Fita de Seda
52 Capítulo 52 - Cooperação
Notas iniciais
*Zero*
Por mais patética que tal afirmação pudesse soar, dava-me certa calmaria contemplar o céu estrelado daquela madrugada fria — e com a aproximação do natal não faltaria muito para nevar.
Com todos os problemas que me sobrecarregavam — meus dias de sanidade diminuindo a cada segundo, a desastrosa reunião com os alunos da Day Class, estes que nos acusaram de tantas atrocidades que me vi perdendo a paciência que já não tinha e berrando para que calassem as malditas bocas e deixassem Kaien falar; fitar aqueles pontos brilhantes a tantos anos-luz traziam uma estranha tranquilidade.
Ali, sentado no terraço do Dormitório do Sol e com os pés pendendo sobre os quatro andares de altura ao que assistia aqueles representantes tão modestos de sóis que poderiam ser até mesmo maiores do que o de nosso sistema solar, tinha a consciência do quão pequenos eram meus problemas e o caos que se instalava no mundo que me cercava perante a vastidão do universo. E senti certo alívio com isso, ainda que falso e breve.
Quando o diretor finalmente findou suas explicações, os alunos não pareceram inteiramente convencidos, mas não havia mais o que fazer para reparar a situação. Da última vez que o segredo dos vampiros fora revelado, houvera uma “queima de arquivo em massa” por ordem do próprio Conselho e da Associação, todos os vampiros da Night Class se dedicando a apagar as memórias dos alunos e dos poucos familiares que perderam seus entes queridos para os Nível-E que o antigo presidente da Associação em conchavo com Rido Kuran — que estava sob a proteção do Conselho dos Anciãos — enviaram; mas esse incidente nem se comparava aos atuais estragos deixados e o número de corpos se decompondo nos terrenos da Academia Cross; alunos inocentes que foram mortos por Leigh em uma luta que não lhes dizia respeito.
Tinha consciência das consequências de quando a merda acertasse o ventilador e a notícia da existência dos predadores dos humanos finalmente se espalhassem, mas não podia me importar menos com o que poderia acontecer aos sanguessugas caso descobrissem e decidissem exterminá-los — na verdade, seria até mesmo um favor se questionassem a decisão da Associação de manter o tratado e poupar aquela raça que tinha uma existência tão pouco benéfica.
Tem certeza que estaria tão satisfeito?, retrucou uma parte da minha mente ao mesmo tempo que me lembrava de Yuuki e Hime.
Hime… A última parecia estar sempre à espreita, pronta para saltar de volta para os meus pensamentos quando eu baixasse a guarda ou desse a deixa. Não queria pensar nela e muito menos no que era, nem mesmo onde estava ou o que planejava ao deixar a Academia Cross ao lado de Kira, deixando-nos a mercê dos monstros que a perseguiam; nem tinha pretensão de me irritar com o quão idiota aquela garota era por possivelmente ter se deixado levar por mais um discurso tolamente preocupado do Sangue-Puro, que certamente devia ter dissertado sobre como era perigosa a permanência daquela desmiolada no colégio e como seria melhor para todos se ela partisse.
Obviamente uma meia dúzia de histórias baratas que distorciam a verdade para manipular Hime a fazer o que ele queria, afinal ela sempre foi estupidamente empática. Ou ao menos a Hime que conheci sempre o fora, afinal eu já não sabia o quão próxima estava de se tornar uma vampira e o quanto isso poderia ter alterado seu caráter.
Entretanto, ainda que eu planejasse não me irritar ou pensar em qualquer coisa que a envolvesse, minha mente por vezes se rebelava e apresentava-me todos os tópicos que eu queria evitar; envolvia-me em uma série de teorias sobre o que ela poderia ter ido fazer e o que ela planejava fazer quanto ao Leigh. Se ela ao menos se importava que os monstros que a perseguiam iriam aniquilar a todos do colégio que lhe abrigou.
— Até quando vai ficar assim, Zero? — perguntou uma voz masculina as minhas costas que eu conhecia bem. — Está sendo tão patético que quase é digno de pena.
Suspirei com a frustração, meu plano de ficar sozinho e pensar falhando miseravelmente com a aparição do possível mensageiro de tudo aquilo que eu estava tentando fugir por pelo menos algumas horas.
— O que você quer, Aidou? — indaguei com mais rispidez do que planejava e não me dignando a olhá-lo, afinal só sua voz já era mais do que eu podia suportar aquela noite.
— Você deve estar mesmo mal, já que não me ouviu chegando ou me apontou aquela sua arma da forma tão calorosa que gosta de cumprimentar os vampiros — Aidou falava com diversão e eu lancei-lhe um olhar ferino por sobre os ombros que não pareceu abalá-lo. — Mas não foi para apreciar o seu sofrimento que eu vim, sua presença está sendo solicitada na sala do diretor.
