A sensação era como a de vir à superfície depois de passar uma eternidade sob água — inicialmente confusa e desconcertante, e depois extremamente libertadora. A taquicardia era tanta que parecia que seu coração pularia de sua boca; a luz era brilhante demais, cegava os seus olhos. Sua respiração estava muito acelerada, como se seus pulmões não estivessem processando o ar que ele inspirava.

Uma mão gentil acariciou suas costas, oferecendo apoio a Tsuna enquanto ele se sentava sobre a superfície macia em que antes estava deitado.

— Desculpe-me — escutou uma voz familiar dizer, próxima de seu ouvido —, você passou muito tempo adormecido.

O moreno grunhiu algo incompreensível em resposta, enquanto tapava os olhos com uma das mãos, tentando acalmar o tumulto que ocorria dentro de seu corpo e mente. Entreabriu os olhos devagar, tentando aguentar a iluminação excessiva.

— Apague as luzes e ligue o abajur, Chrome. — Mukuro pediu, ao seu lado.

Só um instante... Mukuro?

— Você... — foi a única palavra que o moreno conseguiu fracamente vocalizar.

— Eu vou explicar tudo, eu prometo. — pelo seu tom, Tsuna soube que Rokudo estava franzindo as sobrancelhas. — Pegue a garrafa de água sobre a mesa. — continuou instruindo a garota. — Você consegue ver agora, Tsunayoshi?

Sendo isso dito, ele arriscou abrir os olhos mais uma vez. A primeira coisa que notou foi que ele conhecia aquele lugar.

— Essa é a minha sala. — a garganta de Sawada arranhou pela falta de uso; falta de uso? Ontem mesmo ele estava com Yamamoto em uma missão; bom, pelo menos ele supôs que tivesse sido ontem...

— Boss, beba um pouco de água. — aconselhou Chrome, ajoelhando ao lado do sofá em que Tsuna estava parcialmente sentado, entregando-lhe uma garrafa plástica que ele pegou sem pestanejar.

— Devo dar crédito ao seu inventor. Qual é o nome dele mesmo? Giani?

— Giannini. — Tsuna corrigiu Mukuro, bebendo avidamente o líquido que lhe fora oferecido.

— Enfim, eu reconheço que tivemos certas dificuldades para entrarmos na base sem ativar todos os sensores de segurança. — o ilusionista falou como quem elogiava.

A garrafa nas mãos de Tsuna caiu no chão, molhando o carpete com o pouco de água que sobrara. Quase no mesmo instante ele estava em pé, ignorando a tonteira causada pelo súbito movimento.

— Você e Chrome. — apenas disse, franzindo o cenho. O olhar do chefe dos Vongola agora estava cheio de desconfiança.

Mukuro sorriu com isso:

— Sim, eu e Chrome estamos no mesmo cômodo ao mesmo tempo. — Rokudo assentiu — E tudo isso foi graças a você, Sawada Tsunayoshi. Foi sua força que tornou possível a minha fuga de Vendicare. — fez um gesto de desdém com as mãos.

— Mukuro, você... — começou Tsuna, mas ele próprio se interrompeu. Que lembranças eram aquelas em sua mente?

"Boss, os disfarces feitos com minhas ilusões estão funcionando", comentou Chrome ao notar que os vindice que passavam pelos corredores escuros e desconhecidos não pareciam se incomodar com a presença deles dois.

"Eu não consigo abrir a tranca, os disfarces consumiram muita energia minha...", lamentou-se a jovem enquanto encarava a porta de aço.

"Com licença, Chrome". Ela não hesitou em obedecê-lo ao ver a chama brilhar sobre o cabelo de Tsuna.

E ele estava sendo inundado por mais memórias como essa — ele atirando X-Burner em barreiras, ele quebrando um tanque de água, ele ajudando Chrome a desconectar Mukuro dos diversos tubos presos ao seu corpo.

Mukuro.

— Você me possuiu. — concluiu Tsuna quando o fluxo de imagens em sua mente diminuiu.

