Fire And Ice
3 Capítulo 2 - Devil who licks the wound
Notas iniciais
Os passos ecoavam pelo beco escuro e úmido de uma ruela uma tanto estreita. Faltava pouco, calculava poucos minutos para que tudo acontecesse e para que seus passos o guiassem para onde queria. Afastou os fios longos e descoloridos do rosto e o olhar logo fora direcionado ao céu, havia uma coisa lhe incomodando fazia tempo, mas um simples comentário fez com que tudo mudasse na sua cabeça. Por quê? Ainda não tinha resposta.
Pouco antes de chegar à outra rua, notou algumas vozes alteradas já bem próximas. Um sorriso de canto tomou os lábios cheios e de formato bonito e, assim que chegou ao fim da rua, pode visualizar a cena completa. Havia um carro vermelho estacionado e outro negro parado no meio da rua, os proprietários dos veículos estavam entre os dois em uma briga que ecoava pelas ruas vazias. Não havia casas naquela área, afinal, a mesma estava em reforma. A polícia passava por ali em raras ocasiões, mas não naquela noite. Assim, os dois homens se encontravam sozinhos, ou pelo menos achavam.
– Se divertindo? – O único loiro ali perguntava aos dois anjos que acompanhavam a briga dos homens que deveriam proteger.
– Qual deles você veio buscar? – Um anjo menor perguntou apreensivo, sabia que aquele demônio não estava ali por acaso, mesmo que constantemente recebesse a visita dele afinal a pessoa que protegia já havia selado o próprio destino.
Uruha sorriu, dando poucos passos até estar na mesma área dos anjos, próximo aos homens que brigavam sem parar. E antes que respondesse a pergunta daquele anjo um tiro ecoou pela noite e com ele veio mais outro. O dono do carro antigo de modelo vermelho olhava o alvo dos disparos com uma expressão nítida de desespero enquanto a arma escorregava pelos dedos tendo como destino o chão. O demônio brincou com as pontas dos cabelos enquanto via o corpo tendo como destino o mesmo chão que a arma, ficando imóvel, seu sangue formando uma pequena poça no asfalto já molhado pela chuva de pouco tempo atrás.
Não havia mais dois anjos ali, apenas um, o do dono do automóvel vermelho. Este olhava a cena com um ar conformado, não havia muito que fazer diante daquilo. O homem que olhava desesperado o corpo do que havia acabado de matar acabou por correr, entrando no velho Mercedes vermelho e saindo dali. O anjo foi junto ao mesmo sem dizer nada. Ao matar aquele homem, era quase certeza que o seu protegido veria Uruha mais vezes. Ali com o demônio estava apenas o corpo do homem e sua alma que agora olhava aterrorizada o corpo estirado no chão.
– O que é isso? – Perguntava estupefato, olhou para o demônio que exibia um sorriso calmo. – Eu... Eu morri?
– Dois tiros e ambos atingiram em cheio seu coração. – O loiro confirmou, calmo como sempre.
– E você quem é? – O homem pequeno e gorducho perguntou. – É um anjo por acaso?
– Costumava ser, mas os tempos mudaram. – O demônio sorriu ao ver que a confusão aos poucos se desfazia naquela alma. – Ou realmente acha que depois de tudo um anjo viria levá-lo ao paraíso?
– Lúcifer! – O homem gritou. – É o diabo! – Deu alguns passos para trás após as palavras em tom de acusação.
– Lúcifer? – O loiro perguntou usando um tom incrédulo antes de usar um riso irônico. – Não, não sou Lúcifer, sou apenas um demônio, mas eu prefiro que me chame de Uruha.
– Você não pode me levar!
O homem sentenciou antes de correr pelas ruas vazias, estava tão apavorado, com tanto medo que nem ao menos deu importância ao fato de ser apenas uma alma enquanto o loiro era um demônio. Havia muitas daquelas histórias de espíritos vagantes, certo? Se tornaria um deles se aquilo o tirasse do inferno. Correu por entre os prédios vazios, toda aquela área fora esvaziada por contas da estrutura dos prédios que não aguentavam os vários terremotos da época, mas não achava que o homem que lhe devia dinheiro o tiraria a vida daquela forma.
