Fins e Meios
2 Tempestade
Ryohei seguiu para o elevador. Já Gokudera preferiu usar as escadas de emergência, sem paciência para esperar os longos trinta segundos que a máquina levaria para chegar ao seu destino. Subiu os degraus de dois em dois, às vezes pulando quatro de uma vez só, tamanha sua ansiedade. Seu sangue entrava em ebulição de raiva e preocupação, e agora havia adrenalina acumulada em seu ser — e Gokudera Hayato necessitava extravasá-la de alguma forma. Imediatamente.
Ele abriu a porta da enfermaria de rompante, nem um pouco surpreso por ter chegado antes do guardião do sol. Suas mãos coçaram de exasperação ao ver o seu querido juudaime conectado a diversos tubos e preso a uma cama — tudo o que ele desejava era pegar suas dinamites e explodir o desgraçado que deixara o chefe dos Vongola naquela condição. Seus olhos praticamente lançavam faíscas quando se virou para o outro homem presente no quarto:
— Como você pôde permitir que uma coisa dessas acontecesse com o juudaime?! Nós nos chamamos guardiões por uma razão, seu idiota! — Hayato vociferou, seu rosto ficando vermelho de raiva. Yamamoto exibiu uma expressão de quem pede desculpas, porém apenas isso não satisfaria Gokudera: — Você falhou em cumprir seu papel, você deveria ter vergonha de si mesmo! — ele avançou, segurando Takeshi pela gola da sua camisa branca. O puxão fora tão forte que alguns botões da peça de roupa estouraram, caindo no chão.
Alheio de seus arredores, o guardião da tempestade observou o par de olhos castanhos a meros centímetros de si. O mar de chocolate parecia querer crucificar-se pela culpa que seu dono carregava sobre os ombros. Bem feito, Yamamoto. Isso, reconheça o seu erro, pensou Gokudera, amargurado. Ele só não dera um soco naquele idiota porque logo um aperto de ferro segurou-lhe os pulsos contra as costas, restringindo seus movimentos.
— Me solte. Agora. — a voz de Hayato era baixa e perigosa, transmitindo todo o seu ódio.
— Começar uma briga entre nós não ajudará em nada. — surpreendentemente, Ryohei permaneceu composto diante da ferocidade do outro. Ele parecia ser o único racional no cômodo; Gokudera estava cego de raiva, e Takeshi, cego de arrependimento.
— Ele tem razão, Gokudera. — Reborn intercedeu; suas costas escoradas na soleira da porta como se estivesse ali o tempo inteiro. A aba de seu chapéu ocultava a maior parte de seu rosto, porém todos ali eram capazes de sentir seu desgosto através da aura sombria emitida pelo hitman.
Hayato abaixou a cabeça, tentando conter-se — há quanto tempo ele não tinha a necessidade de fazer isso? A falta de prática tornava ainda mais doloroso e difícil usar o seu autocontrole. Soltou o fôlego que segurara momentaneamente, e proferiu cada palavra com o máximo de acidez possível:
— Me explique por que o nosso chefe está inconsciente em uma maca, enquanto a pessoa que deveria protegê-lo está ilesa. — Gokudera fuzilou o Yamamoto com seu olhar, e sentiu-se um pouco gratificado ao vê-lo encolher os ombros, exibindo uma fisionomia desconfortável. Takeshi engoliu em seco, olhando Reborn com dúvida. Quando este lhe fez um sinal positivo, o moreno inspirou fundo, tomando coragem para contar a sua versão dos fatos:
— Eu e Tsuna seguimos até o local onde o sinal do Mare ring foi detectado — era um parque com árvores, nada de especial. Nós vasculhamos o lugar inteiro e não achamos nada suspeito, então eu sugeri que fôssemos ao aeroporto para pegarmos o próximo voo de volta para Namimori. — um suspiro escapou por entre seus lábios — Foi só por um instante, um instante apenas — balançou a cabeça com pesar —, que eu andei na frente dele. Tsuna ficou fora do meu campo de visão por uns dois segundos no máximo e, quando finalmente parei para acompanhá-lo, Tsuna se apoiou no meu ombro, tropeçando nos próprios pés. De repente, o corpo dele pareceu ficar todo mole, sem força, e notei que Tsuna estava inconsciente.
Ao ver Gokudera fechar as mãos em punhos com força suficiente para embranquecer os nós de seus dedos, Reborn decidiu tomar as rédeas da conversa:
— Eu fui ajudá-los assim que Yamamoto me ligou. Nós só não achamos que Tsuna tinha apenas caído no sono porque, com o passar das horas, as suas atividades vitais regrediram. Agora ele precisa do auxílio de equipamentos para continuar vivo. — pôs a mão no queixo, pensativo, e abandonou sua posição anterior para adentrar a enfermaria — Tudo indica que ele entrou em coma, mas não sabemos o que causou isto.
