Fita de Seda
47 Capítulo 47 - Sacrifícios Sem Fim
Notas iniciais
Aidou foi ainda mais gentil por se oferecer a carregar o corpo de Mitsuo para fora daquela floresta horrenda e deixa-lo no abrigo, afinal ele merecia um enterro digno e que sua família pudesse chorar sua morte.
Eu caminhei mais atrás do loiro, experimentando uma calmaria anestésica anormal, um entorpecimento incomum que talvez indicasse que eu havia entrado em algum estado de choque ou apenas meu corpo estivesse me dando um tempo dessa coisa de sentimentos para me recuperar um pouco, eu não tinha certeza. Era parecido com morte por afogamento, que primeiro você convulsiona como louco enquanto seus pulmões se preenchem de água e depois experimenta uma tranquilidade e leveza que parece se estender infinitamente; ou aquela estranha calmaria que se tem antes que uma enorme tempestade te atinja.
Se não fosse pelo rosto pálido de Mitsuo a minha frente e seu corpo muito evidente nos ombros de Aidou, eu poderia até esquecer tudo que havia acontecido, agora que o sol estava iluminando o dia e tragando parte da aparência assombrosa que a floresta tinha umas horas atrás – mas infelizmente aquela enorme e calorosa estrela que lutava para que seus raios atravessassem a grossa camada de nuvens cor de chumbo no céu não seria o suficiente para espantar as malditas criaturas que Leigh trouxera ou o horror que a noite deixara.
Eu as mataria uma por uma se fosse preciso, mas faria da Academia Cross um lugar seguro outra vez.
Não quis entrar no abrigo enquanto Aidou deixava o corpo de Mitsuo lá dentro, mas de onde estava podia ouvir alguns arfares surpresos de onde estava escondida e então algumas sessões de choro ao descobrirem que ele estava morto – eu não tinha coragem de encarar os alunos que estavam lá dentro, sabendo que eles haviam experimentado aquele horror e dor graças a um maldito psicopata que estava procurando por mim.
Aidou deu algumas instruções aos alunos sobre o que fazerem antes de sair para me encontrar, fechando aquela porta enorme e grossa.
– Tem certeza que não quer ficar lá dentro com o resto? – Perguntou mais uma vez, incerto.
Sacudi a cabeça, negando.
– Ficaria louca com tanta choradeira e tremedeira sabendo que tudo isso é por minha causa.
– Mas não é sua culpa, você sabe.
Eu queria acreditar naquilo, de verdade, mas uma parte de mim ainda se afogava em um grande mar de culpa por tudo que estava acontecendo, sabendo que tudo que Leigh pedia era que eu me entregasse e permitisse que ele me matasse. Minha vida valia mesmo todo aquele horror que ele estava infligindo a todos aqueles inocentes?
Eu tinha que me lembrar de que apenas eu poderia mata-lo de fato, que ele estava poderoso com o sangue que havia bebido daquele homem que vi em minha lembrança e que sabia que era o meu pai.
Mas não apenas isso, eu me sentia responsável pela morte de meu melhor amigo, e não apenas pelos motivos já citados – que aqueles Níveis-E estavam ali porque Leigh os mandara para me fazer pagar – mas também por minha própria fraqueza.
Eu estava ciente dos problemas, que eu havia sido lenta e fraca, e por isso não pudera salvar Mitsuo.
Se houvesse sido Zero indo ao seu resgate no meu lugar, ele com certeza estaria bem; ou até mesmo se eu fosse uma Sangue-Primário teria havido alguma chance de ele estar vivo e bem. E se eu não o alcançasse a tempo como eu fiz? Poderia tê-lo tornado um Sangue-Puro como os antigos da minha categoria fizeram, não é? Não devia ser tão difícil...
Mas pensar no que poderia ter sido não estava me ajudando em nada.
Optei apenas por assentir para a afirmação de Aidou, forçando um sorriso suave nos meus lábios, que saiu patético e totalmente errado.
Nós continuamos nosso caminho em silêncio pela Academia Cross, e cada vez que um Nível-E aparecia em meu caminho aquele torpor que me preenchia era substituído por uma fúria intensa e desmedida – e eu não conseguia mais enxerga-los como uma pessoa que perdeu sua consciência, tudo que eu via era uma criatura maldita mandada por Leigh, e que foi uma dessas que arrasou Lunier e matou o meu amigo.
Talvez eu tenha perdido uma parte da minha empatia...
Eu não era mais tão diferente daquelas coisas, estava com uma sede absurda do sangue daqueles Níveis-E malditos e de seu mestre. Queria acabar com cada um deles.
