Fix Me

52 Há um tempo atrás


P. O. V Thomas

Eu não sabia o que dizer, apenas estava feliz. Desde pequeno eu só amava uma pessoa, minha mãe. E achava que seria assim para o resto da vida até ela morrer, que seria quando eu tirasse minha vida. Sim, eu pensei em me matar no futuro. Mesmo sendo pequeno, já sabia de muito por ser da máfia, e isso me traumatizou. Fiquei com medo de todos me traírem algum dia, medo de sofrer. Então me fechei, apenas uma mulher conseguia me acalmar quando eu estava quase explodindo de ansiedade e medo. Eu era jovem e meu pai não se importou com isso quando me contou sobre nossa família. Infelizmente minha mãe não conseguiu segurar o velho que estava ansioso em me passar seu poder, tanto na máfia quanto da empresa de advocacia que criou.

Após encontrar Alice sorrindo para mim, sabia que minha vida poderia ter algum sentido a mais do que apenas matar. Eu tinha apenas seis anos quando fugi de casa e me escondi dentro de um pequeno túnel feito para crianças em uma praça. Eu chorava pois havia matado pela primeira vez. Meu pai me fez matar um homem que havia o traído. Eu estava com as mãos sujas de sangue e, mesmo eu esfregando-as, não saia. As lágrimas já não eram de meu controle e os soluços também.

— Porque está chorando?

Ouvi uma voz fina vindo de uma das entradas. Olhei para o lado e vi uma boneca de vestido rosa florido e um pano na mão. Ela se aproximou e eu me afastei.

— Sai daqui!

Gritei, ela se assustou mas não saiu. Apenas continuou a me olhar até dar mais alguns passos e se ajoelhar ao meu lado.

— Você se machucou?

Neguei com a cabeça e as lágrimas continuaram.

— Tá tudo bem. Vem. Vamos lavar a mão.

Ela me puxou pela manga que uma vez já foi clara, mas agora estava vermelha. Ela me puxou para um canto do parque vazio onde havia um banheiro. Entramos e percebi que não tinha ninguém lá.

— Senta aí! E não saia.

Ela me empurrou para um vaso sanitário, apontou o dedo para mim com a cara séria e foi para a pia que era na minha frente. Nas pontas dos pés, ela abriu a torneira e molhou seu pano, vindo até mim e limpando meu rosto e depois minhas mãos.

— Plonto.

Falou contente com seu trabalho.

Encarei minhas mãos e percebi que estavam melhores. Mas os soluços ainda continuavam e a imagem do homem morto ainda aparecia na minha cabeça.

— Ei, não chola. Você é um menino muito bonito. E a mamãe disse que pessoas bonitas não podem chola porque vai ficar feio.

Ela fez carente de assustada como se aquilo fosse realmente sério e eu ri.

— Viu. Você fica mais bonitinho sorrindo.

Falou sorrindo.

— O-obrigado.

Falei entre soluços. Ela sorriu mais ainda.

— Você fala!

Fez cara de surpresa e ri mais ainda.

Assenti e olhei para baixo.

— Tá meior, menino?

— Eu fiz uma coisa ruim.

Falei voltando a chorar, mas ela levantou meu rosto com suas pequenas mãos.

— Se você fez, tem que arrumar e você parece ser uma pessoa boa, então pode ter seu final feliz no futuro.

— Final feliz?

— Sim. Que nem as princesas e os príncipes dos livros que a mamãe lê para mim. Se você quiser, eu te ajudo a achar o seu.

— O... o meu final feliz?

Perguntei com um pingo de esperança.

Ela assentiu sorrindo.

— Alice!

Ouvi uma mulher gritar do lado de fora.

— É a mamãe. Acho que ela sentiu minha falta. Vem, vou pedir para ela dividir meu late com você. Porque tudo fica meió com late!

Ela falou levantando os braços e pulando.

— Vamos.

Me puxou mas sabia que não podia aparecer deste jeito para um adulto. Eles iriam desconfiar.

— Você se chama Alice?

— Sim, que nem a menina que foi ao país das malavilas. — Ri com seu jeito fofo de falar. — Vamos menino. .. ah, qual seu nome?

— Thomas.

— Tom...my?

Sorri.

— Pode ser.

— Vamos, Tommy. Mamãe vai ficar tiste se eu não voltar.

— Alice, não posso ir.

— Porque? Eu quero mostrar para a mamãe meu novo amigo!

— A... migo?

