First Love

1 Love You Goodbye


— Por que está chorando, filha? — Os olhos da mulher se tornaram preocupados quando passou pelo corredor e a viu pela porta entreaberta.

— Não é nada, mãe — respondeu, limpando as lágrimas que haviam escorrido, e se virou.

— Pode se abrir comigo, querida. — A mais velha entrou e sentou-se em sua cama, como fazia todas as vezes que conversavam no quarto dela. — O que está te incomodando? Alguém te machucou?

— Não. — Suspirou, abaixando o olhar ainda deitada. — Só foi o Chris.

— O que ele fez? Vocês brigaram?

— Não, não. — Finalmente, sentou-se, revelando o quão rápido seu rosto podia inchar por chorar em poucos minutos. — Não é exatamente ele. É o que eu sinto por ele.

De longe, sua mãe conseguiria ver suas bochechas se tornarem vermelhas, mas a mulher pensou que era por causa do choro e não por vergonha.

— Disse algo que não deveria?

— Não sei se consigo falar isso com você. — A encarou.

— Vou continuar aqui até descobrir o motivo de estar chorando. Se for preciso, eu trago aquele garoto até aqui para ele dizer por você.

— Ele não sabe o que eu tenho, e isso faz parte do problema. — Viu a mãe olhá-la. Entendia muito bem o que ela queria dizer, e para isso, não precisava nem abrir a boca. — É que eu acho que gosto do Chris… há um bom tempo.

— Querida — sua mãe alargou o sorriso no rosto, tranquilizando-se —, isso é ótimo.

— O que houve? — Seu pai apareceu na porta, tendo o olhar das duas.

— Sua filha está virando uma mocinha.

— Manhê — Sarah murmurou, puxando o braço dela.

— Mas a menstruação dela não desceu no ano passado? — o outro questionou, como se não fosse novidade para ninguém ali.

— Não é isso, meu bem. Chegou a época mágica de toda garota — ela disse sorrindo.

— Não brinca! — Seu pai também se aproximou, mas, ao contrário de sua esposa, que estava animada, ele se encontrava um pouco preocupado. — Está gostando de alguém, querida?

— Oh, mãe!

Sim, estava com vergonha em dose dupla e agora queria virar um avestruz só para ter o privilégio de afundar a cara em um buraco no chão.

— É o Christopher, não é? De todos, eu espero que pelo menos seja ele.

— Ele mesmo — sua mãe respondeu, vendo que sua filha não o faria. — Agora, nos dê licença. Essa é uma conversa entre mãe e filha. Tive que esperar por esse momento por quase quinze anos depois de trazê-la ao mundo.

— Por que o papai é tão enxerido? — Sarah encarou a mãe, completamente rosada, quando o citado deixou seu quarto.

— Ele só está preocupado com você, é a nossa única filha — respondeu, olhando para a porta para ter certeza de que ele não retornaria, só para escutar a conversa séria que teria em seguida. — Agora me diga: o que está passando nesse seu coraçãozinho?

As duas se olharam. A jovem sempre teve a mãe para compartilhar seus segredos, mas, no momento, sentia-se insegura por ser um assunto novo na relação de ambas.

— Promete que não vai rir?

— Minha filha, eu sou sua mãe, não as garotas da sua sala de aula. — A mulher sabia muito bem como era confiar na pessoa errada. — Conte-me.

— Eu não sei quando começou… mas, nesse último mês, eu percebi que comecei a ver o Chris diferente.

— Me explica melhor. Como diferente?

— Eu percebi que eu… sei lá… Me sentia estranha toda vez que estava perto dele. — Gesticulava como se suas mãos pudessem fazer melhor o trabalho de explicar do que suas próprias palavras, mas não foi o caso. — Depois entrei em um estágio em que, só de pensar nele, eu ficava estranha.

— E quando você fica estranha perto dele, o que te acontece?

— Depende muito, não é algo certeiro. Às vezes, meu coração acelera, ou então eu começo a suar, me dá até uma falta de ar. — Desviou o olhar para as mãos. — Teve uma vez que ele segurou a minha mão no intervalo para descermos as escadas, e minha garganta se fechou. — Deixou escapar um riso fraco e anasalado ao se lembrar. — Não parecia que eu ia vomitar, apesar de que minha barriga ficou como quando vamos na montanha-russa. Naquele segundo, eu pensei que ia desmaiar, mãe — confessou, piscando rapidamente e com os olhos grandes.

