Fiolett Bakke
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O Sol lançava sua luz dourada nas folhas das árvores que se abriam em um arco à minha frente. Folhas secas e galhos mortos estalavam sob meus pés enquanto eu abria caminho pela vegetação alta. Um rugido ao longe me causou calafrios. Grensen Forest ficava ao sul de Milos; era famosa por seus javalis gigantes. Ótimo lugar para estar logo cedo pela manhã. Como se a noite já não tivesse sido ruim o suficiente: um javali destruiu o abrigo tão bem projetado, me obrigando a improvisar um numa árvore qualquer, aguentar um monte de insetos sanguinários tentando me picar, além de ser forçado a dormir no clima gélido pois o javali resolveu se deitar em meu cobertor.
Eu só precisaria atravessar Grensen Forest e já veria o posto de Strauben. Um estalo alto me fez parar. Outro javali, talvez? Outro estalo. Na esquerda, em cima. Talvez um pássaro procurando comida. Ou um símio pulando de galho em galho. De qualquer maneira preferi ficar preparado para um possível ataque. Continuei andando, mas dessa vez, com cautela. Tentar me concentrar no barulho mesmo depois de não ter dormido nada me deu dor de cabeça. Afastei o cabelo dos olhos e peguei o cantil para tomar um gole d’água. A junção da sensação da água fresca descendo pela garganta e meu rosto sendo aquecido suavemente pelo Sol me fez relaxar por um momento para ignorar uma cobra verde se arrastando preguiçosamente por um galho próximo. De novo, houve um estalo alto e parei novamente. A ideia de ter de me livrar de uma fera não me parecia muito convidativa, não só pelo fato de ser cansativo, mas também por não ser do meu gosto ferir animais, afinal eles não raciocinam, então se atacarem algo, é por instinto.
Felizmente, da direção do estalo, uma pequena ave levantou voo. Ela possuía um torso coberto por penas amarelas e pretas, duas faixas brancas passando ao longo de sua barriga e cabeça vermelha. Tão livre, saiu voando, utilizando as massas de ar para ser levada. Agnes certamente ficaria maravilhada diante de tamanha beleza selvagem. Seu gosto por desenho a fazia ser muito observadora, qualquer detalhe não passava despercebido de seus verdes olhos. Gneell, muito dócil, parecia não se importar de ficar parado por tempo suficiente para que Agnes o rabiscasse em uma folha de papel.
Num instante, a floresta se abriu para revelar, ao longe, o porto de Strauben, imenso, com suas várias embarcações. As longas onze docas se estendiam ao longo do litoral ocupado por edifícios comerciais, pousadas, residências e algumas torres fortificadas posicionadas em pontos estratégicos. As residências se misturavam com os outros edifícios, mas boa parte delas ficava afastada daquela agitação toda. Ao leste do porto encontrava-se uma fortaleza de pedra com o brasão da guarda de Milos içado no centro. Era a fortaleza dos militares de Strauben. Se fosse em outra ocasião eu aproveitaria para passear um pouco pela cidade e ver se achava algo que Agnes gostasse, e talvez até comprar algo para Mika, meu irmão mais novo, de noite eu descansaria na fortaleza já que um Tenente tem direito a isso, e de manhã partiria para Ferdza. Mas minha mente estava cheia de informações que precisavam ser passadas urgentemente para o Capitão.
Desci a colina que levaria à cidade e percorri a estrada de terra. Os guardas na muralha me deixaram passar assim que me identifiquei. Ofereceram a estalagem na fortaleza, mas recusei formalmente. Adentrei a cidade, passando pelos inúmeros pontos comerciais, hospedagens, residências e vielas cheias de prostitutas. Eu só conseguia sentir pena daquelas mulheres, pois não tinham mais nada pelo que lutar, não tinham mais um lugar para voltar, um lar, estavam à deriva das vontades de seus clientes.
— Bom dia, meu jovem! O que acha de alguns ovos? – um senhor grisalho e de rosto simpático me mostrava dois cestos cheios de ovos. Rejeitei educadamente. Os mais respeitáveis entre os cidadãos eram geralmente os idosos, talvez por sua experiência, ou pelo modo como foram educados. Como a Mãe sempre diz, "os tempos eram outros."
