Firebird
1 Origem - Parte 1
Notas iniciais
22 de agosto de 2017
Ela estava observando, através da janela do apartamento de seus pais, as poucas estrelas localizadas no céu de São Paulo, e ao longe podia encontrar o tão incrível Obelisco do Ibirapuera. Esteve pensando quando veria este vasto preto novamente, e quando veria aquelas pessoas que considera como família: Samuel, Paula, Fernando e os irmãos Luísa e Lucas.
Seu Lucas.
Não veria o tão querido gêmeo de sua melhor amiga, nenhum deles. Não gostava de pensar no negativo, de ser pessimista, mas não poderia evitar. Estava triste por não poder encontrar sua turma, aqueles que considerava muito no colégio. Era dolorido para a menina.
Abaixou o rosto para observar o parquinho do seu prédio, o que lhe retomou a belas lembranças. Riu. Sentiria falta daquele lugar também, do porteiro contador de piadas, Seu Antônio, da vizinha fofoqueira que sempre brigava com ela e seu irmão, Dona Silvana, e, principalmente, da sua avó materna, Sônia. Não residem o mesmo condomínio, mas num próximo. Ouvia as histórias do tempo em que Vovó Sônia era adolescente, na época da inauguração da televisão brasileira. Dizia que não possuía tantos edifícios como são hoje e muitas lojas e centros comerciais não eram tão fortes como nos dias atuais. Mas a mais encantadora para a neta era como sua avó e seu avô se conheceram. Na igreja, no segundo catecismo* deles. Ela com 13 e ele com 14, e nenhum deles gostava muito de religião, mas algumas normas do Catolicismo eram compartilhados, como “até que a morte os separe”...
De repente, viu uma luz forte refletindo a parede do prédio. Afastou e olhou para seu busto, e também estava refletindo a tal luz. Pensou que vinha do céu e decidiu voltar a olhar para cima. Deparou com uma estranha e grande bola laranja vindo em sua direção, e estava perto demais para fugir. Por isso, começou a gritar de pavor.
…
— GABRIELLE!!!
A assustada e sonolenta menina acordou suando e respirando forte, ainda atônica com o que viu. Olhou para a direita e encarou o mundo escuro de cima pela pequena janela do avião. Olhou para a esquerda e observou diversas caras fechadas e pouco carismáticas. Pareciam zangados, e ela não sabiam o porquê.
— Não fique acordando as pessoas assim, Gabrielle-Marie! — ouviu uma voz familiar ao seu lado.
Era sua mãe. E, pelo que parecia, estava muito brava e com olheiras. Logo após isso, virou seu rosto para o lado e tentou dormir novamente. E a garota via que o restante do pessoal acordado por seus gritos também fazia.
“Foi um sonho!”, e com isso, voltou a dormir.
…
Gabrielle arrastava a sua mala vermelha de plástico, seguindo seus pais e sendo seguida pelo seu irmão, sendo que cada um carregava a sua bagagem de mão. Não estava com todas as suas malas, pois a companhia aérea entregará o restante em duas semanas.
O aeroporto em que estão é grande, e a moça pensou que seus pais não iriam achar um modo de sair de lá e conseguir chegar até o seu destino, e ficou feliz por estar errada. Percebeu que andou bem negativa nos últimos dias por conta da mudança. Gostava do pessimismo de Brás Cubas, mas não o seu.
Ao adentrarem no automóvel amarelo com placa branca escrito “taxi” de vermelho em cima, seu pai deu as coordenadas do local em que queriam chegar para o motorista, e partiram até seu destino. Enquanto o táxi seguia naquele dia ensolarado, Gabrielle olhou para a janela a sua direita e encarou o grande monumento que representa todo aquele lugar, Torre Eiffel.
— É grande! — ouviu seu irmão menor dizer, que sentava no meio do banco de trás, entre a sua mãe e sua irmã.