Correu por entre as vigas por muito tempo, até se alojar dentro de um prédio. Não teria jeito de aquele homem pegá-lo depois de todo aquele tempo correndo. Doce engano, foi só prestar atenção na área onde estava e ver o loiro encostado em uma parede com os braços cruzados olhando-o, engoliu seco diante do olhar do loiro e ali caiu a ficha. Não teria como escapar do que havia sido guardado pra si.
Ao pensar nisso as lágrimas escorreram pelo canto dos olhos, rolando pelas bochechas, as pernas cederam e o homem caiu ajoelhado no chão empoeirado daquele prédio. Uruha continuou em silêncio apenas observando-o, em um ato de agonia e desespero o homem juntou as mãos e passou a rezar, pedindo para que fosse perdoado, pedindo para que aquele homem não o levasse.
– Acha mesmo que isso vai adiantar? – Uruha falou recebendo um olhar cheio de medo.
– Eu me arrependo por tudo, eu não quero ir como você, não!
– Isso já não é você quem decide. E medo não é arrependimento, você já matou, estuprou e roubou sem um pingo de arrependimento e só agora que eu estou diante de você que acha que deve se arrepender? – O loiro perguntou, porém o outro nada disse, apenas ficou calado observando o demônio que agora se aproximava. – Você raptou e matou a filha de quatro anos do homem que te matou por uma quantia insignificante para você, acha mesmo que deveria ir com o seu anjo?
– Eu... Eu... – O homem estava apavorado, a presença de Uruha o sufocava, nunca havia sentido tanto medo e desespero antes como naquele momento.
– O seu lugar é o mesmo lugar de onde eu venho, a dor física jamais irá superar a dor que você irá sentir pela eternidade. Esse é o seu julgamento, sua alma pertence ao inferno.
O grito agoniado veio junto com chamas que envolveram aquela alma, o homem sumiu em meio a elas e Uruha também já não estava mais ali.
Estava na entrada de um castelo, as paredes escuras em um tom acinzentado eram típicos da era medieval assim como muito da decoração do lugar. Não gostava daquela época, nunca apreciou a burrice dos humanos. O dono daquele lugar pensava exatamente de forma contrária. A burrice humana, peste, caça às bruxas, igreja ganhando dinheiro e matando as custas da ignorância dos humanos e da palavra de Deus, aquela época agradava demais a Lúcifer, por isso gostava das lembranças que o lugar onde ficava trazia.
O loiro atravessou o saguão decorado por velhas armaduras e brasões até chegar ao salão principal. O lugar estava vazio, afinal o único ocupante dele era Lúcifer e este muitas vezes preferia sair. Os outros demônios vagavam pela terra, dificilmente ficavam por ali. Uruha mesmo não ia ao inferno a mais de cinquenta anos. O salão era extenso, enfeitado por um grande piano negro próximo a escadaria de mármore e um lustre chamativo de tão grande no centro da sala.
Uruha caminhou calmamente até o instrumento, sentou-se e abriu a tampa, os dedos treinados logo deslizando pelas teclas, reproduzindo um som angustiante e calmo por algum tempo, os olhos fechados aproveitando a sonoridade que as paredes de concreto proporcionavam.
– Essa é a melhor coisa já inventada pelos humanos, música. – Escutou a voz calma bem próxima se pronunciar, mesmo assim não parou de tocar, apenas abriu os olhos fitando o outro ocupante do salão.
– De fato. – Uruha disse assentindo, o olhar sobre o menor.
Lúcifer sempre mudava de aparência, dependendo da situação era sempre uma aparência diferente, uma raça diferente uma forma diferente de se portar. Talvez por isso um de seus títulos mais conhecidos fosse “o pai da mentira”, atualmente ele adotava as feições orientais, apesar de seus olhos manterem o mesmo brilho azul de quando ainda estava no céu. Atualmente Lúcifer usava Ruki como nome, mas sabia que mudaria depois, sempre mudava.
– Tão raro vê-lo, Uruha. – O menor ali se pronunciou após algum tempo em silêncio, apenas observando o loiro que tocava o piano em completa calma, nem ao menos respondeu ao comentário de Lúcifer.
