Fita de Seda
18 Capítulo 18 - O Convite
Notas iniciais
Não existe nada pior na vida de um adolescente do que as segundas-feiras. Principalmente quando você é uma garota sem memória, com um cabelo que enche de nós muito facilmente e a responsável por cuidar que os humanos fiquem fora do perigoso território dos vampiros, mas para isso você tem que arriscar seu próprio pescoço lá dentro.
Mesmo que eu tivesse tido tempo mais que suficiente para descansar, e que estivera entediada em todos os dias longe de obrigações por atestado, não estivera nem um pouco animada para voltar ao colégio àquela manhã.
Não tivera muita dificuldade com a mudança para o dormitório, embora Kaien tivesse acrescentado mais algumas coisas ao meu estoque, como um secador de cabelos, shampoo, condicionador e outros produtos para cabelo dele que eu utilizava. Havia sido um grande drama, como se eu estivesse mudando para a Inglaterra e não para outro canto do território escolar. Zero nem saiu de seu quarto, uma comprovação de que ele não se importava, e eu não me importava por ele não se importar.
Kaien se mantivera empenhado em me animar, falando sobre todas as coisas legais que tinham no dormitório, como tevê por satélite, armários e geladeiras estocados para o café-da-manhã e lanches da madrugada.
O Dormitório do Sol era tão grande quanto um prédio e não tinha a mesma suntuosidade do Dormitório da Lua. Kaien me explicara que o lado esquerdo era ocupado somente por garotos e o direito ficavam as meninas.
A decoração interna me parecia tão deprimente quanto um dia nublado, as paredes pintadas em tons de cinza e azul.
Entramos em uma sala com várias televisões, onde grupos se sentavam em um dos jogos de sofá azul-escuro e assistiam aos programas. Pouco mais a frente estava à cozinha, com muitas geladeiras e armários, prateleiras com inúmeros micro-ondas; e diversas lavadoras de prato disponíveis – não eram muito comuns no Japão, mas tinha certeza que os adolescentes estavam muito contentes por tê-las.
Tinha uma sala de jogos, com mesas de bilhar, totó e fliperamas; onde alguns jogavam e riam dos erros uns dos outros – até que o dormitório não era deprimente...
Todos cumprimentaram Kaien com respeito enquanto nós passávamos, os casais se afastavam rapidamente, constrangidos, temendo algum castigo.
Subimos para as escadas, entrando no corredor das meninas, que era um espaço bem iluminado, com as paredes tingidas por um rosa claro – Kami-Sama, que clichê...
Minha colega de quarto estava viajando, aproveitando o final-de-semana com a família, o que me deixava com o quarto só pra mim. Era bom, pois me dava à liberdade de explorar e arrumar minhas coisas sem ter que me forçar a conversar quando estava tão pra baixo.
O lugar tinha duas camas de solteiro, dois grandes guarda-roupas de madeira escura e um banheiro.
O colchão não era tão confortável quanto o que deixei na casa de Kaien, as paredes eram tingidas em um tom pêssego, o banheiro não era tão grande e algo em não ter ninguém comigo no dormitório me fazia sentir perigosamente sozinha – ou eu estava me tornando uma grande medrosa muito cricri.
O lado da minha colega era quase um santuário para o universo K-pop; cheio de pôsteres do EXO, Girls Generation, 2ne1 e outros grupos – até a colcha da cama era do Super Junior M.
Uau, ela é fã mesmo...
Tinha um despertador em forma de estrela em cima do criado-mudo, um tapete redondo e felpudo de cor rosa.
Minha primeira noite no dormitório foi de um sono leve e muito inquieto.
Acordei na manhã de segunda com o despertador de estrelinha tocando uma música pop desconhecida, mas que eu desconfiava que fosse um dos grupos masculinos na parede da minha colega.
Sentindo-me um trapo de membros e com os olhos parecendo cheios de areia de tão ressecados, me espreguicei para espantar o sono (pelo menos tentei) e sentei.
Uma garota de cabelos curtos e óculos saiu do banheiro cantarolando muito alegremente a música que tocava – até demais para o meu humor aquela manhã.
Eu a reconheci imediatamente e não fiquei muito feliz... Ela era a garota que liderava as fãs de Kaname Kuran, a mesma que ficara toda curiosa para saber se havia algo entre eu e o Líder do Dormitório no dia que o Cidadão Modelo me levou de volta para as aulas que eu cabulava.
Eu não fazia ideia de qual era o nome dela, mas pelo pingente do cordão conjeturei que começava com S.
Já vi que minha estadia vai ser uma droga...
Não demorou muito para ela notar que eu estava acordada e abriu um sorriso tão enorme que dividiu seu rosto.
Será que dá pra eu simular um desmaio?