— É sim, filho! — confirmou seu pai, sentado no banco do passageiro e observava o mesmo monumento. — E você morará a partir de hoje nesta bela cidade.
— O Anjinho na Cidade dos Anjos! — ironizou com um sorriso, olhando para o mais novo.
Victor ficou bravo e, por isso, fez a sua irmã rir. Sempre diz que ele assemelha ao Anjinho da Turma da Mônica porque possui os mesmo olhos azuis e cabelos louros encaracolados curto, como o próprio personagem.
— Não é “Cidade dos Anjos”, Cara Pintada. — rebateu chamando-a pelo apelido por conta das sardas no nariz e nas bochechas, e passou a ignorar a irmã pelo resto da viagem, porém Gabrielle não se importou com isso.
…
Enquanto seu pai pagava o táxi, os três pararam em frente a um conjunto de casas. Era estranho para uma família de brasileiros encontrar este tipo de residência. Parecia pequeno demais para morarem.
— É aqui, Victor? — sua esposa perguntava, enquanto observava a rua para ver se não era outra casa.
— Rue Olivier de Serres, nº23. É sim, Sandra. — confirmou, encarando a residência. — Não se preocupe! É maior do que pensa.
Retirou a chave do bolso de sua calça jeans azul e aproximou da porta e destrancou-a. Abriu e os quatro encararam o local. O espaço é pequeno para eles, realmente, mas viram que havia uma escada e, pelo que observaram na fachada de casa, tinhas uns quatro andares. Já tinha móveis, pois fizeram o financiamento com antecedência.
— O francês da família é você, pai. — Gabrielle disse, entrando primeiro na casa e posicionando-se com sua mala em frente à porta de entrada.
— Você também é, — Victor falou, entrando com a sua mala azul, branca e vermelha e parando ao lado da filha. — e o seu irmão também. Vocês têm cidadania francesa desde pequenos. A sua mãe que precisou de mais tempo para conseguir permissão para morar aqui.
Encarou a filha, que olhava para a nova casa com uma expressão séria. Sabia que estava brava, pois o natural é ver o sorriso largo da menina, até quando não estava nos melhores dias. Para tirar a frieza da primogênita, perguntou:
— Como está as aventuras de Cupá?
Então, como num passe de mágica, Gabrielle riu e mirou os seus olhos verdes aos olhos azuis do pai, e abriu mais o sorriso por ele lembrar da história que ela estava escrevendo.
— Está boa, pai.
Ela gostava da relação que tem com o seu pai, que sempre a influenciou na leitura e escrita, e por muito tempo foi a melhor aluna de Literatura de seu colégio e que agora carrega o sonho de ser escritora.
— Victor Hugo de Almeida Bourguignon, pare! — Sandra gritou, e Gabrielle e seu pai encararam-na confusos.
Victor Hugo, o caçula, estava segurando uma cartola nas mãos e tanto o chão quanto a sua mãe tinha confeitos, enquanto o menino ria os pequenos papéis coloridos presos nos cabelos castanhos encaracolados da mãe, que parecia brava.
— Parece que estamos em casa. — Gabrielle sussurra perto do seu pai, e ambos riram.
…
4 de setembro de 2017
Num céu totalmente aberto, amanhece na cidade de Paris, a tão conhecida Cidade Luz, que, por ironia, apagava as luzes elétricas dos monumentos e museus, bem como as lâmpadas das ruas. Abriam as lojas de roupas, as padarias e as bancas de jornais. Os restaurantes já estavam preparado a comida para ficar pronta na hora do almoço. Podia sentir o cheiro de café francês em várias partes da cidade, e já haviam turista parados da Torre Eiffel e no Arco do Triunfo, assim como pessoas fazendo juras de amor e colocando cadeados na Pont des Arts e jogando as chaves no Rio Sena.