Fiquei surpreso e ela sorriu.

— Sim... Você é meu amigo... Não é?

— Eu... nunca tive um ...amigo.

— Nossa! — falou surpresa. — então eu sou a plimeila?

Apontou para si. Eu assenti com vergonha e então ela começou a pular e a festejar.

— Eu sou a plimeila! Eu sou a plimeila!

Ri e isso fez com que meus olhos ardessem e as últimas lágrimas caíssem.

— Tommy, não chola. Eu semple vou ser sua amiga! De colação! — Falou apontando para o peito. — agola vamos comer late!

Ela me puxou mas eu parei em seguida.

— Alice. Eu preciso te contar um segredo antes.

Seus olhos brilharam.

— Qual? Prometo não contar para ninguém!

— Promete?

— Prometo!

Esticou o dedinho e eu cruzei finalizando o pacto.

— Eu sou um fantasma e sua mãe não pode me ver. Senão ela se assusta.

Ela abriu a boca surpresa e depois ficou triste.

— Mas e agora? Eu sei que fantasmas não comem. Com quem vou dividi meu late?

— Pode guardar para mim? Assim que eu achar meu corpo eu volto para comer chocolate com você.

— Promete?!

— Prometo.

Ela sorriu, me beijou na bochecha e saiu correndo e deixando seu pano meio sujo para trás. Naquele dia em diante sabia que precisava ser forte, para proteger minha mãe e no futuro encontrar aquela pequena boneca e proteger sua inocência deste mundo.

Voltei para casa e é lógico que meu pai me puniu pela minha "atitude infantil", mas eu percebi que aquilo não me assustava mais. Eu não podia me assustar mais, tinha que ser mais forte. Então comecei a treinar e a estudar muito para me tornar melhor que ele.

O tempo foi se passando e eu ainda não havia encontrado Alice novamente. Não sabia quem era ela ou de que família pertencia até que um dia eu sai com minha mãe para conhecer uma amiga dela. O nome dela era Mary Anne Wayne, esposa do maior inimigo de meu pai. Minha mãe explicou que elas eram amigas desde pequenas e sempre se encontravam em segredo durante suas viagens para relaxar um pouco desta vida tensa e perigosa. Fomos para uma lanchonete no meio da estrada do leste da cidade. Entramos e minha mãe logo seguiu para o fundo do lugar, onde havia mesas de madeira perto das janelas de vidro grande onde mostrava a beleza do lugar em um nascer do sol. Eu ainda estava parado na entrada decorando cada canto, cada saída, mania que meu pai me fez aprender. Quando finalmente iria andar, alguém se esbarra em mim e caímos.

— Ei.

Gritei bravo até que abri os olhos e encontrei uma menina animada, vermelha, suada e sorridente.

— Tommy!

— Alice?

Falei surpreso. Ela estava do mesmo jeito que a alguns meses atrás, porém com o cabelo bagunçado e vestido azul claro. Ela se levantou e pulou para meu pescoço. No momento eu travei sem saber como reagir, depois relaxei e retribui o Abraço.

— Veio comer late comigo?

Ri, ela não esqueceu.

— Não sabia que estava aqui. Eu estou com minha mãe, ela está sentada lá no fundo.

— Que legal! A minha mamãe também. Vem!

Ela levantou e me puxou com ela para o fundo onde minha mãe conversava com uma senhora mais jovem que ela de cabelos loiros e pele branca. Ela era linda, e sorridente.

— Thomas, esta é Mary Anne, minha amiga de infância. Anne, este é Thomas, meu filho.

Ela esticou a mão e eu apertei como um homem.

— Muito prazer, Thomas. Sua mãe fala muito de você.

— Prazer.

Falei curto e sem graça, até Alice aparecer atrás de mim.

— Mamãe, você consegue ver ele?

— Mamãe?!

Mary Anne era mãe de Alice, lógico! As duas senhoras riram.

— Parece que já se conhecem.

Minha mãe disse.

— Claro, Alice. Porque eu não o veria?

Ela olhou para mim e sorriu.

— Nada. Segredo.

Falou e tapou a boca rindo. Não resisti e ri também. Olhei para minha mãe que ficou surpresa, já que é difícil eu agir assim na frente dos outros.

— Vocês querem o que?

— Late!

Alice falou levantando as mãos e pulando.

— É chocolate, Alice! Princesa não falam errado, lembra?

— Cho. ..Co. ..late?

— Isso.