Não tinha certeza de quanto tempo eu e Aidou trabalhamos juntos aniquilando os desprezíveis subordinados de Leigh e mandando mais alunos que encontrávamos escondidos ou em risco para o abrigo, ou mesmo quantos corpos de humanos nós encontrávamos em nosso caminho; mas desconfiava que já houvesse passado do meio-dia quando aquelas criaturas simplesmente pararam de nos atacar como se ouvissem algum chamado, do qual eu e Aidou não estávamos cientes, e simplesmente recuaram.
Nós nos jogamos em um banco para descansarmos, ou pelo menos para eu, a sedentária da dupla, descansar.
– Será que Kaname e Kira conseguiram expulsar aquele desgraçado? – Inqueri, um pouco sem fôlego.
Aidou deu de ombros.
– Não tenho certeza, espero que sim – falou simplesmente, observando as cinzas dos Níveis-E que abatemos sendo empurradas pela brisa.
– Que tal irmos lá dar uma conferida? – Sugeri, já me pondo de pé.
Aidou me lançou um olhar estranho, como se me constatasse mais anormal do que ele supunha.
– Está doida? Você quer voltar para lá sem saber se Leigh foi embora mesmo? E se esse for o plano dele?
Eu o olhei com ceticismo, tentando imaginar como poderia Leigh pensar num plano desses quando estava lutando com dois vampiros de Sangue-Puro. Acreditava ser muito pouco provável que Leigh viesse a pensar em algo assim, mas na remota hipótese de que fosse esse o seu plano, eu dei de ombros com indiferença.
– Então que ele venha para cima! Sei que ainda não sou tão veloz quanto ele, mas quem sabe eu tenha tempo o bastante para cravar essa adaga naquele buraco negro que ele chama de coração? – E lancei uma piscadela provocativa para Aidou antes de me pôr a andar na direção que me levaria de volta ao salão do baile.
Claro que Aidou não aprovou nada o meu argumento insano e logo estava se colocando no meu caminho para impedir que eu fosse até o lugar de uma vez.
– Sabe quais são as probabilidades de eu conseguir tempo o bastante para mata-lo? Mínima o bastante para eu não estar lutando no lugar de Kaname, o meu mestre. São ainda mais nulas para você, garota, mesmo que seja mais veloz e forte do que qualquer ser humano que eu tenha visto. Onde está seu bom-senso?
Era mais que óbvio que Aidou era melhor do que eu em batalha só avaliando o estado de cada um e somando dois mais dois. Eu estava patética, falando com toda a sinceridade, e podia dizer isso com tanta veemência porque havia visto meu reflexo na lâmina de Red Promises e quase enfartei.
Minha bochecha esquerda, embora eu tivesse a esfregado bastante para tirar o sangue de Mitsuo, ainda havia uma leve película dele manchando minha pele mesclado com terra e sujeira. Meu cabelo estava frisado por conta do baby liss e os produtos – que não fazia ideia de como se chamavam, já que eu não entendia nada desse tipo de coisa – que Sakura jogou em meu cabelo para fazer os cachos durarem; além de algumas mechas terem grudado por conta do sangue seco de alguns Níveis-E que retalhei, e mais o suor do esforço físico e também a sujeira por ter algumas vezes rolado no chão.
Meu vestido estava arruinado! O tecido que um dia foi azul estava encardido com uma mistura nada agradável de sangue seco e sujeira, além de conter um rasgo que ia do osso do quadril até a barra, e se eu não ficasse atenta com a maneira que eu me movia ou com o vento, poderia ter mais uma cena constrangedora de mais alguém – agora Aidou – vendo minha calcinha. Mas na remota possibilidade do vento me pegar desprevenida, felizmente eu havia escolhido uma que era quase um short para não marcar o vestido.
E não vamos falar nem no estado crítico do sapatos de Sakura...
O que um dia foi a calda do vestido estava com o comprimento irregular por causa do pedaço que eu cortei, e tão suja quanto o resto.
Enquanto isso, Aidou tinha apenas as mãos manchadas com o sangue ressecado dos que ele matou.
– Eu sei que não é nem um pouco sensato, Aidou, mas eu não tenho tempo para sensatez. Eu perdi meu melhor amigo e tenho que saber se o cara que dedicou sua vida para proteger a minha ainda está vivo.
Eu estava preocupada com Kira, minha mente estivera nele – e ainda mais no albino, mas eu não ia admitir isso para mim mesma! – durante toda a minha luta, e eu precisava saber se ele estava bem, que eu não fui responsável por mais uma morte por conta de ser fraca e incompetente.
Mesmo que Kira fosse um mentiroso que estivera disposto a sacrificar a escola inteira para me manter viva, ele ainda era a única pessoa leal a mim e que eu podia contar para qualquer coisa, e que não se importava de desperdiçar sua própria vida para zelar pela minha.