— Na verdade não, eu apenas o estimulei a fazer coisas que você não queria. — Rokudo corrigiu numa voz divertida — Pode-se dizer que eu sou muito eloquente quando quero.

— E o que você fez com o pessoal? — a fisionomia de Sawada não mostrava mais irritação, e sim preocupação.

— Nada. — Mukuro respondeu, e Tsuna sentiu seu coração ficar um pouco mais leve — Mas eu os deixei distraídos com outra coisa pelo tempo que se passou. — acrescentou, e Sawada sentiu seu coração enrijecer novamente. Sem pensar duas vezes, ele deu as costas para ambos os ilusionistas, saindo do escritório e começando a correr pela base:

— Reborn! Yamamoto! Gokudera-kun! Alguém? — gritou o mais alto que pôde, até que viu um dos guardiões sair de uma das portas do terceiro corredor pelo qual Tsuna passava:

— Juudaime? — Gokudera arregalou os olhos para logo estreitá-los em suspeita ao ver algo atrás de seu chefe. Virou seu rosto para o cômodo de onde saíra: a enfermaria. — Reborn, você estava certo.

Tsuna chegou à soleira da porta no segundo seguinte, ofegante:

— Que dia é hoje? Eu... Eu... — levantou os olhos a tempo de ver a ilusão sobre a cama ser desfeita: — Esse era eu... — reconheceu a figura deitada que se dissolvera em névoa. Distraí-los com outra coisa... Então era isso que ele queria dizer, compreendeu, trincando os dentes.

Sawada observou o rosto de cada um dos presentes no quarto branco — Reborn, Gokudera, Yamamoto, Ryohei, Fuuta e Bianchi —, e notou como a fisionomia de todos estava preocupada, sobrancelhas franzidas em confusão e olhares com um quê de nostalgia.

— Tsuna... Você está bem. — a voz de Yamamoto era recheada de júbilo.

— Juudaime, você... — Gokudera engasgou-se, parecendo estar à beira de lágrimas, e deu um abraço apertado no seu chefe — Já fazia mais de quatro dias, nós estávamos desesperados.

Os outros pareciam também querer falar com Tsuna, porém a expressão séria de Reborn lembrou Sawada de algo — ele virou seu rosto para o lado, avistando Mukuro e Chrome assistirem à cena silenciosamente do corredor.

Tsuna engoliu em seco, tomando coragem para pronunciar as próximas palavras:

— Rokudo Mukuro, pela autoridade que me é concedida como chefe dos Vongola, eu o expulso da família. Você machucou meus amigos e seus companheiros para cumprir um desejo egoísta. — sua fisionomia suavizou minimamente, mas seu olhar continuava duro — Você sabe que eu detesto agir desse jeito, mas sua arrogância afetou pessoas importantes para mim, e isso é algo que eu não possa deixar passar. — Tsuna voltou seu olhar para a enfermaria — Reborn, coloque-o numa das salas vagas. — ele escutou os outros no cômodo arquejarem de surpresa com seu tom imperativo.

— Conversaremos mais tarde. — o volume da voz de Mukuro fora tão baixo que provavelmente apenas Tsuna o ouviu. E então o ilusionista deixou-se ser levado pelo hitman.

— Chrome. — Sawada falou seu nome com mais delicadeza — Eu quero um relatório sobre tudo — tudo — que aconteceu até amanhã. Ele definirá se você permanece merecedora do Vongola ring da névoa. — informou, rígido.

Ninguém ousou questionar Tsuna.


* * *

Depois de uma Chrome cabisbaixa ter ido embora e todos terem cumprimentado Tsuna, eles reuniram-se na sala principal. Lambo viera à base logo após receber um telefonema do próprio Sawada, e Kusakabe aparecera novamente como representante de Hibari.

— ...E é isso. De acordo com as memórias, tudo indica que eu ajudei Chrome a tirar Mukuro de Vendicare. Ele disse que não necessariamente me possuiu, e sim que eu segui ordens. Deve ser algum tipo de ilusão. — Sawada estalou a língua devido à falta de pistas.

