Fire And Ice
2 Capítulo 1 - Angel who concealed wound
Notas iniciais
Os dois homens se embrenharam em meio a multidão de jovens que dançavam e se divertiam da forma que queriam por aquele espaço. A maioria já não dispunha de total consciência do que faziam, e nem ao menos notavam a presença dos dois homens, apenas inconscientemente davam espaço para que os mesmos passassem por entre eles. Não podiam vê-los, pelo menos não até que eles quisessem. O moreno acabou por tomar a frente do demônio, se distanciando até encostar-se a uma viga de concreto.
Sua visão ali era o suficiente, conseguia ver bem o demônio e conseguia ver o alvo do mesmo. Não havia nada que pudesse fazer além de rezar por ele, alcançou rapidamente o rosário que trazia no bolso, fazendo sua oração silenciosa. Uruha lançou um olhar ao anjo, ao ver o ato do outro sorriu, era de sua natureza se divertir quando uma alma estava prestes a se perder. Seria a primeira alma que ganharia de Aoi, pelo menos assim achava.
Lá estava ele, seu alvo, debruçado sobre uma mesa pequena, haviam também algumas garrafas sobre a mesa, a maioria delas vazias, apenas aquela garrafa que estava em sua mão continha algo. Havia várias pessoas em volta do rapaz, nenhuma delas dirigia a palavra ao mesmo, apenas riam entre si, algumas tão bêbadas quanto ele, mas não tão perdidas e vulneráveis como aquele rapaz estava. Os olhos fitavam o chão sem interesse, os lábios se entreabriam e por eles saiam palavras desconexas, mas ninguém se importaria com aquele rapaz naquele lugar, mesmo que aqueles que estavam em volta fossem seus amigos.
O demônio estreitou os olhos em direção ao rapaz, se colocando a poucos passos do mesmo, agora entrando no campo de visão, não só do loiro na mesa como de todos os presentes, o que lhe tornava invisível aos humanos agora não mais existia. Havia regras quanto mostrar sua presença aos humanos, regras essas que o loiro respeitava, não podia mostrar sua presença aos humanos durante o dia.
O loiro sorriu calmo, sentando-se em uma cadeira em frente ao outro loiro, a única coisa que separava ambos era a mesa de madeira. Akira era um rapaz magro, pouco mais baixo que o demônio e de olhos misteriosos, olhos esses que agora fitavam o demônio com certo interesse, aliás, não só os olhos de Akira, quanto os de muitos se viraram para o loiro, não havia outro ali tão bonito quanto ele.
– Desculpe, estou um pouco cansado, preciso me sentar. Tudo bem se eu ficar aqui? – A voz mansa de Uruha soou como música nos ouvidos de Suzuki.
– Não se preocupe, pode se sentar. Só não reclame da companhia, não estou nos meus melhores dias. – Akira informou, não conseguindo disfarçar a voz alterada pela quantidade ingerida de bebida.
– Não vou reclamar, prometo. – Uruha falou, olhando Akira com certa malicia nos olhos castanhos, coisa que passou despercebida por Akira. Mas também não podia culpá-lo, depois de tantas garrafas de bebida. – Mas então... – Continuou. – Porque não está nos seus melhores dias?
– É algo que eu não quero contar. – Akira respondeu encostando a cabeça a mesa em frente aos dois, tudo estava girando, havia bebido muito, e sem parar. – Não consigo deixar de sentir como se já te conhecesse. – Akira falou antes de fechar os olhos tentando manter a tontura sobre controle.
– Deve estar alucinando por conta da bebida, nunca te vi antes. – Mentiu o demônio, mas dessa vez olhava o menor com interesse, não havia como ele se lembrar do loiro, devia estar confundindo com outra pessoa, afinal, as memórias sobre as vezes que Uruha tivera que usar sua influencia durante a vida de Akira, eram rapidamente apagadas.
– Não, tenho certeza que já te vi em algum lugar, reconheço sua voz. – O loiro respondeu, deixando o maior desconfiado, não havia como Akira se lembrar do demônio, aquilo definitivamente era o efeito da bebida.
– Não parece estar bem, rapaz. – Uruha falou usando o velho tom calmo, pra logo continuar. – Talvez eu tenha algo que possa te ajudar.
