CAPÍTULO 1 – Meu nome é Karina

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A vontade de ficar na cama nunca havia sido tão grande na nem um pouco pacata vida de Karina Lobo, ou como, as pessoas naquela casa gostavam de chamá-la Katarina Duarte. O problema não era se levantar, acordar e ser um ser humano razoável. A questão em jogo aqui é que ela teria que encontrar todas aquelas pessoas que ela não conhecia, mas se diziam sua família. No entanto, Karina Lobo não era uma covarde. Ela já havia encarado lutas demais nessa sua curta vida. Essa seria apenas mais uma que ela teria que enfrentar com cabeça erguida.

“Bom dia,” disse com um sorriso no rosto a garota de cabelos longos e olhos castanhos, sua irmã mais velha, a Bianca. Karina teria que se acostumar com a ideia de ter uma irmã. Ou melhor, irmãos. Tão estranho isso. Ela era filha única até o dia anterior.

“Oi,” respondeu seca, não sabendo ao certo como reagir a tudo aquilo.

“Desculpa. Eu não quis ser invasiva. Sei que deve estar sendo bem estranho tudo isso.”

“Estranho é pouco,” sorriu de lado para ela. “Talvez, a gente pudesse se dar bem,” pensou Karina. As diferenças entre as duas eram claras, mesmo tendo a conhecido há apenas algumas horas. Seu lado do quarto demonstrava uma personalidade que só podia ser contrária a da loira.

“Vamos tomar café?,” perguntou, então, a irmã que recebeu em resposta um aceno positivo com a cabeça. Era a hora encarar aquelas pessoas.

Em pé a porta, Karina travou e Bianca, ao perceber, segurou sua mão. “Ei, vai dar tudo certo. Estou aqui com você, está bem?,” encorajou a mais velha, fazendo a outra sorrir. Verdadeiramente sorrir pela primeira vez desde que foi forçada a se afastar daquele que sempre considerou seu pai.

Quando chegaram na sala, todos já estavam à mesa. Gael, João e Dandara. Rapidamente todos os olhares estavam na garota de cabelo curto e olhos azuis da cor do mar. Talvez, esse fosse o café da manhã mais estranho da vida daquele grupo de pessoas que se denominavam Família Duarte.

“Bom dia, minha querida,” Dandara quebrou o silêncio, lançando um sorriso para a mais nova moradora da casa que retribui com um meio sorriso forçado.

“Bom dia,” disse baixo, olhando para aqueles à sua volta.

Após essa curta interação com sua nova família, o silêncio voltou a reinar durante todo o café da manhã. Os tilintares de xícaras e copos se chocando e curtas frases como “Me passa o açúcar” foram os únicos ruídos até João decidir acabar com a falsa paz daquele momento.

“Que conversa animada essa, hein?”

“Cala a boca, João!,” Dandara e Gael exclamaram em uníssono, causando em Karina um certo desconforto. Ela sabia que o desconforto de João era culpa dela e que ele era geral entre os presentes no ambiente.

“Calma. Não está mais aqui quem falou,” respondeu com as mãos em sinal de rendição.

Nada poderia piorar quando Dandara decidiu encher Karina de perguntas sobre absolutamente nada para tentar melhorar o ambiente. Não parando por aí, claro. Gael fez ainda o desfavor de ficar a encarando intensamente. Aquilo não estava ajudando a loira em sobreviver calmamente àquele café da manhã, como gostaria.

“Katarina, você gosta de música?,” perguntou Dandara, finalizando com chave de ouro o pacote perfeito para fazer Karina se irritar.

“Meu nome é Karina!,” gritou a garota, se levantando da mesa e indo em direção à porta. Bianca correu até a irmã, tentando a acalmar, mas falhando. A mais nova desceu rapidamente as escadas, sumindo pela porta da frente.

Correu até a praça, buscando um banco calmo para se sentar e parar de pensar naquela sua nova família, nova casa, nova cidade, nova vida. No entanto, não era seu dia de sorte. Ela teve que esbarrar em um garoto cabeludo e cair no chão com ele. Embaixo de um corpo maior que o dela, ela se irritou ainda mais. A qualidade do seu dia estava decaindo rapidamente.

“Tá maluco, garoto? Sai de cima de mim!,” esbravejou, o empurrando com a força que tinha. Assim que se livrou dele, levantou-se e o encarou com raiva.

“A culpa não é minha que você decidiu correr até mim e me agarrar,” sorriu com deboche.

“Eu te agarrando? Só nos seus sonhos, moleque.”

“Nos meus sonhos, você nunca apareceu. Se bem que agora, talvez até apareça.”

Karina revirou os olhos e ameaçou ir para cima do garoto. Ao notar o movimento, ele mudou o rumo da conversa. “Esquentadinha, você? Prazer, Esquentadinha, meu nome é Pedro.”

“Para de me chamar de Esquentadinha, garoto!,” respondeu, se preparando para atacá-lo.

Pedro sorriu sem levar a sério e ela correu até ele para bater nele, apenas parando quando ouviu alguém chamar o seu nome. O seu nome.

“Karina!”

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“Cobra? O que você está fazendo aqui?,” questionou atônita.

“É assim que você me cumprimenta? Não vai me dar um abraço, não?”

Logo, um sorriso apareceu naquele rosto lindo e um foi até o outro para se abraçarem apertado. Nesse momento de distração, Pedro fugiu ainda com medo da surra que iria levar por ter mexido com Karina. Ao perceber, ela resmunga, mas logo se volta ao amigo à sua frente confusa com a aparição dele ali. No Rio de Janeiro.