— E nesse meio-tempo nós estávamos com um Tsuna-miragem em coma. — concluiu Reborn. — Um plano bem sagaz, devemos concordar nisso.

— Mas então o que aconteceu lá no parque? — perguntou Yamamoto.

— Ilusões, e mais ilusões. — Gokudera suspirou em frustração — Não deve ter sido difícil para aqueles dois enganar você. — apesar da frase rude, ele não a disse de forma indelicada.

— Uma coisa nós temos certeza: não foi Chrome que fez a ilusão do parque. Ela não é capaz de fazer mal de forma direta, Mukuro deve ter possuído o corpo dela. — comentou Bianchi.

— Então, resumindo: Rokudo Mukuro enganou Yamamoto com mais um de seus truques, raptou Tsuna e deixou uma versão desacordada dele feita de ilusão. Enquanto nós cuidávamos do Tsuna-falso, o verdadeiro estava sendo influenciado por Rokudo para ajudá-lo em sua fuga, acompanhado de Chrome. — Lambo ergueu as sobrancelhas: — Esse foi um plano bem armado, de fato.

— Não falta nenhuma peça do quebra-cabeça, então tudo terminou, não é? — Ryohei voltou seus olhos para Tsuna, como se esperasse uma resposta.

— É verdade, Tsuna-nii está bem e ninguém de fora descobriu sobre essa confusão toda. — Fuuta assentiu.

— Para nós tudo isso acabou, agora, Tsuna... — Reborn lançou-lhe um olhar de advertência — Você deve lidar com os vindice o mais rápido possível.

— Eu sei. — ele suspirou, seus ombros caindo de desânimo — Eles vão ganhar bastante coisa em troca para não fazerem barulho sobre a fuga. Mas eu já tenho parte do trabalho feita, então... Não será tanto um problema, só temos que agir rápido. Eu preparo os documentos e acerto tudo ainda hoje. — garantiu, e os cantos da boca de Reborn curvaram-se para cima: Você está lidando muito bem com a situação, Tsuna. Finalmente, você provou que amadureceu como chefe dos Vongola.

No entanto, era uma pena que o hitman sabia como isto era doloroso para Tsuna.

* * *

— Então apenas isso aconteceu nos dias em que eu estava fora? — Tsuna pediu confirmação, após terminar de ler os relatórios dos seus guardiões da chuva e da tempestade.

— Sim, juudaime. — Gokudera quase fez uma reverência ao responder seu chefe. — Talvez Reborn-san tenha mais algumas informações, afinal, ele começou uma investigação por conta própria.

O moreno deu de ombros:

— Reborn já falou o que tinha de ser dito. Podemos também concluir que o sinal falso do Mare ring foi mais um dos truques do Mukuro. — ele franziu os lábios, pensativo. — A indenização dos vindice — fez uma careta, ele não gostava dessa palavra — está sendo enviada à Itália por Hibari-san.

— Hibari? — Yamamoto ergueu as sobrancelhas — Por acaso ele se voluntariou a fazer isso?

— Não, eu lhe pedi esse favor. — Tsuna deu um meio-sorriso, enquanto guardava os papéis espalhados sobre sua mesa. — Ele pareceu ser o mais adequado para isso... Pelo menos essa era a opinião de Reborn. — explicou. — Vocês podem ir para casa agora.

Ambos os homens assentiram, seguindo para a saída. Gokudera estava a meros passos da porta quando se virou:

— Juudaime, você não vem também? Reborn-san já confirmou que o substituiria em todos os seus compromissos, então você não tem nada para fazer.

Tsuna pareceu ficar sem graça, dando um sorriso amarelo:

— Na verdade, eu pretendia ficar aqui até tarde para rever os termos do acordo com os vindice. — sua mentira foi encoberta pelo seu tom de preocupação genuíno.