— E qual é o problema com tudo isso? — A mais velha sorriu. — Daria o que fosse para ter essas primeiras sensações com o seu pai novamente.

— Eu sei que eu gosto dele. — Fez bico, mas descobriu depois de uma longa pesquisa pela madrugada. — Só não sei o porquê. Eu e ele somos amigos. Só amigos. Melhores amigos.

— O que você acha mais bonito nele?

— Fisicamente?

— Por ações também. O que chama a sua atenção nele? — Tomou as mãos da filha, na frágil tentativa de mantê-la calma, e começou a acariciá-las. — Se conseguir responder essas perguntas com sinceridade e sem nenhuma dúvida, vai saber dar o primeiro passo.

— E depois?

— E depois você tem duas opções: fazer com que ele saiba dos seus sentimentos por ele, e tem que deixar muito bem claro, pois meninos nessa idade são bem lerdos; ou então você decide ficar na espreita para ver se ele dá algum sinal de que também gosta de você.

— E como eu vou ver esse suposto sinal?

— Isso varia de pessoa para pessoa. Mas há uma coisa que eu sei que dá muito certo, até testei com o seu pai.

— E o que foi?

— No grupo de amigos sempre tem aquele que quer ser o engraçadinho, e todas as vezes que esse nosso amigo contava uma piada ou fazia algo bobo perto de nós, seu pai ria.

— E o que tem demais em rir de uma bobeira?

— A questão não é rir, minha querida, e sim para quem ele olha quando vai rir. Geralmente, quando gostamos de alguém, temos a mania de querer gostar das mesmas coisas que essa pessoa. A risada, de início, é espontânea, então, se eu, que gosto de alguém, vou rir de uma bobeira, vou, sem querer, olhar para essa pessoa para ver se ela achou graça também.

— E se você achar engraçado e a pessoa não?

— Normalmente, nós sempre engolimos a risada e mantemos o foco, assim como a pessoa que gostamos e não achou graça. Deu para entender?

— Mais ou menos…

Sarah tinha se perdido há alguns segundos na linha de raciocínio da mãe, e, mesmo não querendo dizer isso, a mulher percebeu só pela expressão que a filha fez.

— Tudo bem, vamos melhorar esse exemplo. — Sua mãe pigarreou. — Se você conta uma piada, melhor ainda se ela for muito sem graça, e a pessoa que você gosta rir com gosto, pode ter certeza de que é um sinal. Simples, mas é um sinal.

— Isso é muito complicado. Parece levar uma eternidade!

— Com os meninos, as coisas sempre demoram mesmo. Vai se acostumando de agora em diante.

— Ah… eu não sei não. Acho melhor pegar tudo isso de estranho que estou sentindo por ele, dobrar e guardar no bolso do meu coração. — Sarah a encarou.

Achava aquilo tudo completamente difícil, além de ter muitos detalhes para ter que prestar atenção em momentos críticos. Só de ter Christopher ali sentado ao seu lado em todas as matérias do dia, tinha cinquenta minutos de palpitação. No intervalo, custava manter-se firme sobre as próprias pernas quando ele resolvia entrelaçar os dedos aos dela para irem a algum lugar. Imagina ter que sustentar um olhar vindo dele? Morreria, literalmente, de amores.

— Tem medo de se declarar? — A viu concordar com a cabeça lentamente. — Por quê? Mais cedo ou mais tarde você vai ter que criar coragem para dizer.

— Não quero trocar a nossa amizade por um talvez. E tudo bem, suponhamos que ele goste de mim; e se nós não dermos certo depois? O que construímos até aqui vai desmoronar. Christopher é o meu melhor amigo há anos.

