Fique Comigo
1 Capítulo I
Notas iniciais
10 de Março de 1919
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Fazia poucos meses que a Primeira Guerra Mundial havia terminado.
Vários países foram brutalmente prejudicados, as pernas em morte e economicamente eram gigantescas, mas aos poucos com o auxílio de todos, iam conseguindo se restabelecer.
Nutriam a esperança que no venturo uma peleja similar não fosse ocorrer, havia sido deveras perverso aquele banho de sangue envolvendo diversas potências mundias.
Olhou para o movimento das águas em desalinho a direção da embarcação. Suspirou, afastando o pensamento sobre a recente guerra, tentando mantê-lo longe.
Estava entediado, não gostava de viagens de cruzeiros. Já fazia algum tempo que as coisas da vida já não vinham o agradando, parecia um mundo em preto-e-branco, ainda mais pela recente chacina.
Tinha todos os elementos que a sociedade rotulava como necessários para a fórmula da felicidade, mas em divergência a que todos esperavam, não era feliz.
Faltava algo, só que não conseguia dizer.
“Precisa de um descanso. Vá a esta viagem. Você vai gostar, será bom para você.” Ainda conseguia ouvir a voz doce e gentil da noiva. Sabia que não seria bom, apenas anuiu por querer um tempo sozinho. Precisava disso.
Tocou sobre o as imediações de metálicas que mantinha os passageiros em segurança. Os cabelos ruivos seguiam a brisa, os esvoaçando sutilmente.
Maurice Armand Camus era conhecido mundialmente, seguiu o seu sonho de estudar gastronomia, apesar das represarias da família que esperavam um novo médico, não lhe deram apoio no limiar de sua decisão, mas acabaram sendo coagidos a acatarem, por ver como o jovem tinha habilidade em desenvolver seus pratos.
Iniciou com o primo um pequeno negócio, um bistrô — chamado Blue Hillock —, reinventando pratos e criando alguns de maneira inusitada e criativa, conseguiu fazê-lo crescer, inesperadamente. Virou um renomado chef estendendo e aumentando as instalações de seus restaurantes.
Estava noivo da filha de um político francês importante. Haviam se conhecido em uma festa e não demorou em iniciarem um relacionamento. Madeline era bonita e Camus com sua compleição exótica, formavam um casal que chamava atenção.
Não poderia dizer que estava apaixonado, não tinha muito tempo para pensar sobre isso, mas gostava de estar com a noiva, eram mais amigos que amantes.
Mantinha recôndita a sua real vontade: ansiava adiar o matrimônio.
Porém deixava apenas em seus pensamentos esse desejo, não estava pronto, mas deveria seguir com sua palavra. Precisava se casar, pela pressão familiar e manter sua honra aos olhares alheios.
Fechou os olhos, respirando fundo. À noite se aproximava e poucas pessoas passavam pela proa.
“Por que estou aqui?” Indaga, interiormente, e a resposta não veio.
Quando o silêncio voltou a reverberar, após um grupo de jovens passar ouviu passos, mas não se virou.
— Camus?
Olhando de maneira discreta por cima de seu ombro, poucos o chamavam daquela maneira, utilizavam mais seu primeiro ou segundo nome, e aquilo o intrigou.
Era uma forma quase nostálgica.
Ao reconhecer a figura que se aproximava, virou seu corpo para o observar melhor. Não podia acreditar no que via, e quem via!
— Milo?
Ele ainda conservava os cabelos loiros longos, como sempre admirou secretamente. Agora era um homem, com linhas bem desenhadas pelos traços marcantes de seu rosto. Ainda não conseguia acreditar que haviam reencontrado-se.
Partilharem de uma forte amizade e um companheirismo inexpugnável da infância até a adolescência, quando o loiro teve que se mudar, para outra cidade. Aquela havia sido sua primeira perca dolorosa. Anos posteriores, tentou buscá-lo, mas foi algo frustrante.
Seus pais não gostavam de Milo, diziam que ele não era uma boa companhia e sempre o proibiam de vê-lo. Mas isso jamais foi um empecilho para o ruivo, que inventava escusas ou saía escondido para andarem juntos entre as ruas parisienses.
Liam grandes clássicos, especialmente envolvidos com o terror que o loiro tanto admirava. Milo sempre gostou de escrever, reinventava mitos gregos com finais ainda mais trágicos, mostrando apenas para Camus ler, via o talento que o amigo tinha o incentivando a escrever um livro.
Algo que para muitos pareceria macabro, mas para ambos era normal: passear no cemitério.
Entre os túmulos buscavam encontrar histórias nas sepulturas, surpreendendo-se sempre com uma, que contavam a vida de dois franceses, inseparáveis, amigos que haviam ido à guerra juntos. A morte dos dois ocorreu em um intervalo de um dia.
