Fio da Eternidade

2 Capítulo II: Viver para Sempre


Notas iniciais
Toda a história se passa em Porto Alegre, minha amada cidade, e escrevi com o intuito de as pessoas daqui conseguirem visualizar o local. Peço perdão caso isso venha a causar algum desentendimento a alguém.

Era começo de junho. E bastante frio. Nicholas vestia seu sobretudo preto. Acordar cedo foi
um habito que nas férias enquanto conversava até as quatro da manha com Joana e só ia
dormir as sete pois ficava lendo ou jogando videogame, se perdeu. Era difícil pegar no sono
estando feliz demais. Ansioso demais. Empolgado demais.
Seu pai viajou para Florianópolis com sua madrasta e passaram três semanas. Papai
queria que fosse com ele, mas por causa de Joana, decidiu ficar. E durante todo esse período
ficou na casa de sua mamãe. Sentia-se desconfortável e queria ver Joana a todo momento. Sua
mãe notava que estava diferente, seus outros familiares também. Diziam que andava
estressado e só sentia-se bem com Joana. Eles queriam conhece-la. Mas Nick não queria
apresenta-la tão cedo assim.
Havia brigado com ela uma semana antes de seu pai voltar de viagem. Seu pai desde a
primeira vez, não foi com a cara de Joana. Não havia visto-a pessoalmente, mas só pelo fato de
seu filho ter preferido ficar em Porto Alegre por causa dela, já viu que ela mexia com sua
cabeça.
—Tchau pai-disse Nicholas descendo do carro e pegando a mochila no banco de trás.
Entrou no portão da escola e já viu a cara de uma de suas amigas com a cara amarrada.
—Você tem o que na cabeça? Merda né? Só pode!

Carla Nobre outra amiga de Nick levantou-se do banco no pátio em que estava sentada
para repreendê-lo.
—Bom dia para você também Carla- Nick deixou a mochila no banco.
—Você é retardado! Depois de tudo que essa guria te fez passar e tu ainda sai com ela.
—Ela é minha amiga. Assim como tu é.
—Mas a gente não se beija!
Nick pensou um pouco antes de responder.
—Pensando bem, eu não me importaria de te beijar- escolheu essas palavras pois sabia
que a deixaria extremamente brava. Ela levantou o braço, mas hesitou. Nicholas era a única
pessoa que Carla não conseguia bater.
O sinal bateu, e todos subiram para as salas de aulas. Carla só se virou zangada.
Eles se conhecem e são amigos há dez anos. Carla tinha cabelos loiros e olhos verdes,
um nariz um tanto levantado, mas mesmo assim, era uma das mais bonitas na turma. Nunca
havia dado uma chance para alguém. Mesmo sendo uma das mais bonitas, era uma das mais
chatas. Durante todos os dez anos que se conhecem, brigaram poucas vezes que poderia se
contar nas mãos, mas desde que Nicholas conheceu Joana, ambos perderam a conta de
quantas vezes brigaram por causa dela.
Carla nunca foi com a cara de Joana. Dizia que ela tinha alguma coisa errada. Nunca
havia visto ela pessoalmente- até o dia anterior-, apenas por foto e mesmo assim a julgava
puta e uma pessoa extremamente errada e perdida na vida. Uma ironia do destino: as duas
querem fazer faculdade de medicina.
Eleonora, a amiga que apresentou Nicholas e Joana não havia chegado ainda. Ela
geralmente chegava um pouco atrasada, mas raramente faltava. Elas haviam sido colegas, mas
quando haviam ido ao oitavo ano, seguiram para escolas diferentes. Fernanda veio para a
nossa, e Joana foi para a nossa escola rival.
Havia certa rixa entre as duas escolas. Boa parte dos alunos que estão no nono ano,
foram seus antigos colegas que agora se acham superior por estar num colégio mais famoso
que o deles. Joana insiste para que quando ele terminar o ensino fundamental, ir para lá, pois,
segundo ela, muitos de seus- ou suas- amigas de lá gostariam de conhece-lo e já o consideram
muito pelas coisas que Joana conta.
Às vezes ele considera essa possibilidade, às vezes não. Seria estranho e
desconfortável ficar na mesma sala todo o santo dia com alguém que ficou e todo mundo
sabendo disso. E, do jeito que ele conhecia ela, se por algum momento deixasse os dois
sozinhos, bem provável que se peguem. Ou como Eleonora chamou “Pegação All Day”.