“O que você faz aqui?”

“Seu pai me mandou cuidar de você, loirinha.”

“Meu pai?”

“Ai, desculpa, K. Digo, o Lobão pediu para eu vir.”

“Como assim? Me explica essa história direito. Você está se mudando para o Rio?,” o orientou a sentar junto a ela num banco da praça.

“Sim, eu estou. Eu sei, parece meio repentino, mas o Lobão mexeu uns pauzinhos e organizou tudo. Me arrumou um emprego ali no QG,” disse, apontando para um estabelecimento na praça. “Assim eu vou poder ganhar uma grana e ainda morar por lá mesmo. Ele quer que eu fique de olho em você. Ele me mandou até me matricular na academia do mestre Gael.”

Karina ficou em choque com a última informação. A história toda já era muito estranha, mas esse último detalhe era surpreendente. Ela sabia o quanto o Lobão zelava pela a sua segurança e a amava. Ele fazia questão de lembrá-la todas as noites quando ela voltava para casa. Muitos não acreditariam, mas ela era a coisa mais preciosa que ele tinha, além de si mesmo.

“É muita loucura tudo isso.”

“Eu sei, K. E é, por isso, que eu estou aqui. O Lobão ter pedido para eu vir foi a melhor coisa que ele poderia ter feito. Não sei o que faria sem você. E eu tenho certeza que você também não ia conseguir viver sem mim, né, loirinha?”

“Claro, Cobreloa. Vai sonhando bastante que talvez um dia vira realidade.”

“Não fala assim, não, porque eu vou embora,” respondeu, fingindo estar emburrado.

“Vai, nada. Eu sei que você me ama e você sabe muito bem que é recíproco,” sorriu, o abraçando apertado. “Eu realmente também não sei o que faria sem você por perto agora.”

Eles ficaram ali um tempo naquele abraço. Não era saudades o motivo da demora. Se adaptar a uma nova realidade é sempre difícil. Saber que teria aquele que sempre considerou seu melhor amigo por perto melhorava tudo. O motivo daquela demora no abraço era o conforto que sentiam nos braços um do outro. Um conforto do qual você nunca quereria largar.

A menos que te interrompam. “O que está acontecendo aqui?,” questionou Gael que chegava a praça junto de Bianca com um olhar irritado direcionado à Cobra.

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O amigo de Karina logo se separou dela e, com um sorriso calmo iluminando o seu rosto, caminhou até Gael. “Prazer, mestre Gael. Meu nome é Ricardo Cobreloa. Sou um antigo amigo da Karina,” estendeu a mão para cumprimentá-lo apropriadamente.

“O que você faz aqui?,” questionou desconfiado.

“Eu me mudei para o Rio recentemente e ouvi muito bem sobre a sua academia. Estava indo lá me matricular quando vi a Karina na praça e paramos para conversar.”

O sorriso no rosto de Cobra acalmou os ânimos de Gael e Bianca, que ao fundo também olhava desconfiada para o moreno junto a sua irmã. Ele trouxe uma calma que os fez acreditar em suas palavras.

“Entendo... Bom, a Bianca pode ir com você fazer a matrícula. Eu gostaria de conversar com a Karina,” respondeu Gael após analisar novamente o rosto do rapaz. Ele parecia confiável. No entanto, Gael não percebeu que Karina finalmente tinha o olhado desde que chegara a praça com um pequeno sorriso. Um quase imperceptível sorriso resultante do uso do seu nome. Seu nome de verdade.

Com isso, Cobra e Bianca saem em direção à academia para resolver as questões da matrícula. Karina, que havia permanecido sentada, permite com o olhar que Gael sente-se junto a ela.

“Oi, minha filha,” falou os olhos marejados.

“Oi.”

“Eu sei que é difícil e que a Dandara ultrapassou um pouco os limites. Eu sei disso, minha filha. Me desculpa por isso… É só que estamos animados demais com a sua chegada e, dessa forma, com muito medo,” ele enunciou calmamente olhando bem fundo na imensidão azul dos olhos de Karina.

“Medo?,” indagou curiosa.

“Medo. Medo de estragar tudo. Eu não quero isso. Nem eu nem ninguém naquela casa, mas, minha filha, você tem que tentar também. É estranho, é. Mas essa é a nossa nova vida.”

“Eu sei. Eu só não gosto que me chamem de Katarina… Meu nome é Karina. Sempre foi....”

“Tudo bem. Vamos falar com o pessoal depois sobre isso, ok?,” a menina sorri levemente e assente. “Posso saber uma coisa antes?,” ela novamente acena positivamente e ele continua. “Posso te chamar de minha filha? Sei que é estranho e muito novo para você, mas…”

“Você pode, Gael. Posso também perguntar uma coisa?,” ele mexeu a cabeça em confirmação. “Tudo bem eu te chamar só de Gael por enquanto?”

“Claro. Tudo no seu tempo, minha filha.”

Com isso, os dois se abraçaram. Poucos viram aquela cena. Estava cedo ainda e as pessoas estavam apressadas seguindo para os seus trabalhos e escola. Aquela pressa toda não combinava com aquele momento. A calma era necessária, afinal, tudo deveria ocorrer no seu próprio tempo. E o primeiro contato direto entre pai e filha depois de mais de quinze anos separado ocorreu ali. Na Praça José Wilker. Em uma quinta de manhã. Aquele abraço que marcara o início de uma nova vida para Karina Duarte.

Notas finais
olá, pessoas. espero que gostem desse capítulo. tentarei atualizar o mais breve possível. sintam-se livres para comentar me questionando e me criticando. até logo :)