Ryohei não deu brecha para Gokudera se pronunciar:
— E os outros? É extremamente importante que saibam isso, talvez algo aconteça com eles também...
— Você acha que alguém tem como alvo a Família Vongola?... — Reborn refletiu em voz alta — De fato, não podemos desconsiderar essa hipótese, depois de tudo o que ocorreu nesses anos. — abriu um sorriso divertido e melancólico. — Hibari alega mostrar nenhum interesse, mas Kusakabe apareceu aqui para ficar a par dos acontecimentos e relatá-los a ele mais tarde. Chrome não foi encontrada até agora, mas, de acordo com um relatório que deixou para Tsuna ontem, ela e os outros membros da gangue do Mukuro estão ocupados tentando libertá-lo de Vendicare mais uma vez. Lambo está guardando Haru, Kyoko e Mama porque teme que elas estejam em risco.
— O que faremos agora? — desde que entrara na enfermaria, essa foi a primeira vez que Gokudera não soou violento. — Estamos sem o juudaime e não fazemos ideia de quem fez isso. Qual será a nossa tática?
— Você é o braço direito do Tsuna — Reborn lançou-lhe um olhar sério, e o ar do quarto ficou repentinamente pesado —, portanto cuidará da agenda dele. Não podemos agir precipitadamente, Tsuna está assim há apenas um dia. Vamos esperar um pouco e apenas caso o quadro dele não melhore que tomaremos uma providência.
— Mas e o culpado? Nós não podemos deixá-lo sair ileso. — Yamamoto quase sussurrou, temendo ser atacado por sua fala. Foi em vão: Gokudera não perdeu a oportunidade de alfinetá-lo:
— Pois é, já basta você tê-lo deixado fugir uma vez. — murmurou, ressentido.
Reborn fingiu não escutar o guardião da tempestade:
— Eu farei uma investigação sozinho. Isso está muito estranho; não me agrada nem um pouco. — e, para enfatizar sua insatisfação, Reborn tirou a arma de seu bolso, parecendo admirá-la em suas mãos.
* * *
À sua volta havia nada — nada, zero. Tudo era branco até onde a sua vista alcançava; um branco tão limpo e puro que a sua brancura incomodava os olhos, quase o cegando. Se aquela era apenas uma sala impecavelmente limpa, então ela não possuía cantos — ou poderia ser extensa a ponto de ele não ser capaz de ver onde ela começava e terminava —, o que transmitia uma estranha impressão de continuidade e isolação. Não foi preciso muito para que ele logo concluísse que não gostava nem um pouco da situação peculiar em que se encontrava.
— Sawada Tsunayoshi. — escutou seu nome ser chamado por uma voz que conhecia muito bem.
— Rokudo Mukuro? — seu olhar vagou pelo recinto, procurando-o. Virou-se ao sentir um leve toque em suas costas, finalmente avistando o guardião da névoa à sua frente. — Essa é mais uma de suas ilusões? — Sawada perguntou, receoso, vendo um sorriso divertido enfeitar os lábios do ilusionista. — Mukuro... O que você fez dessa vez? — sua postura ficou tensa, e seu rosto foi tomado por preocupação; uma ruga aparecendo entre suas sobrancelhas.
— Tsunayoshi-kun, eu me sinto feito uma criança bagunceira quando você fala assim. — Rokudo resmungou num tom brincalhão atípico. — O que você acha que é isso? — gesticulou para o vazio à volta deles dois — Um sonho, uma ilusão minha? — contornou as dúvidas de Tsuna, respondendo nenhuma delas. Mukuro sentou-se no chão invisível, e sua fisionomia paciente indicava que ele esperaria o tempo que fosse necessário pela resposta do moreno. — Faça uso da sua hiper intuição Vongola, ela cairá feito uma luva agora. — incitou-o com um sorriso traiçoeiro; ao observar o olhar de Rokudo, Tsuna notou como ele estava vazio, apático.
Sawada franziu o cenho, tentando organizar seus pensamentos. Cerrou os punhos ao alcançar realização, e estalou a língua:
— Uma ilusão, definitivamente, uma ilusão. — estreitou os olhos, ajoelhando-se hesitantemente, temeroso pelo chão branco que existia, mas que não conseguia ver. Com seus rostos no mesmo nível, Tsuna evitou os olhos de Mukuro, pois sabia que, toda a vez que os avistava, ele perdia-se naquele azul-noite e vermelho-sangue.