Na aula de filosofia anterior, o professor havia pedido para os alunos darem sugestões de
algum assunto para se debater. Nicholas sugeriu o tema “Viver para Sempre”. Não sabia se o
professor escolheria esse tema, mas no momento que escreveu no quadro, já soube que a sua
ideia havia sido aprovada.
—A eternidade- começou o professor. Era um homem alto e magro, usava grandes
óculos. O formato do seu rosto lembrava um pouco o Coringa. Era o tipo de cara que dizemos
“Quando crescer e quero ser que nem ele”- Qual é o preço dela? Por que alguns à desejam, e
outros não?
Desde que começou a dar aulas a Nicholas no terceiro ano do fundamental, quando
ainda era uma criança, quando havia debates, o professor pegava um estojo vazio e só quem
tivesse a sua posse poderia falar. Caso alguém que não o tenha, fale, perde pontos.
—Nicholas- o professor viu que o garoto estava com a mão levantada e jogou o estojo
pra ele.
Pensou um pouco antes de começar o discurso. Tomou folego e foi:
—Quantas coisas aconteceram em quinhentos anos? Quantos eventos históricos?
Revoluções e descobertas? E quantas coisas estão para acontecer em quinhentos anos?
Milhares! E, eu quero estar vivo para ver essas coisas acontecendo. Conhecer o Fim, saber
como tudo vai acabar. Saber de tudo, pois, vivemos num curto período de tempo em
comparação ao que esta por vir. O que são 100 anos em um milhão? Alguns podem dizer “ e as
pessoas que vou conhecer vão morrer”, mas nada supera o preço do conhecimento. Esse é o
preço da eternidade. Mas o conhecimento é algo muito maior e mais valioso. Imaginem estar
do lado do cientista que descobrir a cura de todas as doenças. Ou dentro de uma nave que vai
atravessar um buraco negro para viajar no tempo. Tantas coisas estão por vir, mas nunca
saberemos.
A sala ficou em silencio e o professor ficou refletindo o que Nicholas disse. O garoto
sabe que é ambicioso e egocêntrico. E sua ambição é algo que para alguns é assustador e
estranho.
—Então as vidas de seus amigos e familiares, e as pessoas que você ama, como a Joana,
você abriria mão disso?
Quem perguntou foi Giovana Santos, uma garota que desde que chegou no colégio no
sexto ano, têm problemas com Nicholas. Sabia que falar de Joana o atingiria. Todos da turma
sabiam da relação de Nicholas com a Joana.
—Esse é o preço que estou disposto a pagar- sua resposta foi curta e grossa.
Nunca soube o porquê da implicância dela, ou simplesmente da raiva que tem por
Nicholas. Giovana já se meteu em muitos problemas envolvendo bebida e garotos. Não é o
tipo de garota exemplo, ou alguém que se tenha moral para se questionar.
—Parabéns Giovana- disse o professor Iuri- Acabou de perder meio ponto.

Depois de um debate cansativo, pois ninguém conseguiu superar o argumento de Nicholas e o
professor Iuri não prestou atenção em nenhum outro. Ficou refletindo o que o garoto disse.
Era formado em filosofia havia dez anos. Não era um período muito longo, mas já sabia de
algumas coisas. Quando o sinal tocou, pediu para falar com o garoto.
—Interessante seu argumento. Conhecimento. Querer saber de tudo que esta por vir e
o que passou. Mas por que acha que o futuro lhe proporcionaria saber mais sobre o passado
se estaríamos mais distantes?- ele já sabia a resposta, mas queria saber do garoto.
—Em 1500 sabiam muito pouco sobre o que aconteceu dois mil anos antes de cristo, e
hoje sabemos muito mais que eles, mesmo estando mais distante. Algumas coisas logicamente
se perdem com o tempo, outras não.
Era exatamente isso que o professor estava pensando.
—Estaria disposto a abrir mão das pessoas que ama, até mesmo dessa Joana?- o
professor soltou um risinho.
—Ela é uma amiga, só isso. E sim, estaria disposto a abrir mão. O conhecimento vale
muito.
—Sei que, desde que você era pequeno, sempre foi bastante ambicioso. Mas não
esperava isso- percebeu o erro e corrigiu-se- Entenda como um elogio. Tenho que ir. Tchau
Nick.
Tentou lembrar-se uma vez que o professor o chamara assim.

No refeitório, todos estavam lanchando. Alguns estavam sentados no sofá de canto, e outros
nas mesas. A turma tinha apenas vinte alunos, então não havia como ocupar todas as mesas.
Ali era o território do nono ano, nenhuma outra turma lanchava lá. Nicholas estava ao lado de
Arthur Rodrigues, seu amigo desde o primeiro ano.
—Então, ontem nas mensagens disse que contaria tudo pessoalmente.
—É, disse o mesmo pra mim- sentou-se do outro lado de Nicholas, Eleonora Tavares, a
amiga que apresentou Nick, a Joana.
—Bem, por onde eu começo- questionou-se o garoto de óculos.
—Começa contado depois que saíram do colégio juntos- pediu Arthur.
—Ah sim. Ela disse que, como ontem fora conselho de classe no colégio dela, ela iria vir
no meu me buscar. Então saímos de mãos dadas indo para o shopping. Foi como meus
encontros normais com ela- havia um certo desanimo em sua voz.
—Tudo bem Nick?- perguntou Eleonora.

—Sim, esta tudo bem- os dois sabiam que quando Nick mentia, ele desviava o olhar- Ok,
não esta tudo bem. Eu já estou de saco cheio de ser só um amigo com benefícios com ela.
—Nick, parte pra outra- sugeriu Arthur.
—Cala a boca. Ele e Joana estão fadados a ficar juntos.
Era bom ouvir isso. Sabia que Eleonora gostava imensamente de Joana, e queria que
ficassem juntos. Sabia de todas as complicações de Joana e Nicholas, e sempre que o garoto
contava das implicâncias, ela gostava e dizia que logo, logo, ela aceitaria seu pedido de
namoro.
—Oh guria, da uma calmada- xingou Arthur.
Uma das coisas em comum de Nick e Arthur, era adorar implicar com os outros.
Eleonora virara amiga de Nicholas no ano passado, e Arthur era seu amigo desde o primeiro
ano. Sim, nove anos juntos. Ambos tinham ideias controversas em relação a Nicholas e Joana,
mas ambos queriam seu bem.
—Parem, por favor. Só preciso de um tempo.
—Acho que esse tempo pode ser preenchido na festa do União sexta. Tu pilha em ir?
Nicholas pensou um pouco, mas seu sorriso já respondeu:
—Ótimo, tem que ir com camisa social. Já sabe abotoar as mangas né Nick?