Finja Até Ser Verdade
14 Pandemônio
Notas iniciais
Eu tive um sonho.
Longe de ser como o sonho de Martin Luther King e sim um bem estranho e confuso:
Nele, me vi sorrindo, uma reação completamente natural do meu corpo nos últimos tempos, eu já havia percebido. E vi ele. Lindo como sempre, admito: o cabelo penteado como no dia em que saímos para jantar em meu aniversário, as roupas muito bem alinhadas e a mochila a tiracolo.
Estávamos na cafeteria da universidade, como no dia em que decidimos embarcar nessa loucura de namoro falso. Eu estava nervosa como nunca estive antes, o que por si só é estranho, já que eu odeio nervosismo.
O nervosismo se confunde com a ansiedade e me faz ter pensamentos dos quais nem sempre me orgulho. A última vez em que estive tão nervosa foi quando minha mãe saiu em viagem para seu pequeno projeto pessoal no continente africano, há mais de um ano.
Eu me lembro muito bem do que ela me dissera:
— Nervosismo e ansiedade são formas de sofrer por antecipação, por coisas que não estão ao nosso alcance e que não podemos controlar. Por que sofrer por antecipação do incerto se você pode apenas viver?
Ela sempre foi assim, minha mãe. Deixando a vida conduzi-la por onde o vento guiasse, sem medo de julgamentos em relação às suas decisões. Por isso, ela teve dificuldades em criar raízes e se prender às coisas ou às pessoas, nem mesmo à sua própria filha. Ela nunca soube como teve uma filha tão certinha e centrada, que gosta e prefere ter controle sobre todos os aspectos de sua vida, se possível.
Esses sentimentos, não nos levam a lugar nenhum, concluo. Assim sendo, enquanto ele se encaminha até minha mesa, faço o melhor que posso para me controlar. Mas – veja bem, sempre há um – assim que ele se senta à minha frente, noto a expressão que ele traz em seu rosto. Preocupação me cerca.
Há algo errado. Ele nem faz questão de me olhar, tampouco devolve meu sorriso inicial.
— Está tudo bem? – não me contenho, preciso de respostas.
Ele dá um longo suspiro antes de falar:
— Escuta, não vou te enrolar… – diz, finalmente sustentando meu olhar e passa uma das mãos pelos fios ruivos. Ele precisa de um corte de cabelo. — Eu fiz uma coisa muito estúpida… eu… – e despeja. — Há umas três semanas, depois que te deixei em casa no seu aniversário – não me leve a mal, adoro sua companhia – me encontrei com ela.
Ela? A garota que foi vista te traindo?
— E eu não te diria nada se não fosse…
— Se não fosse pelo o quê?
— Se não fosse pelo bebê.
Um buraco em espiral surge bem à frente dos meus pés. É o mundo tentando me engolir? Ele a engravidou? Enquanto namorávamos? O que está acontecendo? E ele não me diria nada?
Minha cabeça se torna uma confusão de pensamentos e sentimentos. Eu devo chorar? Devo gritar? Devo bater a cabeça dele na mesa até que perca a consciência?
— Mas fique tranquila, não vou me casar com ela! – ele segura as minhas mãos entre as suas. — Eu e você podemos criar essa criança como se fosse nossa, não acha? Fingimos o namoro, podemos fingir que somos os pais.
Um sequestro? Nazaré Tedesco, corre aqui, temos visita.
Ele quer que eu seja madrasta? Tão novinha, jamais pensei que passaria por uma gravidez na adolescência aos 20 anos.
— Aí está você! – uma voz surge às minhas costas.
Reconheço-a imediatamente. Linda, loira e grávida.
— Está feliz agora? Finalmente conseguiu tirar meu namorado de mim, o único homem que já amei nessa vida. O único que eu já quis ter. E agora quer tirar meu filho também! Você sabe que jamais terá filhos ruivos, não é? – enquanto esbraveja, passa a mão pela barriga.