— Compreendo. — o rosto do guardião da tempestade denotava respeito; seu chefe era tão responsável! — Mas não trabalhe muito. — Hayato advertiu, sério. Tsuna estava prestes a mostrar sua gratidão quando os dois escutaram, do corredor, Yamamoto dizer um "olha quem fala". Gokudera lançou um olhar de desprezo por sobre seu ombro, antes de se despedir brevemente do juudaime e seguir para junto do guardião da chuva.

— Ai! — exclamou Takeshi ao receber um tapa na cabeça.

— Idiota, não deixe o juudaime ainda mais preocupado. — e Gokudera teria continuado seu sermão se não tivesse sido interrompido por uma baixa risada vinda da sala que eles acabaram de sair.

Os guardiões sorriram silenciosamente entre si — era bom saber que seu chefe não estava mais tão tenso.

— Tudo está bem agora. — comentou Yamamoto, com aquele seu sorriso de orelha a orelha. Hayato reprimiu um suspiro de adoração diante de tal visão bela, virando seu rosto para o lado oposto. Ele não teria coragem de falar o que queria se continuasse olhando aquele mar castanho.

— Yamamoto... — ele começou, detestando como sua voz saíra hesitante — Vamos para sua casa. — isso saiu quase que num sussurro.

— Sim, Gokudera. — e, mesmo sem ver o seu rosto, Hayato sabia que o sorriso de Takeshi alargara-se ainda mais.

* * *

Rokudo foi guiado por Reborn até uma sala vaga, mobiliada apenas por uma mesa simples e um par de cadeiras de metal. Qualquer um sabia para qual era a finalidade daquele cômodo: interrogatórios. Os interrogatórios da corrupta máfia italiana eram sangrentos e torturantes, porém, depois de ver a magnitude assustadora da reação indignada e autoritária de Tsuna ao seu mais recente plano, o ex-guardião da névoa não sabia mais o que esperar do chefe dos Vongola.

— Eu disse que isso aconteceria, mas você não me deu ouvidos. — Reborn interrompeu os pensamentos de Rokudo. Ele estava em pé na soleira da porta, observando o ilusionista sentado na cadeira. — Não consigo acreditar que você tenha caído tanto de nível a ponto de manipular os sentimentos de Tsuna para se livrar da prisão. — estalou a língua, e Mukuro não se dignou a responder a alfinetada. — Por acaso você em algum momento o amou de verdade? Ou era tudo atuação?

Rokudo revirou os olhos:

— O que aconteceu entre Tsunayoshi e eu fica apenas entre ele e eu. Temo em informá-lo que isso fica fora da sua jurisdição. — havia um sarcasmo excessivo em sua voz; Mukuro recusava-se a compartilhar com Reborn os seus sentimentos por Tsuna, pois eles por si sós já tornavam Rokudo vulnerável o suficiente.

— Eu espero que Tsuna consiga destruir todos esses muros que você construiu à sua volta. Você pode ser incrivelmente egoísta, no entanto, é claro aos meus olhos que você gosta dele. E Tsuna, com aquele maldito coração grande dele, também gosta de você. Tente consertar as coisas, caso contrário mais tarde eu terei de consolar Tsuna. — pausa. — E eu não gosto nem um pouco de fazer isso. — seu tom era ameaçador.

Rokudo permaneceu em silêncio, sabendo que responder Reborn seria inútil — afinal, o que mais havia para ser dito? Ao notar a resolução do ilusionista, o hitman ajeitou a aba de seu chapéu preto e deu-lhe as costas, fechando a porta ao sair da sala.

Enfim sozinho, Mukuro estendeu seus braços sobre a mesa à sua frente, observando suas próprias mãos, pensativo. Ele sentia-se estranho — estava entusiasmado pelo que estava por vir, porém também era presente um pesar, algo desconfortável. Sua consciência, talvez? Mukuro franziu a testa à hipótese — caso de fato ele fosse tomado por culpa agora, toda a situação se tornaria extremamente irônica, afinal, ele não se arrependia de nenhum dos assassinatos que cometera ao longo de sua vida, mas mentir para Tsunayoshi?... Era desgostosa a forma como o chefe dos Vongola conseguira mudá-lo tanto. Isso tudo é para o melhor, decidiu, determinado.

