Notas iniciais
Leila, fiquei inspirada ontem a noite, e queria dedicar essa fic pra você. É simples, mas eu fiz com todo o carinho *-------*
Espero que goste ~
E se mais alguém ler, também, claro ~
(centrado no Shion)

Como surgem os pensamentos e sensações

Que têm o misterioso dom de nos dominar?

Alguém sabe?... Ninguém?

Não fazia a menor ideia de onde estava vindo aquilo. Seus pensamentos sempre, inevitavelmente, acabavam voltando para ele, para o único que considerava como sendo imprescindível em sua vida, para aquele que lhe havia dado novos olhos para enxergar o mundo a sua volta, para... Nezumi. Mas mesmo sendo verdade que o outro nunca deixava suas lembranças e aspirações, era a primeira vez que sentia... Isso.

A impressão de ser dominado por pensamentos e sensações, alguns até abstratos demais para serem entendidos, ao ponto de sentir-se perdido e preso dentro de si mesmo. Era a primeira vez.

Pode-se tentar descobrir,

Mas não há experiência ou racionalidade que consiga

Descobrir a origem ou o motivo.

Era um dia como outro qualquer, ou pelo assim parecia ser. O mesmo sol morno que tinha mais o propósito de mostrar-se presente do que aquecer de fato.

O cheiro de pães frescos vindo da padaria de sua mãe, que mesmo depois da queda do muro e toda a reforma feita nos pilares da formação de No.6, mantinha aquele lugar e aquele trabalho pelo simples prazer que sentia ao fazer aquilo por escolha, e não pela necessidade.

A caminhada matinal pela cidade reconstruída, agora muito mais viva e natural do que jamais fora.

As aulas que amava e que finalmente tinha a oportunidade (ou o certo seria “permissão”?) de aproveitar.

A garoa fina no fim da tarde, salpicando tudo e todos com suas gotículas refletoras.

Nada parecia diferente. Com exceção do turbilhão que não o deixava fugir.

Não há muito o que fazer então,

Se não fechar os olhos e se deixar levar.

Sem saber o que mais fazer, Shion interrompeu sua volta para casa e ficou parado em meio às árvores do parque, respirando fundo e fechando os olhos por alguns momentos. Deixou-se envolver mais e mais por tudo o que o vinha rodeando desde que acordara, até que nada mais ao seu redor era notado.

Conseguia ouvir a voz de Nezumi soando distante, mas ao mesmo tempo próxima, como se bastasse estender o braço para alcança-lo. E as palavras, cada qual em seu ritmo e melodia, podiam ser ouvidas perfeitamente dando forma às duas músicas que Shion melhor se lembrava de ouvi-lo cantando. E com elas, não demorava a vir as imagens e cenas que as desencadearam; e até hoje, não importava o momento e as circunstâncias, sempre que ouvia em sua própria mente aquelas canções na voz dele, uma estranha paz e certeza o invadiam.

Era algo bom. E Shion já estava acostumado a aproveitar tais momentos. Mas agora era diferente... Claramente diferente.

Tudo vinha com maior intensidade, muito mais nítido, como se Nezumi realmente estivesse bem ao seu lado, como se pudesse até mesmo sentir o braço dele roçar no seu ao se mover.

Shion abriu assustado os olhos, e sentiu-se um tolo ao pegar-se olhando ansiosamente para os lados, procurando e esperando. Não havia mais ninguém ali. Claro que não havia.

Mas...

Se o objeto de tais pensamentos não lhe sai da mente,

Quem sabe a motivação não seja a esperança?

Esperança de nunca deixar de lembrar,

Esperança de sempre sentir mais um pouco,

A simples e pura esperança de reencontrar?

Nunca a presença de Nezumi esteve mais forte, e Shion não se importava se fazia sentido ou não. Até porque, já havia há muito se conformado que o que envolvia o outro geralmente fugia de qualquer sentido que pudesse procurar. Podia não fazer sentido, mas Shion começava a achar que talvez aquilo tudo pudesse ser algo como... Esperança?

Já fazia quase três anos desde que seus caminhos foram separados, e mesmo que durante todo esse período nenhuma notícia entre eles tivesse sido trocada, o desejo e a esperança do reencontro nunca deixaram de estar presentes. E agora, por algum motivo desconhecido, essa esperança parecia tão forte que ele não se surpreenderia se ela tomasse forma.

Não era o dia que tomara para sempre repetir aquela ação, mas mesmo assim Shion deixou suas pernas o guiarem pelo caminho que conhecia tão bem.

Já que o adeus é de dificuldade imensa

E o encarar muitas vezes pior:

Pelo temor do novo

E ansiedade do novamente.

Desde aquele dia, todo mês nas duas datas que mais lhe marcaram, Shion estava ali, na casa que um dia dividiu com seu amigo, protetor, e mais precioso companheiro. No mesmo dia que um misterioso garoto surgiu ferido pela janela do seu quarto, ensopado pela chuva e com um brilho indecifrável nos olhos gélidos. E no dia em que após ficarem ambos tão próximos da morte, se despediu do homem alto e altivo, que apresentava marcas de tiros e sangue nas roupas, e um sorriso diverso no rosto.

