Fio Ruivo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ela foi postada primeiro no spirit, mas resolvi trazer pra cá.
*O que estiver em itálico será a visão do Kakyoin e fonte normal é a do Jotaro
Boa leitura! ;)
Desde sempre, eu tenho procurado por algo.
Algo, alguém, eu não sei. O sentimento de perda me consome, aquele vazio, a pressão no peito.
Mas eu nunca soube o que era.
Meu nome é Noriaki Kakyoin, tenho 25 anos, trabalho como ilustrador de mangás em Tokyo. Nunca encontrei um amor, e muitos me consideram fracassado — incluindo meus pais, que me cobram constantemente de apresentar alguém e me casar. Nenhum dos meus relacionamentos deu certo, duravam apenas algumas semanas, sempre me culpavam de não estar presente, parecer insensível, e ninguém também nunca entendia.
Eu estava perdido, eu também tinha perdido algo.
Não é tão fácil seguir em frente. As vezes isso me destruía tanto que eu não queria continuar. As coisas perdiam o sentido, era cansativo. Eu não tinha um lar, um lugar que me acolhesse, e o sentimento de estar deslocado constantemente era agonizante.
Muitas vezes eu acordava chorando sem saber o porquê. As vezes gritando, mas nunca me lembrava do sonho que havia tido. Continuava seguindo minha vida: acordar, trabalho, socialização e casa, para então realizar tudo outra vez; o mesmo em um novo dia, e sempre procurando por aquilo que nunca encontrava, buscando alguma maneira de suprir meu vazio e aliviar a dor constante e distância, o aperto no peito.
Todos os dias eram novas batalhas para acordar, me manter, trabalhar, suportar.
O tempo todo, sem descanso, eu me sentia sufocado, a sensação agonizante de algo estar faltando, mas eu não tinha ideia do quê.
Jotaro Kujo, 27 anos, biólogo marinho. Viajo bastante, mas moro em Tokyo, no Japão. Já fui casado,porém me separei, nunca senti que era certo, em nenhum momento eu me sentia bem forçando aquilo. Tinha uma filha, minha pequena Jolyne, meu motivo para continuar. Eu a amava incondicionalmente, mas nem mesmo ela era capaz de suprir minha necessidade, nem ela era capaz de me dar um lar ou ao menos um caminho.
Realmente ficava mais fácil com a garota ali, eu não podia mais desistir, nem que isso me levasse à exaustão. Minha pequena precisava de mim, e eu não a abandonaria em seus meros cinco anos de vida.
Embora viajasse constantemente, nunca encontrei algum lugar, alguém ou algo que tampasse o vazio dentro de mim. Mas já aceitara que nunca o faria, desistir e levar era mais fácil do que se frustrar sempre buscando alguma coisa que podia nem existir.
Já perdi a conta de quantas vezes acordei chorando, e a única coisa que lembrava de meus sonhos era o esvoaçar de cabelos ruivos. Mas não conhecia ninguém assim, principalmente no Japão.
Preparava o café da manhã para Jolyne, normalmente ela me ajudava, mas agora se entretinha brincando. Servi, sentei, comi.
— Ei, papai, a gente vai se atrasar!
— Não vamos, ok? papai já está pronto.
Meu carro estava no conserto, então teria de levar Jolyne para a escola a pé. Certifiquei-me de ter arrumado tudo, coloquei suas presilhas de borboleta favoritas e saímos. Ela segurava minha mão, e eu cuidava para que não fugisse para se distrair com algo no caminho. Pegamos o trem, ela não desgrudava os olhos da janela, tudo era uma novidade, e eu tentava me lembrar de quando foi a última vez que me senti assim; com certeza era tanto tempo que mal me lembrava. Esbocei um sorriso, pelo menos ela estava feliz, e isso que importava. Chegou a hora de descer, caminhamos para fora da estação. Seria apenas mais um momento, quando senti aquilo, e ouvi o que parecia ser o tilintar de um sino distante atrás da minha nuca. Meu corpo parece falhar. Parei, olhei pra trás e...
Cabelos ruivos. Indo embora na multidão. Ia persegui-los, mas a voz de Jolyne fez a realidade me atropelar novamente.