Eram fascinados por ambos, fantasiando aquela amizade imaculada e sempre sofrendo com o inevitável fim.
Haviam prometido jamais se separar.
Milo sorriu, matreiro. Aquele conhecido sorriso que Camus recordava muito bem, remetendo-o a algumas reminiscências.
— Não mudou muito, Camus. — Colocou-se ao lado dele.
Já faziam tantos anos, a voz de Milo havia mudado, mas suas feições ainda rememoravam a criança animada e doce que havia sido seu melhor amigo.
— Você cresceu, Milo — não sabia como agir por isso se limitou a ser mais distante, fez uma pausa, ligeira, tentando encontrar palavras para o limiar de um diálogo — está gostando da viagem?
O loiro ficou sério quando o ouviu, como se o outrem houvesse lhe dirigido uma ofensa. Não o replica, avançou sobre ele, e acabou por abraçá-lo, trazendo o seu corpo para junto do seu. Camus ficou sem reação, e um tanto sem jeito pela forma impulsiva e abruta como Milo lhe saudou, mas acabou por corresponder. Almejava por aquele abraço.
Milo o apertava com força, tanta que o ruivo acabou por gemer, baixo. O que o fez afrouxar aquele abraço.
— Que saudade de você — diz, entre um sussurro para o ruivo.
Camus fechou os olhos, e foi envolvido pela lembrança do último abraço trocado, quando Milo teve que retornar a Atenas, havia sido demorado e doloroso, diferente dos sentimentos que agora partilhavam. Um fremir saturou seu âmago com sensações paradoxais, sendo refletido em seu corpo.
Ele era o único que conseguia quebrar sua barreira costumeira de seriedade.
De uma maneira igualmente repentina, Milo acabou o soltando quando ouviu um grupo comentar baixinho.
— Meu Deus, Cam. Quanto tempo! — exclamou extasiado.
— Sim, muito tempo — salientou, observando-o — não pensei que fôssemos nos reencontrar algum dia...
Os lábios de Milo foram desenhados por um sorriso. A felicidade de revê-lo era imensa. Muito queria perguntar, mas sua fala foi abafada.
— Senhor Vikélas! Senhor Vikélas! — Um mensageiro se aproximou, buscando o loiro, acabou o reconhecendo ao lado de Camus — você tem um telefonema. É urgente!
Milo respirou, resignado pelo momento interrompido, não respondendo ao servente.
Conhecia bem essa urgia mencionada, chamava-se Anna, uma esposa controladora. Camus percebeu aquela reação de pertubação interna do antigo companheiro, pela forma como seu semblante se crispou e acabou sorrindo.
— Vá, depois eu irei até sua cabine. — Sugeriu, vendo a expressão do rosto dele se abrandar — qual é o número da sua?
— 125 — Já lamentava-se ter que se afastar do amigo — venha após o jantar. Desculpe não poder ficar, Cam.
— Tudo bem. Voltaremos a nos ver, Milo, não se preocupe — o viu lhe dirigir um aceno discreto com a cabeça, para se afastar com o mensageiro.
Decidiu ainda permanecer ali, pensativo e novamente foi arrebatado por rememorações.
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— Não acho que seja certo — deitou ao lado do amigo na relva, esparramando-se preguiçosamente — simplesmente não acho que homens apenas devam se envolver com mulheres.
Camus ficou surpreso ao ouvi-lo, jamais imaginou que o amigo fosse entrar em um assunto tão polêmico para a época.
— Mas Milo...
— Eu sei que vai falar, Camus — sentou, olhando para o ruivo — mas isso sempre existiu, eu estava lendo sobre a vida de Apolo. Ele foi feliz com homens.
— E mulheres, e lembre-se que Apolo foi infeliz no amor — completou, corrigindo-o — Milo, meus pais dizem que isso não é certo. Eu tinha um tio que acabou se suicidando, porque ele era um fresco e minha família não o aceitou.
O loiro fez um semblante sério pela resposta que havia recebido.
— Camus, não quero saber a opinião dos seus pais. Quero apenas a sua.
O menino de madeixas avermelhadas não o retruca inicialmente. Fazendo uma pausa.
Aquele era um assunto proscrito na sociedade, se mantinha recôndito nos lares, evitava pensar, mas o amigo o coagiu a isso.
— Quando se há amor… — foi curto ao objetar, sua voz ganhou um colorido distante.
— Sim, quando se há amor — concordou o loiro, que agora sorria, já não fitava o outro, com o olhar voltado a copa da árvore que os protegia do sol, com suas folhas verdes e jovens; ajeitou suas costas no seu tronco — tudo vira apenas um detalhe quando se há amor. O que importa é o sentimento.
