Fish hook
1 Both sides have joined hands...
Notas iniciais
Quando Niamh Price ouviu seu nome ser chamado entre os finalistas do concurso de fotografia seu coração se encheu de contentamento. Dessa forma, além de realizar seu sonho também conseguiria vislumbrar um dos poucos sorrisos que Ethan Wood poderia mostrar, e isso seria dirigido apenas a ele.
Há dois anos ele não poderia esperar qualquer coisa dessa natureza.
Naquela época, estava sem lugar para ir quando foi aceito por Ethan na casa dele. Nada lhe foi cobrado em troca da estadia além de algumas das fotografias que tinha consigo, em que foram capturados vários cenários que aquele céu proporcionava, pois era algo que Niamh considerava muito e Ethan pareceu interessado.
A princípio, Niamh não tinha planejado se aproximar de Ethan, apenas o necessário, enquanto mais uma vez tentava conseguir o emprego dos seus sonhos. Contudo, era complicado realizar o que pretendia, de ganhar a vida com as fotografias que tirava, quando as ligações familiares que tinha consigo nada valiam em uma sociedade em que se via apenas a aparência. Mesmo que pertencesse ao que se poderia chamar de alta classe, não lhe era permitido qualquer privilégio, e era um privilégio conseguir trabalhar com algo fora do que lhe fora determinado desde o nascimento.
A sociedade em que vivia era rígida quanto ao papel que seus cidadãos tinham que desempenhar, e isso era baseado nas características corporais das pessoas. As pessoas com que Niamh poderia se envolver e o emprego que poderia ter eram limitados, por isso Niamh acabou por desprezar a beleza com a qual havia nascido. Sua beleza era de uma exceção que lhe exigia se tornar rei, todavia, a notícia da coroação apenas fez com que seus planos de fuga se executassem com mais brevidade.
O máximo que conseguiu fazer para escapar de seu destino foi se distanciar da capital onde morava, entretanto, para isso seu próprio irmão teve de acobertá-lo até que chegasse aonde estava. Cidades iam e viam, e Niamh se preocupava que poderia ser descoberto e ser obrigado a assumir o trono. As leis que regiam aquela sociedade viam do alto, e ninguém sabia ao certo quem eram as pessoas as quais serviam e veneravam, portanto, fugir era inútil quando a qualquer momento poderia ser surpreendido com a presença de uma dessas autoridades camufladas pelo anonimato.
Era difícil que ficasse à vontade na casa de um estranho como Ethan. Contudo, com o tempo, viu que o dono da casa não era de interagir muito, e quando o fazia não procurava se informar muito de seus assuntos, então Niamh viveu seu cotidiano com mais liberdade, algo que realmente lhe agradava. Surpreendia-se vez ou outra quando Ethan lhe abordava para ver as novas fotografias que havia tirado pelas suas andanças, todavia, não era uma sensação ruim. Chegava a se encantar que alguém além dele mesmo pudesse se interessar por algo assim.
Havia conhecido poucas pessoas que pensavam fora dos padrões estabelecidos, e mesmo essas pessoas não diriam o que acreditavam em voz alta por causa da moral que residia neles.
Mesmo que a humanidade houvesse sobrevivido ao fim do mundo, ou algo próximo disso, era complicado pensar diferente. Moravam nos céus, entretanto, como nunca estavam longe de serem considerados similares aos anjos. As autoridades que os “protegiam” com suas leis eram as mesmas que a milênios atrás, durante a reconstrução do mundo, deixaram boa parte da população à mercê da terra contaminada, tornando-se algo semelhante ao demônio.
Quando criança, Niamh havia visitado o mundo terrestre junto de seus pais, que na época ainda eram vivos e trabalhavam como pesquisadores para a realeza. Lá, ele pode ver pela primeira e última vez aquelas pessoas de aparência intimidadora, que tinham como única alternativa de sobrevivência se alimentar do sangue das outras, e se horrorizou. Niamh não poderia dizer que, mesmo com medo, também não tinha se maravilhado. Diferente do céu, ele poderia ser como quisesse ser e ninguém se incomodaria. O incômodo com sua aparência surgiu dali, e foi a partir daquela visita que ele não poderia mais seguir o guia que haviam lhe dado.
Niamh, então, ficava entusiasmado com existência de uma pessoa como Ethan, porque aquele homem agia tão descontraidamente quando falavam de seu sonho. Contudo, tinha receio de que fosse apenas uma impressão sua e pudesse acabar com aquele momento que compartilhavam juntos, o único para ser mais exato.
Niamh tinha receio de não ver mais os poucos sorrisos de Ethan, e tinha até mesmo medo de não poder mais sentir aquela sensação estranha no peito, quando ouvia alguma brincadeira daquele homem tão introvertido.
Por isso ele ficou quieto quanto a isso e apenas viveu sua vida, pensando que não colocar o assunto em pauta de alguma forma faria que ele não mais existisse. Todavia, o anzol, com a isca sendo a curiosidade, já havia sido jogado e continuava ali à espera de um resultado. Mesmo que não perguntasse, Niamh ainda prestava muita atenção em Ethan quando eles estavam próximos, como se de alguma forma conseguisse as informações que ansiava vasculhando o rosto dele.
Com isso Niamh deixava a si mesmo exposto, pois Ethan passou a reparar nele cada vez mais também. Isso ia completamente contra as iniciais intenções de Niamh, que era não chamar atenção. Entretanto, em algum ponto ele havia perdido seu objetivo de vista, e já havia passado alguns meses desde que chegou aquela cidade para tentar ser um fotógrafo.