Continuei meu caminho pela multidão. Rejeitei mais algumas ofertas promocionais oferecidas por feirantes educados, passei por marinheiros indo de um lado para o outro carregando e descarregando os navios. A maioria tinha aparência bruta, provavelmente moldada pelo tipo de trabalho que realizavam. Apenas eles sabiam o que passavam em alto mar. Mika teve sua época de querer ser um marinheiro, desbravar novas terras, lutar pela honra de seus companheiros. Eu até gostava de aventura, mas depois de certa idade você começa a sossegar.
Mas os navios realmente me encantavam. Com seus cascos resvestidos de betume, lustrosos, brutos, grossos o suficiente para aguentar ondas fortes batendo repetidamente contra as tábuas de madeira fortemente encaixadas, seus mastros de altura impressionante seguravam velas das mais variadas cores amarradas manualmente por marinheiros que se aventuravam a subir até o topo. Alguns navios exibiam seus grandes remos e escudos laterais, prontos para partir para a guerra.
Desde que me entendo por gente, Milos sempre esteve sob ataque de piratas vindos do leste. Há uma rota marítima que interliga Strauben, o maior porto do reino, e Erlich, uma ilha de tamanho razoável que foi disputada por muito tempo com o reino de Simmel por causa de sua posição estratégica. Após muitos anos de lutas e negociações, Milos acabou obtendo a posse, e com ela foi capaz de começar a explorar novos horizontes. No entanto, o que não esperávamos é que surgiriam piratas tão fortes, que fossem capazes de resistir à nossa força militar. Por enquanto, ainda acontecem algumas brigas causadas pelos piratas tentando forçar a entrada em Erlich, mas os soldados estão fazendo um bom trabalho e por enquanto a situação se encontra estável.
Após passar pelo porto, segui pela estrada de pedra até avistar o rio Slaghader. Esse era o rio principal, pois cruzava Milos de uma ponta a outra. Importante via fluvial, várias balsas seguiam por sua extensão, ou de uma margem a outra levando produtos e pessoas. Passeei pelo pequeno porto até achar uma balsa que pudesse me levar. Ultimamente a atividade comercial de Milos aumentou muito, então era exigido ainda mais do transporte. Dei duas moedas de prata ao dono da balsa e me acomodei em um canto, apoiado no parapeito. Depois de alguns minutos a embarcação começou a se mover em direção à outra margem do rio.
Fechei os olhos e deixei que o vento delicadamente aquecido pelo Sol acariciasse meu rosto. O som do mar ao longe, o barulho da correnteza do rio, o vento agitando as folhas das árvores, risadas, conversas, tudo fazia com eu relaxasse. Todo aquele calor humano, em meio a tanta tranquilidade, me faziam sentir deliciosamente aquecido por dentro. Solidão era a pior parte de meu trabalho. Claro, quando sozinho eu consigo pensar com mais clareza e facilidade, além de conseguir aproveitar o ambiente em sua mais pura forma, sem interferência humana, no entanto, ficar sozinho por muito tempo nunca me fez muito bem. Por isso, em viagens, eu costumo pagar um transporte, só para poder aproveitar a conversa incessante de um senhor com muitas histórias. Me divirto muito com eles.
Um puxão em meu casaco me distraiu. Olhei na direção da pessoa que tinha puxado e vi um garotinho loiro olhando para mim com olhos brilhantes. Uma mulher loira, provavelmente a mãe do menino, o repreendeu em tom baixo e ordenou que ele voltasse para perto dela.
— O senhor é um soldado? — acenei com a cabeça e sorri quando o garoto, claramente entusiasmado, contou para a mãe que eu tinha falado com ele, mesmo que ela tivesse visto e ouvido a cena toda por estar quase em minha frente.
— Peter, deixe o cavalheiro em paz. — exortou a mulher. Mesmo assim, o garoto continuava muito entusiasmado com o fato de ter falado com um soldado. Fiquei curioso por esse entusiasmo todo, pois devido à guerra, soldados eram exortados a patrulhar as cidades, livremente, então ver um deles por aí era algo bem comum.
— Onde você mora não há soldados, garoto? — perguntei, por curiosidade e também para me assegurar de que estavam fazendo o trabalho ordenado. Se não, mais um problema que eu teria de resolver.