A porta foi aberta, e desta vez foi o objeto de seus pensamentos que entrou na sala.

Tsuna sentou-se na cadeira do lado oposto da mesa, exibindo uma fisionomia tão inexpressiva que Mukuro chegou a sentir orgulho de como ele influenciara o garoto.

— Gostaria de falar algo antes de começarmos com as perguntas? — Sawada questionou prontamente, adotando uma postura séria e mostrando que estava ali apenas para negócios.

— Sim. — Mukuro sorriu diante da oportunidade de expressar seu ponto de vista. — Por que me interrogar se eu já fui expulso da família? — ergueu uma sobrancelha, mas Tsuna nem pestanejou diante da tentativa de intimidação:

— Você realmente achou que não sofreria com as consequências da sua fuga de Vendicare? — sua voz transpareceu cansaço — Os vindice têm total direito de colocá-lo na prisão a não ser que nós, a Vongola, intervenhamos. Suas respostas definirão se nós iremos sim ou não ajudá-lo. — ele mentiu. Tsuna, desde o início, pretendia lidar com os vindice a favor de Rokudo, no entanto, depois de conhecer o ex-guardião da névoa por tanto tempo, ele sabia que blefar era a única forma de fazer com que Mukuro respondesse suas inquisições. — E eu também gostaria de compreender as razões por que você traiu a nossa família. Ter uma conversa franca talvez evite que isso se repita no futuro.

— Tenho que reconhecer o seu esforço em manter a Vongola honesta. — Tsuna se surpreendeu ao notar que Rokudo não estava sendo sarcástico, e que aquele fora um elogio autêntico.

— Me bajular não irá ajudá-lo em nada. — Sawada informou com um suspiro. — Se é apenas isso que você tem a dizer, posso começar? — diante da mudez do ilusionista, ele decidiu proceder: — Há quanto tempo você tinha planejado sua fuga?

— Seis meses. — respondeu Mukuro, e Tsuna sentiu uma chama de esperança acender dentro de si: eles dois começaram a se relacionar muito antes de Rokudo decidir traí-lo.

— Tão rápido? — Sawada ergueu as sobrancelhas em surpresa dissimulada, pretendendo enterrar seu alívio bem fundo no seu ser. — Eu deveria avisar aos vindice que a segurança deles é falha?

— Não, eles continuam sendo muito eficientes no que fazem. — Mukuro fez uma careta, provavelmente lembrando-se do que passara em Vendicare. — Nós tivemos facilidade porque você é muito poderoso. — deu um sorriso vazio, e escondeu seu espanto ao ver que Tsuna não ficara corado nem envergonhado com seu elogio.

— Por que você não compartilhou com a família o seu plano? — o chefe prosseguiu com as perguntas sem hesitar.

— Porque vocês me impediriam, óbvio. — Rokudo revirou os olhos.

— Que egoísta. — Tsuna estalou a língua com pesar, e Mukuro sentiu um calafrio atravessar sua espinha: nunca antes ele tinha escutado Sawada Tsunayoshi dizer algo remotamente próximo de um insulto a alguém, e o olhar do moreno mostrava nenhum arrependimento pelo que falara.

— Bom, você sabe como eu sou. — o ilusionista abriu um sorriso debochado.

— Sim, eu sei. — o moreno murmurou após um suspiro. — Chrome sabia do seu plano desde o início?

— Não, caso contrário ela teria lhe contado. Ela é leal a você, Tsuna, não a expulse da família. — o rosto de Rokudo tornou-se sério, e o fato de ele ter usado o apelido de Sawada apenas provava o quão sincero era seu pedido. — Eu só a contei no dia em que colocamos o plano em prática.