Na casa 23 da Rue Olivier de Serres, já podia escutar da costumeira discussão entre Sandra e sua filha, durante o café preparado pela mais velha, enquanto Victor Pai e Victor Filho observam sem fazer nada pois estavam acostumados. Em vez disso, Victor Hugo assoava o nariz e o pai cuidava dele.
— Você não vai sair daqui! — Sandra gritou, encarando Gabrielle para baixo por ser mais alta.
— Eu vou sim! Este não é o meu país! Eu pretendo me formar em Letras no Brasil.
— Existe tanto coisa linda neste lugar e quer voltar? — a mãe perguntou indignada, pois não compreendia a filha rebelde.
Então a menina decidiu subir as escadas até o terceiro andar, onde fica o seu quarto, enquanto ouvia as reclamações da mãe de como Gabrielle está se tornando difícil de conviver. Sabia que conversar com sua mãe não funcionaria.
Chegou num quarto branco e relativamente grande para uma pessoa, com uma janela na parede oposta à da porta com uma escrivaninha e um notebook preto fechado. Havia um armário do seu lado direito, que estava aberto com um espelho colado na sua porta, e que dentro dela tinha as roupas da menina, porém não todas já que todas as suas roupas não tinham chegado. Havia também uma cama na parede do seu lado esquerdo e em cima dela estava a sua mochila amarela e azul.
Como teria que ir para a escola e ainda estava de pijama, trocou-se brevemente e se olhou no espelho. Vestida com a camiseta uniformizada do novo colégio; calça jeans capri azul e sapatilhas claras, notou também mais um detalhe, que talvez já soubesse a um tempo: não parecia com ninguém da sua família. Nenhum deles tinha olhos verdes e grandes e o cabelo não era o mesmo, como também o formato do nariz e da boca. Seu irmão era mais parecido com os pais, tinha os cabelos louros e olhos azuis como o pai, e os traços mais parecidos com o dele, e, ao mesmo tempo, tinha o cabelo encaracolado da mãe. O único traço que ela podia afirmar que herdou de alguém era as sardas de Sandra. Seu cabelo não era o encaracolado da mãe, nem o liso do pai. Era o meio termo, assim como o formato do nariz e da boca. E esse meio termo refletia no seu caráter de brasileira miscigenada.
Ao pegar a sua mochila, desceu e encarou a família sentada na mesa. Sandra e Victor cuidavam do filho mais novo, que parecia doente, e Gabrielle se preocupou.
— Está bem?
Os três enfim encararam-na. Victor Pai levantou-se e aproximou da filha.
— Venha. Eu levarei você para o colégio.
— Mas e o Victor? — perguntou caminhando até a porta.
— Ele vai ficar em casa. Sua mãe deu os medicamentos e o Victor ficará bem. — respondeu.
Os dois saíram e seguiram em direção ao colégio a pé, pois não era tão longe, o que era curioso para Gabrielle. Tudo era perto. Lojas, restaurantes, museus, escolas, arranha-céus… Paris não é grande como São Paulo.
Enquanto caminhavam, estavam quietos até a filha quebrar o silêncio.
— Não precisa me levar para a escola, pai. Eu tenho 16 anos.
— Eu quero levá-la, Gabrielle. — Victor respondeu, e a primogênita abaixou a cabeça. Continuou: — Você tem que entender a sua mãe...
— EU?! Ela que não me entende! — cortou a fala do pai e encarando-o, irritada. — Esqueceu que é meu sonho me formar em Letras na USP? Fazer a história do meu país? Pai, eu não sou francesa, não sou filha da França. Sou filha do Brasil. — disse com orgulho.
— Gabrielle, não deixe que este receio domine você. — o pai tentou parecer calmo ao falar. Sabia que não adiantaria responder igual. — Você não é filha do Brasil. É filha do Mundo. Qualquer lugar pode ser seu lar.
Gabrielle parou de andar e passou a olhar para o chão. Visto isso, Victor também parou. Como ele agia desta forma mesmo com o temperamento dela?