— Nossa, você falou com tanta certeza. Estou orgulhoso, kufufufu. — Rokudo riu brevemente. Foi um riso superficial, falso, que soou como agulhas aos ouvidos de Tsuna. Ele queria perguntar a Mukuro se estava tudo bem com ele, mas o ilusionista voltou a falar antes que tivesse chances para tal: — Por que acha que essa é uma ilusão? — sua voz agora parecia verdadeiramente interessada, portanto Tsuna decidiu responder com rapidez:
— Você está agindo como sempre, "normal" — desenhou aspas no ar, e Rokudo abriu um sorriso divertido com a ambiguidade das palavras do moreno, que lhe fez uma careta em troca. — Nos meus sonhos você é mais delicado. — sua confissão mal foi audível, e Tsuna lutou contra o rubor que insistia em colorir seu rosto. Apesar de agora ser um adulto, ele tinha dificuldade em largar alguns costumes seus, como corar ao admitir algo constrangedor.
— Mais delicado, você diz?... — Mukuro ergueu uma sobrancelha, os cantos de sua boca curvando-se para cima em apreciação. — Sabe, Tsunayoshi, quanto mais você tenta ver através da névoa, na verdade menos você vê. Em outras palavras, é inútil lutar contra ela, então tudo o que resta a ser feito é esperar a névoa dispersar. — curvou-se para afagar uma das maçãs do rosto de Tsuna. Este jurou ver de relance pena estampada naqueles olhos heterocromáticos. Os pelos de Sawada enriçaram em expectativa com as ações de Rokudo. — E se você for precipitado e contar vantagem antes da hora, a névoa irá envolvê-lo — o outro braço de Mukuro rodeou parcialmente a cintura de Tsuna —, e você será engolido.
As mãos do chefe dos Vongola suavam frio ao compreender o significado por trás das palavras de Rokudo. Tentou conter ao máximo o nervosismo que tomava, pouco a pouco, conta do seu ser, mas isso foi em vão; Mukuro sempre sabia o que Sawada estava pensando e sentindo. Sempre.
— Dessa vez eu serei delicado, eu prometo. — o guardião da névoa segurou o seu queixo, aproximando os seus rostos — Desculpe-me, Tsuna. — e beijou-lhe.
* * *
Escutou o som típico de punho contra madeira, e parou no mesmo instante o que estava fazendo. Ele sabia muito bem quem estava atrás da porta — uma das últimas pessoas do mundo com quem gostaria de conversar no momento. A única coisa que o impedia de explodi-lo pelos ares era seu respeito por Reborn-san — e era certo que juudaime não ficaria feliz em ver seus amigos brigarem entre si...
— Posso entrar? — escutou o guardião da chuva perguntar do corredor.
— Faça o que quiser, Yamamoto. — Gokudera suspirou, trincando os dentes enquanto voltava aos seus afazeres. Ouviu a porta ser aberta com hesitação, e Yamamoto adentrou na sala com passos curtos até parar diante dele.
Hayato abaixou os papéis que estava analisando e ergueu uma sobrancelha, questionando silenciosamente a visita do moreno.
Takeshi coçou a nuca, um costume seu quando não sabia como agir. Ele fazia a mínima ideia de que forma trazer o assunto à tona, e Gokudera não estava ajudando muito, encarando-o através das lentes de seu óculos — pessoalmente, Yamamoto sempre o achara charmoso com esse acessório, porém, em momentos como esse, ele aumentava em dez vezes o ar intimidante que o guardião da tempestade emitia naturalmente.
— Eu sei que pedir desculpas não é suficiente para compensar a minha burrada. — Takeshi sentiu suas mãos suarem frio ao ver o outro revirar os olhos com a sua pobre escolha de palavras, mas decidiu não se abalar com isso: —, então, por favor, Gokudera, me diga o que fazer. — pediu, soando mais confiante — Porque eu realmente quero compensar o que fiz.
Oh, se Yamamoto tivesse falado isso três horas atrás, agora ele estaria tão enrascado! O italiano não pensaria duas vezes em fazer seu "colega" passar por péssimas experiências. A vida da única pessoa para a qual Gokudera se abrira estava em risco graças a ele; Yamamoto deveria pagar por isso! Mas não, o guardião da tempestade não podia fazer tal coisa, pois ele sabia que juudaime não ficaria nem um pouco feliz quando voltasse a si.
Sem saída, Hayato passou a mão pelo cabelo, seus dedos entrelaçando-se nos fios prateados. Yamamoto engoliu em seco enquanto seus olhos seguiam o movimento alheio — Gokudera sempre o fazia quando estava frustrado, e esse não era um sinal bom. Ele gesticulou para as pilhas de papéis sobre a escrivaninha ao falar:
— Há nada a ser feito; tudo o que sobrou foi trabalho burocrático. — suspirou, impaciente — Cá entre nós, de acordo com o que leio em seus relatórios, você não é bom nessa área. — informou, frio. As tarefas de Yamamoto eram participar das missões e opinar nas reuniões da família, apenas. Gokudera e Tsuna que lidavam com a papelada, às vezes com a ajuda de Reborn. O guardião da chuva tinha consciência desse fato, mas não deu o braço a torcer:
— Eu posso organizar os documentos em categorias...
