Fire And Ice
4 Capítulo 3 - Dreams within dreams
Notas iniciais
Fazia tempo desde sua última visita a terra. Na verdade, não queria colocar seus pés na terra, ou melhor, Haled, nome que os próprios seres celestiais haviam colocado na terra assim que a mesma foi criada. Ele odiava os humanos e todos os seus privilégios, o mesmo ódio que sentia pelos humanos era compartilhado por Lúcifer, mas isso não queria dizer que ambos se davam bem, pelo contrário, Lúcifer e aquele anjo eram grandes inimigos.
Os cabelos loiros daquele homem eram compridos, chegavam a altura da cintura, cacheados eles voavam ao toque do vento gelado que corria pelas noites de Tóquio, não fez nada além de retirar a mecha do cabelo dourado que o vento havia movido do lugar da frente do rosto. Estava sentado em um banco de praça a espera de alguém que sabia que não tardaria em aparecer, aliás, já podia sentir sua presença bem perto.
O vento dessa vez não vinha de forma natural, o que causava já podia ser visto pelos olhos castanhos e atentos do anjo, as asas de um branco puro, eram majestosas, cortavam o céu em uma suavidade natural. O pouso foi leve e rápido, o anjo de vestes negras recolheu as asas passando a caminhar em direção ao banco de praça onde estava Kamijo, também conhecido como príncipe dos anjos, o primeiro anjo criado por Deus.
– Demorou, Aoi. – Falou, a voz grave tinha um som melodioso e atraente a qualquer um que o escutasse.
– Aconteceu alguma coisa, Kamijo? – Aoi falou olhando o anjo com surpresa, afinal, podia contar nos dedos de uma das mãos quantas vezes ele havia saído do paraíso para pisar em solo terrestre, sabia o quanto aquele anjo desprezava os humanos, aliás ele não era o único, o paraíso era um lugar dividido pelos invejosos da vida dos humanos e pelos admiradores de sua inteligência e modo de vida.
– Nada aconteceu, pelo menos não por enquanto. – Falou calmamente. – Aoi, preciso que faça algo em meu nome, não é algo simples, por isso eu preciso lhe contar algo que aconteceu bem antes de nós sermos criados ou não vai entender o pedido que lhe farei.
– Seja breve, Akira está sozinho e Uruha pode aparecer a qualquer momento, não posso deixar Uruha com ele sem minha proteção. – Falou podendo visualizar um sorriso nos lábios de Kamijo ao escutar o nome de Uruha, logo tocaria naquele assunto.
– Certo. – Fez uma pequena pausa antes que começasse. – Antes mesmo da existência dos anjos, Deus já planejava criar o homem, uma criatura que fosse sua imagem e semelhança, livre para fazer aquilo que bem entendesse, as mesmas criaturas que hoje habitam a terra. Então ele criou algo semelhante, duas almas, elas eram tão puras e tão perfeitas que Deus preferiu mantê-las com ele.
– Como assim duas criaturas perfeitas? – Aoi perguntou, nunca havia escutado sobre aquilo antes, se houvesse outras criaturas os seres celestiais deveriam saber, porém nunca havia escutado sobre elas.
– Ainda não cheguei nesse ponto, acalme-se. – O maior riu em voz baixa antes que continuasse. – Elas eram duas almas puras, eram livres como os humanos e tinham poderes semelhantes aos nossos. Deus amava aquelas duas criaturas e as manteve longe dos anjos que havia criado posteriormente. Os únicos que sabiam da existência delas e tinham acesso ao lugar onde elas ficavam confinadas era eu, Lúcifer e Gabriel, seus anjos de maior confiança. Mas como já sabe, Lúcifer se rebelou e com todo o problema que ele conseguiu produzir com a sua revolta nós acabamos por esquecer aquelas duas almas, mas Lúcifer não esqueceu, tanto que foi para onde ele correu quando viu que não tinha saída.
– O que Lúcifer fez?
– Ele, em um ato desesperado de inveja e raiva, destruiu uma das almas. Logo após a destruição de uma das duas almas ele não tinha mais energia para destruir a outra então ele fez com que a outra atravessasse o tecido que separa a terra do mundo espiritual e desde então essa alma nunca foi encontrada. – Kamijo completou recebendo o olhar confuso de Aoi.