— E você acha que ele é um garoto que faria isso no futuro? — Ela não esperava que Sarah a respondesse ali, naquela hora, por isso prosseguiu. — Eu entendo que queira analisar todas as circunstâncias que podem acontecer entre ambos se começarem a ter uma relação, mas, querida, você tem que ter cuidado para não pensar demais no que pode acontecer no futuro e acabar esquecendo de viver o presente. — A filha continuava mexendo a cabeça para cima e para baixo, dessa vez entendendo perfeitamente o que sua mãe lhe dizia. — Filha, eu estou aqui para orientá-la, mas a vida é sua. Se você se machucar, saiba que tem seus pais aqui com você.

Essa conversa foi essencial para fazer a garota pensar um pouco, e, quando eu digo pouco, quero dizer pelo menos metade da madrugada. Sarah ficou de frente para o seu computador até às 3:17 da manhã, pesquisando formas e maneiras delicadas de como poderia se declarar para Christopher, e, claro, de um jeito que seria impossível de se constranger. A ideia de ter que esperar para ver um sinal do outro parecia-lhe demorar mais do que poderia esperar, só não tinha certeza se suportaria desmoronar a amizade se fosse preciso.

Apesar de não ter dormido quase nada por primeiro, ansiedade, e segundo, medo, a garota até que acordou disposta e confiante. Claro, coragem não é a ausência de medo, mas ela estava fazendo o possível para que não deixasse seus pensamentos negativos tomarem conta de si completamente.

A manhã foi perfeita, totalmente rotineira. Tomou café da manhã com sua família e foi para a escola. Nela, teve o seu primeiro obstáculo: o sorriso acompanhado de covinhas de Christopher. Se viu completamente encantada pelo garoto de sardas quando o mesmo a viu chegar estonteante. Depois, na aula de francês, teve que suportar ele lhe ensinar a matéria da semana passada, pois tinha faltado e teriam um trabalho para apresentar daqui a duas semanas em grupo.

O intervalo foi mil maravilhas. Ali, em uma roda na grama do jardim central, depois de lancharem, estavam tomando sol. Era uma oportunidade magnífica para aplicar pelo menos uma vez a dica de sua mãe entre amigos, e ela tentou.

— Por que o seis estava com medo do sete? — Ela olhou todos, mas verdadeiramente não esperava uma resposta. — Porque sete, oito, nove.

Foi a primeira piada que passou em sua mente quando a coragem e a chance lhe apareceram, e sabia que, por sorte, era sem graça, assim como sua mãe havia lhe ensinado na noite anterior. Sarah até conseguiu ver um ou outro de seus amigos torcendo o nariz para entender o trocadilho com os números, mas eles não eram importantes no momento. Assim que se virou para olhar para seu melhor amigo sentado bem ao seu lado, alguém lhe acertou com uma bola de futebol bem atrás de sua cabeça. Céus… como doeu! Além de não ter visto a expressão de Christopher, sua cabeça começou a doer como nunca sentiu antes.

Como todas as vezes que já levou uma bolada na aula de educação física, principalmente no rosto, repetiu diversas vezes as frases "Eu estou bem. Não machucou" para todos que se preocuparam e perguntaram. Até conseguiram ver os olhos dela rodando quando se deitou na grama baixa. Foi só questão de tempo para se recuperar.

Assim que eles trocaram de sala para a última aula, Sarah atacou novamente, sem perigo de ter falhas. Antes do professor chegar, o garoto correu para o bebedouro, e foi nesse exato momento que ela deixou um recado de uma folha rasgada do seu próprio caderno lilás sobre os materiais dele já postos sobre a mesa, essa que ficava ao seu lado.

“Chris, preciso te dizer uma coisa muito séria. Depois que as aulas de hoje acabarem, estarei te esperando no jardim dos fundos para conversarmos com privacidade.”

Ele retornou depois que o professor e a primeira coisa que notou foi a folha rasgada com uma letra bonita, deixando-lhe um recado. Christopher olhou em volta e viu Sarah mirando-o um pouco nervosa. Com um sinal, perguntou se ela quem tinha colocado ali, e com outro sinal, teve a resposta. Ele só cochichou um “tudo bem” e os dois começaram a prestar atenção na aula.

A partir dali, ele ficou um pouco pensativo. Na verdade, tinha algo para dizer para a melhor amiga há algum tempo e, mesmo assim, não tinha encontrado o momento certo e a audácia suficiente. Já Sarah olhava o professor caminhar de um lado para o outro apenas para se distrair do que seria o maior risco que estaria correndo na sua vida emocional.

