Fita de Seda
2 Capítulo 2 - As Cinco Variações
Notas iniciais
“Havia sangue por toda a parte, em todas as casas daquela rua como um lembrete feito pelas vis criaturas da noite. Gritos chegavam até mim, mas tudo que eu conseguia fazer naquele instante era correr pelas vias de terra que estavam escuras pela noite sem lua, não conseguindo olhar para trás e temendo que aquelas coisas me alcançassem. Minhas pernas protestavam com o esforço, os pulmões ardendo em uma necessidade intensa por mais ar e o coração martelando dolorosamente em minhas costelas, mas eu não podia parar, independente do quão desgastante fosse.
Uma figura se fez ver em meu caminho, olhos vermelhos intensos na escuridão da noite me fitando com um brilho maligno. Tentei fazer com que meus pés me parassem, mas meus calcanhares derraparam na terra e eu caí sentada, tremendo. Observei com pavor a criatura se aproximar com passos lentos e senti-o sorrir maliciosamente em apreciação do meu medo. Um aviso ressoava em minha mente, dizendo que eu estava perdida…”
Sentei abruptamente, minha cabeça girando com a ação, notando que estava em um espaçoso quarto com chão de assoalho, ouvindo um barulho alto ecoando pelo local que eu estava – e percebendo quase imediatamente que esse som era o meu grito de pavor. Levei minha mão à boca, impedindo que prosseguisse, e avaliei o local a minha volta temendo que a figura assombrosa estivesse me observando. Encontrava-me em uma cama macia e espaçosa com lençóis brancos e sofisticados, as cortinas cobrindo as janelas e me deixando em um lugar tão escuro quanto aquele lugar cheio de corpos que eu me lembrava de ter acordado na ultima vez. Felizmente, aquele era um quarto confortável e aquecido, mas a escuridão ainda era amedrontadora para mim.
Assim que senti que havia retomado o controle de mim, engoli em seco e retirei as mãos dos lábios, levando uma delas a testa e sentindo uma atadura sob minha franja. Retirei o lençol para me avaliar e notei com certo desconforto que estava com roupas diferentes, vestindo agora uma camisola de seda branca.
Uma porta se abriu e um homem de óculos e cabelos loiros opacos presos em um rabo de cavalo baixo entrou, aparentando preocupação e enxugando as mãos em uma toalhinha branca.
– Por Deus, o que houve? – perguntou, avaliando o quarto e então voltando a olhar para mim.
– Onde eu estou? – perguntei, ofegante – Onde está Zero?
Os olhos dourados do homem se voltaram para mim e então lentamente abriu um sorriso assombrosamente animado, aproximando-se da cama.
– Olá, mocinha! – exclamou exaltado, o que me assustou – Fico muito contente que finalmente tenha acordado. Sou Kaien Kurosu, e você está na Academia Cross, mais especificamente em minha casa. Zero é meu filho, e deve estar em alguma aula nesse instante. Você está segura, pode relaxar.
Eu analisei o rosto do homem, que continha uma careta extremamente feliz, decidindo-me se podia confiar nele, mas antes que chegasse a um veredicto ele começou a abrir as cortinas para que a luz entrasse, fazendo-me semicerrar os olhos – e a claridade súbita me deu enxaquecas.
Com a entrada dos raios solares vespertinos liberada, deu para ver melhor o quarto em que eu estava. Ele era espaçoso, com chão de linóleo e um candelabro pequeno onde lâmpadas imitavam o formato de velas. Tinha portas duplas de vidro que davam para uma varanda, onde provavelmente dava uma bela vista durante o pôr-do-sol. Ao lado de fora era possível ver um caminho de pedrinhas descendo e serpenteando como uma trilha na floresta verde e viva.
Quando Kaien virou, percebi que ele havia tomado uma posição séria sem qualquer cerimônia ou explicação para essa transição de humor, o que me deixou perdida. Era impressão minha, ou aquele homem era maluco e bipolar? E se ele era pai do Zero, por que eles não se pareciam em qualquer detalhe?
– Eu estava com Zero, caminhando por uma vila assombrosa – comecei a repassar minhas lembranças em voz alta, e Kaien se aproximou, sentando-se a beira da cama – e então...
– Você desmaiou. – ele concluiu com um sorriso educado – Seu corpo estava funcionando a base de adrenalina e quando ela acabou, seu corpo não suportou o desgaste e o impacto na cabeça. Você dormiu por um dia inteiro.