Falou sorrindo. Alice começou a falar chocolate toda hora até sua mãe chamar a garçonete e ela trazer com pressa o chocolate quente da menina.

— E você, Thomas. O que vai querer?

— Não estou com fome. Falei sentando ao lado de minha mãe.

— Mamãe disse que os bolinhos daqui são uma delícia.

Falou Alice com a esperança de eu pedir um. Suspirei.

— Então vou experimentar um.

Respondeu minha mãe pedindo quatro bolinhos com sabores diferentes. Ela deu uma mordida em um e ficou surpresa.

— Impressionante! Thomas, experimente.

Neguei com a cabeça. Não como muito doce.

— Tommy, só uma modidinha.

Falou Alice esticando um bolinho para mim. Respirei fundo e mordi sentindo o recheio de baunilha morna derreter em minha boca com a massa fofinha do bolinho. Eu amei.

— uau.

Falei e pedi para minha mãe pegar mais para mim. Experimentei muitos, mas nenhum me agradou como a de baunilha. Comi vários naquele dia e depois fui conhecer o lugar com Alice. Andamos em todo canto, até na cozinha onde conheci um cozinheiro jovem, porém enorme e forte chamado Daniel. Fomos para o fundo, onde havia uma varanda na ponta do penhasco. Se olhássemos para baixo, dava para ver o mar.

— Que lindo!

Falou olhando para o sol.

— Verdade.

— Tommy, seus olhos são que nem o céu agora.

Falou apontando para cima.

— Como?

— São azuis e calmos como de manhã. Eu gosto deles.

Falou sorrindo. Senti minha bochecha queimar um pouco. Era a primeira vez que alguém, que não fosse minha mãe, me elogiava.

— E você parece uma boneca.

Falei sorrindo. Ela sorriu e esticou os braços imitando uma boneca.

— Assim?

Ri e ficamos brincando e conversando a manhã toda. Quando voltamos para a mesa com nossas mães, percebi que elas estavam sérias até Alice chegar gritando.

— Mamãe! Tô com sono.

Ambas logo disfarçaram com sorrisos.

— Vamos, então?

— Posso ir com o Tommy? Não quero voltar agora para casa.

Falou triste e quase chorona. As duas riram e se entre olharam.

— Tudo bem para você, Anne?

Mamãe perguntou e a Senhora pensou e logo assentiu.

— Só um pouquinho.

— Eba!

Falou feliz e me abraçou.

— Vamos Tommy.

Ela me empurrou para fora e as senhoras vieram logo atrás. Alice entrou no meu carro comigo e ficamos conversando sobre desenhos e histórias de aventura enquanto minha mãe nos olhava pelo retrovisor as vezes e sorria.

Chegamos na minha casa e a mãe de Alice logo atrás em seu carro. Entramos e fomos para meu quarto brincar até dar a hora do almoço. Acho que nunca brinquei tanto em toda minha vida. Após o almoço conversamos um pouco e dormimos numa cabana que fizemos com cobertores e cadeiras no meu quarto. Abri um pouco os olhos e encontrei Alice dormindo como um anjo então eu a abracei com a intenção de protegê-la.

Vivemos assim, se encontrando nas viagens de nossas mães por três anos, mas isso mudou quando soube que ela havia desaparecido. Preocupado, mandei todos os soldados confiáveis em sua procura até encontrar o esconderijo de Dragon, um mafioso novo e misterioso que ninguém sabia o verdadeiro nome. Eu já havia lido sobre ele antes e seus atos de raptar e matar filhos de mafiosos. Aquilo me preocupou e fiquei dias acordado procurando por ela. Tanto que fiz mais amizade com Daniel, o cozinheiro da lanchonete da estrada e soube que ele era um antigo soldado. Ele me ajudou e encontramos Alice, porém, era tarde. Ela já havia sido infectada pelo líquido estranho e teve uma amnésia traumática. Percebi que ela viveria em perigo sempre então decidi afastá-la aos poucos, e se a amnésia for verdade, poderá ajudar com nossa separação, mesmo que isso doesse muito para mim. Quando ela acordou e perguntou quem eu era, senti meu coração machucado, mas eu não desistiria dela, e criei uma imagem madura e fingir não conhecê-la.

Esfreguei o rosto e encarei sua beleza.

— Você está bem? — Olhei para o relógio de pulso que minha mãe me deu. Era tarde. — Em breve você volta para casa.

— Quem é você?