— Gabrielle, — seu pai disse, e a filha encarou-o. — eu já passei por isso. Quando me mudei para aquele estranho país que pulam sete ondas no ano novo e tem Carnaval todos os fevereiros. Mas eu aprendi a amá-lo, e você também pode.
Gabrielle levantou a cabeça para encará-lo. Era bem mais alto que ela.
— Não sei. — voltou a olhar para o chão.
— Mas eu sei. — sorriu abertamente, e a filha voltar a encará-lo. — Você tem um coração tão grande. Dê uma chance.
Gabrielle sorriu. Seu pai estava certo. Pode amar a nova nação que estava morando. Apenas tem que conhecê-la.
Seguindo o caminho, os dois chegam ao grande prédio de construção arcaica com grafias escrito Collège Le Chateaubriand.
Gabrielle observava o novo colégio com surpresa e emoção. Em Paris, apesar de menor que São Paulo, possui grandes prédios e arranhas-céus. Pode ser essa a grande beleza da cidade, mas a brasileira ainda sentia falta de Sua Cidade.
— Bem, — disse o pai, cortando o clima de silêncio. Gabrielle o encara. — parece que nos despedirmos daqui. — deu um beijo na testa da filha. — Adeus, minha futura Clarice Lispector!
Gabrielle ri e acena para o pai, e seguem os dois em caminhos opostos.
Ao entrar no colégio, tocou o sinal que indicava o início das aulas. Isso a desesperou, pois não sabia onde ficava a sala de aula. Não sabia como funcionava o sistema de ensino da França, e isso dificultava a nova aluna. Com corredores cheios, apressou-se para encontrar a sala 25, do segundo ano. Depois disse, Gabrielle apenas lembra de folhas no alto que desciam pela gravidade e uma forte dor na sua cabeça até cair no chão.
— EI! OLHA PARA A FRENTE!
Enfim Gabrielle encarou o seu a sua frente, também caído no chão e segurando a cabeça pela pancada que levaram um do outro. Era um adolescente como ela, que tinha olhos azuis escuros e bravos e o cabelo preto escorrido até o ombro, além de ser muito branco aos olhos de Gabrielle, quase como a neve, e tinha características de um branco europeu, como o nariz e lábios mais finos. Pressupôs que fosse aluno pelo uniforme como o dela.
Notou que gritou com ela num idioma diferente: o francês**. Gabrielle estudou francês desde os 5 anos, além de conversar às vezes em casa com o seu pai, e por isso conseguiu compreender. Teria que falar em francês com as outras pessoas para ser entendida.
— VOCÊ QUE NÃO OLHOU PARA FRENTE!
O rosto do adolescente suavizou, entregando o semblante de dúvida, porém retornou a de raiva.
— QUE LEGAL! AGORA UMA IMIGRANTE QUER ATRAPALHAR MEUS ESTUDOS! — levantou, pegou o resto da papelada, enquanto os outros alunos assistiam a cena. — NÃO ATRAPALHE, ESQUISITA! — e foi embora no sentido contrário.
Gabrielle ficou sem fala, absorvendo o que tinha acontecido, e uma coisa a deixou indignada.
“Ele me chamou de ‘imigrante’!?”
Olhou ao redor, e viu um tumulto a sua volta, o que a deixou constrangida. Levantou depressa e continuou a sua busca pela sala 25. Agradeceu a Deus por encontrá-la.
A classe era diferente, comparada a do Brasil: eram três fileiras de mesas para os alunos e a central, em frente à lousa, para o professor. As mesas eram grandes, pareciam para duas pessoas, distinguindo-se das que estudava antes, além de serem expostas em escada. As cores das paredes eram num tom de branco com amarelo, com uma grande janela em frente à porta.
A classe estava meio cheia, então se pôs num lugar que parecia apropriada para assistir a aula: na segunda carteira da fileira do meio, sozinha.