– Olá, colega de quarto. – falou a garota animadamente – Bom dia!
Ela não costumava ser muito legal com as pessoas, e ela estava sempre com uma postura tão cheia de si. Não, ela não agia como aquelas patricinhas nojentas dos filmes de colegiais norte-americanos, ninguém na Academia Cross era daquela maneira. Eu só não gostava de gente metida, e isso era tudo.
Era mais porque minha colega era uma mandona, perseguidora e meio fútil. Ela costumava ser legal comigo por eu conhecer Kaname e cuidar do perímetro ao redor do dormitório dos morceguinhos; então desconfiava que ela tivesse esperanças de um dia eu lhe conceder um favor.
– Bom dia – minha voz soou mais um resmungo.
Minha resposta não pareceu desencorajá-la em sua falsa simpatia... Infelizmente.
– Xii, parece que alguém acordou de mau-humor esta manhã. Hoje devia ser um dia para você ficar tão alegre quanto eu! – ela levantou os braços e os sacudiu loucamente.
Encarei-a com meu melhor olhar “What-the-Fuck?” e juro que fiquei muito tentada a pegar Red Promises e cala-la para sempre.
– E o que tem hoje que poderia me deixar alegre? – questionei, me sentindo tão rabugenta quanto Zero.
Não! Zero é rabugento sem motivo, e eu não tenho paciência com ela porque ela vive me perseguindo e me enchendo com questões idiotas sobre Kaname.
Lutei contra as cobertas, que se agarravam as minhas pernas com um pedido silencioso de que eu não fosse embora... E eu estava muito tentada a aceitar.
– Nós não vamos ter aula, – anunciou em júbilo, enquanto eu me dirigia ao meu guarda-roupa para pegar meu uniforme – passaremos o dia no ginásio o decorando para o baile.
Eu parei na metade do movimento de puxar o cabide.
Oh, não... Gemi mentalmente.
– Baile? – inqueri, ainda mais desanimada.
A garota não pareceu notar minha reação, muito ocupada com os próprios sonhos de uma noite de baile perfeita.
Ela saltitou até seu guarda-roupa, que estava tão abarrotado de roupas que até senti vergonha do meu; e pegou o blazer do seu uniforme. Abraçou a peça amorosamente como se fosse um presente de um amante e deu um giro, rindo consigo mesma.
Ela deve ser maluca... Mas pelo menos alguém está satisfeita com esse baile.
– Sim, Hime, – me senti mal por não saber o nome dela quando ela sabia o meu – será o Baile de Inverno. Eles sempre fazem no comecinho da estação, antes da neve cair, o que é excelente. Arruinaria o plano de nós, garotas, irmos poderosas para o baile. Algumas de nós gostam de exibir o vestido o caminho inteiro até o ginásio, e não o esconder por baixo de um casaco. Além do mais, saltos e neve não combinam.
Eu nem prestei atenção no que ela estava dizendo, minha cabeça girava com a ideia de um baile.
Era isso que Kaien estava tratando no escritório aquela tarde...
Para garotas como eu, que nenhum vestido no mundo ficaria legal com o físico de cana-de-açúcar; e arriscar calçar um salto alto significava “Morte Certa”, baile nunca significava boa coisa. Acrescente isso ao fato de que eu era descoordenada, então era fácil concluir que não devia ser uma exímia dançarina. Multiplique com a vergonha por nenhum cara desejar ir para o baile acompanhado com um Avatar (pois eu era alta demais para a maioria dos garotos da Day Class)... Eu tinha bons motivos para não desejar ir ao baile.
Um garoto ir ao baile sozinho era algo passável, mas uma garota era triste.
E eu não tinha vestido de baile... Eu não tinha sequer dinheiro para algo assim!
– As garotas estão ansiosas esperando receber um convite dos garotos da Night Class – continuou, nem um pouco incomodada pelo meu silêncio.
A informação me sobressaltou.
– A Night Class vai participar?
Ela me olhou como se eu fosse uma retardada mental.
– É claro que vai, Hime. É um dos poucos eventos que ambos os turnos participam e juntos. – Ela bateu o dedo indicador no queixo, pensativa – Só não entendo porque o diretor nos separa... É uma ideia tão chata!
Se você soubesse...
– Talvez para não atrapalhar a nossa concentração – forcei uma brincadeira.
Minha colega olhou para mim, atônita, então riu alto. Eu dei um sorriso amarelo, me remexendo desconfortavelmente com a situação, e duvidando que a piada tivesse sido tão engraçada.
Ela deve estar querendo me bajular.
Peguei meu uniforme e fui para o banheiro fazer minha higiene matinal.
Trabalhei duramente no meu cabelo para que ele ficasse apresentável o suficiente, e escondi as olheiras ao redor dos olhos. Notei que minha aparência de zumbi havia diminuído bastante, e com bastante maquiagem parecia quase distante.