As palavras flutuaram na mente de Camus, vendo os olhos azuis do loiro firmando a atenção em sua direção.
Aquela troca de olhares foi intensa. Como se quisessem tocar em um ponto que apenas suas almas tinham conhecimento pleno. Coisas que não falavam, mas sentiam.
Milo às vezes lhe diziam coisas que o deixavam estranhamente atônito.
“O que importa é o sentimento.” Acentuo as palavras na própria cabeça, as repetindo secretamente no som dos pensamentos.
Sim, era o que importava. Sempre. Milo tinha razão, e por algum motivo aquilo o deixou visivelmente intrigado. Desviou o olhar do loiro, desconcertado.
— Sim — redarguiu — mas não conhecemos muito sobre o amor ainda.
— Sei que somos jovens, mas eu conheço. — Sua resposta existia um quê terno e Camus o olhou — eu conheço muito bem o amor, Cam.
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Ajeitou de forma confortável no canapé em estilo vitoriano e de tonalidade escarlate. Tocou em seu apoio.
Os olhos castanho avermelhados do francês fixaram sua atenção em seus movimentos, suas costas escoradas confortavelmente na poltrona que estava defronte ao loiro.
A cabine de Milo era uma das melhores, ornada com fausto e bastante espaçosa, quase não fazia barulho do ranger da embarcação. Assim como a sua.
Notou que o amigo estava sozinho, ao menos, não havia sinal de partilhar o camarote com alguém.
— Camus, conte-me o que perdi em sua vida.
— Milo, são muitas coisas. Não sei por onde começar — pensou no exórdio, buscando resumir os acontecimentos — mudei-me para Nova Iorque cerca de um ano após a última vez que o vi e realizei um dos meus sonhos. Abri um restaurante, que acabou crescendo e agora temos várias cedes em outros países. Quando a guerra começou, voltei para a França, eu queria servir ao exército, estava disposto em largar tudo para isso…
Milo ficou surpreso com as palavras, ainda mais o último desejo do outrem. Por um momento relembrou os amigos que haviam partido juntos para a guerra, foi nostálgico.
— Algo bem nobre de sua parte. E conseguiu?
— Não — suspirou — eu tinha sopro no coração, não passei no exame médico…
Aquilo o preocupou, tinha conhecimentos sobre essa doença, muitas vezes eram fatais quando estavam ligados a outras complicações.
— Tinha? E agora?
— Eu acabei fazendo um tratamento, que na época estava na fase de testes. Não sei se estou curado, mas já não há mais nenhum sintoma.
O loiro pareceu mais aliviado, mas ainda se preocupava com o amigo.
— Continue, desculpe-me. — Sorriu, recebendo uma resposta gesticular igual do ruivo.
— Então conheci Madeline, e agora estamos noivos.
Camus noivo?
Não tinha conhecimento do motivo, mas aquilo o deixou incomodado. Porém sabia que isso não fazia sentido, já não eram como antes, tudo parecia ter mudado.
Seus olhos volveram-se até os dedos dele, o anular direito era vestido por um anel de tonalidade dourada. Bonito e discreto, parecendo que havia algo escrito que não era possível ler da distância que estava.
Apesar dos pensamentos contraditórios, e estar ciente do presente, não conseguia ver o amigo de aliança e dividindo a vida com alguém. Ainda mantinha a imagem do ruivo com seus dezesseis anos afirmando com veemência que jamais casaria algum dia.
— É mesmo? Quem diria vê-lo casando, Cam! Parabéns. — Tentou ser natural, mas vendo que ele havia percebido algo mais além em seus gestos, pela maneira como franziu seu cenho, não conseguia ocultar muito bem suas perturbações pela forma aguçada que ele capitava suas emoções.
— Agradeço, Milo — ele não havia sido discreto quando o olhou, mas preferia ignorar aquilo —Agora tenho que administrar a minha rede de restaurantes, eu tinha uma sociedade com um primo que acabou falecendo e deixou tudo em minhas mãos. As coisas estão bem difíceis... mas aos poucos estou conseguindo me ajustar.
— Minhas condolências. — Parou de tocar no estofado vermelho — sei que conseguirá, Cam.
— Eu espero — falou em um tom cansado ao lembrar de sua rotina acompanhada de uma expressão lassa, mas não durou muito, alterando seu semblante quando tencionava levar a conversa tomar outro rumo — agora é sobre você, Milo. Conte-me o que perdi em sua vida.
Devolveu a frase, fazendo o loiro sorrir.