O menino apenas acenou com a cabeça. Percebendo que uma resposta mais elaborada seria adequada, a mãe dele disse:
— Tem. O pai dele o conta muitas histórias de soldados que conheceu e ajudou. Ele é médico, por isso muitos soldados são tratados por ele. — falou sorrindo e puxando garoto para seus braços — Peter fica maravilhado toda vez que vê um soldado tão de perto. Vocês são como heróis para ele.
Sorri e agradeci. Era uma boa notícia, de fato. A população se sentia segura, o que significava maior desenvolvimento tecnológico e comercial. Sorri novamente para o garoto de cabelos loiríssimos; ele me lembrava de Mika quando era pequeno, com sua grande imaginação. Vasculhei meus bolsos até achar um dente de javali que encontrei no chão em Grensen Forest e o dei ao garoto, que ficou profundamente agradecido e passou os três minutos seguintes falando de como quer ser quando for um soldado. Depois que a balsa chegou na margem, me despedi dos dois e segui pela estrada de pedra que adentrava uma área que já tinha sido um floresta. A placa tão familiar de madeira rústica possuía FERDZA cravado sinuosamente em suas duas faces. Casa. Pensei em Agnes, cantarolando enquanto fazia alguma tarefa doméstica, Gneell, se enfiando por arbustos em busca de alguma presa, Mika, subindo em árvores para pegar algumas frutas. Um calor me invadiu e segui meu caminho ainda mais motivado.
Na estrada, alguns comerciantes passavam com suas carroças, soldados andavam em patrulha, e outros simplesmente passeavam. Continuei nesse mesmo ritmo até chegar à cidade. Devido ao fato de ser um dos lugares mais seguros de Milos, Ferdza era uma cidade cheia de casas. Claro, os estabelecimentos comerciais existiam em grande quantidade, mas a maior parte das construções era residencial. Casas pequenas, médias, grandes, muito dependia da renda e do tamanho da família. Independentemente, era uma cidade colorida, com muita área verde, cheia de vida, e tranquila.
Percorri as estradas tão familiares e queridas e me dirigi à parte alta da cidade, comumente ocupada pelos nobres. E, devido ao meu cargo no exército, eu fazia parte desse grupo.
A moradia dos nobres em Ferdza era grande, não só por luxúria, mas para poder alocar os empregados. Geralmente eles são pessoas vindas do sudoeste de Milos, de pequenas habitações aos arredores de Cynbryt. Alguns têm uma família grande demais para sustentar, então têm de arranjar um trabalho em algum lugar mais longe.
— Lorde Kohornen! Lorde Kohornen! Seja bem-vindo de volta, senhor! — um dos empregados vinha em minha direção, sorrindo para mim, como se fôssemos amigos desde de a infância.
— Não sou um lorde, Hans. Mas obrigado pelo respeito. — devolvi a saudação amigavelmente, apertando a mão dele.
— Como foi a viagem, senhor? Agradável? — perguntou ele animado. Respondi à todas suas perguntas, com exceção das mais irrelevantes.
Hans parecia sempre animado, sempre com muita energia. Um trabalhador árduo, nunca deixou de cumprir uma tarefa sequer que lhe foi mandada. Fazia apenas três meses que trabalhava para mim, no entanto, já no primeiro mês, percebi que não tinha má índole. Um bom homem. A esposa e as duas filhas moravam num vilarejo próximo da floresta de Cynbryt, por isso eu lhe dava uma semana de folga por mês para ele poder visitá-las, mesmo assim, Hans só usufruía três dias, pois voltava logo para trabalhar. Com certeza, sua família tinha orgulho dele.
— Hans, você poderia contatar o garoto das correspondências? Diga para ele vir assim que possível. — assimilou o que eu lhe disse, me desejou uma boa tarde e foi embora. Um bom homem, de fato.
Passei pelo pátio que ficava em frente à casa principal, cumprimentei alguns empregados que se movimentavam para lá e para cá, e finalmente girei a maçaneta dourada da porta principal, feita de madeira rústica. Adentrei o ambiente, inspirando o cheiro tão familiar da essência favorita de Agnes.
Silêncio. Geralmente Gneell era o primeiro a me cumprimentar, colocando suas largas patas em meus ombros e esfregando seu rosto peludo ao meu. Depois Agnes viria ver o porquê de Gneell estar tão agitado e se depararia comigo. Mas nem sinal deles. Talvez tivessem saído, Agnes, para visitar alguma de suas irmãs, e Gneell, para caçar, então não me preocupei muito. Só atravessei o salão principal, subi as escadas e fui tomar banho.