Uruha sempre fora o maior mistério que Lúcifer já havia tido a oportunidade de tentar desvendar. Não, ainda não conseguia descrever o que se passava por trás daquele castanho tão profundo dos olhos do demônio. Uruha e ele foram criados na mesma época, mas era Lúcifer que tinha a total confiança de Deus, mas apenas quando decidiu traí-lo e viver pelos próprios ideais que conheceu Uruha, diferente dos outros anjos, Uruha não fez nenhuma pergunta a Lúcifer, apenas disse que aceitava aquilo que Lúcifer dizia e o seguiria.
Mas ainda assim ainda queria entender o que era Uruha, ele não era como os outros demônios que sempre o faziam perguntas sobre coisas que nem o próprio Lúcifer tinha resposta. Uruha fazia tudo sem questionar ou reclamar, era o único com quem Lúcifer conversava de igual para igual, talvez por isso não gostasse quando o loiro passava tanto tempo sem voltar ao inferno.
– Vou indo, Ruki. – Uruha sentenciou após tocar a última nota, já abaixava a tampa quando foi pego pelo olhar contrariado do menor.
– Mas já? Achei que tinha algo para falar comigo, faz quantos anos que não vem aqui? Cinquenta?
– Mais ou menos isso, mas eu realmente só queria passar por aqui. Tenho coisas pendentes. – Falou erguendo-se passando a caminhar em direção a saída.
Ruki apenas acompanhou o loiro sumir, ele voltaria mais cedo dessa vez. Por algum motivo achava que algo incomodava Uruha e, se não havia acontecido nada, mais cedo ou mais tarde iria acontecer, sabia disso.
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Os olhos castanhos agora analisavam seu alvo com cuidado, ele estava bem perto e consciente dessa vez, Aoi estava ao lado dele e já havia notado a presença do demônio, pois seu olhar já estava direcionado a Uruha. O loiro apenas sorriu meneando a cabeça em direção ao moreno, gesto que foi imitado pelo mesmo.
Uruha deu um curto olhar para o céu, estava escuro e cheio de nuvens. Típico daquela época do ano. Logo caminhou em direção aos dois, Akira estava em um pequeno lanche, era ali que ele trabalhava durante as noites, atendendo os motoristas que trabalhavam naquele turno. O movimento durante a madrugada era pouco, mas o dono do lanche o pagava bem pelo trabalho, já que era um horário difícil para se conseguir funcionários.
– Bem vindo. – Akira deu as boas vindas ao novo cliente exibindo um sorriso calmo.
– Café, por favor. – Pediu o loiro em voz baixa ao rapaz de faixa.
Reita falou um “sim” em voz baixa antes de seguir em direção a maquina de café, Uruha aproveitou esse tempo para olhar Aoi agora estava sentado a seu lado. O moreno não expressava a raiva que Uruha havia visto mais cedo quando ameaçou ir para cima de Akira, talvez o moreno já tivesse notado que aquilo não passara de blefe da parte de Uruha, possuir o corpo de Akira não era algo que estava em sua mente.
– Voltou mais calmo e sem brincadeirinhas, acho. – Perguntou.
– Você parece tranquilo também, ficou bem bravinho da última vez. – O loiro comentou em voz baixa, usando um tom irônico que não passou despercebido pelo terceiro rapaz ali que já voltava com o pedido do loiro.
– Falou alguma coisa? – Perguntou ao colocar a xícara de café sobre o balcão que separava ele e o loiro.
– Nada. – Ele falou agradecendo com um sorriso. – Escuta... trabalha aqui todas as madrugadas?
– Só não trabalho nos fins de semana, mas por quê? – O menor perguntou desconfiado.
– Nada, só curiosidade... – O loiro fez uma pausa na qual bebericou do café quente antes de continuar. – Qual é seu nome?
– Meu nome? Não sei se devo falar. – Akira riu, cruzando os braços enquanto olhava o loiro. – Não sei quem é você, apesar de me parecer familiar.
– Sou seu cliente agora, deveria me atender bem. – Uruha falou olhando os olhos escuros do loiro e ali algo lhe chamou atenção, Akira não aparentava ter um pingo de medo do loiro.
