Finalmente Em Paz
1 Finalmente em Paz
Estou na porta da Igreja de minha cidade Natal, Inglaterra, em Londres. Fazia mais de dez anos que eu não vinha aqui. Foi aqui que cresci, correndo entre os enormes bancos, os longos corredores. Aqui que casei. Aqui foi o casamento de minha irmã mais nova. Aqui que velei meu pai, meu irmão mais velho, minha mãe, minha irmã e seu marido, todos mortos num acidente de trem. Aqui que velei meu marido também, que teve um infarto a pouco mais de um ano. E aqui, neste mesmo lugar, em poucos dias os familiares que me restam me velarão. Meus dois filhos: Cassie de 21 anos, e Brandon de 18; ainda não sabem de minha doença. Semana passada passei mal e meu médico disse que faltava pouco, muito pouco. Ele disse que eu poderia entrar na fila do transplante. Mas não o fiz por saber que outras pessoas precisam mais do que eu.
Afinal de contas, o que me resta, continuando viva?
Já fui sim uma amante da vida. Quem, em algum ponto da própria, não já fez o mesmo.
Quando criança fiz balé, queria ser bailarina. Na adolescência, ginástica rítmica, queria ser atleta ou dançarina. Na faculdade, cursei música, queria ser artista. Sabia tocar vários instrumentos, que em todos os seus momentos mais difíceis, me acalmavam. Depois de terminar a faculdade de música, com uma filha pequena, comecei medicina. Queria salvar vidas. Casei-me jovem, aos 18 anos. Tive minha filha aos dezenove e meu filho com vinte e dois. Salvei vidas, fiz o que gostava. Mas hoje, não tenho medo da morte como tinha anos atrás, pensando que não poderia perder um segundo sequer. Mas agora, pra que ter medo da morte, se ela é inevitável?
Realizei meus sonhos, na medida do possível. Vivi intensamente enquanto podia. Mas hoje, torno a repetir, o que me resta?
Perdi meus pais, meus guias. Meus irmãos, meus melhores amigos. E por ultimo, meu marido. Meu amor...
Ele era advogado. Ocupado e estressado. Mas continuava sendo minha alma gêmea. Com tanto estresse, algum efeito teria não é? Seu corpo não agüentava tanta pressão. Então, ele se foi...
Foi com sua ajuda que superei a perda de meus pais, mas quem me ajudaria a suportar a sua? Por incrível que pareça, eu descobri quem. A morte.
Pouco tempo depois que ele se foi, uns seis meses depois, comecei a sentir dores no peito e tonturas, cheguei até a desmaiar. Fui ao médico, e depois de uma série de exames, fora descoberto o que eu tinha. Eu tinha insuficiência cardíaca. Meu coração estava parando de bater aos poucos. Que já não eram tão poucos assim.
Meu filhos não sabiam. Cassie, era casada e tinha uma pequena filha, minha neta, Gabriella. Ela morava na Flórida, nos Estados Unidos. Eu também morava nos Estados Unidos, só que em Nova York. Cheguei hoje pela manhã na Inglaterra. Meu filho mais novo, Brandon, tinha uma bela namorada Alicia, e começava no próximo semestre a cursar Advocacia na Columbia. Cada um seguindo sua vida, nem sabiam que eu havia ido a Inglaterra.
Eu caminhava lentamente pela Igreja, olhando as janelas com imagens de santos, da história de Jesus Cristo. E nas paredes, em lugares estratégicos, frases retiradas da Bíblia. Eu não era um ser muito religioso, como meus pais foram, mais acreditava em Deus; acreditava no Paraíso. E acreditava também que, quando eu me for, reverei meus pais, irmãos, e principalmente, reveria ele.
Caminhando mais a frente, para perto do altar, vi o grande piano de calda branco, que estava ali a tantos anos. Meu pai, que era engenheiro, sabia tocar piano. Várias vezes antes de eu dormir ele tocava no teclado que tínhamos em casa, e quando vínhamos a Igreja, quando possível, tocava para mim.
Me ensinava aqui na Igreja de poucos em pouco. Foi aqui que obtive meu amor pela música. O que resultou em meu diploma de Julliard que estava pendurado na parede do escritório que tínhamos em casa, ao lado do meu diploma de Medicina pela Harvard, e o de Advocacia em Yale, do meu falecido marido.
Vendo aquele piano, me vinha vária imagens na cabeça. Eu criança ao lado do meu pai, que me ensinava as notas e oitavas. Ou minha irmã, tocando em meu casamento. Ou eu e meus irmãos ali observando as aulas de canto do coral da Igreja. Até mesmo eu na época da faculdade, em uma visita aos meus pais, tocando ali.
Tantas lembranças olhando aquele antigo piano, muito bem conservado. Tive uma imensa vontade de tocar, sentia que seria minha ultima chance para isso. Então me aproximei lentamente do altar e, antes de ir ao piano na lateral do mesmo, ajoelhei-me. Pedindo à Deus que cuidasse de meus filhos e netos, que estão por vir e minha neta. Para que eles não sofram muito, por que estarei em paz. Depois de meses depressiva e catatônica, eu finalmente estaria em paz.