Depois de me enxugar, reparei, de frente ao espelho, que havia um pequeno corte que se cicatrizava em meu ombro. Mais um para a coleção. Agnes não iria gostar nem um pouco.
Vesti roupas limpas e quentes e desci as escadas. Nem sinal de Agnes. Resolvi perguntar à uma das empregadas se havia acontecido algo.
— Ah! Perdão, meu senhor! Eu esqueci! A senhora Kohornen me pediu para lhe avisar que Lorde Finkler os convidou para um jantar. Minhas sinceras desculpas, eu acabei esquecendo. — agradeci à agitada empregada assegurando que não tinha problema ela ter esquecido. Chamei por Hans, que carregava um grande feixe de feno para os estábulos. — Não precisarei mais do garoto, mas caso ele realmente venha, o dê essas duas moedas. — Vesti meu sobretudo e pedi por uma carruagem.
Edward Finkler era capitão do exército de Milos, ou seja, meu superior. Revisei na mente o que tinha de relatá-lo, não podia deixar passar um detalhe sequer. Edward era um homem importante para a sociedade de Milos, por isso era muito detalhista, principalmente com respeito à informação que lhe era dada. Mas ele tinha razão, afinal todos os mínimos detalhes fazem uma diferença grande na hora de lidar com a situação presente.
A carruagem parou em frente à entrada da casa. Dei três moedas ao cocheiro e encarei a enorme fachada. Toda feita de materiais importados de lugares distantes, a construção exalava imponência e luxúria. Abri a enorme porta dupla de madeira rústica das terras tropicais e fui recebido por um empregado que se ofereceu para retirar meu sobretudo. Fui guiado pelo mesmo homem até a sala de jantar. O agradeci e abri a porta.
— E aí está ele!
A mesa de jantar estava ocupada pela família Finkler, minha família. Quem anunciou minha chegada foi Marko, irmão mais velho de Agnes. Fui recebido por alguns apertos de mão e perguntas sobre meu bem estar. Tarsila se levantou e veio até mim de braços abertos e o sorriso lindo que sempre teve.
— Bem-vindo de volta, querido!
— Obrigado, mãe. — a abracei delicadamente. Tarsila tinha uma graciosidade imensa, como uma escultura de porcelana, por isso eu tentava o máximo possível minimizar meu jeito bruto enquanto perto dela.
— Venha até aqui, garoto. — me libertei do abraço e fui até Edward, que me recebeu com um tapinha nas costas. Podia ver por seu olhar que ele estava genuinamente feliz, não só pelo meu retorno seguro, mas também por ter a família reunida. — Tome seu lugar à mesa, filho. — me indicou a cadeira ao seu lado, numa das pontas da mesa.
Os empregados traziam o jantar à mesa quando Agnes e Kirsi entraram rindo pela porta à frente. Tarsila as repreendeu com delicadeza e mandou as duas se sentarem. Ambas pediram desculpas, mesmo ainda sorridentes. Assim que me viu, Agnes se apressou em minha direção, por isso levantei-me para recebê-la. Nos contentamos a um abraço rápido, pois seria falta de educação beijá-la em frente à sua família.
De qualquer maneira, Agnes estava linda como sempre. Os cabelos, presos num coque trançado, exibiam o loiro habitual, sendo banhados em um dourado tremulante devido à iluminação das velas. Os olhos verde-oliva pareciam ainda mais brilhantes; ponderei se pelo fato de me rever ou por causa do vestido verde-escuro.
* * * * *
Durante o jantar, muitos assuntos passaram pela imensa mesa: comentários sobre arte e economia, alguns argumentos de história, reclamações infundadas de Kirsi, perguntas sobre como tinha sido minha viagem, piadas feitas por Janno, a gravidez de Merit, etc. Aparentemente eu tinha passado muito tempo fora, muita coisa tinha acontecido. Parecia até que todos naquela mesa tinham mudado em alguma coisa, por isso corri meus olhos por cada um só para conferir.
Os membros nascidos da casa Finkler eram todos loiros, sendo eles: Edward, patriarca atual da família; Tarsila, esposa de Edward, provinda de outra casa importante de Milos; Olli, o primogênito, casado com Merit, filha de comerciantes ricos; Marko, o segundo filho, um ano mais novo que Olli, casado com Helene, filha mais nova da casa Bohn; Hannah, a filha do meio, três anos mais nova que Marko, casada com Janno Furtwägler, e por isso agora fazia parte também de tal família; Agnes, minha esposa, dois anos mais nova que Hannah; e por fim, Kirsi, a mais nova, três anos mais nova que Agnes, cuja vida agitada ia de encontro ao que tinha aprendido na escola de etiqueta.