— Já fiz isso. — Hayato lançou-lhe um olhar de desprezo. Yamamoto achava que ele era o quê, um leigo? Ele ajudava o juudaime com a papelada há anos, e era perfeitamente capaz de se virar sozinho. Abaixou a cabeça, voltando a dedicar sua atenção aos formulários dispostos à sua frente, rezando para que Takeshi entendesse a mensagem e fosse embora. Gokudera não obteve o resultado desejado:
— Eu posso cancelar os compromissos do Tsuna para você. — persistiu o outro, com um sorriso inabalável. Ele recebeu em troca um irritado estalar de língua:
— Reborn está substituindo o juudaime nas reuniões e encontros; ele acha que talvez assim encontre pistas para a investigação. — informou Hayato, sem levantar o seu olhar. Yamamoto, vá embora, por favor, pensou, desesperado.
— Eu pensei que a família fosse de todos nós. — murmurou o moreno, o brilho sumindo de seus olhos castanhos.
— E é. — Gokudera franziu a testa, já cansado daquilo — Você participa das missões e escreve seus relatórios quando necessário, mas (não sei se você sabe) nosso chefe está em coma no momento, então você está livre, por ora, para fazer o que quiser. — largou a papelada em que estava trabalhando para se concentrar completamente na discussão; sua fisionomia estava dura.
Yamamoto inspirou fundo, absorvendo as alfinetadas ditas, entre dentes, por Hayato:
— Então ninguém precisa da minha ajuda agora, eu entendo. — escolheu cuidadosamente as suas palavras porque sabia, por experiência, que elas podiam causar cicatrizes profundas quando faladas erradamente. Entretanto, parecia que o guardião da tempestade não tinha a mesma cautela:
— Não, eu não preciso da sua ajuda porque na última vez que confiei algo a você, mais ou menos um dia atrás, você falhou e colocou a vida do nosso chefe, uma das pessoas mais influentes da máfia... — Gokudera interrompeu o seu próprio trem de pensamentos, balançando a cabeça negativamente enquanto se corrigia: — Não, você pôs a vida do nosso melhor amigo em risco. Eu juro, Yamamoto, se o juudaime nunca mais acordar, eu mato você e o desgraçado por trás disso tudo. — se fosse possível, veneno escorreria da boca de Hayato. Ele levou uma mão trêmula de raiva até o bolso do paletó, tirando um maço de cigarros e um isqueiro. — Agora vá embora, por favor. Ou será que você não consegue nem encontrar a porta sem a minha ajuda? — rosnou, após dar uma longa tragada.
Gokudera direcionou a baforada de fumaça que saiu da sua boca rumo ao rosto de Yamamoto para provocá-lo, sabendo que ele detestava o seu vício de fumar. Takeshi sequer pestanejou, permanecendo impassível. A visão daquele maldito rosto calmo e livre de preocupações fez Hayato trincar os dentes, mergulhando em um ódio profundo. Droga, será que Yamamoto não tinha noção do que fizera? Do quanto falhara? O chefe deles corria risco de vida! O que Gokudera faria sem Tsuna? Quando Reborn o apresentou ao juudaime tantos anos atrás, Hayato soubera na hora que tinha encontrado a pessoa que traria significado à sua vida. E ele não hesitara em aceitar a mão estendida de Tsuna, não pensara nas consequências — e Gokudera se recusava a sofrê-las agora; não por culpa de Yamamoto.
Hayato mordeu o lábio inferior, reprimindo o choro que ameaçava emergir — um choro de raiva, luto, frustração, tristeza. Não, na frente de Yamamoto, não, suplicou para si mesmo, tentando ignorar a dor que estrangulava sua garganta.
Takeshi abaixou a cabeça, sentindo o peso do fardo sobre seus ombros aumentar cada vez mais. Cada palavra do guardião da tempestade, cada expressão sua — era evidente a melancolia contida em todas elas, e seu coração doía intensamente com isso. Yamamoto sabia que Gokudera estava fazendo-se de forte, e compreendia o seu ponto de vista, porém... Porém não adiantava de nada ele oferecer ajuda para ser sempre rejeitado. Takeshi estava tentando redimir-se do grande erro que cometera, e ninguém podia dizer o contrário. Se... Se Gokudera parasse de afastá-lo, tudo ficaria bem. Eles encontrariam uma forma de resolver aquela confusão toda, uma forma de salvar Tsuna. Eles conseguiriam, sim. E não era essa uma das razões por que ele e Gokudera funcionavam tão bem? Enquanto Hayato mantinha os pés no chão e era um realista quase pessimista, Takeshi tinha uma visão mais otimista dos fatos, pois ele tinha certeza de uma coisa: sempre havia uma luz no fim do túnel.