O café-da-manhã não foi um momento memorável para mim. Eu só peguei uma tigela com cereais e sentei junto de Naomi para assistir Project Runway, enquanto ela tagarelava sobre seu futuro como uma estilista famosa. Houve alguns pedidos para ir ao baile (não para mim, claro), mas que eu ignorei copiosamente, disposta a ignorar a existência do evento – o que não seria fácil.
Não houve aulas, como a colega de quarto, que Naomi me informara chamar Sakura, me dissera.
Todos os alunos foram requisitados no ginásio para a organização e decoração.
Minha turma estava motivada com o evento do momento. Todos, exceto eu, claro. E provavelmente Zero, que não ficava feliz com nada além da minha dor.
Assim que as palavras “baile” e “decorar” foram ditas, ele suspirou atrás de mim e aproveitou a deixa para desaparecer – e eu duvidava que ele fosse comparecer a festança.
Eu e Naomi estávamos sentadas no chão, pintando uma enorme lua crescente… ou pelo menos eu estava pintando. Ela estava sentada ao meu lado olhando para todo mundo trabalhando, enquanto enrolava e desenrolava o cordãozinho em seu pescoço.
– Eu tenho que comprar o vestido na cidade – contou, parecendo muito apreensiva – E sapatos, é claro. Também vou precisar de acessórios...
– E um acompanhante – lembrei com humor.
Naomi deu de ombros, despreocupada.
– Não estou preocupada com falta de acompanhante. Se ninguém me convidar, eu vou com Mitsuo. Ele nunca convida ninguém mesmo.
“Talvez porque ele esteja esperando Aidou convida-lo...”, pensei com humor.
– Estava pensando em convida-lo – informei.
Ela riu.
– Pode convida-lo, eu sempre consigo acompanhante.
O sinal para o intervalo soou.
Quando chegamos, o refeitório já estava cheio, e todo mundo parecia muito animado àquela tarde – até demais para uma segunda-feira.
Estava seguindo Naomi para pegar uma bandeja quando ouvi alguém gritar meu nome, e o som das conversas foi morrendo lentamente até um silêncio profundo se instalar no refeitório.
Virei-me a tempo de ver Aidou correndo em minha direção e eu senti meu coração parar por meio segundo, meu sorriso se desmanchando. Mordi o lábio e olhei em volta para ter certeza de que não havia qualquer outra garota perto de mim que pudesse se chamar Hime, mas Naomi era a única que estava parada a uns dez passos de mim, olhando para Aidou com certa contemplação.
Soltei um suspiro e voltei minha atenção ao ídolo das garotas da Day Class, que parara a minha frente com um sorriso angelical. Ele estava usando roupas comuns – uma jaqueta jeans por cima de uma camisa azul que realçava seus olhos, e uma calça escura.
Oh, droga, agora vou ganhar o ódio da maior parte das garotas da escola.
– O que você faz aqui? – foi a única frase que consegui formular.
Olhei em volta rapidamente, apreensiva, e confirmei minha suspeita de que todos os olhares estavam direcionados a nós, e alguns deles não eram muito amigáveis.
Ele sorriu para mim de maneira estonteante, um brilho de diversão em seus olhos azuis como uma criança prestes a fazer uma travessura; e eu juro que senti os olhares fulminantes em mim.
– Vim ver minha monitora preferida, ora. Então eu passo aqui, cheio de amores e saudade, e você não diz sequer um “oi, tudo bem?”.
Apertei os olhos, percebendo o que ele estava fazendo e que ele estava se divertindo com isso, independente de eu não estar gostando nem um pouco.
Aidou estava arrumando problemas para mim de propósito. Ele sabia o quanto as fãs dele eram obcecadas, e tê-lo ali, conversando comigo a poucos dias do baile, não era algo bom se eu quisesse sobreviver até o fim da semana.
– Ok... – sussurrei – Oi, Aidou. Agora pode voltar para o seu caixão.
Ele apertou a mão no peito de forma teatral, fazendo um biquinho.
– Oh, não, você está me dispensando? Estou arrasado... Guardei uma mesa para nós e tudo mais.
Oh, meu Deus... Ele não está planejando comer comigo.
– Sabe como é humilhante você se encher de esperanças, – prosseguiu, fingindo não notar meu olhar de cala-a-boca – pensando que sua monitora favorita vai te receber com um sorriso e um abraço carinhoso, e então... Ser recebido de maneira tão indesejada?
Eu vou enfiar uma estaca no peito desse garoto!
Ele estava falando alto o suficiente para que todos ouvissem, como se fossemos uma espécie de atração em um teatro, que ele estava disposto a criar apenas para me deixar desesperada.