Estou completamente perdida no que está acontecendo. Agora seria o momento ideal para soltar um belo de um palavrão.
A garota loira segura a barra da blusa: onde até poucos segundos atrás havia uma barriga de sete meses, há uma bola redonda de vôlei.
Ela solta a bola que, em câmera lenta, vai ao chão.
Isso é real? Isso é real?
Onde estou?
A bola quica e toda vez que atinge o chão produz um barulho específico que bolas não deveriam fazer.
É um bip, bip, bip irritante.
FAZ PARAR.
— Bem-vinda de volta! – a voz atinge meus ouvidos antes que eu possa raciocinar.
O bip bip repetitivo me acorda. O barulho entra por meus ouvidos e invade meus sonhos, me livrando daquele pesadelo e me trazendo de volta à realidade.
Bom, à realidade é algo muito forte: me trazendo de volta a este plano.
Sinto meu corpo todo dolorido e até mesmo respirar me incomoda.
O que aconteceu? Parece até que eu fui atropelada por um caminhão de 100 mil toneladas.
Me forço a abrir os olhos, pesados como se estivessem colados com cola super bonder.
A primeira coisa que vejo é uma moça – Enfermeira Ava, leio em seu crachá. Seus olhos verdes me encaram de volta, esperançosos.
— Que bom que você acordou. – ela toca meu braço e recolhe os objetos que estão espalhados em minha cama. – Ele deve amá-la muito, sabe. Não saiu daqui desde que te trouxeram para o quarto, depois que a cirurgia foi concluída.
Ahn? Cirurgia? Quê?
— Com licença, vou chamar o médico de plantão para verificá-la. – e sai antes que eu consiga encontrar minha voz para questioná-la.
O que aconteceu? Minha cabeça gira em confusão. Agora é, mais uma vez, um ótimo momento para soltar alguns palavrões. Estou deitada, aparelhos gigantes e barulhentos me cercam. Fios saem de partes que não deveriam sair de mim.
— Olá, Bela Adormecida.— só então percebo a presença de Ron.
Ele está meio sentado, meio deitado em uma poltrona não muito longe de mim. Sua posição não me parece nada confortável. Além disso, não consigo ler direito sua expressão – culpo a pouca iluminação do quarto: ele parece cansado, seu cabelo está todo desgrenhado, mas vejo o fantasma de um sorriso em seu rosto.
— Como está se sentindo? – ele me pergunta.
Como estou me sentindo? Me sinto completamente perdida, confusa e um tanto dolorida, sem falar que preciso de respostas…
— O que aconteceu? Por que estou em um hospital? – consigo dizer com a voz arrastada.
— Você teve uma crise de apendicite, uma bem feia por sinal. Palavras do médico. – Ron fala enquanto anda em minha direção. Ao parar ao meu lado, troca o peso das pernas, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, como se não soubesse o que fazer com elas.
Hmm… Ok, agora muitas coisas fazem sentido…
— Você podia ter morrido, Hermione. Por que mentiu sobre a dor?
Eu estava completa e irremediavelmente errada, eu sei. Neste momento me sinto como uma criança de cinco anos sendo repreendida pelos pais.
— Eu não queria estragar a viagem de ninguém, achei que não fosse nada demais. – desvio o olhar, pois não consigo encará-lo diante dessa verdade.
— Você sabe que estragou de qualquer forma, né? E teria estragado mais ainda se não tivesse desmaiado. – ele suspira. — Você tem noção de que poderia ter morrido?
Um arrepio corre pelo meu corpo. Jamais me imaginei em uma situação dessas, me sinto horrível.
Uma batida na porta distrai meus pensamentos. Uma mulher de cabelo cacheado como o meu entra.
— Olá, sou a doutora Maya e estou de plantão hoje. Posso te examinar?