Bufei, tornando a olhar o ambiente desolado a frente.
— Se você está aqui servindo de mensageiro, então significa que Kaname também deve estar nesta reunião e eu não estou com cabeça para olhar sua cara desprezível sem ceder ao meu desejo de meter uma bala em sua cabeça. Agora vá antes que eu atire em você — ameacei.
Ouvi Aidou suspirar com impaciência.
— Vamos deixar uma coisa bem clara, Nível-E — Aidou pronunciou cada palavra de forma vagarosa e incisiva, preenchendo a última palavra com asco e fazendo a expressão irritada em meu rosto piorar, logo me vendo ficar de pé e me colocando frente ao loiro com um olhar que deixava claro que ele deveria escolher bem suas próximas palavras. — O pequeno conflito chegou aos ouvidos da Associação de Caçadores e do Conselho, eles não estão nada felizes com o tipo de batalha que vem acontecendo em silêncio bem debaixo de seus narizes ou o tipo de resultado que pode vir dela. Toga Yagari está no escritório de Kaien nesse instante.
A citação ao nome de Touga Yagari foi o suficiente para que toda a ira homicida que eu sentia se tornasse vapor e o pesar começasse a se fazer presente em meu peito, que nada tinha a ver com o homem ser o responsável por matar a mim quando minha consciência finalmente se definhasse e sim porque o homem certamente estava ali para tratar de assuntos referentes à Hime. Ele nunca era mensageiro de boas notícias ou fazia o tipo compreensivo quando se tratava de coisas como Hime era, mas sabia que poderia estar me antecipando demais e sendo o pessimista que sempre fui. Não que o mundo houvesse me dado motivos o bastante para ver algo positivo na visita do homem, mas talvez o Conselho dos Anciãos pudessem querer que Hime vivesse. Ela era uma deles, afinal.
Oras, o que eu estava pensando? Do que me importava se Hime viveria ou não? Se a descoberta do que ela era poderia trazer consequências? Ela era uma vampira, afinal, se a tivessem como inimigo comum isso deveria representar algum avanço na política atual, não? Talvez o golpe que ambas as organizações precisassem para rever a estúpida decisão do tratado entre lobo e cordeiro.
Não me importei em dizer qualquer coisa para Aidou, apenas ignorei sua existência como deveria e saltei do terraço, deixando-o para trás e decidindo encarar de uma vez as obrigações que por um momento de egoísmo e autopreservação deixei para trás. Teria que lidar com elas uma hora ou outra e eu não tinha tanto tempo de vida para me dar ao luxo de procrastinar, sendo assim era melhor que fosse logo.
Atravessei o terreno escolar em direção ao que Kaien tentara fazer de meu lar, ignorando a atmosfera sombria e quase sobrenatural que parecia ter tomado a instituição desde o ataque de Leigh, aquele peso gélido do terror que os humanos passaram pairando pelo lugar como uma maldição dos inocentes que foram mortos ali. Mesmo que a maioria dos corpos houvessem sido retirados do caminho, tendo como exceção os que ficaram perdidos na floresta, ainda haviam vestígios do massacre de Leigh pelos tijolos de pedra que faziam trilha no terreno escola, fosse como um rastro de sangue ou um pertence pessoal que permanecia jogado como um lembrete das inúmeras perdas — e eu não pude deixar de me perguntar o que Hime poderia ter sentido ao ver seus colegas de turma e alunos com quem topava nos corredores todos os dias sendo mortos por causa dela. Monstros como o que Hime estava destinada a se tornar não tinham capacidade de sentir remorso, vidas humanas possivelmente lhe pareceriam baratas em comparação a sua própria; por isso não pude deixar de me perguntar se ao menos sentira alguma coisa por tanto sangue derramado pela vida dela.
Não demorei a adentrar o casarão, subindo os lances de escada no mesmo andar rápido e me dirigindo diretamente ao escritório, que antes mesmo de abrir a porta já podia sentir o aroma de três pessoas — uma delas sendo o desprezível do Kaname Kuran.
Adentrei o cômodo a contragosto, caminhando em direção a pequena reunião.
— Vejam se não é meu teimoso aprendiz — a voz grave de Touga Yagari soou pelo ambiente, sério e denotando um toque de escárnio.
Levei meu olhar para a figura séria do caçador parado ao lado da poltrona de Kaien e próximo a janela, sustentando seu olhar incisivo.
— Mestre — embora fosse uma saudação formal, não fiz questão de esconder o quão indesejada sua presença era considerada por mim.