Observei-o atônita com a revelação e ele sorriu, dando tapinhas tranquilizantes em minha mão.
– Está tudo bem, minha cara. – falou calmamente – Se importaria se eu te fizesse algumas perguntas?
Balancei a cabeça negativamente.
– Zero me disse que quando a encontrou você não se lembrava de nada; consegue se lembrar de algo agora?
Busquei qualquer informação que pudesse conter em minha mente sobre situações antes da manhã anterior, quando acordei naquele lugar cheio de mortos, mas tudo que viera fora o pesadelo que eu havia tido. Seria aquilo uma lembrança? Ou uma maneira estranha de meu cérebro tentar explicar como eu chegara àquele lugar do outro dia?
– Apenas de correr por uma rua e uma daquelas criaturas aparecerem em meu caminho – falei, forçando minha voz a parecer impassível – Então eu caí no chão e... Mais nada.
Kaien assentiu calmamente.
– Consegue se lembrar do seu nome?
Após uma busca detalhada que resultou em mais enxaqueca, eu balancei a cabeça negativamente. Aquilo me frustrou terrivelmente, a ponto de desejar gritar e arrancar meus cabelos até que minha mente percebesse que eu não estava de brincadeira e me desse a resposta. Kaien deu um suspiro desapontado e então ele saltou para fora da cama escandalosamente alegre novamente, o que me aturdiu. “Meu Jesus, ele é bipolar!”, conclui por fim.
– Está tudo bem, tenho certeza que irá se lembrar em algum momento! – animou-me – Tem um café-da-manhã delicioso esperando por você lá na cozinha, esperarei no corredor para que você se troque. Há umas peças de roupa no guarda-roupa que provavelmente te servirão, fique a vontade.
Sem mais palavras, ele quase saltitou para fora do quarto, uma cena quase hilariante se não fosse tão “What the fuck?”. Levantei-me, sentindo com felicidade que minhas pernas estavam firmes desta vez, e caminhei até a porta branca no lado oposto da entrada, descobrindo que era o banheiro. Abri o guarda-roupa e analisei as poucas peças que jaziam penduradas nos cabides, a maioria era (apenas dois) vestidos, outra era uma saia e uma blusa lilás, um uniforme preto com linhas brancas e as roupas que eu usara na manhã anterior, que agora estavam lavadas. Peguei o vestido preto florido e segui para o banheiro, desapontada por não ter peças intimas além das que usava, e repetir calcinha era a pior coisa do mundo.
Olhei-me no espelho acima da pia branca, analisando meu rosto na busca de alguma característica que me fizesse lembrar algo, de quem eu era. O reflexo que me foi mostrado no espelho era uma desconhecida de longos cabelos negros como mancha de óleo, e estavam parecendo um ninho de guacho, uma franja que cobrindo a testa e quase alcançavam os olhos, que eram igualmente escuros e grandes – e eu titulei imediatamente como “assustadores”. Era alta demais, talvez com 1, 74 de altura e parecia tão curvilínea quanto um alfinete, estragando qualquer esperança de seu rosto redondo como uma lua cheia a fazer parecer uma bonequinha (junto com os olhos faziam-na parecer um besouro), que aparentava não ter mais do que quinze anos de idade. “Mas você tem dezessete!”, protestou uma vozinha no fundo de minha mente. Arfei surpresa e feliz por finalmente saber alguma coisa sobre mim, mesmo que não fosse o mais importante.
Tomei uma chuveirada rápida, já que estava desesperadoramente faminta, sem lavar os cabelos graças à atadura na minha testa, e me vesti rapidamente. Olhei-me no espelho e tentei dar um jeito nos nós em meu cabelo e por pouco não perdi a luta, mas descobri que eu era mais teimosa do que uma mula empacada.
Saí com um cabelo que mais parecia uma crina (o que importa é que estavam desembaraçados!), encontrando Kaien me esperando no corredor como havia dito.
– Te serviu perfeitamente – disse ele alegremente – Tenho que agradecer a Himiko.
Eu não fazia ideia de quem era essa pessoa, mas sorri como se compreendesse.
Ele me guiou pelo corredor luxuoso com carpete vermelho e descemos por uma escada até o hall de entrada, o chão reluzente de madeira. Fomos para os fundos da casa, onde se encontrava a cozinha, com ele me explicando que ele havia preparado tudo e esperava que eu gostasse.