Fiz uma expressão carrancuda, para mostrar a ele que não estava gostando daquela falsa bajulação, o que pareceu ter o efeito contrário do que eu pretendia.
– Eu sou a única monitora – respondi secamente.
– Mas se tivesse outras, ainda seria a minha preferida. Não desmereça meu amor.
Aidou brilhava tão intensamente quanto um raio de sol, parecendo muito satisfeito com a atenção que recebia e até mais motivado a me atormentar. Eu poderia dizer que ele parecia um anjinho de pintura renascentista se não estivesse tão fula com ele.
Eu vou morrer...
– Você é louco... – resmunguei, desejando que esse pesadelo terminasse.
Aidou caiu de joelhos, e meu coração foi para a garganta.
Dei um passo para trás, em pânico, tentando pensar em alguma maneira de fazê-lo parar.
– Louco por seu doce, doce amor! – cantarolou tão alto que tinha certeza que não teve ninguém que não ouviu.
Estava com medo de olhar ao redor, mas podia ouvir alguns risinhos e cochichos dos espectadores.
Eu tinha que fazê-lo levantar e parar de falar, e principalmente colocar um mundo de distância entre nós. Eu não queria ser conhecida como a única garota da Day Class que era amiga íntima de Aidou Hanabusa. Além do mais, eu sabia que ele estava brincando sobre estar louco por mim, mas eu podia ser a única...
– Aidou! – falei, aflita – Pelo amor de tudo que você considera mais sagrado, levante.
– Eu a considero sagrada, minha linda princesa... – a voz dele ressoava pelo refeitório – Por quê? Meu amor a envergonha?
– Levante... E pelo amor de Deus, fale mais baixo...
– De jeito nenhum! – gritou dessa vez.
Arregalei os olhos, temendo que ele não fosse parar.
– Por que não?
– Para provar ao mundo que você é minha garota favorita.
Ouvi várias garotas arfarem em uníssono depois que ele proferiu aquelas palavras, e eu sabia que meu destino estava selado; agora teria dois Fã-Clubes atrás de mim.
Por que ninguém atropela esse garoto? Ou atira em mim?
– Pare, por favor... – implorei.
Ele pareceu ainda mais atiçado em sua brincadeira.
Seus braços sacudiam em exagerados gestos tristes e desesperados, a voz mais alta.
– Não posso, Hime! Oh, minha doce Hime.
Fiz uma careta de dissabor.
Eu não podia ficar dando guarita para esse maluco enquanto ele me envergonhava publicamente. Sem dizer mais nada, dei as costas para ele e comecei a me afastar, decidida a não participar dessa brincadeira.
– Hime, volte! – gritou mais alto – Você está partindo meu coração... Não me rejeite! Sou um homem solitário que precisa do seu amor.
Eu notei que todos do refeitório revezavam sua atenção entre ele e eu, alguns entretidos e outros nem tanto...
Eu tenho que fazê-lo parar.
Gemi e dei meia-volta, decidida que se ele não calasse a boca, eu o faria calar.
– Eu não sei o que você está planejando, Aidou Hanabusa, – sussurrei, irritada – mas pare de me envergonhar na frente dessas pessoas, senão vou tirar a minha meia e enfia-la na sua garganta.
Suas feições sardônicas se desmancharam em uma expressão enojada, e depois séria.
– Certo, eu parei.
Soltei um suspiro aliviado.
– Obrigada.
– Eu sei que você quer que nosso amor fique em segredo.
Soltei uma risada aborrecida e o empurrei em direção à saída.
– Vá para o seu dormitório, ok?
Estava me virando para ir me sentar em uma das mesas quando Aidou me segurou pelo cotovelo.
– Espere, não foi para brincar com você que eu vim. – Virei-me para ele – Estou aqui porque Kaname me mandou.
Franzi a testa, confusa, enquanto mais arfadas se faziam ouvir – mas dessa vez eu as ignorei.
– Kaname? Para que?
Aidou soltou meu braço e sorriu de maneira magnífica.
– Ele quer saber se você não gostaria de ir ao baile com ele.
Minha respiração ficou presa na garganta, e acho que entrei em um breve estado de choque.
Lembrei-me do comentário de Zero sobre o livro que eu estava lendo, e meu subconsciente fez uma idiota dancinha da vitória. Eu não liguei, permiti que as esperanças crescessem e se enraizassem em meu coração.
Precisou de um grande esforço para eu não abrir um sorriso enorme.
– Oh... Claro, por mim tudo bem.
Aidou assentiu, parecendo satisfeito.
Ele olhou em volta, avaliando quanta atenção recebíamos e então jogou uma piscadela para alguma pobre coitada.
Ele fez uma reverência antiquada para mim antes de ir embora.
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