Com isso em mente, Yamamoto inspirou fundo, tomando coragem para dizer suas próximas palavras:
— Não, eu não consigo. Sem você, eu não consigo fazer nada. — respondeu com sinceridade, e prendeu o fôlego enquanto esperava a explosão de Hayato. Ele, por sua vez, ficou boquiaberto, e seu cigarro só não caiu de entre seus lábios porque logo tratou de se recompor:
— Nós mudamos de assunto. — notou Gokudera, e baixou seu olhar, mostrando desconforto. Não, não faça isso, Yamamoto, pensou, recordando-se do acontecimento fatídico de um ano atrás. Até hoje ele sentia a agonizante dor em seu peito por não ter tentado mudar o seu jeito de ser, por não ter dito um mero "sim". Mas agora isso estava no passado, e não havia volta. Gokudera não se lamentaria por coisas que não fizera, isso não era do seu feitio. Decidiu evitar o assunto: — Eu não tenho tempo para isso, Yamamoto, eu... — voltou a fumar como desculpa para não terminar a frase.
— Então essa é a sua desculpa, você "não tem tempo"? — Takeshi pareceu se machucar com a declaração — E quando você terá? Você não me respondeu ainda, e isso já faz um ano.
Gokudera sentia-se sufocado, era como se não houvesse ar suficiente naquela sala — desde quando ela era tão pequena assim? Ele afrouxou a gravata que envolvia seu pescoço e apoiou o cigarro na borda do cinzeiro sobre a mesa. Hayato precisava se afastar de Yamamoto neste exato momento, caso contrário ele não saberia o que aconteceria em seguida — e ele se recusava a perder o controle da situação para fazer algo tolo e incerto como "deixar os dados rolarem".
A frase perfeita veio à sua mente — era tão perfeita que, exageros à parte, Gokudera sentia vontade de se matar só de pensar em vocalizá-la. Inspirou fundo:
— Se antes eu o rejeitava de qualquer forma, o que o faz pensar que eu o aceitarei agora que você matou a pessoa mais importante da minha vida? Vá embora. — o seu tom arrogante possuía força nenhuma, mas apesar disso ele notou a fisionomia culpada de Takeshi — Não é hora de conversarmos sobre isso, Yamamoto. — suplicou com a voz fraca. Fechou os olhos, cansado: — Você está pedindo demais de mim no momento. — confessou num sussurro.
Gokudera ouviu um suspiro de lamento, seguido pelo som da maçaneta sendo girada e o bater da porta ao ser fechada. Só então ele abriu os olhos, ignorando a lágrima solitária que escorreu do seu olho esquerdo.
Talvez o acidente com o juudaime não fosse a única coisa atormentando a mente do homem de cabelos prateados.
* * *
Ao abrir os olhos, a primeira coisa que Tsuna avistou foram altas árvores ornamentadas por folhas verdes. Ele estava cercado por elas, e o Sol infiltrava por entre os galhos, emanando um calor saudoso que fazia crescer dentro de si um impulso irreprimível de largar o que quer que estivesse fazendo para simplesmente admirar a bela paisagem disposta à sua frente. Era possível ouvir o animado canto de passarinhos ao fundo, e um ou outro aparecia ocasionalmente, seus voos atravessando o céu azul livre de nuvens.
O gramado sobre o qual estava deitado era macio e estranhamente confortável, dando a Tsuna uma vontade extrema de dormir por dias e mais dias. Apesar disso, sentou-se lentamente, suspeitando da cena diante de si. Tudo aquilo era perfeito demais, muito idealizado. E ele lembrava-se de sonhar com uma sala branca?... Estava prestes a se levantar quando lábios tocaram de forma carinhosa seu pescoço descoberto. Sobressaltado, virou-se para trás, buscando identificar o responsável.
— Mukuro? — franziu o cenho.
— Tsunayoshi. — respondeu com um sorriso.
Sawada estreitou os olhos; dentro de si a sua hiper intuição parecia estar contorcendo-se em frustração porque notava que algo estava errado, porém não sabia ao certo o que era. Esta reação não passou despercebida por Mukuro, que riu, descontraído. Foi uma risada normal, como a de qualquer outro humano, e isso aumentou ainda mais a desconfiança de Tsuna — o que acontecera com aquele famoso kufufufu, que ele estava tão acostumado de ouvir?
Notando a hesitação do moreno, Rokudo exibiu um rosto mais autenticamente alegre e entusiasmado:
— E então, qual é o veredicto? — perguntou o ilusionista, passando o dedo pela ruga que aparecera entre as sobrancelhas do menor, típica de quando pensava muito profundamente.
— Eu estou sonhando, não é? — Tsuna pediu confirmação, indeciso.
