Firework
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Desde pequena eu tinha sonhos bizarros dos quais acordava assustada e depois os esquecia. Sempre fora assim...
Alguns eram assustadores demais para deixá-los ir. E eu sabia que de vez em quando, não eram só sonhos. Era algo mais... Real...
Como o daquela noite...
Depois de terminar de escrever mais um capítulo de Radio Hysteria, eu decidi que era hora de parar e descansar. Desde que eu tinha me mudado para Tókio, mês passado, eu tinha ficado tão louca trabalhando em um novo livro para publicar que nem tive tempo de visitar os pontos turísticos. Céus, a única vez que eu vi a Tókio Tower foi num cartão que a Ny-chan me mandou!
Vesti meu pijama grosso para aguentar o frio daquela noite e me enfiei por debaixo das cobertas, enquanto o relógio marcava 22h30min.
Eu estava TÃO cansada, mental e fisicamente, que os carneirinhos não chegaram à dezena e eu já tinha desmaiado.
Primeiro, minha visão começou escura. Lentamente, foi clareando e mostrando meu paradeiro: uma estação de metrô.
Eu corri escada abaixo, empurrando muitas pessoas a minha frente. Ainda usava o mesmo pijama, o que me fez rir por dentro. O que eu fazia de pijama numa estação de trens japonesa?
Quando cheguei a um lugar mais espaçoso do que a escadaria, meu desespero quadruplicou e eu olhei para os lados, como se procurasse por alguém.
Perto da plataforma de embarque, havia um rapaz de cabelos pretos e roupas estilosas. Não vi seu rosto, pois ele estava de costas.
O relógio da estação marcava 23hs45min do mesmo dia, horário exato da partida dos últimos trens.
— O último trem da estação Shibuya sairá às 23hs50min. Favor, passageiros, até o momento de embarque, fiquem atrás da linha amarela.
Quanto mais próximo o som do trem ficava, mais o rapaz se aproximava da borda. E eu entendi o que ele ia fazer...
Corri em sua direção e de relance, vi seu rosto segundos antes dele saltar e eu acordar...
— AKIYA! – gritei na cama, suando frio.
Ouvi a porta se abrindo e via figura preocupada de Amanda, minha colega de quarto e melhor amiga, entrando.
— O que houve?
— Eu tive um sonho... Um pesadelo, na verdade... Terrível...
— E o que o Akiya-san tinha a ver com esse seu pesadelo? – ela voltou a perguntar preocupada, desembaraçando meus cabelos com seus dedos.
— Eu estava na estação de Shibuya, correndo. Então, eu o vi. Ele ia pular...
— Akiya-san ia se matar?
— Sim. Foi horrível... Mas foi só um pesadelo...
— É, bem... – ela começou, estalando os lábios.
— O que foi?
— Eu te conheço há um tempo considerável, Fran... E eu não te vi errar quando tem pesadelos assim...
— Está dizendo que eu posso estar... Certa?
— Talvez... Seria bom se soubéssemos como conferir. Mas, sem saber nada é meio difícil...
— Estação Shibuya, às 23hs45min, hoje...
— Hoje?!
— É sim. Por quê?
— São 23hs agora! A estação de Shibuya fica a 45min daqui... Não pode ser só coincidência, Fran!
— Acha mesmo que eu devia ir até a estação?
— Mal não vai fazer – ela respondeu e fiquei em silêncio, parada, tentando raciocinar. – O que está esperando, Fran? Corre!
Com o susto do grito da outra, me levantei com um salto, coloquei um par de pantufas e saí correndo pela porta. Só na metade do caminho fui notar que ainda estava usando pijamas. A rua estava quase vazia àquela hora da noite e as poucas pessoas que me viram correr não prestaram atenção ao que eu vestia...
Minha respiração era quase inexistente quando alcancei a estação. A entrada estava entupida de pessoas indo para casa depois do trabalho, achei mais fácil buscar outra passagem. Dei meia volta e encontrei a saída do metrô.
Para aquele horário era incomum que houvesse tantas pessoas voltando do trabalho. Eu tinha muita sorte mesmo.
— Sumimasen! – empurrei as pessoas que corriam na direção contrária a minha.
— Olhe por onde anda, garota! – um homem apressado gritou em minha direção.
— Sumimasen! – gritei em sua direção.
Meus pés chegaram ao piso subterrâneo e eu olhei em volta, buscando algum rosto conhecido. Buscando pelo rosto de Akiya...
O relógio marcou 23hs44min. Entrei em estado de desespero. Meus olhos correram por todo o lugar, tentando encontrar os traços tão característicos do guitarrista que eu tanto adorava...
Meu coração falhou uma batida quando eu o vi, parado em frente à linha amarela do trem. Perdi os segundos olhando-o, podia olhá-lo por várias horas, mesmo ele estando paradinho ali, olhando para o nada... Naquele meio segundo que se passou, lembrei porque eu estava ali? Aquele monumento nipônico ia fazer uma grande besteira!