— Papai? Você tá bem? A gente vai se atrasar! — sacudi a cabeça. Ela estava ali.
— Desculpe, filha, papai só pensou... que viu alguém?
— Alguém? Como assim? Quem era?
— É meio complicado, um dia você vai entender.
Seguimos, mas a cena não saía da minha mente. Eu havia perdido a chance, e nunca mais o destino me permitiria voltar a crer que eu encontraria o que buscava. Deixei Jolyne na escola, chegamos em cima da hora. Ainda teria que voltar pra casa. Eu podia ver os cabelos ruivos, indo embora, partindo para sempre. Quem era? Por que eu me senti daquela forma? Por que eu tinha que passar por tudo isso? Merda.
No caminho para o trabalho, eu sabia o que havia sentido.
O vento abraçando meus cabelos, o som baixo de um sino, o sentimento repentino de ter ficado em paz e depois recebido um soco no estômago. Ao me virar, não havia nada. Ninguém. A chance podia ter passado por mim como um furacão, e eu a havia perdido. Enterrei minha cabeça nas mãos com ódio. Não conseguiria nem trabalhar hoje. Minha cabeça estava cheia, eu precisava de um café. Guardei meus materiais, deixei tudo no escritório e saí. Fui para a cafeteria mais próxima. Sentei, tentei me distrair, mas tudo aquilo ainda estava ali. A perda, o medo, o vazio.
Terminei, mas não adiantou. Teria de trabalhar desse jeito. Paguei e rumei de volta para o prédio, mas no caminho
Podia ser?
Não, não era.
O mesmo som.
Virei-me de supetão, nada. Mas em meu mindinho direito, algo: um fio vermelho, esticado, amarrado a mim. Era intangível, mas não pude fazer nada além de segui-lo intuitivamente
Um fio amarrado em meu mindinho que nunca esteve ali antes. Provavelmente alguma brincadeira. Dei de ombros, mas ao tentar tirar percebi que era quase... espiritual. Comecei a trilhar o caminho pelo qual ele me levava. Não tinha esperança alguma de que fosse dar em algo, mas continuei.
Acompanhei, sob pedidos de licença e me esquivando de quem vinha. Aos poucos, comecei a correr, queria saber onde ele me levava e o porquê disso. Me focava totalmente em minha mão e no caminho, e nem vi quando acertei com tudo um homem. Era bem mais alto e forte que eu, dei de cara com seu peito. Ele me segurou, pelo menos evitamos cair. Quando levantei minha cabeça...
Um rapaz trombou em mim enquanto andava para meu destino. Não estava prestando atenção em nada além do fio.
— Ah, me desculp...
Estava paralisado. Era ele. Os cabelos ruivos caíam sobre o rosto. Ele me fitava, confuso. Não sabia quem eu era, com certeza, mas então percebi que...
... Ia me desculpar, quando percebi que este me encarava. Fiquei constrangido, não sabia o motivo, nunca o havia visto, mas...
...O meu fio...
...O meu fio...
Terminava...
... no dele.
E ele podia ver isso. Passou a olhar diretamente para nossas mãos. Levantei a minha, ele fez o mesmo, e tocamos uma na outra. Sorri. Eu estava em paz
Por tanto tempo, busquei-o. Algumas pessoas estranharam quando nos abraçamos. Eu estava feliz.
E com aquele toque, tudo fez sentido
Eu devia ter pouco mais da idade da Jolyne. Estava na praia, olhando o mar. Minha mãe dizia para ir nadar, porém não muito longe. Eu fazia aulas de natação, lembro disso. O mar estava calmo, mas em um dado momento uma onda grande demais me acertou. Consegui retornar à superfície, mas senti algo me agarrando. Uma mão, de uma pessoa. Ele era mais baixo que eu, e nem eu alcançava o chão para ficar em pé. Mergulhei, puxei o garoto e trouxe-o para mais perto da areia. Ele tinha cabelos ruivos, e então voltei ao presente.
— Ka... kyoin?
Ele assentiu, sorrindo de orelha a orelha. Retribuí, sabendo, enfim, que ele também me procurava, e sabendo que agora eu tinha um lar, eu estava...
... Completo.
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