A cozinha não era muito grande, havia uma mesa redonda de madeira em um canto e uma bancada de granito a separava da real cozinha, assim digamos. Havia um fogão enorme e uma geladeira de titânio com duas portas, mas nada disso prendeu minha atenção, estava totalmente centrada na mesa cheia de comida e o ronco alto de meu estomago em reação.
Sentamos a mesa e eu me servi com waffles cheios de calda e suco de laranja para quebrar o açúcar. Quando levei a primeira garfada a boca, com o olhar atento e esperançoso de Kaien, gemi de prazer com o quão delicioso estava (ou minha fome estivesse superestimando seus talentos culinários) e o elogiei. O homem juntou as mãos próximas ao rosto e os olhos brilharam, como se estivesse prestes a babar arco-íris, o que havia sido extremamente engraçado. Comi aquele maravilhoso café-da-manhã parecendo mais um animal selvagem devorando a presa do que uma jovem garota de traços infantis, e recostei-me na cadeira.
– Então, mocinha, – começou Kaien segurando uma xicara de café com o mindinho levantado – pode me dizer o que aconteceu na manhã anterior, antes de Zero te encontrar?
Eu o olhei um pouco sobressaltada, não desejando reviver aquela experiência traumática, mas assenti por educação, afinal ele estava sendo legal comigo.
– Não houve muita coisa antes de ele aparecer – falei com ansiedade – Eu apenas acordei e me sentei, então o Zero chegou. O estranho era que eu já estava assustada antes de acordar e sabia que estava cercada por gente morta, mas não lembro meu próprio nome.
Kaien se inclinou sobre a mesa e pegou minha mão afetuosamente, e eu senti a pele calejada e áspera.
– Em algum momento você vai se lembrar, mocinha.
Olhei para a mão dele sobre a minha e então olhei para seus olhos, vendo que havia firmeza e conforto neles, que não duvidava de suas próprias palavras.
– Você tem razão. – sorri para ele – Consegui lembrar minha idade no banheiro.
Devo dizer que isso pareceu alegra-lo mais do que me parecia possível. O homem começou a bater palminhas extasiadas como se houvesse ganhado a loteria, e de súbito seu rosto ficou curioso e ele se aproximou, inclinando-se sobre a mesa.
– Quantos anos você tem? – perguntou.
– Dezessete anos.
A surpresa dele não passou despercebida, afinal quando a boca de uma pessoa fica escancarada e os olhos ficam tão arregalados a ponto de parecerem que vão saltar para fora, é impossível não notar.
– Você tem um rosto tão jovem! – ele estava me chamando de velha? – Pensei que tinha por volta de catorze ou quinze... Mesmo que sua altura nos deixe com um pé atrás quanto a isso. Mas eu achei que você fosse mais um caso dessas meninas que espicham rápido.
– Pois é. – foi o melhor que pensei em dizer.
Mesmo que aquele acontecimento fatídico tenha sido assustador e confuso, ou quão frustrante não saber quem era ou como havia chegado àquela situação, sentia que encontrar Zero e ser levada até Kaien tinha algum propósito. Duvidava que em minha vida anterior eu desconfiasse desse mundo em que criaturas como aquelas existisse.
– Kaien, o que são os Nível-E? – perguntei mais por reflexo.
Eu só pensei no que havia feito depois que dissera, mas eu não me arrependia. Não era algo do qual eu pudesse fugir, eram criaturas que haviam tentado me matar, devia entender porque haviam feito e principalmente, porque pareciam tão humanos. Aquelas coisas não tinham qualquer consciência, pareciam matar por instinto e não por prazer, por algum chamado animalesco e trivial no qual não podiam resistir.
A expressão de Kaien desvaneceu em uma de seriedade absoluta.
– Bem, eu já esperava que viesse a me perguntar o que eram. Será uma explicação muito longa para que você entenda o que eram as criaturas, e irá envolver temas que você sequer sonhava que existia. Está preparada?
Balancei a cabeça lentamente, a curiosidade fazendo com que eu me aproximasse da mesa como se o ato fosse me fazer ouvi-lo e entende-lo melhor.
– Está bem, antes de tudo, devo começar com a revelação: vampiros existem.
Não sei qual havia sido minha expressão, acreditava que expunha minha total descrença inicial antes de eu me repreender e relembrar-me dos corpos por todas as partes e a mulher correndo pelos telhados rosnando como um animal.
– Ok, vampiros. – engoli em seco – Então aquelas coisas que me atacaram foram… vampiros?
Kaien balançou a cabeça em resignação, e eu franzi o cenho.
