Fix Me
40 Panquecas
Notas iniciais
Já se passou dois meses desde que estamos aqui. Amélia entrou em contato e sempre nos ajuda com o que falta para nosso sustento, mas só eu e Dany sabe sobre este contato. Todos já avisaram seus pais que estão bem e de quem é o culpado. Com seu nome ao ar dos mafiosos, Dragon só pode se esconder agora, e se ele tentar nos pegar, vai ser difícil, pois graças ao Dany e suas aulas de luta, todos já sabiam se defender.
Estava tudo em perfeita harmonia: O doutor Derezzi achou uma pequena casa de vidro com velhas flores. Ele e alguns caras reformou e usou para plantar todos os tipos de plantas medicinais para ajudar aos outros. Parecia seu novo consultório e nem fica longe da mansão. Todos ajudavam em tudo.
"Porque o mundo não é simples assim?"
Lauren e Evan já estavam noivos e esperavam o tempo certo para se casarem.
Infelizmente não posso dizer o mesmo de minha antiga cunhada. Na primeira semana eu tive que contar para ela sobre a verdade de que Lucas não era meu irmão, que foi ele que nos raptou, o motivo do rapto e também disse que foi ele que nos ajudou a fugir e morreu por isso.
No primeiro mês Alex quase entrou em depressão, mas percebi que Nick se preocupou e ficou ao seu lado para que ela não faça nenhuma besteira. Agora, ela está um pouco melhor. Já come direito e sai mais, sempre com Nick ao seu lado. Ela se esforçou muito para não nos preocuparmos com ela, mas é automático, amigos são para isso.
Dany ainda não descobriu uma cura para Thomas, tanto que, pedimos ajuda para Charlie, mas ele também ainda está pesquisando. Todos acham que eu e Charlie fazemos um perfeito casal, menos Evan, Dany e Lauren, que sabe que ele é gay. Como acreditei nisso? Só vendo mesmo.
Ele é um homem alto de cabelos loiros claros e olhos cor de mel. Tem um corpo bem formado e vive na sua casinha de vidro plantando, fazendo anotações e medicamentos.
— Com licença.
Bati na porta antes de entrar.
— Oi, Li. Pode entrar.
Charlie sorriu. Ele estava sentado na frente de um balcão de madeira todo bagunçado com plantas e papéis.
— Bom dia. Trouxe café, já que não te vi na hora da refeição, de novo.
Coloquei a bandeja na ponta da mesa com a xícara, torrada e uma maçã.
Ele sorriu e se levantou, mas perdeu o equilíbrio e quase caiu, sorte a minha que eu o ajudei a se equilibrar de volta.
— Você está bem?
Perguntei deixando-o de volta na cadeira. Ele riu sem graça.
— Apenas um pouco cansado.
Coloquei minha mão em sua testa e percebi que ele estava com febre.
— Minha nossa, Charlie. Você está fervendo! Você dormiu direito?
Ele assentiu desviando o olhar e cerrando os lábios.
— Não minta para mim!
Falei apontando o dedo para ele. Seu jeito as vezes me lembrava a do Lucas.
— Desculpe, mamãe.
Ele riu e depois suspirou.
— Consegue andar?
Ele assentiu. Eu o ajudei a sentar em um banco que alguns caras do Sul da Europa construíram. Deixei-o enquanto eu molhava um pano e colocava em sua testa.
— Sabia que você não estava bem.
— Como?
Charlie perguntou levantando uma sobrancelha.
— Você não foi comer ontem e está com olheiras, ou seja, não dormiu direito essa semana. Posso saber o porque?
Ele suspirou enquanto encara a xícara ao seu lado.
— Eu estava tentando procurar uma cura para ele.
Aquilo mexeu comigo. Prendi a respiração por um momento para não chorar por Thomas e disfarcei dando um tapa em sua cabeça.
— Aí aí, está doida?!
— Quem está doido aqui é você! Não precisa sacrificar suas noites de sono e sua saúde por uma pesquisa. Não precisa fazer isso, apenas tenha paciência e tudo dará certo.
Ele sorriu e me abraçou.
— Obrigado. Ninguém nunca falou assim comigo ou me ajudou tanto como você e seus amigos.
— Nossos amigos, Bobo. Mas e seus pais?
Ele olhou para baixo.
— Meu pai só investia nos meus estudos, mas nunca demonstrou algum afeto por mim, e isso piorou quando ele descobriu que eu era gay.
— E sua mãe?
— Ela faleceu quando nasci, acho que meu pai me culpa por isso. E agora eu tenho uma madrasta que fica pouco tempo comigo, mas parece me amar mais que o do meu próprio sangue.
Aquilo me comoveu.
— Charlie, se você não se importar, podemos ser sua família?
— O que?
Ele falou sem entender. Sorri com aquilo.
— Você não percebeu? Depois de tanto tempo morando na mesma casa você ainda não abriu os olhos?
Apontei para a janela ao nosso lado onde mostrava várias pessoas. Algumas brincando, outras plantando e outras namorando. Todos numa perfeita harmonia.
— Já somos uma família.
Ele sorriu.
— Você não existe, Alice.