Se fosse como antes, Niamh já teria se deslocado para a próxima cidade, cada vez mais perto da fronteira que daria para o mundo abaixo do dele.
Ir para a terra talvez fosse a única alternativa que lhe restava, perigosa, mas que para Niamh seria válido, pelo menos em outra época. Ele não poderia mais fazer isso, pois, diferente de antes, Niamh havia encontrado um motivo além de seu irmão para não deixar o céu.
Tinha conseguido ganhar dinheiro para uma possível próxima viagem com as fotos que tirou. Contudo, não conseguia se sentir bem em usar esse dinheiro, pois Ethan usou as próprias conexões para que pudesse vendê-las.
Ethan não deveria ter tais privilégios, entretanto, tinha isso. Quando aquela sociedade fazia o possível e impossível para igualar o tratamento entre as classes de beleza, era muito difícil para Niamh acreditar em uma realidade diferente, quando ele mesmo teve de ficar a margem da sociedade quando não a ouviu.
Entretanto, Ethan tinha conexões ainda que vivesse na periferia da civilização, como era possível? A verdade que seu anzol parecia estar fisgando não parecia muito agradável, pois não era qualquer um que conseguiria se desviar do padrão assim. Um dia, Niamh teve essa verdade do outro mundo chegando a si muito subitamente quando a voz de Ethan, que geralmente era tão mansa, se alterou para uma irritada. Ethan atendia um telefonema de um conhecido, e reclamava a ele sobre a demora de uma entrega.
O susto que sentiu foi imediato ao ouvir sobre o que Ethan estava esperando receber. Manteve as conclusões consigo enquanto o tempo novamente tornou a passar. Até que aconteceu o acidente na cozinha que fez Niahm se sentir um idiota por não ter procurado enfrentar aquela verdade antes.
Naquela época, ainda não tinha conseguido um emprego, todavia, havia passado o dia fora para tirar mais fotografias. Quando voltou, viu como a hesitação em tirar o anzol do mar lhe renderia uma visão paralisadora de uma criatura se debatendo no chão como se estivesse em seus momentos finais. Ethan segurava o próprio pescoço em uma expressão de dor que parecia ser contagiosa, porque Niamh imediatamente ficou tonto.
Felizmente, não era uma autoridade, mas Ethan ainda tinha de ser um daqueles seres que tanto havia se encantado e tanto havia temido no passado. Aquele homem era um dos humanos da terra perdida que, devido ao longo tempo em contato com o solo corrompido, apenas poderiam se alimentar com o sangue humano. Na geração passada de humanos, provavelmente eles seriam confundidos com vampiros.
A visão fez Niamh hesitar mais do que gostaria, pois era no mundo de Ethan em que residia sua última esperança, e ela se mostrava inútil como todas as suas tentativas passadas de fuga. Se Ethan tivesse a força necessária era provável que tentasse mordê-lo para se alimentar já que sua comida não estava mais sendo providenciada pelo governo. Contudo, surpreendeu-se quando os olhos de Ethan se encontraram com os seus. Os olhos tinham um brilho de como se houvesse encontrado água em meio a um deserto infinito, mesmo assim parecia que se continha naquele desejo.
Niamh podia ter se retirado do cômodo. Ele podia ter se agarrado a fraca possibilidade e ir ao outro mundo, abaixo do deles, ou voltar para casa e assumir o trono. Enquanto que a primeira alternativa poderia causar sua morte real, a segunda provavelmente acabaria com seu espírito. Então, sentou-se próximo a Ethan. Se Niamh tivesse que ser morto que fosse pelo menos por aquela pessoa que o fazia se sentir livre. Todavia, Ethan não avançou sobre ele.
Ethan continuou deitado no chão da cozinha, aos poucos conseguindo acalmar sua vontade, e Niamh continuou ao lado daquele homem sem conseguir se aproximar tanto. Um rapaz veio posteriormente, na manhã seguinte, se desculpando pela demora em trazer as bolsas de sangue. Aparentemente o rapaz tinha conseguido acertar com seus superiores para que continuassem a investir naquela pessoa. Ethan lhe disse que era uma pacifista que buscava a aproximação dos dois mundos, por isso havia sido exilado de sua terra natal. Uma parte do céu o acolheu, uma minoria que simpatizava com sua causa, desde que continuasse a ser quem ele era.
Niamh, no fim das contas, não tinha que temê-lo. No entanto, havia muito o que devia ser conversado, muito o que ele gostaria de falar. Niamh conseguiu confessar o que sentia, mesmo que um bom tempo tivesse se passado para que ambos pudessem realmente se assumir como um casal. Era complicado, pois teve que assumir o trono que seu irmão havia ocupado, também a contragosto, para que impedisse que fizessem algum mal àquela pessoa que amava. Ainda havia uma boa parte das autoridades que era contra a aproximação dos dois mundos.
A decisão de tomar o poder que detestava, assumir a beleza que havia nascido, não veio da noite para o dia. E com certeza Ethan o havia apoiado nesse assunto importante. Niamh finalmente conseguiu olhar no espelho e não suspirar com desapontamento, pois havia alguém que não via seu rosto apenas como um dado a ser registrado: Ethan ia além de tudo isso.
Portanto, depois de ter recebido o prêmio pelo concurso de fotografia, que conseguiu participar com a ajuda dos contatos de Ethan*, dois anos depois de tê-lo conhecido, Niamh foi para casa e abraçou o outro quando o viu. Ethan lhe deu um selinho leve ou poderia machucá-lo com as presas. Eles aproveitariam o resto da noite na companhia um do outro.
Fale com o autor