Embora não guardasse qualquer rancor por Touga ter tomado para si a tarefa de acabar comigo quando chegasse a hora ou pelo tiro que ele havia me dado naquela fase tola da minha vida, até porque me matar não havia sido sua intenção, pois do contrário eu já estaria morto; eu não podia deixar de me sentir mais incomodado por sua repentina aparição na Academia Cross depois de alguns anos sem vê-lo.
Yagari não havia mudado quase nada desde última vez que o vira, continuava com o mesmo chapéu de caubói e tapa-olho cobrindo o que eu via como o preço para me salvar durante a infância, um estigma que sempre me lembraria o quanto devia a este homem por tudo que havia me ensinado e por ter me salvado por tantas vezes; mas independente de toda a consideração tola de uma parte persistente e estupidamente empática que permanecia em mim, eu sabia que sua presença nunca trazia boa coisa.
— Vejo que continua firme — comentou em uma voz que não demonstrava muita emoção, seus olhos analisando-me de cima abaixo. — Tem aguentado mais do que qualquer outro ex-humano registrado.
Engoli em seco quando flashes do preço para que eu estivesse ali surgiram em minha mente, lembrando-me que apesar de tudo eu era um covarde que temia sucumbir, apesar de tudo eu era capaz de descer ao mesmo nível daqueles que eu tanto desprezava para permanecer como eu mesmo. Fora preciso um esforço descomunal para controlar minhas feições, mantendo minha expressão impassível, e olhei-o com tédio.
— Acredito que não tenha sido para me verificar que o senhor tenha vindo — cortei o assunto incômodo, pois não queria dar indícios de que a minha consciência não tinha se mantido por tanto tempo sem um derramamento indesejado de sangue. Sangue de Yuuki e Hime. Felizmente Yagari sabia apenas do sangue de Yuuki.
O homem retirou seu chapéu e o deixou sobre a escrivaninha de Kaien, levando seu olhar para além da janela, possivelmente vendo parte da destruição deixada após a batalha.
— Não, realmente não foi — admitiu, escondendo as mãos no bolso. — Creio que não preciso anunciar que estou aqui em missão.
— Certamente não esperamos que o faça — falou Kaname pela primeira vez e eu contive a faísca de raiva que senti instantaneamente por aquele bastardo, afinal o assunto era mais importante do que meu ódio por ele. — Esperamos que vá logo ao assunto.
Touga afastou o olhar da paisagem de desolação e se voltou para as pessoas no escritório, tomando um breve instante para analisar o rosto de cada um breve e friamente. Eu não tinha certeza do que ele pretendia ao fazer tal coisa, já que ele nunca fora do tipo que procrastinaria para contar qualquer notícia da associação, por mais ruim que fosse, então sequer cogitei que pudesse ser hesitação para o que eles poderiam ter decidido. Estaria ele desconfiando de qualquer um de nós? Mas o que teria para desconfiar?
— As notícias do pequeno inferno que aconteceu aqui se espalharam mais rápido do que qualquer um de vocês poderia evitar — começou, a voz impassível. — Uma situação lamentável o que seus alunos tiveram que passar, Kaien Kurosu, uma forma cruel e honesta de tomarem consciência do tipo de criaturas que nos cercam. E estupidamente distante do que você pretendia mostrá-los com seus… vampiros elegantes — as últimas palavras estavam carregadas de um escárnio frio.
— De fato, mas eu não acho que tenha sido por isso que você tenha recebido ordens de vir ao meu colégio, não é mesmo? — devolveu Kaien seriamente e por um instante eu quase fiquei surpreso com aquela postura tão diferente do homem barulhento e irritante a qual eu estava costumado.
Touga riu baixo, sem humor.
— Está certo, os corpos empilhados na sua porta foi a menor das preocupações da Associação de Caçadores. Apesar de lastimável, o presidente sequer se concentrou nesse tópico quando chegou aos seus ouvidos o tipo de monstro que vocês estavam escondendo sob esse teto…
Kaien pareceu perplexo demais para dizer qualquer coisa a Yagari e eu não o julgava por isso, eu mesmo me encontrava estupefato, questionando-me como tal informação chegou à Associação se nenhum de nós havíamos informado o que havia acontecido no colégio.
— O Conselho dos Vampiros e a Associação de Caçadores está preocupada com as consequências que a existência de tal criatura pode causar no equilíbrio estabelecido entre vampiros e seres humanos — continuou, pouco se importando com a reação que sua fala causara, voltando seus olhos afiados para mim, como se visse todas as minhas falhas e soubesse que suas próximas falas teriam um impacto maior em mim — e me deu ordens expressas para caçar e matar Olivia Yagami. Como você foi o que esteve a mais tempo com ela, espero sua cooperação, Zero.
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