Após algum tempo conversando com Charlie Derezzi, fui para casa visitar as gestantes. Mas elas não estavam no quarto. Perguntei para Oshio, uma garota japonesa que sabia falar cinco línguas diferente (além de latim!), a mesma disse que as duas estavam no quintal fazendo Yoga com seus namorados. Estranhei e fui para o quintal e encontrei Evan e Nicolas com a maior cara de sono enquanto as meninas se concentravam nas lições de Satico, primo de Oshio. Ri com aquilo. Esperei a aula acabar e fui falar com eles. Alex parecia mais revigorada.
— Oi, casais lindos!
Falei sorrindo e saltando.
— Casais o caramba! Estamos parecendo dois zumbis aqui!
Exclamou Nicolas. Eu mostrei a língua para ele e o ignorei depois.
— Que vontade de comer canjica.
Comentou Alex. Nicolas logo ficou sério e correu para dentro de casa.
— O que houve com ele?
Perguntei estranhando.
— Só vendo para crê.
Alex sorriu e me puxou para dentro da mansão, mais precisamente, na cozinha. Encontrei Nick pedindo ajuda para umas brasileiras que estavam lá para fazer canjica. Ele pegava a panela, leite e leite condensado no maior desespero. Comecei a rir.
— Quer ajuda?
Perguntei enquanto enxugava as lágrimas.
— Se for para zombar de mim, não, obrigado.
— Nicolas Sarkozy agradecendo por ajuda?! Quem é você?
Debochei, mas ele me ignorou e começou a fazer canjica. Infelizmente ele descobriu que, para fazer canjica preciso mais do que apenas vontade. Demora horas. Nicolas ficou triste e pediu desculpa para Alex que só sorria com o jeito meigo dele. O jeito que não era dele.
No fim das contas, ele fez panqueca doce e várias pessoas ajudaram. Comemos todos, até Charlie estava lá conosco por livre e espontânea pressão vinda de mim. Comemos na sala de estar enquanto discutíamos o que assistir e em que língua, no final assistimos filme de comédia em inglês, mas muitos foram para o lado de fora conversar e outros queriam ficar nos quarto, mas prometeram arrumar depois. Após limpar a bagunça na cozinha e na sala de estar, todos foram para seus quartos descansarem ou fizeram rodinhas no quintal enquanto conversavam e cantavam. Nossos dias eram assim, em união e paz. Eles se passavam muito rápidos, mas não havia limites para nossos dias de descanso das perseguições e segredos.
Peguei um pouco de massa na geladeira que sobrou e fiz algumas panquecas para Dany e Thomas com caramelo em cima. Era a minha vez de cuidar dele. Após fazer e colocar várias coisas doces ao lado, coloquei em um plástico e levei ao celeiro. Desci as escadas escondidas e encontrei Dany lendo.
Era pouca coisa para se fazer lá, mas ele insiste que não se importa com a tranquilidade do lugar. Dany já tinha construído um pequeno cantinho para ele com mesa, prateleira para seus livros, cama e um mini armário para as poucas roupas.
— Boa noite.
— Boa noite.
— Como ele está?
— Muito quieto para o meu gosto!
Estranhei.
— Trouxe panquecas doces.
Dany suspirou e forçou um sorriso e logo se surpreendeu ao ver várias panquecas. Ele pegou uma, mordeu e logo fechou os olhos e suspirou.
— Faz anos que não como algo com esse sabor.
Ri com aquilo.
— Que drama, Dany! Se quiser algo, é só pedir!
Ele assentiu enquanto comia. Olhou para o relógio e se assustou.
— Estou ficando atrasado.
Ele se levantou e percebi que ele estava bem vestido. Com uma camisa azul clara, calça jeans e sapato preto.
— Onde você vai?
Ele se sentiu sem graça.
— Encontrar alguém.
— UM ENCONTRO?!
— Shii!
Tapei minha boca e abafe minhas risadas.
— Quem é a sortuda?
— O nome dela é Kristen. Ela veio da África do Sul.
— Uau! Um dia quero conhecer ela, viu!
Ele sorriu.
— Pode deixar. Vou indo, tudo bem?
— Vai logo!
— Se precisar de alguma coisa ou de ajuda, já sabe!
Dany mostrou o pequeno chaveiro de uma bola prata. Ganhamos ela na terceira semana quando Amélia soube de Thomas. Ela disse que, se alguém precisasse de ajuda, era só apertar no meio uma vez que o outro vibra. Se apertasse duas, o outro brilhava também. Ganhamos três, uma para mim de coração, uma para Dany que é uma bola e outra para Charlie que era uma estrela.
— Sim senhor!
Coloquei a mão na cabeça imitando um soldado. Dany sorriu e saiu me deixando sozinha no silêncio cortante.
Suspirei e me aproximei da jaula, abri e entrei com as panquecas, fechando a porta atrás de mim. Olhei para um pequeno canto e percebi que havia alguém encolhido lá. Era ele. Suspirei e sentei no chão cruzando minhas pernas, em um canto da pequena prisão.
— Thomas?
Ouvi barulho de corrente. Acho que eu o acordei. Arrastei a pequena bandeja de plástico para longe de mim, mostrando para ele o que era.