– E o que Deus fez?
– Jogou Lúcifer no inferno junto com todos aqueles que o seguiam, bem essa parte da história você conhece. O importante é que depois de todo esse tempo encontramos a alma perdida, e o tempo todo ela estava com você, Aoi.
– Comigo? – O moreno ergueu o cenho totalmente confuso.
– Akira. Almas não ficam vagando por aí, não a encontramos porque ela havia entrado em algum corpo e adquirido vida humana assim que Lúcifer a jogou na terra, e como humano, Deus já não tinha poder sobre ela.
– Mas Akira tem apenas vinte e oito anos, esse episódio aconteceu a milhares de anos. Como isso é possível?
– Não é só Akira, a alma esteve em vários corpos durante esse tempo, já que ela não poderia atravessar para o mundo espiritual. Você notou, não notou? Uruha não tem nenhum tipo de influência sobre ele, é como se Akira repelisse todo o mal que vem dele. – Kamijo sorriu enquanto o moreno ficava pensativo, realmente, em nenhum momento na vida de Akira, Uruha havia afetado, mas havia algo estranho.
– Kamijo, a influência do Uruha não faz nada, mas ontem era como se a presença do Uruha fizesse bem a ele, não sei explicar... – Aoi relembrou do momento em que Uruha e Akira conversavam, ainda não tinha explicação para aquilo, por mais que Akira não fosse afetado ainda era estranho que ficasse feliz com a presença do loiro.
– Não precisa se preocupar com isso. Quero que não conte nada ao Uruha, se Lúcifer ficar sabendo, pode dar adeus ao Akira. – Falou. – É bom que o trate como qualquer outra alma ou não vamos recuperá-la.
– Não veio falar só isso, veio?
– Não, essa é a parte mais importante. É sobre o Uruha. – Falou escondendo os cabelos loiros atrás da orelha. – Aproxime-se dele o máximo que conseguir.
– Qual o propósito disso?
– Uruha é poderoso, não se engane. Eu nem sei como é que um anjo como ele foi capaz de seguir Lúcifer. – Ele negou com um gesto com a cabeça um tanto contrariado, voltando a falar. – E é exatamente por isso que eu quero tirá-lo das mãos dele, Uruha não foi corrompido pelos ideais de Lúcifer apesar de segui-lo, e como é obrigação dele cuidar das mesmas almas que você, você é quem vai se aproximar dele.
– Eu? Uruha e eu temos sérios problemas de convivência, vivemos em clima de provocação como qualquer outro anjo que tenha que lhe dar com demônios. Somos opostos, mas tem razão, Uruha não se corrompeu com os ideais de Lúcifer, se corrompeu com os próprios ideais, está obcecado por uma liberdade que não existe para os seres celestes.
– Aoi, você não entendeu. Eu preciso que faça isso, Lúcifer sem Uruha é mais fraco.
– O que Uruha tem haver com esses seus planos envolvendo Lúcifer?
– Não precisa saber disso, não é assunto seu, Aoi. Nem o próprio Uruha tem ideia do que é, por isso que eu preciso que entenda que é de extrema importância Uruha estar do nosso lado, para o seu próprio bem. – Kamijo completou decidido, ficou claro a Aoi que aquilo não era apenas um simples pedido e sim uma ordem.
– + -
Já havia duas noites desde a visita do príncipe dos anjos, e Kamijo havia lhe deixado uma missão que segundo ele era mais importante do que proteger o próprio Akira. Afinal pelo o que foi dito, Akira não precisava de sua proteção, ele se recuperaria sozinho sem interferência de ninguém, nem ele nem Uruha precisavam fazer absolutamente nada. Akira tinha uma alma humana superior, Aoi ainda digeria a informação, Kamjio lhe passou com tanta naturalidade que até parecia brincadeira.
O problema maior era como se aproximar de Uruha, só estavam no mesmo lugar apenas pelo oficio, se suportavam e isso era tudo. Aliás, Uruha não aparecera mais depois do ocorrido no lanche, coisa que ainda perturbava Aoi, pensava se aquilo que lhe foi dito por Kamijo tinha alguma coisa haver com o que Uruha havia provocado em Akira. Afinal, que tipo de demônio era Uruha? E que tipo de anjo ele foi? Eram questões que não saiam da cabeça de Aoi.