— Eu não sei. — o tom de Mukuro era divertido — O que você acha que é?
— Um sonho. Você não é tão delicado assim na vida real. — Tsuna disse sem pensar.
— Estou me sentindo um pouco insultado pela última parte. — Rokudo ergueu uma sobrancelha em mágoa dissimulada.
— Por favor, não se sinta! — Sawada exclamou rapidamente, e recebeu mais uma risada em resposta. — Droga, até mesmo nos meus próprios sonhos você me deixa sem graça. — fez bico, sentindo o fluxo de sangue direcionar-se para o seu rosto.
Por mais que detestasse passar por momentos constrangedores, Tsuna adorava isso em Mukuro — quando estavam juntos, esquecia-se de todos os conselhos e ensinamentos de Reborn para ser "o melhor chefe da máfia italiana"; ele podia ser o quão expressivo quisesse, podia ser verdadeiramente livre.
— Não posso evitar, eu adoro vê-lo vermelho de vergonha. — Mukuro admitiu, seu sorriso tornando-se sedutoramente belo.
Então os cantos da boca de Rokudo curvaram-se para cima, como se algo estivesse divertindo-o, e aproximou-se mais de Tsuna. Este exibia uma expressão interrogativa, por mais que soubesse o que viria a seguir. Em todos os anos que eles dois estiveram juntos, uma das principais coisas que Mukuro aprendera é que Tsuna raramente tomava a iniciativa, por uma simples e tola razão: vergonha em excesso e autoestima escassa. Portanto, Sawada Tsunayoshi ficava simplesmente fitando-o com aqueles largos olhos inocentes, que, apesar disso, eram tão promissores em certas coisas...
Os lábios de Mukuro tocaram os de Tsuna, recebendo uma mínima resposta cheia de pudor — mesmo assim, não se deixou abalar e começou a distribuir beijos, analisando a temperatura, a textura, a sensação da boca de Tsuna contra a sua. Os seus braços subiram até o pescoço do ilusionista, e então Mukuro recebeu o convite: seu parceiro entreabriu os lábios em expectativa — e fazê-lo esperar não era do feitio de Rokudo. Assim, o guardião da névoa pôs-se a explorá-lo com a língua, e sorriu ao sentir Sawada reagir aos movimentos.
Os beijos de Rokudo sempre deixavam Tsuna sem fôlego — eles eram inebriantes, viciantes, emocionantes. Essa simples experiência era capaz de eriçar todos os pelos de seu corpo, fazê-lo sentir borboletas em seu estômago, e enchê-lo de adrenalina. O ato em si de beijar o deixava com medo, mas, ao mesmo tempo, lhe dava a impressão de ousadia, poder. Ele sabia que podia fazer o que quisesse porque Rokudo nunca reclamaria de algo, nem o julgaria por isso. Afinal, estamos falando sobre Rokudo Mukuro — qualquer coisa vale para tal homem excêntrico.
Deu um puxão delicado, mas consistente, na gola da camisa do ilusionista — um pedido claro para terminar o beijo. Era sempre assim — Tsuna reconhecia a hora de parar, porém nunca tinha força (de vontade) para fazê-lo ele mesmo.
Raras vezes sua ordem não fora atendida — e essas são raras apenas porque Mukuro aprendera o significado da palavra greve da pior forma possível. Tsuna não era presunçoso; ele tinha ciência de que nunca seria capaz de domar Rokudo, mas ele tinha a impressão de que conseguira retocar um pouco sua difícil personalidade ao adaptá-lo à sua convivência.
— O que houve, não está mais a fim de...? — um sorriso maldoso desenhou-se no rosto de Mukuro ao deixar a pergunta pela metade. Sawada corou, baixando seus olhos para o gramado sob seus joelhos.
— De acordo com o que eu me lembro, eu caí no sono durante o voo para Sapporo... Eu não quero acordar daquela forma com Yamamoto sentado ao meu lado. — admitiu numa voz quase inaudível. O sorriso de Rokudo alargou-se:
— Então esse será o sonho mais puro que você já teve na sua vida. — prometeu ele, por mais que seu rosto estampasse apenas más intenções.
— Mukuro, por acaso você sabe o que significa puro? — Tsuna ergueu uma sobrancelha, duvidoso, e recebeu em troca uma carícia terna no seu rebelde cabelo castanho.
— Talvez eu não conheça — você se importaria de me ensinar?
Tsuna nunca admitiria, porém aquele terminou sendo um dos sonhos mais imaturos que ele já tivera na sua vida — talvez tenha sido mais bobo do que os da sua adolescência, quando se iludia pensando que um dia se casaria com Kyoko-chan. O que se seguiu foi uma série de brincadeiras tolas e cenas clichês, mas Sawada não negava que gostara muito de tudo — ele nunca passara tanto tempo com Mukuro; o guardião da névoa costumava possuir Chrome por poucas horas. Oh, e sim, Tsuna já acordara inúmeras vezes ao lado de uma Chrome extremamente envergonhada por estar na mesma cama que o seu chefe.