— Pode sair, o Dany não está mais aqui. E também, trouxe panquecas.
Sorri. Ele logo apareceu das sombras e mostrou seu semblante sombrio. Thomas emagreceu muito nesses dois meses, seus cabelos perderam o brilho e seus olhos estão com profundas olheiras. Aquilo me atingia sempre que eu o via.
"O que fizeram com você?!"
Thomas se aproximou e sentiu o cheiro das panquecas que ainda estavam um pouco quentes. Ele se mexeu e as correntes foras juntas. Se aproximou de mim e eu toquei em seu rosto pálido, ele fechou os olhos e suspirou.
— Está seguro.
Falei e tirei as correntes de sua perna. Thomas estava com algumas roupas de moletom que Amélia trouxe. Ele ainda me olha com desconfiança. Mas percebi que não me ataca quando estamos sozinhos.
— Thomas, você consegue falar agora?
Todas vez eu pergunto e ele sempre me olha sem entender. Parecia uma criança que era muda. Virei meu rosto para o outro lado e tentei prender as lágrimas que tanto queriam sair. Respirei fundo novamente e voltei a olhar para ele, mas me assustei pois ele estava bem perto a ponto de me dar um pequeno susto e eu ir para trás e quase cair. Sorte a minha que eu me apoiei na grade, mas fui tão rápido que bati a cabeça. E um flash de memória apareceu de Thomas pequeno correndo atrás de mim.
"- Vem, Tommy! "
Me encolhi um pouco e esfreguei o local atingido. As lágrimas aproveitaram a oportunidade e saíram de uma vez com os soluços. Fechei os olhos por causa da vergonha. De que? Eu não sei! Apenas não queria demonstrar fraqueza na frente dele. Mas logo senti uma mão quente tocar em minha bochecha e limpar meu rosto. Levantei o rosto e encontrei Thomas me encarando como se isso fosse algo novo para ele. Peguei em sua mão e fechei os olhos sem se importar mais com as teimosas lágrimas.
— Fale comigo, por favor.
Ele se aproximou mais ficando centímetro de mim, até sentir sua respiração.
— Tom.. my.
Ele se assustou e logo voltou ao canto escuro com as panquecas.
" Porque eu falei aquilo?"
Os soluços ainda não pararam. Tapei minha boca e tentei me concentrar em parar de chorar. Limpei meu rosto e fiquei ali mais um pouco. Eu estava com apenas um short e uma blusa fina de manga curta. Eu tinha me esquecido que aqui em baixo era frio. Encolhi minhas pernas até meu peito e fechei os olhos que estavam pesados.
" Minnie! "
Ouvi uma criança me chamando.
— Vem, Tommy!
Gritei espontaneamente.
— Minnie, já disse para não correr muito. É perigoso!
Eu estava correndo em um gramado grande. Nossas mães estavam sentadas em um pano conversando e rindo. Eu e Thomas estávamos correndo e brincando. Parecia um piquenique num belo dia de sol. Eu corria mais longe querendo descobrir novos lugares até me afastar muito e escorregar em um pequeno buraco que havia ali.
— Minnie? Minnie! Alice, me responda!
Ouvi meu amigo me chamar com preocupação na voz.
— Tommy! Me ajuda!
— Espere aí, vou chamar a mamãe.
— Não! Não me deixe! — Não ouvi mais nada e aquilo me deixou com mais medo. — Tommy, não me deixe!
Falei entre lágrimas.
Os soluços me acordaram e, em vez de ficar calma, eu chorava mais e comecei a tremer.
Não sabia se era de frio ou o medo de ter perdido meu amigo totalmente. Me levantei rapidamente, mas não foi uma boa ideia. Minhas pernas estavam formigando e haviam ficado muito tempo encolhidas e estavam sem forças. Assim, eu quase cai, se não fosse por Thomas, que me segurou com uma mão e com a outra se pendurava em uma barra da parte de cima da jaula. Ele ainda tinha forças. Meus soluços não paravam. Meu amigo só me olhava sem nenhuma expressão, aquilo estava me incomodando então tentei ficar de pé e me afastar dele mas quando fui andar, minhas pernas falharam novamente.
— Droga!
Falei quando Thomas me segurou novamente. Me afastei de novo e me apoiei na parede indo para a saída, mas ele segurou meu pulso. Olhei para ele sem entender e ele negou com a cabeça como se estivesse pedindo para eu ficar. Suspirei e, com muito esforço, sentei na cama quente de Thomas. Ele ficou sentado no chão na minha frente me encarando. Suspirei, fechei os olhos e passei a mão na cabeça, que ainda doía. Aquilo me deixou cansada e perdi um pouco do equilíbrio indo para frente. Thomas me segurou pelos ombros e me conduziu a deitar. Abri um pouco os olhos que já estavam pesados e encontro seu olhar preocupado. Deitei e peguei em sua mão.
— Não me deixe, por favor.
Ele sorriu de um jeito meigo. Minha mente já estavam doida de sono e com isso eu acho que tive uma pequena ilusão de Thomas me falando com sua voz grossa.
— Nunca, Minnie.
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