia se divertir com o meu constrangimento.— Se vocês se amam...Não consegui terminar a frase, Leila e Rachel começaram a rir em tom de deboche e eu me senti medíocre.— Deixem ela falar. — ele gritou, e as duas se calaram. Naquele momento fiquei me perguntando quem era aquele homem, que ditava regras como se fosse superior. Tossi e cocei a ponta do nariz.—Um casamento só pode acontecer quando os dois se amarem. — disse.E era verdade. E tenho essa ideia graças aos meus pais, que nutriam um pelo outro o mais genuíno amor. Nenhum dos dois estavam prontos, mas o amor fez deles um caso à parte.—Então, acredita em amor verdadeiro? — Ele me perguntou, dessa vez virando a cadeira pra me encarar. Os olhos deles eram viciantes, eram tão escuros e profundos que uma via láctea se perderia neles.—Sim- disse, me sentido tola. Ele me encarou por vários segundos, e eu sustentei o olhar. Tinha noção que Rachel e Leila observavam tudo, o que me fazia arrepiar levemente.—Bom, — Ethan disse virando a cadeira para encarar Leila.- Creio que não posso aceitar a oferta. — Disse se levantando.Leila escancarou a boca e vi seu rosto perder a cor.— Ora, meu querido. Deve estar delirando se...—Não. Estou completamente lúcido.- disse caminhando até a porta, parando ao meu lado.— Você é uma mulher singular.- ele murmurou pensativo, sem me encarar. Então abriu a porta e saiu, com Rachel ao seu encalço.Eu e Leila ficamos em silêncio por cinco minutos. Tentei dizer algo mas perdia a coragem. Leila estava com os olhos fixos no teto. Como se lá tivesse uma resposta aos seus problemas.—Fora.- ela disse calmamente.Atônita, me virei para me retirar.— Está demitida. — ela disse ainda calma.Encarei-a surpresa.—Mas...—Pense muito bem antes de falar essas merdas de conto de fadas. — ela me encarou com os olhos cheios de ódio.-" amor verdadeiro"- gritou em tom de deboche.Pisquei e abri a boca, mas desisti de tentar dizer algo em meu favor. Balancei a cabeça e bati a porta com força assim que sai, pegando minha bolsa e o retrato de meus pais em cima da mesa, única coisa minha ali. Olhei a foto onde minha mãe sorria para meu pai, que por sua vez sorria pra mim ainda bebê. Estava desempregada. Repassei toda a cena do escritório várias vezes enquanto pegava o elevador, e assim que entrei no meu carro, soube que a culpa disso tudo era de Ethan Green. Porque ele me fez aquelas perguntas? Porque considerou minha opinião ?Peguei meu celular e digitei o nome dele no Google, precisava saber quem era aquele homem.No primeiro artigo encontrei uma foto dele, totalmente lindo com um sorriso torto no rosto enquanto encarava o a câmera , o título de letras vermelhas gritava: " O empresário mais rico, cobiçado e inteligente de Nova York".Franzi a testa, e continuei a ler o artigo que dizia:" Ethan Major Green, filho de camponeses, cresceu em meio à pobreza, mas com muito estudo e suor, abriu sua primeira loja de farmácia aos 20 anos, que foi a porta para mais de mil filiais só nos EUA! O jovem milionário..."Rosnei e desliguei o celular, não antes de ver o endereço de seu escritório. Liguei o carro e acelerei em direção à parte norte da cidade, estava indo tirar satisfações com Ethan Green.
Fale com o autor