Agora eles estavam no centro de um campo de dentes-de-leão. Tsuna encontrava-se sentado, e Mukuro, deitado, com a cabela apoiada no colo do outro. Sawada não perdeu tempo, começando a afagar o longo cabelo azulado.
— Posso? — perguntou, gesticulando para as presilhas e elásticos que mantinham o cabelo de Rokudo no seu devido lugar. O guardião da névoa deu de ombros, e foi o suficiente para o moreno começar a tocar suas mechas sedosas com certo cuidado.
Tsuna desfez o rabo de cavalo próximo à nuca de Mukuro e tirou as duas presilhas que formavam seu penteado "abacaxi". Agora que o cabelo de Rokudo estava completamente livre, Sawada não hesitou em passar seus dedos por entre os longos fios repetidamente, de vez em quando massageando-lhe o couro cabeludo. Ele teve de reprimir uma risada de contentamento ao ouvir o guardião da névoa ronronar feito um gato satisfeito.
Notando a admiração de seu amado pelo brilho de seu cabelo contra o sol, Rokudo sorriu:
— Às vezes eu tenho a impressão de que você gosta mais do meu cabelo do que de mim mesmo. — brincou. A reação foi instantânea: em menos de cinco segundos Tsuna já estava vermelho feito um tomate. Ele pigarreou, tentando se recompor, e preferiu mudar de assunto:
— Eu tenho muito trabalho para fazer quando acordar. — lamentou Sawada. — E acho que a minha hiper intuição está tentando me dizer algo... Talvez que eu e Yamamoto estejamos indo em direção a uma armadilha? — sua indagação foi seguida por um suspiro pesado.
Parece que eu nunca serei capaz de enganá-lo completamente, nee, Tsuna?
* * *
Depois de passar mais de oito horas organizando arquivos e cuidando da papelada de Tsuna, Gokudera decidiu dar um breve cochilo no sofá do seu escritório. Infelizmente, ele mal havia fechado os olhos quando a porta foi bruscamente aberta:
— Reborn mandou todos se reunirem na sala principal; ele tem notícias extremas para contar! — Ryohei gritou, e não foi necessária mais nenhuma palavra para que Hayato se levantasse no mesmo instante:
— É sobre o juudaime? Ele acordou? — perguntou, esperançoso, enquanto seguia apressadamente o guardião do sol pelos corredores.
Ao alcançarem seu destino, Gokudera posicionou-se logo numa das cadeiras dispostas em volta de uma larga mesa. Lá também estavam Yamamoto, Lambo e Kusakabe — este era representante de Hibari. Reborn, em pé próximo à cabeceira da mesa, fez um sinal para que todos parassem de conversar entre si e prestassem atenção nele:
— Rokudo Mukuro finalmente conseguiu escapar de Vendicare. — declarou sem mais delongas, como lhe era típico. O hitman esboçou reação nenhuma diante das exclamações de surpresa que recebera.
Gokudera arregalara os olhos, apenas para estreitá-los em seguida: Então o juudaime..., começou a pensar com seus botões. Passou uma das mãos pelo cabelo, notando a seriedade da situação ao reunir as pistas em sua mente. Balançou a cabeça como que para afastar os pensamentos, focando-se no ex-arcobaleno, que voltara a falar:
— Na verdade, essa não é uma surpresa, pois Tsuna concedeu a Chrome autorização para passar um período indefinido de tempo afastada da família, a fim de trabalhar com o pessoal de Kokuyo em um plano para libertar Mukuro dos vindice.
— Parece que eles conseguiram o que queriam. — murmurou Ryohei, parecendo ter se recuperado do espanto causado pela notícia anterior. Tombou a cabeça para o lado, mostrando confusão: — Esse timing parece estar um pouco engraçado... — comentou, num tom pensativo. Reborn concordou suas suspeitas:
— Sim, essa é a razão pela qual reuni todos aqui. Mukuro ter se libertado não é grande coisa; todos nós sabíamos que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Nós devemos nos focar no momento. Ele é muito... Conveniente, o que me fez começar a desconfiar de Mukuro. Talvez ele...
Prevendo aonde a linha de raciocínio do hitman chegaria, Hayato levantou a mão com certa hesitação, esperando uma deixa para poder falar.