– Tudo bem então, pode me chamar de Reita.
– Reita? Não parece ser seu nome verdadeiro. – Uruha riu, bebendo um pouco mais do café quente, apenas sentia o olhar do moreno sentado ao seu lado sobre si.
– E não é. Não costumo dizer meu nome para pessoas que conversam sozinhas, mas então me diz... E o nome do meu cliente, qual é?
– Takashima Kouyou. – Uruha respondeu o primeiro nome que lhe veio em mente e continuou. – Mas porque não me disse seu nome verdadeiro? Tem medo?
– Medo? – O loiro riu, e logo Uruha lançou um olhar estreito a Aoi que observava tudo em silêncio, havia algo extremamente errado e o moreno havia percebido também, por algum motivo a presença de Uruha não estava afetando Reita de forma alguma. – Olha, Takashima, eu não costumo ter medo, apenas receio de algum dia acordar em um motel de beira de estrada dentro de uma banheira cheia de gelo e com uma cicatriz no abdômen.
– Para sua sorte eu ainda não trafico órgãos no mercado negro. – O loiro falou recebendo um riso alto do outro.
Os olhos do moreno se arregalaram, fazia muito tempo que não via Reita rir daquela forma, era a primeira vez desde a morte do namorado, não era possível que aquilo estivesse acontecendo, ainda mais quando o Uruha era motivo daquela risada, não tinha duvidas que havia algo de muito errado.
– Reita, eu preciso ir. – Uruha disse antes que se levantasse deixando o dinheiro correspondente a bebida praticamente intocada sobre o balcão. – Obrigado.
O demônio nem ao menos esperou que Akira dissesse algo, apenas deu as costas e saiu, mas não foi sozinho. Aoi o seguiu até que Uruha já não estivesse no campo de visão de Akira. Foi então que o moreno parou, assim como o outro. Uruha virou-se em um movimento brusco encarando os olhos escuros de Aoi, ambos estavam confusos.
– Você escutou não foi? O que foi aquilo? – O loiro perguntou olhando o anjo abismado. – Me diz, você tem algo haver com aquilo?
– Eu? Uruha o que eu posso fazer com você por perto? Hein? – Falou, já Uruha negou com a cabeça passando a mão pelo rosto, aquilo era novidade. – Eu estou tão intrigado quanto você.
– Isso não é normal, Aoi. Quando é que algum humano não aparenta medo perto de um demônio? Por mais que esse demônio não tenha feito nada. – Falou mais pra si mesmo do que para o moreno, para então negar com a cabeça, como se aquilo espantasse os pensamentos ruins. – Eu vou embora.
Falou virando-se, mas antes que realmente fosse a mão de Aoi segurou-lhe o pulso, impedindo-o de ir. Uruha suspirou antes que voltasse sua atenção ao moreno e logo viu a expressão preocupada do mesmo.
– Ele tem aparentado melhoras desde a última vez que você o visitou, é estranho, mas tem algo acontecendo. – O anjo soltou o braço do outro continuando. – Não vai embora Uruha.
– Desde minha última visita as coisas tem saído do controle, Aoi. Eu não sei se lembra, mas eu não estou aqui para ajudar esse humano, é exatamente ao contrário.
– Uruha...
– Akira não é a única alma, preciso ir.
Falou antes de dar as costas ao moreno, tudo estava confuso demais, precisava de um tempo longe de Akira e de Yuu ou já não saberia o que pensar. É, talvez não demorasse a fazer uma nova visita a Lúcifer.
Notas finais
Quem betou o capitulo dessa vez foi a Kou linda tão linda. ♥3
Obrigada a Shiro, funfufufu, TOXIC MaBh, Natinha, ohfuckup, Brenda Prallon e a Sooky.♥
Esclarecendo dúvidas, não, não vai ter Reituha nessa fanfic, acho que eu esclarecerei melhor a ligação que existe entre o Reita e o Uruha e não tem nada haver com romance e tals~ Lembrando que o foco dessa fanfic é UxA, o nosso véio e bom Aoiha.
Então, é isso. Se a fanfic chegar aos 25 reviews quarta-feira coloco um capítulo novo e grande pra vocês. 8D /apanha
com amor, shima ♥
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