— Não aconteceu tantas coisas espetaculares como em sua vida. — Camus o olhou com atenção medida — quando eu retornei para Atenas a primeira coisa que fiz foi jogar tudo que eu havia escrito fora…
— Jogar fora? Por quê? — o ruivo ficou confuso — eram ótimos seus textos! Ainda esperava ver um livro seu.
Milo baixou o olhar por um momento.
— Eu havia escrito para você, sempre recusei que outros lessem.
Suas palavras deixaram Camus desconcertado.
— Você tinha muito talento para se limitar assim — disse o ruivo, com sinceridade.
O loiro não o retruca, não quis dizer o que pensava e suas razões reais que o levaram a isso.
— Desculpe, agora foi eu que interrompi — diz o parisiense ao ver o silêncio que se instalou. — Continue, por favor, Milo.
— Não se preocupe — agradeceu a alteração do rumo da conversa — quando voltei para a cidade que havia nascido foi difícil me acostumar. Até mesmo com o idioma! Morei tanto tempo em Paris que comecei a esquecer como se falava grego. Eu juro. Entrei para a faculdade para um curso de Direito, mas acabei não trabalhando na área. Fiquei cuidando de negócios da família. Depois conheci Anna...
— Quem é Anna? — indaga, pelo loiro ter feito uma pausa, com um interesse curioso até para si mesmo — sua namorada?
— Esposa — replica — ela até que é adorável na maior parte do tempo. É uma mulher difícil, mas somos felizes.
— Interessante… — murmurou, mas sem a intenção de fazê-lo ouvir. Algo o cutucou por dentro, em seu cerce — mas todo relacionamento tem seus altos e baixos.
Milo não comenta que seu matrimônio foi por conveniência, sua atual esposa possuía uma fortuna significante. Era viúva, alguns anos mais velha, herdando uma grande quantia de seu antigo cônjuge. E por ter boa posse dos bens do casal, ela tentava controlá-lo. Mas o loiro não acatava ordens dela e dificilmente de alguém.
Havia viajado sem seu consentimento.
— Com certeza — concordou, aquele pensamento de sua façanha o fez sorrir — e você, Cam, é feliz?
— Na medida do possível, meu amigo, eu sou.
Um novo ínterim sem palavras enluvou o momento entre os velhos amigos. Camus agora contemplava alguns quadros que enfeitavam o local, bonitas reproduções de clássicos, sua mente viaja em reminiscências, mas Milo ainda o observava.
— Cam… — chamou-o, seu tom de voz havia mudado. Camus fita-o — eu senti sua falta.
Aquelas palavras transbordavam sentimentos pendendo entre a saudade e ternura. O olhar do ruivo se altera para um mais significativo em consequência a confissão do amigo.
— Eu o procurei por meses, Milo. Mas depois que comecei meu negócio a pressão e a vida me obrigaram a seguir outro caminho — comenta. Os olhos castanhos possuíam um brilho diferente, distante — ainda mais quando a guerra se iniciou.
Milo sorri com um toque triste.
— Eu voltei a Paris para reencontrá-lo, mas sua família nada me contou como foi de se esperar. Achei que eles havia conseguido… — calou-se, não concluído a frase.
— Conseguido? O quê?
— Fazê-lo me esquecer.
O homem de madeixas avermelhadas baixou seu olhar — por um instante, olhando seus dedos que tremiam pelo fremir do momento — sabia o quão ouviu da família por anos, sabia o quão eles não gostavam de Milo.
Desconfiavam do que ocorriam entre os dois pelo que ouviam da vizinhança, pela afeição e companheirismo quase obsessivo que eles mantinham. E ainda mais, pelo que aconteceu no último encontro.
— Você irá me esperar, não é? — o loiro insiste, ainda o apertando naquele abraço. Tentou evitar as lágrimas que davam sinal ao tornar seus olhos marejados — não esqueça de mim, Camus.
O parisiense o correspondia não querendo que aquele gesto se findasse. Ouvia as pessoas caminhando para dentro do navio, entre exclamações efusivas, prantos e lamentos.
Sua família o aguardava, mantendo-se longe daquela cena. Apesar de não concordarem com aquela aproximação, o loiro iria embora, resolveram levá-lo para despedir-se, achando que era o momento derradeiro daquela ligação entre ambos.
— Eu irei, Milo. Eu irei — acentuou, para afrouxar aquele abraço — e você não esqueça de mim.
Em resposta o loiro tocou em seu rosto com a ponta de seus dedos — o coração do ruivo acelera as palpitações pelo carinho — e lhe deu um beijo, no canto de sua boca, quase juntando seus lábios naquele encontro. Camus sentiu-se paralisado e sem qualquer reação.
— Eu amo você — murmurou, sem a intenção de fazê-lo ouvir, para finalmente findar aquele gesto e se afastar dos braços do amigo.
Continua...
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