Notas iniciais
Boa leitura!

" A noite, tenho que estar pronta "

Era isso que ocupava a mente de Amaya naquela tarde, teve uma manhã cheia de preparativos para o dia seguinte, dia do encontro, o qual ela já não estaria ali. Agora era seu tempo livre, melhor momento para passear por toda a vila Water e se despedir em segredo de cada canto e cada rosto familiar. Talvez ela voltasse algum dia, quando tiverem desistido dessa bobeira de casamento.

— Amaya, querida! — uma senhora com um grande cesto de maçãs chamava — Venha me ajudar a levar essas maçãs pra casa!

— Senhora Rosel! — Amaya sorri e corre ao encontro dela — Faz tempo que não vejo a senhora.. Como se atreve a carregar algo tão pesado? Seus joelhos ainda não devem ter melhorado!

Ela pega o cesto e carrega até uma casa próxima, conversando com Rosel.

— Pra uma garota você é muito forte — afirma a senhora enquanto senta num sofá da sala — Deixe em cima da mesa, obrigada pela ajuda!

— Por nada.. Sempre peça ajuda a alguém, a senhora não pode fazer força, irá se machucar de novo! — balança a cabeça desapontada

— Oh! Querida, ninguém te contou? Os medicamentos que você preparou já fizeram efeito..

Amaya era muito boa com ervas medicinais e sabia como aliviar dores no corpo, afinal seu pai era farmacêutico na vila e tinha ensinado a ela tudo o que sabia, antes de morrer.

— Algumas pomadinhas não vão te curar completamente, elas apenas aliviam a dor — explica preocupada — Bom, tenho que ir, cuide-se senhora Rosel!

Rosel se despede, mas antes de Amaya ir embora ela lhe presenteia várias maçãs. Enquanto Amaya passeava pela vila, conversava com várias pessoas, parte delas ela estava tratando com seus medicamentos. Era a "médica" favorita de todos, crianças e idosos. Seria difícil viver sem essas pessoas, longe da vila e ainda sozinha, sem poder contar com ninguém lá fora.

A noite Amaya espera que todos vão dormir enquanto se prepara psicologicamente para sua fuga, após conferir o corredor inúmeras vezes e ter certeza de não ouvir passos ela abre sua mochila e confere o que há dentro: outra muda de roupa, as maçãs que ganhara e uma corda grossa e longa o suficiente para descer pela janela do seu quarto.

Respira fundo e sente a agitação tomar conta do seu corpo, amarra a corda com um nó forte e se desliza com cuidado para não fazer ruído, agora vinha o maior desafio, passar pelos portões da vila, observa e não vê guardas, devem estar fazendo a ronda e logo chegariam. Pega impulso e dá um salto, mas apenas consegue jogar sua mochila por cima do portão, ela aterrissa no chão e se transforma em uma poça de água, passa por debaixo do portão e volta a sua forma normal. Era um truque simples que todos da vila faziam mas precisava de muita concentração. Pega sua mochila e segue pelo curso do rio. Pronto! Fuga feita, agora era só ir o mais longe possível para que ninguém a alcance.

"Me perdoe Helena, você é minha amiga mas não pude confiar este segredo a você " .

O Sol começava a surgir, mostrando ao horizonte uma extensa floresta,a qual o rio adentrava. Amaya avista uma casa solitária em meio à plantação um pouco antes da floresta, cogita em perguntar onde é a cidade mais próxima se encontrar alguém por lá. Seu corpo estava cansado, tinha andado a noite toda, porém o medo de ser alcançada de manhã por alguém da sua vila não lhe deixou parar, também estava insegura, nunca tinha fugido de casa antes, o que deveria fazer a seguir?

Avistou um senhorzinho cuidando de algumas flores.

— Olá. Com licença, o senhor sabe aonde fica a cidade mais próxima?

O homem direciona o olhar para a moça e arregala seus olhinhos enrugados como se estivesse surpreso, vai desfazendo sua expressão bizarra em câmera lenta.

— Oh Ho-ho, uma criança com mechas azuis no cabelo!

Amaya franzia a testa, seus cabelos eram negros não azuis, observa as mechas da sua franja, algumas estavam azuladas.

— M-Mas o que é isso?! — agora ela era a surpreendida

— Então é isso — o velho coça o queixo — Uma prodígio..

— Como sabe disso?

— Ora essa, em todos os Clãs nascem prodígios. No do Vento, do Raio.. Bom, isso não importa. — desconversou — O que quer mocinha? Parece cansada.

— Ah sim, aonde fica a cidade mais próxima?

— Se você seguir o curso do rio floresta adentro encontrará minha esposa..

Cada vez mais o velhinho parecia caducar, Amaya se perguntava se era ela que estava tão cansada que entendia tudo errado.

— Perdão mas, e a cidade? O que sua esposa tem a ver com isso?

— Ahh sim.. Tem um portão lá, deve ser a entrada de alguma vila, minha esposa deve estar naquele lugar! Se você a encontrar diga que ela volte logo, estou morrendo de fome..

— Bom, é só seguir o curso do rio, né? Obrigada, tchau!

" Que conversa de louco, talvez eu que esteja com fome "

Amaya adentrou a floresta seguindo o curso do rio, estranhou já haver uma trilha pelo mesmo caminho que tinha que passar mas continuou. Chegou frente a um enorme portão coberto de musgos e ele se abriu instantaneamente.

— Tem alguém aí? — ela adentra o portão devagar e ele se fecha.

Tinha um corredor à sua frente, no final dele se ouvia vozes.

— Deixe-me sair dona! Ou pelo menos devolva minhas coisas!

— Não, terá que atravessar este lugar e sair com vida, não se volta pela porta de entrada! — alguém estava brava.

Amaya vai se aproximando aos poucos, tentando entender a situação até que é descoberta. A velha a olha fixamente, e diz se dirigindo tanto ao rapaz quanto a ela:

— Aí está! Em dois é mais fácil sobreviver! — se dirige ao portão pelo qual Amaya acabara de entrar — É melhor eu ir crianças, ele deve estar faminto.

O rosto do senhorzinho caduco apareceu na mente de Amaya, seria aquela senhora sua esposa? Quando ela volta a si a mulher já tinha saído pelo portão, observa o ambiente, não vê nada além de paredes com musgos e velas acesas iluminando fracamente. Lhe bate o desespero, aquilo definitivamente não era nenhuma vila, empurra o portão, uma tentativa vã de sair dali.

— Nem tente. Só ela pode sair por ali. — diz o rapaz

— Quem é você? — sua voz parece desconfiada

— Não importa pra você. E você?

— Não digo meu nome pra um desconhecido..- retruca.

Antes mesmo de perceber os dois já estavam brigando, nem mesmo sabendo o nome um do outro.

— Quer saber? Sua voz é irritante! — bravejou

— E daí? Você que é esquisito! — a visão de Amaya fica nublada e suas pernas falham, ela cai. Lembrou que está sem comer nada faz tempo.

— E-ei. Você tá viva, né? — pergunta o rapaz enquanto Amaya apenas abre sua mochila e começa a morder algumas maçãs.

"Groah" o estômago dele começa a roncar.

— Toma. Tenho várias. — ela estende uma maçã pra ele, que se aproxima para pegar.

Uma mecha a mais fica azulada na franja de Amaya, ela se assusta e observa o rapaz para saber se ele fez algo. Impossível, ele nem percebeu, mastigava sua maçã de olhos fechados e alegre.

" Afinal, quem é você? "