Aidou estava prestes a retrucar, então já fui o interrompendo usando minha última carta na manga.
– Eu sei que você também deve estar preocupado com o seu… mestre – ainda era estranho demais para eu imaginar que eles se referiam aos seus líderes de forma tão… humilde, assim digamos; mas talvez fosse como chama-lo de “presidente” ou algo do tipo e eu que fosse orgulhosa demais. – Eu prometo ficar do seu lado o tempo inteirinho.
Esse meu argumento pareceu deixa-lo bem indeciso quanto ao que deveria fazer e o que queria fazer. Aidou fitou meu rosto, incerto, pesando os prós e contras de irmos na direção que eu queria para satisfazer nossas curiosidades, talvez não confiando que eu fosse mesmo.
– Palavra de dedinho – falei como última tentativa, erguendo o mindinho.
Ele me encarou um pouco catatônico com minha maturidade por tentar fazer um juramento tão infantil – mas se ele não estava acreditando que eu cumpriria a minha palavra, e eu era do tipo que cumpria minhas promessas, então apelei para a primeira coisa que me passou pela cabeça; eu apenas tinha que ir procurar Kira e saber se ele estava bem.
O loirinho lutou para não rir da minha cara, seus lábios se retorcendo em diversão, mas mesmo assim ele enlaçou o seu mindinho no meu.
– Certo – cedeu. – Mas lembre-se que o castigo por não cumprir uma promessa de mindinho é engolir mil agulhas – falou. – E se Leigh não chegar a te pegar, eu me encarregarei de que cumpra sua sentença.
Revirei os olhos para aqueles detalhes tão triviais, pois eu realmente não estava pensando em sair do lado dele. A não ser que Kira ou Kaname estivessem muito feridos, pois aí eu não fazia ideia se conseguiria pensar em cumprir promessas, mas duvido que ele também se manteria em uma distância segura caso Kaname precisasse de ajuda.
“E como se Kira não fosse pegar as agulhas e espetar seu traseiro com elas, caso tentasse...”, pensei.
Mas ao invés disso, eu disse:
– Certo, então vamos logo – Maneei a cabeça para o caminho a nossa frente como um convite.
Aidou e eu caminhamos um ao lado do outro de volta pelo caminho que havíamos coberto anteriormente, o som de nossos passos no chão de tijolos sendo o único som entre nós.
Eu mal podia acreditar em mim mesma, que eu estava retornando para aquele lugar onde Leigh atacara e eu vira tantos daqueles monstros saltando sobre humanos na minha frente, mesmo quando os vampiros da Night Class se esforçavam para evita-los, e ainda assim não sentisse sequer um receio em minha decisão.
Eu sabia que havia perdido alguma coisa, uma parte importante de mim no momento que assistira Mitsuo morrer, mas eu não sabia exatamente o que era. Eu parecia a mesma pessoa, agia como a mesma pessoa e tudo mais, mas ainda havia um vazio palpável em mim que não era apenas ocasionado pela perda de meu melhor amigo e minha empatia.
Talvez eu tivesse perdido meu bom-senso, como Aidou dissera? Eu não sabia.
Um vento frio passou por nós, fazendo os galhos secos das árvores farfalharem e meu corpo estremecer involuntariamente – a temperatura havia caído bastante, e para alguém com um vestido de tecido fino e sem mangas que estava quase seminua por causa daquele corte, era a receita perfeita para a morte por congelamento.
Ao longe, eu vi duas figuras conversando calmamente, uma delas segurando uma espada igual as que os samurais usam e que se chama Katana; e a outra com uma pistola prateada em mãos.
Eu reconheci ambas as silhuetas a aquela distância, principalmente o rapaz de cabelos prateados tão singulares, e saber que eles estavam bem fez um aperto em meu coração – que eu não sabia de sua existência até então – afrouxar, assim como um peso em meus ombros.
Eu estivera bastante fria quanto a perda que eu sofrera até então, tomada por um torpor estranho nas minhas emoções que eu já não tinha tanta certeza se era algo passageiro, pois o experimentava já havia horas – e fiquei ainda mais incerta quando Kaien e Zero se viraram para nós, alertas ao som de nossos passos, e eu encontrei os tão familiares olhos lilases de Zero.
Não pude sentir constrangimento pelo que havia acontecido conosco da última vez que nos vimos ou mesmo alguma emoção negativa por lembrar a maneira com que ele me olhara quando descobrira que eu me tornaria vampira, na verdade eu estava muito sensata quanto a tudo.
Eu ainda o amava, era claro, isso não havia mudado e nem aquele torpor poderia ser capaz de suavizar aquele sentimento opressor que eu sentia por ele, mas quando o olhei tudo que eu vi foi mais uma possível vítima numa guerra que não o pertencia.