— Sim, Gokudera? — Reborn olhou-o com uma sobrancelha erguida, mostrando o quão concentrado estava em resolver aquele quebra-cabeça. O guardião da tempestade abriu uma pasta cheia de papéis, que estivera segurando esse tempo todo. Separou uma folha das outras, colocando-a no centro da mesa:
— Eu encontrei algo interessante em meio à papelada do juudaime. — começou, tirando o seu óculos do bolso do paletó. Ao colocá-los, adotou uma postura mais séria e profissional: — Este é um pedido de autorização para libertar Rokudo Mukuro da prisão — tirou outro documento da pasta —, e junto havia isso: uma lista de ofertas aos vindice em troca da liberdade de Mukuro. Como podemos ver, essa é a caligrafia do juudaime. — Gokudera franziu a testa.
— Então Tsuna estava disposto a tirar Mukuro da prisão? — Yamamoto franziu o cenho. Era comum Tsuna oferece ajuda a pessoas, porém também era estranho ele ter mantido tal informação em segredo.
— Ele está preso há mais de uma década, por que Tsuna se importaria com isso justamente agora? — Lambo questionou, atento à conversa. Apesar de ter apenas quinze anos e cumprir suas tarefas como guardião apenas em casos críticos, isso não o impedia de se preocupar com o estado de seu amigo.
— Não nos atemos a este detalhe. — Reborn exibiu uma expressão brevemente insatisfeita que passou despercebida por todos; exceto pelo olhar afiado do guardião da tempestade. Sua mente começou a trabalhar, criando mil e uma teorias para descobrir o incentivo desconhecido que fizera juudaime de repente mostrar interesse pelo traiçoeiro guardião da névoa. Talvez Mukuro e o juudaime tenham se aproximado?..., algo clicou dentro de seu cérebro, e ele lembrou-se das visitas constantes da outra guardiã da névoa ao escritório do "boss".
— Vocês acham que talvez Rokudo Mukuro esteja envolvido com o acontecimento em Sapporo? — essa foi a primeira vez que Kusakabe se manifestou desde o início da reunião. Reborn franziu os lábios em concentração:
— O objetivo era encurralar o chefe da maior família da máfia italiana. O trabalho deve ter sido feito, provavelmente, por um hitman, pois nenhum chefe de família em sã consciência sujaria suas próprias mãos com isso; claro que há raras exceções, como Byakuran, por exemplo. — Reborn acrescentou, pensando em voz alta. — A questão é: o que alguém ganharia colocando Tsuna em coma? Seria muito mais prático assassiná-lo. Hitmen pensam assim, posso garantir-lhes isso.
— Um hitman mataria Tsuna a sangue frio, de forma silenciosa e sem deixar testemunhas. — concordou Yamamoto. — Seria um trabalho rápido, preciso. Ele não poderia se dar ao luxo de planejar algo complexo porque Tsuna está sempre sendo guardado, e ele próprio sabe se defender muito bem.
— Sim, juudaime é forte e todos da máfia sabem disso. — algo se esclareceu na mente de Gokudera com as palavras de Takeshi. — Mas o "hitman" — todos notaram as aspas implícitas na sua fala — esperou somente Yamamoto estar distraído. Como se... Como se o juudaime não fosse uma ameaça para ele. Como se ele conhecesse o juudaime. — Hayato concluiu, empurrando o seu óculos sobre a ponte de seu nariz, trincando os dentes com a sua realização.
— Então o culpado é um amigo de Tsuna? — Lambo ergueu uma sobrancelha, desconfortável com a informação.
— Não necessariamente. — murmurou Reborn. — Porém, nós temos certeza de uma coisa: essa pessoa gosta de passar despercebida, pois não feriu Tsuna gravemente, e também não ocorreu uma luta propriamente dita.
— Então ele é um hitman "delicado"? Por acaso existe uma coisa dessas? — Yamamoto ergueu as sobrancelhas em dúvida.
— Não, delicado não é a palavra certa... Cauteloso seria melhor. — Gokudera passou as mãos pelo cabelo, nervoso. — Talvez a intenção dele seja ficar invisível.
— Viper é assim. — determinou Reborn — Não só ele, mas todos os ilusionistas se encaixam nesse perfil.
— Sim, eles são ardilosos e discretos. — concordou Ryohei. — Mas a Varia nunca nos atacaria, eles são nossos aliados.
— Que ingênuo da sua parte pensar assim. — Gokudera riu, seco — Porém, de fato, isso não é obra da Varia. Mammon não agiria sozinho, de forma tão... — procurou palavras.
— De forma tão aleatória. — Reborn assentiu, pensativo, e estreitou os olhos repentinamente, como se tivesse descoberto algo importante. Apesar disso, fez um movimento de desdém com a mão direita: — Vocês estão liberados, eu os chamei apenas para isso; as suas opiniões esclareceram muitas coisas para mim. Pesquisarei sobre todos os ilusionistas da máfia, e devemos nos lembrar de que mais um está solto por aí. E todas as pistas apontam exclusivamente para ele.
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