Todo mês, sem falta, caminhava até aquele lugar e ali ficava até a lua quase desaparecer do céu pela volta do astro dourado. Tinha a esperança de assim, um dia, encontra-lo lá, ou quem sabe ser encontrado; mas por mais que desejasse que tal dia chegasse, não podia negar que sentia certo temor por ele, e talvez fosse por isso que não ia até lá mais do que essas duas vezes ao mês.

Todos acostumam-se e se acomodam com o que conhecem

E a possibilidade da mudança não é convidativa,

Então adia-se dia após dia, até que o próprio adiar

Torna-se o maior obstáculo de todos,

Por alimentar os receios

De algo que talvez há muito não seja real.

Afinal, quanto mais tempo passava, mais coisas podiam mudar. Podia ser até irracional, mas Shion receava o que encontraria. Como seria o Nezumi sem o ódio pela No.6? Sem mais a necessidade de se preocupar com a vida do albino? No fundo, temia que um “novo Nezumi” não o fizesse sentir da mesma forma que o “antigo”, que ele olhasse para Shion e não o enxergasse mais da mesma forma. Temia pelo inesperado, pura e simplesmente.

Irracional, talvez. Mas não conseguia evitar.

Até que por fim o desejo e a saudade crescem a tal ponto,

Que subjuga-los deixa de ser uma opção;

E é por isso que desta vez tudo parecia tão diferente do habitual. Não somente por tudo o que sempre sentia estar muitas vezes mais forte, como se tivesse como único objetivo fazê-lo agir como estava fazendo agora, abandonando sua regra dos “dois dias” e andar até aquele lugar mesmo a noite avançando rapidamente. Mas também porque misteriosamente aquele temor, que toda vez o atormentava, não estava lá. Talvez tudo aquilo que sentia agora estivesse tão absurdamente forte, quase como se conseguisse prever o que estava prestes a acontecer, que todo o resto houvesse sido enterrado e enfim esquecido.

E os pensamentos e sensações enfim explodem

Apenas para serem recompensados naquele único e indizível momento,

Quando os olhos se encontram

E os sorrisos são mostrados.

Shion venceu os últimos passos que o levariam até sua casa, e era como se soubesse desde o momento que fechou os olhos no parque. Como se soubesse que pela primeira vez em três anos, a cena estaria diferente.

A figura de Nezumi era perfeitamente visível sob a iluminação das lâmpadas que três anos antes não existiam ali, e tudo nele era simplesmente... Nezumi. Os cabelos escuros e amarrados. As roupas desgastadas, talvez colocadas naquele dia especialmente para ir até aquele lugar. O brilho que jamais deixava os olhos gelo acinzentados. A sombra de um sorriso que poucos já tiveram a oportunidade de ver.

Em cada detalhe... Nezumi.

O como e o porquê então perdem a importância

E são esquecidos.

A magia está no que aquele momento,

O temido e esperado reencontro,

Representa;

E naquele instante todos os temores de Shion lhe pareceram completamente desnecessários. Talvez muita coisa estivesse mudada sim, mas da mesma maneira inexplicável que os pensamentos e sensações o levaram até ali, agora ele via a sombra de uma inabalável certeza de que mesmo se assim fosse, não importava.

E Shion sentiu os próprios lábios serem puxados para cima, e seu corpo acabar com aquela distância desnecessária entre eles.

E então todo o temor desaparece

Assim como qualquer dúvida que possa existir,

E é como se o adeus nunca houvesse sido dado.

Como se em dias, semanas, meses, ou anos,

Eles não houvessem se movido.

Nezumi também havia se movido, e logo eles estavam frente a frente, os olhos fixos e as mãos a um instante de se encontrarem. Nenhuma palavra foi dita, e nem precisaria, porque naquele momento não havia sentença que valesse mais do que aquele silêncio cheio de entendimento. Era como se tempo algum tivesse passado. Era como se Shion estivesse apenas chegando de mais um dia de trabalho com os cães de Inukashi e Nezumi o estivesse esperando voltar para poder ir ao teatro trabalhar.

As gotas frias que caíam do céu não eram mais sentidas por eles, assim como o brilho da lua e a forte luz artificial ao seu redor. Por que teriam importância?

A chuva deixa de ser fria,

A luz deixa de ser incômoda.

Nem o tempo nem o ambiente param,

Mas ambos são completamente ignorados.

Naquele único momento.

Até que enfim o quadro é quebrado pelo erguer da mão de Nezumi, que a leva até o rosto frio do menor, passando de leve as costas dos dedos pela face alva.

– Está atrasado, Shion – fala baixo, sem o menor traço de graça ou sarcasmo na face ou no sorriso que não se desfazia.

– Você também, Nezumi – Shion responde no mesmo tom, erguendo a própria mão para segurar a que Nezumi mantinha em seu rosto.

Nunca houve o que temer. Eram apenas eles ali, como sempre foram aos olhos um do outro.

Naquele único momento...

Notas finais
Eh... E então? :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!