Corri até a porta da plataforma, no mesmo segundo que Akiya deu um passo para frente. Segurei a respiração e me lembrei: meu sonho acabava antes de eu alcançá-lo... O sonho tinha me dado a certeza de que eu chegaria, só não tinha deixado claro se seria a tempo!
Pensamentos positivos, Franciele! Vai te ajudar de verdade!
Fechei os olhos, estendendo o braço em direção ao guitarrista com desejos suicidas. Senti meus dedos tocarem algo duro e, sem pensar duas vezes, apertei-o contra a palma de minha mão. Era seu ombro. Alcancei-o.
— Seja lá o que você for fazer, não faça! – supliquei antes que ele se virasse de frente para me encarar.
— O quê?
— Akiya-senpai... Onegai shimasu... Não pule...
— Como você...? De onde você...? Que é você? – sua expressão dizia que ele não sabia qual pergunta era mais urgente.
— Eu só vim pedir que não pule... – repeti como um disco riscado. Não estava raciocinando direito.
Suas mãos envolveram meus ombros de forma quase gentil (era impossível se mover com gentileza na multidão que se locomovia em direção ao trem) e me sacudiu, talvez na esperança de que eu saísse do transe. Pela primeira vez, encarei seus olhos e notei que ele estava chorando.
— Como você sabia que eu ia pular? – foi a única coisa que Akiya perguntou.
— Eu... Não sei explicar direito... Eu o vi em um sonho e resolvi vir aqui, apenas para confirmar se era verdade...
O japonês me encarou desconfiado. De fato, eu devia parecer louca, de pijamas, pantufas e aquele papo louco. Como eu podia explicar aquela loucura pra ele se nem eu mesma entendia o que acontecia?
— Um sonho, é? – ele disse ainda meio confuso, deslizando as mãos pelo cabelo. – Desculpe-me tê-la tirado da cama...
Ele estava me pedindo desculpas? Se não fosse aquela carinha triste diante de meus olhos, eu estaria rindo.
— Não... Não precisa se desculpar não – murmurei e inconscientemente levei a mão a sua face de detalhes delicados. Há quanto tempo eu não sonhava em tocá-lo? – Só me diga o porquê... Por que ia fazer isso?
Seus olhos desceram até seus pés e ele observou minhas pantufas do Taz por algum tempo antes de começar a falar.
— Guitarra é a minha vida... Sem isso, o que é que eu vou fazer? Eu entrei em desespero e... Foi a solução que me ocorreu... Sei que parece idiota, mas eu sou realmente lento para arranjar soluções melhores...– Akiya terminou e levantou seus lindos olhos para mim. – Gomen, estou aqui falando e você... Você provavelmente tem planos de voltar para cama, não é?
— Ah... Não precisa se preocupar comigo... – acariciei seu rosto novamente. Eu já estava parecendo louca mesmo, merecia alguma recompensa!
— Acho que me preocupar com você é o mínimo que poderia fazer... – ele disse naquela voz kawaii e eu estremeci da cabeça aos pés, corando.
— Akiya-san – pronunciei seu nome sem aquele temos que me acometera na hora de dormi pela primeira vez. – Onegai... Onegai, não pense mais em se matar... Você sempre terá sua música e deve viver por ela. Onegai shimasu!
Ele não falou nada naqueles minutos que se seguiram Apenas ficou me encarando, Talvez pensasse que eu era doida e estivesse buscando a rota de fuga mais acessível. Por via das dúvidas, afastei Akiya da linha de metrô. Meu coração ainda estava acelerado naquele momento.
— Hey, senhorita...
— Franciele – respondi e mentalmente estava rindo. Ele não sabia meu nome ainda...
— Senhorita Franciele... – ele repetiu mais para si mesmo do que para mim. – Aceita... Tomar um café ou uma coisa do gênero? Comigo?
Já chega! Era sonho! Eu só podia estar dormindo de novo! Ou estava doida de vez! Um dos dois era o mais aceitável do que pensar que aquilo estava realmente acontecendo... Akiya-senpai estava mesmo me convidando para tomar um “café ou uma coisa do gênero”? Àquela hora da noite? Naquelas circunstâncias? Não, eu não era tão ingênua...
— Não entenda mal... Quero... Agradecer... Minha milagrosa salvadora... Sabe?
— Hum... Tomar café? – repeti incrédula e ele riu. Eu devia estar com a pior das caras engraçadas, devia estar super abobada. Droga!
— É sim – Akiya continuou. Parecia estar confuso tanto quanto eu. – E você poderia me explicar melhor esse papo de sonho... O que acha?
— Mas... – murmurei baixinho. – Você nem me conhece... – Tentei argumentar racionalmente. É, até mesmo nessas horas em que não se deve ser racional, eu sou...
— Você está enganada... – ele impediu que eu dissesse mais alguma coisa, repousando o dedo indicador sobre meus lábios. – Eu acho... Que a conheço sim...
— Conhece? – perguntei surpresa com aquela revelação.
— Aham... – seu sorriso doce se abriu pra mim quando ele segurou a minha mão com a dele para andarmos para fora da estação. – Acredito que já nos vimos... Em um antigo sonho... Que eu tive uma vez...
Fale com o autor