Pelos próximos vinte minutos, Maya – como ela pede para ser chamada – me faz perguntas, examina o local da incisão e atualiza o prontuário. Eu evito olhar, pois seu toque, por mais superficial que seja, me deixa nauseada. O curativo é no lado direito, bem do lado onde eu sentia o desconforto.
Se eu tivesse pesquisado o que dor no lado direito do corpo significa tenho a impressão de que poderia ter evitado muita coisa. Lá no fundo eu sabia que não era normal e escolhi ignorar os sinais.
Descubro que é madrugada de segunda-feira, ou seja, estive em coma por mais de 2 dias inteirinhos! Tenho um médico, o responsável pela minha cirurgia, que deve passar aqui durante o dia para me ver.
— Infelizmente não consigo responder todas as suas perguntas, melhor guardá-las para o doutor Gustavo. – ela guarda o prontuário. — Descanse o quanto puder, assim seu corpo se recupera mais rapidamente.
E ela vai embora. Respiro pesadamente, o que se mostra uma má ideia, algo dói dentro de mim. Seguro a cara de dor e solto o ar.
— O que aconteceu depois que eu desmaiei?
— Bom, eu me senti em um pandemônio.
Ron me conta tudo o que aconteceu. Primeiramente, eles ficaram em dúvida já que não sabia do que se trava, até que Ron sentiu minha testa novamente e eu ardia em febre. Com certeza não era um sinal positivo.
Draco, Harry, Ginny e Ron correram para me trazer ao hospital.
Ginny mobilizou toda a equipe hospitalar para que me atendessem logo e trouxesse uma droga de maca! Os quatro ficaram horas e horas sem saber o que estava acontecendo ou o que fazer. Harry, pela familiaridade, preencheu minha ficha médica, mas achou melhor não avisar os pais ainda, até que tivessem informações mais concretas do que “ela desmaiou e estamos no hospital”.
Um pouco depois do início da noite de sexta, uma enfermeira fez o favor de avisá-los que eu estava em cirurgia para retirada do apêndice, mas não pôde dar muitos detalhes. Alguma notícia já era melhor que nada.
Quase duas horas depois, o doutor Gustavo veio atualizá-los.
— Seu apêndice estava rompido há algumas horas antes de chegarmos ao hospital, provavelmente por isso você estava com dor e febre mais intensas. Geralmente é uma cirurgia simples, mas por conta da gravidade precisaram abrir seu abdômen e fazer do jeito tradicional. Sem falar na limpeza, porque você sabe… para evitar futuras contaminações,
Essa conversa toda me embrulha e, como se para ilustrar, meu estômago emite um ronco. É quando percebo que estou faminta.
— O café da manhã é às oito. – Ron ri. — O pessoal voltou pra casa depois que te trouxeram para o quarto, estavam todos cansados.
— Por que você não foi também? – Ron possui algumas olheiras embaixo dos olhos. — Você parece cansado.
Ele nega com a cabeça.
— Como eu poderia te deixar aqui sozinha? Eu estou bem, não se preocupe. Na verdade, eles voltaram para a cidade ontem a tarde, eu insisti, claro. Todos queriam ficar contigo, mas temos as obrigações da universidade. Seria melhor se só uma pessoa ficasse.
— Ron, não. Eu posso ficar sozinha, você também tem obrigações na universidade. E o time, meu Deus! – eu tento me levantar, sendo prontamente impedida por Ron. Agradeço mentalmente, pois sou surpreendida por uma baita fisgada.
— Cuidado, não pode fazer movimentos bruscos. – ele ajeita o cobertor que escorregou e afofa meu travesseiro. — Eu sei que você pode ficar sozinha, mas não me sentiria bem em deixá-la aqui. Que tipo de namorado eu seria, se fizesse isso? O time vai dar um jeito de se virar sem mim.
De certa forma, fico agradecida, mas não respondo.
— São 05:54h. Durma um pouco, já já trazem o café da manhã. Você vai gostar.
Resmungo um pouco para declarar meu descontentamento, mas assim que fecho os olhos durmo profundamente.
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