Zero me olhou com incredulidade, seus olhos avaliando meu estado terrível de cima a baixo, então ele voltou sua atenção para Kaien esperando ver a mesma desaprovação por eu não estar no abrigo, mas tudo que encontrou foi o olhar aliviado do diretor por ver que eu estava bem.
O albino não pareceu gostar nada, revezando seu olhar indignado e irritado de mim para Kaien, antes de fixa-lo em mim.
– O que você está fazendo fora do abrigo?
Balancei minha adaga com certa apatia, enquanto me aproximava deles.
– Matando vampiros com Aidou – dei de ombros, ainda andando. – Mas agora eu estou indo de volta para o salão para ver como Kira está.
Estava prestes a passar por Zero para continuar meu caminho quando ele segurou meu braço, impedindo-me, e seu toque ainda tinha aquele poder de fazer meu coração disparar, cortando a névoa de entorpecimento.
Dirigi meus olhos para o rosto dele, séria, arqueando uma sobrancelha para aquela atitude.
– Você não pode estar querendo ir naquela direção – disse Zero, seus olhos perscrutando meu rosto como se buscasse algo. – Você não sabe se é seguro retornar para lá.
– Aquelas bestas recuaram, então eu suponho que Kira e Kaname conseguiram expulsar aquele doente daqui.
Zero estreitou seus olhos para mim, como se tentasse entender alguma coisa, um erro.
– Aconteceu alguma coisa com você? – Inqueriu – Você está estranha.
Ele só podia ter sentido o vácuo que existia em mim através daquela ponte que nos ligava, eu supunha, mas também uma morbidez que eu nunca havia possuído em toda a minha vida.
Antes, tudo que eu sentia quando olhava Zero era uma admiração e um sentimento ardente, uma tristeza por saber que ele me odiava por ser o que era e melancolia em saber que ele nunca me pertenceria; mas naquele instante enquanto eu olhava o rosto sério de Zero, tudo que eu via além do cara que eu amava com todo o meu coração e que nunca me pertenceria, era um conformismo.
Então eu compreendi que grande vácuo era aquele em mim, que parte tão grande de mim que eu havia perdido: minha impulsividade.
Antes eu era sentimental demais, tudo que eu fazia era movido pelas minhas emoções, sempre agindo com o coração antes de meu cérebro, e a perda disso havia me feito encarar a realidade dos fatos.
Nós, Zero e eu, não estávamos destinados a ficar juntos mesmo que ele correspondesse aos meus sentimentos e não detestasse o que eu me tornaria. Ambos tínhamos caminhos diferentes para trilhar, assuntos a tratar que não podiam ser deixados para depois por qualquer tipo de romance.
Eu tinha uma guerra para lutar, tinha que partir com Kira para fazer da Academia Cross um lugar seguro outra vez e me tornar uma guerreira melhor para deter Leigh de tomar o controle dos vampiros; e Zero não precisava se envolver em nada disso e nem se ferir em uma batalha que não o pertencia.
Mas não era apenas isso...
Certas coisas precisam ser acabadas antes que acabem com você, isso era um fato.
Se Leigh descobrisse meus sentimentos por Zero, que ele era minha maior fraqueza, ele correria grandes riscos e por isso eu tinha que por um fim em qualquer ligação entre nós. Se algo acontecesse a Zero, eu morreria.
Uma parte de mim morria naquele momento, mas esse era o sacrifício que eu deveria oferecer: minha vingança em troca de meu coração, de meus sentimentos.
– Talvez eu esteja finalmente me tornando o monstro que não merece preocupação enquanto não estiver cravando os dentes no pescoço de alguém – falei em um tom venenoso, a expressão tão apática quanto a dele.
Puxei meu braço de seu aperto com certa brutalidade, sentindo seu choque atravessar nossa ligação e se fazer um pouco presente em suas feições, mas eu não devia me importar com isso. Desviei meu olhar dele, contendo a culpa por ter sido grossa e minha tristeza por estar abdicando dele, então acenei a cabeça para Aidou indicando que devíamos prosseguir o nosso caminho.
Nós nos afastamos deles, eu ainda sentindo uma enxurrada de emoções advindas de Zero passando por nossa ligação; e eu apenas consegui reconhecer a confusão.
Quando finalmente saímos do alcance da visão deles, senti como se uma corda tencionada começasse a afrouxar dentro de mim e uma tsunami de emoções desse fim àquela névoa.
– Você parece estar prestes a chorar – falou Aidou enquanto observava meu rosto.
Engoli as minhas lágrimas, não me permitindo fraquejar ainda, e elas desceram queimando pela minha garganta.
– Tomei uma decisão sem volta.
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