Para alguns, a aula de literatura levou uma eternidade, mas para ambos não passou de segundos. Christopher se despedia dos amigos enquanto ainda arrumava o material na mochila, e nesse momento, Sarah simplesmente desapareceu dali sem ser notada por ninguém. Ela não queria conversar com ninguém, caso contrário perderia o pinguinho de bravura que tentou reunir desde quando colocou os pés na escola.

Ela marchou até o lugar marcado e sua ansiedade atacou, até segurou o choro, olhando as nuvens escuras se formarem sobre sua cabeça. Poucos minutos depois, ele chegou e o silêncio abraçou o desconforto entre eles.

— Vai chover forte hoje. — Ele quebrou o gelo, olhando para o céu e inclinando os pés na beirada da calçada, essa que era um degrau até a grama.

— É… Eu vi. — Limpou a garganta. — Bom… eu queria te dizer uma coisa… — desviou o olhar dele bem quando ele fez questão de encará-la — mas eu sei que não vou conseguir, então eu fiz uma coisa.

Os olhos do garoto estavam curiosos, assim como ele por completo, então a viu tirar a mochila das costas e largá-la no chão. De lá, Sarah revelou um potinho transparente, mas repleto de estrelinhas de papel coloridas. Ela o entregou com uma cartinha azul enlaçada por cima.

— Woah! Que demais! — Ele sorriu, observando o que os papéis coloridinhos tinham se tornado.

— Apesar de achar pouco e mostrar que foi pouco, ainda sinto que criei muita coragem para estar aqui em pé na sua frente; então quero aproveitar a oportunidade para ser o mais transparente possível. — Suspirou e engoliu em seco. — Não sei quando começou e nem o porquê, mas eu gosto de te ter perto de mim.

Ficou em dúvida consigo mesma se aquilo já era o bastante para fazê-lo entender. Na verdade, queria ter o poder de conversar por telepatia do coração; seria bem mais fácil descrever seus sentimentos em palavras pensadas no peito do que descritas verbalmente por um órgão que nem sequer sabe beijar.

— Eu preciso te contar uma coisa.

— Eu juro que se você não me deixar terminar, nunca mais vou conseguir falar. — Aquilo não foi uma ameaça, foi apenas seu cérebro pedindo socorro desesperadamente para libertá-lo do cativeiro em que o órgão pulsante aprisionou. — Só quero dizer que, como um jardim, eu te enxergo como uma borboleta voando para o infinito, mas sempre voltando para mim. — Christopher diminuiu os olhos, fechou o cenho e olhou para cima na intenção de tentar entender o que a amiga havia dito. — Arh! É difícil! — disse depois de ver a expressão confusa dele. Então a garota fechou os olhos e respirou fundo. — Eu gosto de você! Eu, Sarah Blossom, gosto de você, Christopher Bang! — Sua intrepidez obrigou-a a abrir os olhos e admirar um garoto de fios encaracoladinhos à sua frente, levemente boquiaberto. — E eu tenho a certeza de que o meu sentimento é bem mais que uma emoção.

Mais uma vez, a quietude marcou presença entre os dois, só que dessa vez foi de reconforto. Por um tempo, Sarah ficou com medo da reação que ele teria, mas manter o silêncio ensurdecedor a tranquilizou como um chá de maracujá; principalmente por ter colocado para fora e a chuva ter começado a desmoronar.

— Estou saindo do país, Sarah. — Os dois somente piscavam, e ela sentiu uma brisa atravessar seu corpo, arrepiando-a completamente. — Minha mãe está indo comigo para a Coreia do Sul e eu não tenho ideia de quando vou retornar. — Engoliu em seco assim que viu os olhos dela encherem até brilharem. — Eu queria ter arranjado forças para ter lhe contado antes. Desculpa ter feito você…

A primeira lágrima pulou de um dos seus olhos e, rapidamente, virou-se. Sem dizer mais nada, Sarah agarrou sua mochila e deixou o garoto que gostava ali em pé. Ambos deixaram o colégio totalmente encharcados, mas sem a companhia um do outro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.