Akira estava melhor desde a última visita de Uruha, não estava totalmente bem, claro. Tinha pesadelos todas as noites, ainda sentia-se fraco, mas estava voltando a rotina e desistindo dos pensamentos ruins que lhe rodeavam dia e noite. E naquele momento Akira havia acabado de chegar do trabalho, eram quase quatro horas da manhã e o loiro estava sentado em frente a TV zapeando os canais. Aoi acompanhava tudo sem realmente prestar atenção. Não se espantou quando Uruha simplesmente apareceu do lado do moreno, algo que já havia ficado tão comum.
– No que está pensando? – O loiro perguntou lançando um olhar de canto ao anjo que suspirou.
– Se eu virar um demônio vou poder me teletransportar por ai também? – Aoi falou e Uruha riu baixo. – Parece ser bem mais prático do que usar as asas.
– Não fala desse jeito, eu sinto falta de usar as minhas.
– Não usa mais por quê? – O moreno perguntou olhando-o de canto.
– Não é da sua conta.
– Que grosso você. – O moreno virou-se encarando o demônio que riu. – Mas você nunca me falou nada de quando era anjo, que tipo de anjo você era?
– Porque ficou tão curioso de uma hora para outra? – Perguntou olhando o moreno de forma desconfiada, não era normal aquele tipo de pergunta.
– Apenas curiosidade, Uruha.
– Eu punia e condenava os pecados dos humanos. – Uruha respondeu simplório e Aoi suspirou decepcionado. De fato, Uruha não tinha conhecimento sobre o que realmente era, ou aquilo não passava de uma grande brincadeira de Kamijo consigo.
– O que é praticamente o que faz agora.
– Não é não. Antigamente eu só testava os humanos e os julgava, hoje eu tenho que levá-los a ser condenados, tenta-los ao pecado. – Uruha falou encostando-se a parede, Akira havia adormecido no sofá com a televisão ligada em um canal qualquer, mas nenhum dos dois prestava atenção no loiro.
– Gosta do que faz? Sei que não gosta dos humanos, mas gosta de tentá-los ao pecado e colocá-los no inferno? – Aoi perguntou ficando em frente ao loiro, Uruha o encarou com um sorriso desconfiado. Aoi não lhe enganava, havia algum motivo para aquelas perguntas, sabia que havia, mas queria ver até onde o anjo chegaria com aquilo e o que ele queria.
– É minha natureza, Aoi. Eu fui feito dessa forma. – Sorriu encarando os orbes escuros do anjo. – Eu posso falar o quanto eu quiser que não me importo com os humanos, que os odeio por ter tantos privilégios enquanto continuamos vivendo pelo o que Deus quer.
– Então gosta? – Aoi exibiu um sorriso semelhante ao do demônio, se aproximando um pouco mais, até estar a poucos centímetros do loiro.
– É prazeroso, não tem como negar isso. O meu “eu” anjo era um julgador, vivia para testar a fé humana, e como eu sempre odiei os humanos eu sempre senti prazer em julgá-los ao inferno. E bem, esse prazer só aumentou consideravelmente de tamanho quando eu passei a levá-los pessoalmente ao inferno, a sensação sempre foi a melhor possível. – O loiro sorriu.
– Eu acho que entendo um pouco. – Aoi respondeu, mas escutou o riso do loiro como resposta.
– Entende? Por favor, Aoi. Você é amante dessas coisas, vive admirando os avanços humanos, a inteligência deles, você nunca vai entender o que é esse prazer de condená-los, porque você foi criado para ser o “anjo da guarda”.
– Isso é verdade, temos formas de pensar diferentes, você seguiu Lúcifer, enquanto eu continuei no meu humilde posto de, como você mesmo falou, “anjo da guarda”. – Aoi sorriu continuando. – Mas me fala, foi por conta desse prazer que se revoltou contra Deus e seguiu Lúcifer e os outros para o inferno?