Pedi também para que guardasse um lugar para mim no Paraíso, ao lado dos meus familiares. E que me desse só um pouquinho de tempo, até terminar de utilizar o piano. Agradeci por tudo que tive e por tudo que conquistei, agradeci meus filhos, meu marido, agradeci a vida. Que mesmo estando em seu fim, não deixava de ser bela em sua boa parte.
Levantei-me e caminhei para o piano. Não tinha nenhuma música famosa ou que estava ali nas pautas que eu queria tocar. Minha ultima musica tinha que ser especial. Vi que havia algumas em branco e uma caneta perto dela. Ótimo, pensei. Queria tocar algo que lembrasse minha vida, em todos os seus momentos, bons e ruins, decaindo-se aos poucos, mais acabando bem, pois eu estava feliz por que ela iria acabar.
Esbocei alguns acompanhamentos e adaptações. Então começou a sair pelos meus dedos movendo-se suavemente sobre o teclado do piano.
Comecei delicada, o começo de uma vida é delicado não? Aumentei o ritmo, indicando a passagem de tempo. Com alguns arranjos mais complicados que outros, a música fluía. Mesmo eu lendo nas folhas a minha frente, o que eu havia escrito, era come se saísse de mim, não do papel. Mais ou menos em sua metade eu comecei a sentir uma aperto profundo em meu peito, indicando que o fim se aproximava. Mesmo assim, continuei a tocar.
Uma breve menção da marcha nupcial, indicando meu casamento. Arranjos rápidos entusiasmados, tocados por dedos fracos. Então, uma breve pausa de quatro tempos. Recomeçando melodicamente. Triste, indicava eu decaindo, aos poucos. As mortes em minha família, meu marido estressado. A breve vida nas drogas que meu filho teve. A gravidez de risco de Cassie e a morte de Brian. Outra pausa, mais curta, de apenas dois tempos. Recomeçando delicadamente, encaminhando-se para o final, da música e da minha vida. O aperto se transformara em uma dor profunda. Meu coração perdendo algumas batidas. Então, finalmente acabando. Acabei com um final que eu adorava fazer em minha primeiras composições, repetindo lentamente os acordes em cada oitava, acabando no mais grave e mais agudo.
Assim que acabei, mesmo com lágrimas encharcando meu rosto, a dor aumentando gradativamente. Eu me senti bem, feliz, em paz. Como não me sentia a muito tempo.
Na verdade, como nunca me sentira. Era o meu fim e eu sabia disso, mais era um fim desejado,um fim que eu queria mais do que tudo, para finalmente descansar.
Com um sorriso no rosto, olhei a janela ao meu lado. Uma luz desci dela. E eu sabia, era ele me chamando. E ainda sorrindo, fechei meus olhos, para nunca mais abri-los...
Do outro lado do oceano. Uma jovem desesperada estava com o telefone nas mãos enquanto recebia a notícia. Não bastava ter perdido o pai, os avós e os tios. Agora sua mãe também partira. Mas mesmo assim, apesar do desespero, sabia que era o que ela queria.
Mesmo não tendo se matado, sua mãe desejava morrer, se não tentaria algum tipo de tratamento. E de alguma forma, estava feliz por sua mãe, que deveria estar agora ao lado de seu pai.
No mesmo dia pegou o primeiro vôo para a Inglaterra que conseguiu. Junto com sua filha e seu marido, que estava lhe dando apoio naquela hora tão difícil. Seu irmão já havia sido avisado, e também já havia chegado. Ele e sua namorada, Alicia.
Ambos sorriram para o outro, pois sabiam que agora sua mãe estava bem. Chega de depressão e infelicidade, por que era assim que eles haviam visto sua mãe em seus últimos meses de vida.
Depois de irem ver o corpo da mãe, que descansava com um pequeno sorriso nos lábios; e começarem os preparativos paras se funeral, foram a Igreja.
Uma mulher gorduchinha que vira sua mãe morrer. A moça limpava a Igreja. Mas nem fora notada pela mãe deles.
E segundo ela, sua mãe entrar,observava tudo, foi até o altar e “conversou com Deus”, e em seguida, fora até o piano. Ao que parece ela compôs a ultima musica que tocou, e a mulher, interessada, ficou para ouvir. Vira ela fazer careta sorrindo, como se estivesse com dor mais estivesse feliz por aquilo. Tocou maravilhosamente, e depois, olhara para a janela sorrindo, antes de fechar os olhos.
Quando foram ver o piano, o ultimo lugar onde ela fora viva, viram as folhas com a rabisca de sua mãe entre as linhas. Ambos entendiam de musica, sua mãe sempre fora apaixonada pela mesma, embora fosse médica, tanto que os filhos fizeram alguns cursos quando mais novos.
E no fim da ultima nota, o ultimo acorde, que no caso seria Dó maior, estava escrito as seguintes palavras:
Finalmente em Paz.
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