Não houve resposta do menor, Uruha ergueu o cenho em meio ao silêncio. Akira havia dormido. Uruha o olhou surpreso. Como assim Akira iria dormir com ele ali na sua frente? Uruha causava pânico e medo em quem quer que fosse apenas com sua presença, mesmo aparentando ser um humano comum, Uruha conseguia sugar tudo que havia de bom em um ambiente. Mas Akira além de parecer ignorá-lo, havia dormido.
– Acho que não é hoje que você toma essa alma de mim, Uruha. – O moreno comentou, já próximo dos dois.
Aoi parou ao lado da cadeira do protegido, e Uruha não se dignou a olhá-lo. Aoi não era só extremamente irritante em sua visão, como também insignificante. Havia o conhecido apenas após ser expulso do céu junto com os outros seguidores de Lúcifer, e, enquanto Aoi cuidava de apenas uma vida humana por vez, do nascimento até sua morte, Uruha era responsável pela queda de vários homens e mulheres ao mesmo tempo, mas pelo o que o demônio imaginava ser sorte, Aoi nunca havia perdido uma alma sequer.
– Só abre a boca pra falar besteiras, Aoi? – Respondeu seco, os olhos castanhos ainda direcionados ao loiro menor dormindo sobre a mesa. – Ele disse que se lembra de mim. – Uruha falou passando a fitar o anjo que mantinha aquele ar aliviado.
– Ele está bêbado, Uruha. Não se leva as palavras de um cara que esvaziou doze garrafas de cerveja rapidamente uma atrás da outra, muito a sério. – Aoi disse afastando a franja negra de frente dos olhos.
– Que seja.
O demônio se levantou, afundando as mãos dentro dos bolsos frontais da calça, dando as costas ao moreno e ao outro loiro adormecido sobre a mesa, sumindo por entre os jovens. Ele voltaria, o moreno sabia disso. Era como se o demônio morasse em tudo aquilo que faz mal, independente de como você chegava ao fim do poço, Uruha te puxava pra mais baixo até que estivesse literalmente no inferno.
E era onde Akira estava, no fundo do poço e lá estava Uruha, tentando puxá-lo para cada vez mais baixo até que conseguisse o que queria. Uruha, lindo como o nome que havia recebido após ser criado, um dos anjos mais bonitos que o céu já conheceu, conseguia encantar qualquer um, imagine então o efeito que não causava aos meros mortais? Uruha possuía a beleza e os encantos de um anjo somados ao charme e a frieza de um demônio.
Demorou um pouco até que algum conhecido de Akira o encontrasse desacordado e o levasse pra casa. Aquele tipo de cena ficava cada vez mais comum, os dias do Akira não estavam nada fáceis nos últimos meses, e as companhias que Suzuki arrumava também não eram das melhores.
Akira perdeu a quem ele amou. A morte é o destino de todos os humanos, mas nunca foi fácil aceitar esse destino para quem fica vivo. A cena ainda era bem nítida aos olhos de Akira e de Aoi, o aperto entre seus dedos se tornando mais frouxo e o sorriso bonito sumindo dando espaço a palidez e ao frio, a doença repentina havia tirado o fio de vida do jovem rapaz. Akira não superou, era apegado demais ao namorado, dependia tanto dele que não via mais motivos pra continuar. Afinal, esse mesmo rapaz o havia tirado da escuridão na qual Akira se enfiou após diversos problemas familiares.
Aoi se via de mãos atadas diante a morte lenta de dolorosa do namorado de Akira, o rapaz havia trago a vida de volta a Akira e agora ele estava sendo levado, não podia fazer nada quanto a isso. Era apenas um anjo cuidando de um mortal, não podia simplesmente ordenar que Akira ficasse bem, era uma decisão dele, Deus havia lhe dado livre arbítrio, assim que Aoi só poderia cuidar da alma e tentar de alguma forma fazer com que a influência que Uruha exercia não contasse tanto.
Já era quase meio-dia, Aoi estava parado próximo a janela do quarto de Akira, observando o movimento na rua. O mundo era interessante aos olhos daquele anjo, já havia participado de boa parte da história dele, e mesmo que não fosse necessário, se adequava as mudanças deste; os humanos, mais do que qualquer outra criatura já criada, possuíam as características de Deus, afinal, Deus mesmo que os transformou em sua imagem e semelhança. Os humanos eram criaturas inteligentes, faziam o que queriam e como queriam, foi lhes dado liberdade de escolha, enquanto ele fora criado apenas para garantir uma boa vida àquelas criaturas. Mas mesmo com tanta inteligência e liberdade, os humanos continuavam a se afundar mais e mais.