– Não, eu não me revoltei com Deus, eu nem ao menos fiz parte da revolução que Lúcifer pretendia fazer. – Fez uma pequena pausa enquanto analisava o moreno, se perguntava se era sensato falar aquele tipo de coisa a Aoi, não havia problema, afinal não era nenhum segredo, mas lhe incomodava ter aquele tipo de conversa com o anjo.
– Não? Achei que fosse como Lúcifer.
– Eu e Lúcifer somos muito diferentes, Lúcifer queria virar Deus e eu simplesmente queria me livrar de todas aquelas obrigações, eu queria ser livre como os humanos e o que me parecia ser o caminho mais fácil era seguir Lúcifer. – Deu de ombros. – Eu não me arrependo de forma alguma.
– Você é alguém muito esquisito, é o único que anseia liberdade até as últimas consequências, mesmo sabendo que foi criado para algo diferente. Eu realmente nunca teria feito o que você fez, ir contra o que eu sou.
– Mesmo quando anjos, sempre fomos opostos, Aoi. Discutir opiniões não vai levar a nada como sempre.
– Opostos né? – O moreno ficou pensativo por um momento, mas logo apoiou as duas mãos na parede a qual Uruha estava encostado, prendendo-o entre si e o concreto frio. Uruha não esboçou reação com aquilo, era algo comum a provocação mutua, não só para aqueles dois como para qualquer anjo e demônio, viviam para se provocar e confrontar. – Existe uma coisa engraçada que os humanos sempre falam sobre isso.
– E o que é? – Uruha encarou Aoi, o rosto do moreno estava bem perto do seu, mas aquilo nunca o faria se sentir intimidado.
– Falam que os opostos são uma espécie de equilíbrio. Sabe, parece idiota, mas faz sentido. – O moreno esboçou um sorriso de canto antes que continuasse. – Branco e preto, doce e salgado, positivo e negativo...
– Anjos e demônios, fogo e gelo... – O loiro completou exibindo um sorriso semelhante ao do anjo.
– Equilíbrio perfeito, sem contraste não há graça alguma. – O moreno falou tocando o rosto do loiro com as pontas dos dedos. – Como você...
– Eu? – O loiro riu. – O que eu tenho haver com esses ditados dos humanos?
– Quem imaginaria que por trás dessas feições de anjo existe um demônio? Você é o contraste perfeito também. Se tudo fosse só branco ou só negro, qual seria a graça?
– Nenhuma, se fosse só um anjo ou só um demônio aqui com Akira, acho que também não teria a mínima graça.
– Concordo, e o que seria dos meus dias sem você por aqui? – Aoi falou usando um tom um tanto quanto irônico, Uruha revirou os olhos contendo o riso.
– Provavelmente você não seria tão feliz, dias muito tristes seriam os seus.
– Ah Uruha... Sabe o que mais os humanos falam sobre opostos? – Perguntou em voz baixa afastando os fios loiros de Uruha do rosto bonito.
– O que?
– Eles sempre dizem que os opostos se atraem. – Respondeu em um quase sussurro.
Uruha estava pronto para rebater mais uma das brincadeiras de Aoi, mas não estava pronto para o que veio em seguida. Os lábios cheios de Aoi estavam contra os seus em um selar demorado no qual não houve reação por parte do demônio. Aoi não sabia o que estava fazendo, só havia tomado consciência que havia ido longe demais quando já aprofundava aquele contato, notando que o próprio loiro já começava a corresponder ao beijo. Não sabia no que iria dar aquilo, mas estava pagando para ver.
Notas finais
Ah tá, eu ia postar na madrugada de quarta pra quinta, mas a Vickie sumiu e a Kou viajou para São Paulo pro show do D, e como eu queria postar logo, a gêmea fez o favor de betar, valeu de novo. ♥ q
Ah! Agradecer também a linda da Shiro que me deixou uma recomendação muito linda que me fez ficar vomitando arco-íris o dia todo. ♥
Muito obrigada a Kou, TOXIC MaBh, Shima, Shiro (de novo ♥), Ninsay, Sooky, Conceived Dream, Natinha e ohfuckup. ♥
E então gente, apostas para o próximo? 8DDD
Beijo da Shima ♥
Reviews? E senhores leitores fantasmas, hora de aparecer. q
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