Sentia os olhares curiosos, que a incomodavam. E com o passar do tempo, mais olhares estranhos, e com a angústia de lidar com os assustadores globos oculares, fechou os seus olhos e esperou até alguém chamá-la:
— Ei! Eu sento aqui, Imigrante!
Gabrielle abriu os olhos e encarou o mesmo adolescente com o que esbarrou pouco antes. Sem paciência, levantou-se e disse:
— Tente me tirar, Conde Drácula!
Ouvia-se murmúrios, e Gabrielle olhou para os lados. Sentindo-se envergonhada, sentou novamente e abaixou a cabeça, desejando voltar para São Paulo.
— Deveraux, não implique com a aluna nova!
Ambos ficaram surpresos pela ordem da professora, já presente na frente da sala. O cabelo ruivo estava preso num coque baixo e os olhos castanhos expressavam desgosto da discussão, mas logo suavizou e encarou a menina.
— Bem, muito prazer e bem-vinda ao Colégio Le Chateaubriand. — sorriu para Gabrielle, que mantinha o semblante de surpresa. — Gostaria de saber o seu nome e de onde veio, por favor.
Gabrielle piscou duas vezes e depois encarou o restante da turma. Um pouco nervosa, inspirou lentamente, expirou, e, quando percebeu que estava mais calma, respondeu:
— Eu me chamo Gabrielle-Marie de Almeida Bourguignon.
A professora arqueou a sobrancelha, parecendo curiosa.
— Almeida? Que sobrenome interessante! Você é portuguesa?
A menina balançou a cabeça.
— Não. É que é comum no meu país as pessoas possuírem um sobrenome português.
— E de onde você veio?
— Brasil.
Ouviu sussurros e Gabrielle encarou os lados, percebendo que os seus colegas estavam olhando-a de forma surpresa. Perguntou-se se ninguém tinha visto uma brasileira perto deles. Sentiu-se novamente como uma ovelha negra no meio das brancas.
— Nossa! É a primeira vez que eu encontro uma brasileira. — a professora falou, alargando ainda mais o sorriso. — Bem, retorne ao seu lugar, pois começaremos a aula. — quando ia abrir o livro que estava na sua mesa, lembrou. — Ah! Sou a professora de literatura e eu me chamo Charlotte Chantrell, mas peço que me chame de Srta. Chantrell
— Mas onde eu ficarei? — perguntou o menino ao lado dela, enquanto a brasileira se posicionava para sentar.
— O senhor sentará ao lado da nova aluna, sem discussão.
Ambos ficaram chocados, pois nenhum deles queria ficar junto. Porém, nenhum deles podiam fazer nada, exceto aceitar o fato que ficarão lado a lado durante o ano letivo.
…
Victor, após retornar a sua casa, deu um remédio para o seu filho, que estava em seu quarto, de cama. Sandra estava preparada para encarar o primeiro dia no novo emprego: repórter junto ao seu marido. Por muito tempo os dois trabalhavam juntos, porém era a primeira vez no novo país, e estava ansiosa. Mas a companhia do seu Victor a deixava mais calma e confiante. Sente todos os dias a felicidade de ter casado com o francês.
Preparados, despediram-se de seu filho e partiram rumo ao estúdio de TV.
…
Após o término da aula, que foi bom na opinião da brasileira, apesar de conviver com o colega. A troca de aula garantiu um tempo para o menino se afastar, e Gabrielle agradeceu mentalmente, tendo um tempo de paz, e aconchegou a sua cabeça na mesa para descansar.
— Olá!
Levantou rapidamente o rosto, querendo xingar a pessoa que a incomodou no momento de descanso dela, porém ao encarar um rosto simpático, calou-se.
— Você é Gabrielle, certo?