Claro que nem tudo sai como se é planejado, uma das criações de Deus se virou contra ele e mesmo tendo o pior destino, Lúcifer e seus seguidores ainda vagavam, e apesar da petulância de se intitularem semelhantes a Deus, só faziam viver no sofrimento e tentar levar as almas humanas com eles.
– Porque você é sempre tão quieto? – Falou o moreno que interrompeu os próprios pensamentos após sentir aquela presença tão próxima a si.
– Independente de ser quieto ou não, é você que fala demais. – O maior conclui, mas os olhos castanhos não olhavam o moreno e sim o rapaz deitado na cama. Akira estava deitado de bruços, os olhos fechados e a expressão relaxada transmitia calma, calma essa que tanto o anjo quanto o demônio sabiam que não existiam dentro daquele rapaz. – E ele julga essas criaturas patéticas mais importantes que nós? – O loiro resmungou antes de cruzar os braços em frente ao corpo, e o olhar dessa vez foi direcionado ao moreno. – Você deveria ser mais inteligente, Aoi, foi um dos primeiros anjos criados. Assim como eu, poderia ter seguido Lúcifer.
– O que o Lúcifer tinha a me oferecer? Seja sincero. – Os olhos negros olharam firmes os castanhos do demônio. – Você o seguiu, mas estamos no mesmo lugar hoje. Aqui, em frente ao humano que eu devo proteger e que você deve levar consigo para o seu lugar. Aliás, ouvi dizer que é bem agradável lá onde os anjos caídos residem. Tem um jardim no inferno? Aprecio muito jardins, seria bom passear por um se caso eu acatar seu pedido de me juntar a você e a Lúcifer. – O moreno completou, sarcástico, fazendo com que o demônio risse soprado.
– Você realmente não entende, não é, Aoi? – O loiro falou em um tom baixo, quase sussurrado aproximando-se a passos lentos até estar a poucos centímetros do moreno. – Meus propósitos são diferentes dos seus, isso é verdade. Não se preocupe, não vou convidá-lo mais a se juntar a nós, seu lugar é aqui, cuidando dessas criaturas patéticas dignas de pena, assim como você. – O loiro enfatizou as últimas palavras usando o mesmo tom calmo, os dedos longos e finos logo seguraram o queixo do anjo, inclinando a face bonita em sua direção a ele, que nem ao menos se alterou, apenas manteve o olhar preso ao do demônio. – Não se preocupe, ainda vamos ter muito disso pela frente, temos uma eternidade, até que o seu senhor queira acabar com os preciosos humanos dele novamente, mas não se preocupe, o ciclo sempre recomeça.
– Eu vou adorar passar a eternidade tendo que conviver com esse seu gênio, Uruha. Encantador como sempre. – Não era sarcasmo; era simplesmente ironia que saia dos lábios grossos de Aoi, o anjo simplesmente gostava de provocar aquele demônio, já convivia há muito tempo com ele. E o trunfo de Aoi era o mesmo, Uruha nunca havia tirado uma única alma das mãos do moreno, e aquilo irritava o demônio por mais que negasse e sempre dissesse que não se importava.
– É uma pena mesmo que seus ideais sejam tão patéticos, Aoi. – O demônio aproximou um pouco mais o rosto do moreno, nenhum dos dois atreviam-se a quebrar a proximidade. – Realmente uma pena...
– Me diz, Uruha. Eu sou absurdamente irritante e mesmo assim é uma pena que eu não esteja do seu lado? É contraditório demais.
– Exatamente por isso. Você seria um bom trunfo, mas infelizmente seus ideais são patéticos.
– Nossos ideais se cruzam nesse quarto, com esse simples humano. Agora não é você que diz que não deseja se envolver com a vida dos humanos? Você simplesmente deixou de viver por Deus para viver pelos ideais de Lúcifer, e faz praticamente as mesmas coisas que faria se estivesse com Deus. Acho que não sou eu o patético aqui. – Completou, em um tom arrogante, mas aquilo não alterou Uruha.
– Eu não gosto de me envolver, ou acha que gosto de estar aqui tendo essa conversa com você? Esse é o preço que eu pago pela liberdade que Deus só foi capaz de dar a esses seres. – Uruha sorriu, encostando o corpo ao do anjo, seus lábios encontrando destino na orelha do menor, sussurrando baixinho contra ela. – Sabe do que eu realmente gosto?
– Eu adoraria saber. – Os orbes negros cintilavam, estavam sérios fitando o outro lado do quarto, mas seus ouvidos estavam atentos ao demônio.