Aparentemente, um pretendente tinha visitado Kirsi, mas pelo visto, o cara era um completo babaca, por isso Merit se deu ao trabalho de o pôr para fora. — Com todo o respeito, mãe, o rapaz realmente não serviria para Kirsi. — se pronunciou Hannah. — Ele só sabia falar de suas posses e feitos. Um completo idiota.
Tarsila, sempre muito refinada, tinha achado um absurdo terem expulsado o jovem rapaz e fez Kirsi, Hannah e Merit garantirem que pediriam desculpas por isso. Eu e Marko nos entreolhamos e rimos; ele era meu parceiro de brincadeiras quando eu tinha onze ou doze anos, e, muitas vezes nos metemos em confusão. Edward o repreendia por estar se metendo em confusão mesmo sendo quatro anos mais velho que eu, mesmo assim, Marko nunca abandonou seu jeito brincalhão, tanto que vez por outra, ouço alguns relatos de certas "aventuras" que tem tido.
Enquanto Kirsi tentava me explicar o porquê de não ter concordado com a expulsão do rapaz, um empregado entrou elegantemente pela porta. — Lorde Finkler. O senhor e Lorde Kohornen são solicitados na outra sala. — "Não sou um lorde.", pensei. Com isso, nos levantamos sem alarde da mesa e pedimos licença, nos dirigindo à porta de madeira bruta. Seria alguma emergência? Talvez sim, talvez não. As rotas fluviais talvez tivessem achado algum problema, ou alguma embarcação da Guarda Real tivesse sido saqueada.
Depois da sala de jantar ficava a sala de visitas. Ao entrarmos, nos deparamos com o Capitão Johan e alguns mensageiros e soldados. Todos pareciam nervosos. Alguma coisa grave tinha acontecido, pois Capitão Johan, que era normalmente inexpressivo, exibia dois grandes sulcos na testa onde se encontrava um cenho franzido. E seus olhos... eles não estavam normais.
— Boa noite, cavalheiros. Como posso ajudá-los? — eu estava prestes a dizer a Edward que talvez não fôssemos capazes de ajudar àqueles homens com o problema que tinham para presentar, quando o próprio Capitão Johan falou, sua voz meio rouca:
— Estão vindo...
— O qu--
— Os piratas estão vindo... Conseguiram passar pelas defesas de Erlich e estão vindo para o continente. — o homem tentava controlar seu nervosismo. Em vão.
— Mas como? Pelo relatório que me passaram em minha última missão, a situação estava sob controle. — declarei. Esse relatório era o qual eu tinha de entregar para Edward.
— De algum modo as defesas de Erlich não os notaram. Depois, pegaram alguns navios comerciais e estão vindo para o continente.
— Como assim as defesas não notaram?! — Edward estava ficando vermelho de raiva.
— Traidores... — falei.
— E logo na ilha. — meu sogro andou de um lado para o outro do cômodo passando a mão pela barba e pisando firme. Realmente, se traidores se infiltraram em Erlich, boa parte de nossa defesa contra invasões do leste estava comprometida. — Mande navios de guerra para interceptá-los.
— Infelizmente isso não será possível. Como só os que estão dentro dessa sala sabem da situação, os comerciantes continuam com suas atividades normais. — disse um dos soldados. — Caso interceptássemos as embarcações erradas, os piratas ficariam alertas e nos despistariam, visto que suas habilidades marítimas são, em boa parte, desconhecidas.
— Navios?! — vociferou Edward. — Quantos navios eles roubaram?
— Pelo menos uns quatro, senhor. — disse o cabisbaixo mensageiro, como se esperasse uma punição.
Edward parecia prestes a explodir.
— Quanto tempo até chegarem em Strauben? — perguntei. De Erlich até o Grande Porto existia uma distância de umas três semanas de viagem, por isso, levando em conta a rapidez com que recebemos a mensagem vinda de navios que patrulhavam a área ao redor da ilha, ficaríamos com apenas...
— Quatro ou cinco dias. — Maldição!
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