Gabrielle acenou com a cabeça, contudo estava prestando na fisionomia da pessoa: Era uma menina negra e sustentava uma grande cabeleira black power. Possuía a camisa com o brasão do colégio e as calças jeans preta com uma sapatilha de mesma cor. Tinha olhos escuros, sardas na região do nariz e um grande sorriso, que chamou mais atenção.
— Você não me acha estranha como os outros?
A colega estranhou, mas logo riu.
— Olha, estou acostumada com estranhos. No ano retrasado tinha entrado uma menina que era filha de americanos e sonhava em ser uma artista da Broadway cheia de prêmios e dizia que iria usá-los para esfregar na cara dos invejosos.
— E onde ela está?
— Está conversando com você neste momento. Prazer, Tara Jonhson! — respondeu esticando o braço como forma de cumprimento
Gabrielle riu, e apertou a mão de sua nova colega.
— Olha, o Simon não costuma ser um cara muito humorado ou simpático...
Gabrielle interrompeu, curiosa.
— Quem?
— O menino que senta ao seu lado, Simon Deveraux. — Gabrielle bufou, lembrando do colega, e Tara não queria deixar a nova amiga com cara fechada. — É verdade que você veio do Brasil?
— Sim, — respondeu. — mas o meu pai é francês e ele queria muito voltar para a sua terra natal.
— E como é lá, o Brasil?
E com isso, iniciou o que Gabrielle não esperava que ia acontecer, e isso a deixava mais feliz, lembrando vagamente do que o pai dissera sobre aproveitar o que a França tinha a oferecer, assim como o mundo.
…
— Tem certeza que é aqui? Tinha dito antes que era num outro lugar.
— É aqui sim, eu sei.
As duas aves avermelhadas voavam sobre o céu parisiense, enquanto visualizaram o chão em busca de algo. A ave fêmea, que tinha um tom mais claro que o seu parceiro e carregava um colar de coração em seu pescoço, não confiava nos instintos da ave macho.
— Bibi, você disse que era aquele lugar e de repente diz que é aqui. Eu acho que está enganado.
— Não estou, Vivi. Eu sinto que é aqui. Não confia em mim, meu amor?
A fêmea não respondeu pelo fato de lembrar dos vários momentos que Bibi se enganou. Seu marido costumava ser atrapalhado e não acertava com frequência, porém Vivi não possuía o poder de identificação como ele, e então não podia fazer nada.
Bibi ficou decepcionado com a falta de resposta da sua amada, e ia responder, porém algo passou próximo de seu rosto e sentiu vontade de espirrar, e quando aconteceu, perdeu o equilíbrio e acabou caindo.
Vivi, sem perceber, continuou voando. Passados 2 minutos voando, perguntou:
— Bibi, qual é o lado que devemos ir?
Passou um tempo e não recebeu a resposta. Assim, notou que Bibi não estava ao seu lado, e começou a procurá-lo.
…
A ave caiu numa residência tipicamente francesa, numa janela aberta a qual por dentro era uma sala de estar. Bibi bateu a cabeça na porta do cômodo, que o deixou inconsciente, porém antes liberou uma pequena bola de fogo do bico, e dessa pequena bola queimou o tapete, e depois os móveis, depois a cozinha, e depois as escadas, aproximando do quarto a qual residia um menino dormindo com o nariz escorrendo que não conseguiu sentir o cheiro.
…
No meio da tarde, terminou enfim a última aula no Collège Le Chateaubriand, Gabrielle saiu rapidamente e foi andando até a sua casa. Embora não tenha gostado da convivência do tal Simon Deveraux, achou que a Tara era uma bela colega e que no futuro seja a sua primeira amiga, sem comentar que a Srta. Chantrell era uma ótima professora, e sentia que aprenderá várias coisas com ela.
Andava tranquilamente pensando em o que comer quando chegasse a sua residência, e depois começaria a fazer as tarefas escolares, porém esses pensamentos foram interrompidos quando viu fumaça preta e, na sequência, vários carros do corpo de bombeiros e viaturas de polícias, em direção a rua da sua casa. Temendo o pior, começou a correr até a sua casa.