– Eu gosto do que eu vou fazer com o seu protegido. Agora, eu fico me perguntando... – O loiro fez uma pausa para então continuar. – Apresentar o interessante mundo das drogas a ele parece ser uma boa ideia, vê-lo morrer aos poucos, pecar... Mas levaria muito tempo e não sabe o quanto estou ansioso. Ou talvez eu o seduzisse e o levasse a uma gangue que faria o trabalho mais rápido do que qualquer outra coisa. – Uma a uma as cenas ficavam nítidas na cabeça do anjo, reproduzidas com tanta perfeição que sabia que aquilo não era coisa da sua cabeça, o sangue de Akira banhando o asfalto de uma rua cheia de marginais, era coisa do Uruha, aquele demônio que colocava tudo em sua cabeça enquanto sussurrava aquelas coisas, fazia com que aquelas cenas ganhassem forma.
– Pare com isso agora e afaste-se, Uruha! – O moreno ordenou, e o loiro deu alguns passos para trás, exibindo um sorriso malicioso nos lábios, havia conseguido irritar verdadeiramente Aoi.
– O que foi? Sua moral não se abala enquanto eu provocar o anjo Aoi, agora se eu provocá-lo usando o Akira você se torna sério rapidamente. – O loiro afastou uma mecha para trás da orelha continuando a exibir aquele sorriso malicioso, Aoi o olhava de forma profunda e raivosa, Uruha não fazia aquilo, era a primeira vez que havia entrado em sua cabeça. Rapidamente o moreno caminhou em direção a cama, ficando entre ela e o demônio.
– O sol está lá fora, não tem nada que possa fazer por aqui. Vá embora! – O moreno ordenou e o riso divertido do loiro ecoou pelo quarto.
– Ir embora sem lhe mostrar a opção que mais me agrada? – O loiro sorriu dando alguns passos em direção ao moreno, já Yuu recuou alguns passos. – Ele está vulnerável como nunca, talvez eu devesse possuir o corpo e a mente dele, tirar sua sanidade dia após dia e fazer com que ele mesmo deseje morrer, que deseje o inferno. – Uruha implantou cada uma das cenas na cabeça de Aoi, ele lutava contra os poderes do maior. – Eu não sou apenas um demônio, já fui como você um dia não existe força além da de Deus que consiga me tirar de dentro desse mortal até que eu tenha sua alma e acabe com sua vida. E você realmente acha que Deus vai fazer algo para ajudar esse humano? – Uruha deu mais dois passos em direção a cama, ameaçando avançar sobre quem o anjo protegia.
– EU MANDEI IR EMBORA! – Yuu esbravejou e ao mesmo tempo suas asas foram expostas se abrindo e formando uma espécie de barreira entre aquele demônio e a cama que abrigava Akira. – Você é um mentiroso. Quem te deu permissão para entrar na minha cabeça, Uruha? Lúcifer vai cair uma hora ou outra e você vai junto com a sua suposta liberdade que funciona muito bem na teoria, mas na prática, ainda está preso aos humanos que tanto odeia. – Aoi concluiu, Uruha apenas exibiu um sorriso de canto recuando um a um os passos que havia dado.
–Não vai fazer diferença nenhuma.
E sumiu deixando apenas Aoi e Akira ali. O moreno suspirou passando as mãos pelo rosto como se aquilo o ajuda-se a se livrar dos maus pensamentos que aquele loiro havia implantado na sua mente. Era a primeira vez que o moreno havia se irritado daquela forma e era a primeira vez que Uruha havia passado dos limites apenas para testar Aoi.
Notas finais
Me perguntaram sobre o OTP/casal da fanfic, olhem pra capa e tirem suas duvidas.
E esqueci de falar sobre o nome da fanfic, ela vem de uma música linda do Within Temptation, Fire and Ice ( http://www.youtube.com/watch?v=ve2pS-jxXz0 )
Eu queria agradecer pelos reviews lindos no prólogo. Shima, Su Shibasaki, daaniiie, TOXIC MaBh, Shiro, Hankou e funfufufu ♥ brigada. ♥♥ Aliás, a Layla também e a ohfuckup que falaram comigo pelo twitter. ♥
Quero agradecer mesmo a Vickie (Hankou) por ter betado mesmo com tanta coisa pra fazer na escola e por ter passado nas matérias o capitulo é dedica a você ♥
E então, reviews?
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