— Bianchi acha que você possuiu o corpo de Chrome para realizar a ilusão que distraiu Yamamoto. — pausa — Ela está certa?

Notando que a pergunta era crucial para a punição de Chrome, Mukuro respondeu prontamente:

— Sim. Somente depois que consegui infiltrar-nos em Vendicare que devolvi o corpo de Chrome a ela.

— E então você me possuiu para libertá-lo. — concluiu Tsuna.

Rokudo assentiu em silêncio, sem tirar seus olhos dos de Sawada. Este pareceu ficar repentinamente desconfortável, colocando suas mãos sobre a mesa e observando-as com estranha atenção. Sua próxima pergunta foi feita sem ver o rosto de Mukuro:

— Sabe, eu sempre soube como você era tratado em Vendicare. Eu lembro que... — passou a língua sobre os lábios, procurando coragem para continuar: — Eu lembro que havia um tanque cheio de água, e você era mantido submerso 24/7.

— Por acaso isso é relevante? — Rokudo não negou nem confirmou a informação, adotando uma postura defensiva.

— Sim, é. — Tsuna finalmente levantou seu rosto. — Eu posso ter sido péssimo na escola, mas eu aprendi umas coisas. É impossível não ter sequelas depois de uma tortura dessas. — curvou-se sobre a mesa. Sua expressão não era intimidante, mas curiosa e com uma pontada de dor. Ver tal livro aberto à sua frente fez Mukuro sentir algo desconfortável no fundo de seu ser. — Quero dizer, é biologicamente impossível que você esteja saudável assim. — as palavras seguintes foram ditas em um sussurro: — Mostre-se para mim, Rokudo Mukuro.

— Não sei do que você está falando. — o ex-guardião da névoa desvencilhou-se da ordem.

— Você sabe muito bem. — o olhar de Tsuna intensificou-se. — Não minta para mim, você já fez isso o suficiente.

Mukuro suspirou, mostrando uma frustração dissimulada — ele estava desesperado. Quando Tsunayoshi se tornara tão observador? Ele havia subestimado o chefe dos Vongola — ele havia subestimado seu amado. Se era para jogar tudo pela janela e deixar os dados rolarem, Mukuro o faria de forma com que permanecesse no comando.

Inspirou fundo, desfazendo a ilusão. Névoa dissipou-se a sua volta e, ao ver a expressão aterrorizada no rosto de Sawada, Rokudo usou toda a sua coragem para não desviar o olhar. Ele sabia que estava horrível — seu cabelo azul estava quebradiço e sem brilho, sua pele estava pálida de um jeito doentio, seus membros estavam levemente inchados — e não negaria isso, no entanto, não era sua intenção que Tsuna o visse em tal estado deplorável.

Tentando aparentar indiferença e falhando completamente, Sawada ergueu a cabeça com uma confiança inexistente:

— Você se aproximou de mim por causa do plano? — perguntou na lata. Ele precisava saber a verdade, ele necessitava imediatamente.

— Não. — a resposta foi dita em um sussurro quase inaudível.

— Você está sendo sincero? — o moreno pressionou, incerto.

— Sim. — Rokudo foi monossilábico novamente.

— Eu posso confiar em você?

Mukuro refez sua ilusão, voltando a mostrar sua aparência perfeitamente composta. E então respondeu:

— Não, você não pode.

— Fim do interrogatório. — Tsuna decretou, e saiu da sala sem olhar para trás.

Notas finais
Ta-da! Era esse o mistério do coma do Tsuna e das ilusões do Mukuro ^^ Por favor, não odeiem o Mukuro, tentem entender o ponto de vista dele ç.ç Ah, e eu tentei fazer o Tsuna mais sério nesse capítulo. Eu acho que uma das coisas que ele mais valoriza é amizade, portanto seria inadmissível mentir para todos seus companheiros, pensando apenas no seu bem próprio. E, basicamente, foi isso que Mukuro fez, então Tsuna tem razão de ficar irritado... Certo? PS.: Sinto cheiro de limonada pro lado de 8059 :v