…
Sandra e Victor estavam tomando café do estúdio e entretidos na costumeira conversa do casal. Não obstante, foram abordados pela nova colega que auxiliava na trabalho deles, Amy Jonhson.
— Sandra de Almeida e Victor Louis Bourguignon, — chamou-os, e eles viraram para ela. — tenho um novo trabalho para vocês. Está acontecendo um incêndio forte, e o chefe mandou que vocês fossem reportar o local.
— Pois bem, e onde é? — perguntou Victor, terminando de tomar o café para se preparar, enquanto Sandra pegava a câmera e o microfone.
Amy leu a mensagem do chefe, no seu celular.
— Rue Olivier de Serres, nº23.
— COMO?!
…
Gabrielle chegou.
O fogo invadia as residências ao lado, porém não com tanto força como na sua. As janelas estavam quebradas pelas chamas a qual quase cobria a casa como um centro flamejante. Percebeu a presença de várias mangueiras dos bombeiros, os policiais parisienses e a cena era assistida por várias pessoas preocupadas e horrorizadas.
Sem pensar, largou a mochila no chão, correu e esgueirou por entre as pessoas, para chegar até seu lar, mas foi impedida por um guarda.
— Não pode passar daqui. — alertou.
— O-o senhor não-o entende. — Gabrielle balbuciou, tentando racionar apesar do desespero tomando conta de si. — Meu irmãozinho está aí.
— Ouça, não foi visto ninguém e nem ouvido nenhuma voz….
O argumento do guarda foi interrompido por um grito de socorro, vindo da residência.
“Victor”.
A brasileira ultrapassou o rapaz por ele ter distraído com o pedido de ajuda, correu até entrar na casa. Foi seguida pelos bombeiros.
— Meu irmão não vai morrer pela negligência de vocês. — disse, antes do fogo tomar forma e ela desaparecer dentro do lar.
Gabrielle enxergou o vermelhidão distorcia as imagens da casa, não via com exatidão. Faltava ar nos pulmões e começou a tossir, a ausência de oxigênio afetava as pernas ao subir as escadas, sentia o calor das chamas arder em seu corpo como se tivesse jogado litros de álcool no corpo ferido dela, e seu esforço de escapar de objetos queimados pelo caminho aumentava, dificultando ainda mais. Mas não pararia até encontrar Victor.
Ao chegar ao quarto do irmão, viu-o afastando ao máximo das chamas, ao lado de sua cama, e quando a encarou, gritou pelo seu nome. Gabrielle pulou pelas chamas do tapete e socorreu-o o mais rápido possível e o pegou pelo braço e carregou como se tivesse brincando de cavalinho.
Apressou para descer as escadas quentes, tendo o cuidado para não cair. Cogitou em voltar para pegar seus pertences preciosos, como o seu PC, mas não daria tempo.
Quando chegou à sala, no meio do vermelhidão, encarou uma coisa que não viu antes: um pássaro caído no chão, desfalecido. Rapidamente aproximou da ave e o pegou, antes de sair. Repentinamente, um pedaço de madeira grande coberta do fogo se soltou do teto e caiu em direção ao Victor, que notou.
— Cuidado!
Gabrielle se virou, ao notar, para que não pegasse no irmão, e o pedaço caiu em cima de seu braço esquerdo, que a fez bradar de dor. Pensou logo que iria deixar uma marca de queimadura profunda, mas ignorou e pôs-se a correr para fora, vendo imagens já formadas de pessoas e um branquidão das câmeras, porém não tinha mais força para manter-se acordada, e logo desabou no chão de concreto, com o irmão em suas costas e a ave no seu braço esquerdo. Pôde ver que o pássaro acordou e notou o membro queimado com a madeira, e ouvir os gritos de sua mãe.
…
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