Sua voz falhou. Sorri enquanto arrumava o cabelo

— Sou Thomas Cameron, futuro Fenrir.

— Fenrir? O que é isso?

"Ela esqueceu mesmo?! Impossível!"

— Você, sendo de uma família tão conhecida, não sabe?! — solto uma pequena risada. — Isso é piada?

Percebi que não era brincadeira, voltei a ficar sério. Isso será difícil.

— Fenrir, antigamente era conhecido com um lobo que trazia discórdia e má sorte. Mas nós o vemos de outro jeito. O vemos como um lobo alfa que pode guiar o mundo para um caminho melhor. Por isso somos a Black Fenrir. Para apagar a escuridão desse mundo, do nosso jeito.

— Que legal!

Falou com aquele sorriso alegre que esquenta meu coração, não consegui de encarar aquele rosto de boneca. Desconfortada, levantou e saiu da cama, mas seu corpo estava muito pesado e, se não fosse meus rápidos reflexos, ela cairia no chão.

— Ei, sua apressada. Você ainda não se recuperou totalmente.

— Eu quero ir para casa.

— Calma, em breve seu pai chega.

Ela se levantou com muito esforço e tentou andar, cambaleando. Tentei impedir mas ela me empurrou.

— Para! Eu quero ir agora!

— Você é muito teimosa, sabia?

— E quem você pensa que é para manda em mim?

Ela nunca havia falado assim comigo. Com certeza eu não a conhecia brava, mesmo. Pode ser piada, mas achei aquilo fofo.

— Sou mais velho que você, então você deveria me obedecer!

Ela virou para me encarar e olhou para cima por causa da nossa diferença de altura. Aquilo era muito fofo.

"FOCO!"

— Você é velho, mas não é meu pai!

Ela tentou me bater mas me defendi e ela perdeu o equilíbrio caindo.

— Você é corajosa, mas ainda é baixinha!

Ri.

— Não sou baixinha! .... Apenas pequena.

Balbuciou. Ao ouvir isso e ver o bico dela ri mais ainda enquanto a pegava no colo e a colocava na cama novamente.

— Já sei como vou te chamar.

Durante muito tempo eu procurava um apelido para Alice, assim como ela achou para mim.

— Nem pense nisso!

Falou com raiva e preocupação.

— Pequena!

Ri enquanto ela me atacava os travesseiros que tinha por perto.

— Somente uma pessoa pode me chamar assim, e não é você!

— Bom, se esse apelido está já em uso. .. posso criar outro. — Pensei novamente — Que tal... princesa?

— Eu não sou da realeza!

— Anjo?

— Não sou santa!

— Já deu para perceber! — Falei rindo de sua cara brava. Sério, somente minha mãe e ela consegue me fazer sorrir e rir tanto. Elas são preciosas para mim. Mais do que qualquer um. Queria elas somente para mim. — Já sei!

Falei levantando.

— Credo! Não me assuste desse jeito! Fala logo!

— Vou te chamar de Minnie.

— Minnie?

— Sim!

— Vai me dar o nome de uma rata?!

— Não é só isso. — Inclinei me apoiando na cama chegando perto dela. — Minnie tem as mesmas letras que mine.

E você, um dia será minha.

Sorri vitorioso.

— Nem morta!

— Ainda somos muito jovens, e nossos pais se odeiam. Mas pense bem, se nos juntarmos, podemos acabar com esse conflito e com vários no futuros por ser o grupo mais perigoso da Europa. Podemos ser os mais poderosos do mundo!

— Você está me assustando.

Falou sério enquanto se encolhia um pouco.

— Isso é porque você é muito nova ainda. Um dia você irá me entender. Até lá, estarei apenas te observando e se precisar de mim, eu estarei lá para te salvar.

— Porque está dizendo isso?

— Porque você me conquistou por sua inocência. — " Há muito tempo atrás."— E eu senti que preciso proteger essa inocência desse mundo traiçoeiro.

A abracei forte como se fosse um adeus.

— Mas eu nem te conheço.

Ri de novo sem graça.

— Não, mas irá conhecer. — "Quando o mundo melhorar"— Agora descanse.

Me afastei e a ajudou a deitar. Quando pretendia ir embora, senti ela segurar meu pulso.

— Fica aqui. Por favor? Não gosto de ficar sozinha.

"Como pude esquecer?!"

— Tudo bem. Sempre estarei perto.

Ela fechou os olhos que já estavam bem pesados e adormeceu com sua mão esquentando a minha.