– Mas pensei que vampiros fossem príncipes descolados como o Lestat ou o Damon... Edward...
Kaien ergueu as sobrancelhas, sorrindo com humor.
– Se lembra de filmes, mas não lembra o próprio nome? – e riu, mas não prosseguiu com o assunto – Existe uma série de variações de vampiros, a maioria diferente dos que você viu naquele lugar e, talvez, possam ser os “príncipes descolados” – ele moveu os dedos para formar aspas no ar – do qual fala. No entanto, não são como os vampiros que citou. Para começar, eles não queimam e, principalmente, eles não brilham no sol;. 2º — Eles têm um organismo vivo, mas que trabalha de forma completamente diferente do nosso; 3º — Eles bebem sangue, todos eles sem exceção, mas alguns estão dispostos a coexistir com os humanos de forma pacífica, e estes têm o auxílio de pastilhas; 4º — Esqueça todo tipo de baboseira Hollywoodiana, eles não precisam ser convidados a entrar, alho não irá espantá-los.
– Mas estaca no coração ajuda?
– Estaca no coração ajuda com qualquer coisa que você tentar matar, até mesmo os humanos, não é mesmo?
Eu assenti, percebendo quão tola era essa ideia da estaca, mas não me prendi muito a questão. Havia milhares de dúvidas a fervilharem em minha mente, tantas que eu esperava que o homem tivesse muito tempo disponível para responder a todas elas. Resolvi começar pela que mais me inquietava.
– Você falou que alguns deles têm o auxílio de pastilhas... O que elas fazem?
– Eles são como “Sangue em capsula”, quando dissolvidos em água, tem o mesmo gosto de sangue humano.
A ideia me pareceu desagradável.
– Mas sacia?
Kaien ponderou.
– O suficiente...
– Mas poderia dar sangue de animais, como no Crepúsculo... – sugeri.
Kaien riu como se eu tivesse sugerido atravessar uma ponte de arco-íris dançando Macarena.
– Há vampiros demais, mocinha. Eles acabariam levando algumas espécies à extinção.
Ele devia estar certo, mesmo que eu não soubesse qual era a média da população vampírica. Então balancei a cabeça e prossegui.
– Você disse que eles se dividem em variações...
– Sim! – interrompeu-me, como se houvesse se lembrado de um detalhe – E esta é uma explicação complexa e precisará de seu total silêncio e atenção. – assim que eu assenti concordando, ele prosseguiu – Existem cinco tipos de vampiros no mundo: Os Sangues-Puros, os Nobres, Comuns, Ex-humanos e Nível-E.
“Os de Sangue-Puro são o grupo mais poderoso e raro, os que governam todos os outros; e em segundo na hierarquia estão os Nobres. Os Comuns são o grupo de maior número e os que são governados pelos anteriores. E há os Ex-humanos, que são pessoas normais infectadas por Sangues-Puros, condenados a passarem por uma lenta e dolorosa transição até perderem suas consciências e se tornarem por fim os Nível-E.”
Senti o sangue sumir de meu rosto e meus olhos se esbugalharem, flashes da criatura que saltou sobre mim, olhos vermelhos sedentos por morte... “Sangue...”, corrigiu minha consciência, “Sedentos por sangue”.
– Eles eram humanos? – minha voz saiu um mero sussurro, o olhar com uma atenção ilegítima em minhas mãos inquietas – Aquelas coisas que o Zero matou?
– Não eram mais. Já haviam perdido a consciência, e quando acontece não há volta.
Engoli em seco e assenti, deixando que lembranças do casal Nível-E na aldeia repassassem por minha mente, gravassem seus rostos e tomassem consciência de que eles um dia haviam sido importantes para alguém, tiveram uma vida normal.
Kaien se levantou abruptamente, e eu quase caí da cadeira com o susto de sua súbita mudança de humor.
– Bem, mocinha, tenho uma reunião importante para comparecer agora – anunciou e só então eu notara que ele estava em roupas formais.
– Mas já? – protestei – Tenho tantas dúvidas...
Kaien sorriu.
– Tenho vários livros e anotações sobre o tema na biblioteca em meu escritório, sinta-se a vontade para vasculhar a casa, se quiser, mas os livros estão no andar de cima. – olhou o relógio de pulso e se assustou – Já estou atrasado! Até mais tarde.
Então ele correu enlouquecidamente para fora, arrancando-me gargalhadas.
“Bem... É hora de vasculhar.”
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