Finale Fanmade - O Diário De Bella

2 Capítulo Único - Meio viva, Meio Morta.


Notas iniciais
Agora sim, o escrito por mim.

Boa leitura.

POV. Narrador.

Enquanto todos comemoravam a vitória do campeonato, o refeitório permanecia naquele mesmo cenário horrível. O pequeno ponteiro dos segundos do relógio ainda se movia lentamente e o coração de Bella ainda batia, fracamente.

A festa da vitória estava marcada para acontecer na casa de Jacob e todos saíam do campo em direção ao estacionamento quando um grito fraco fez alguns pararem. O velho vigia Natan abordava os professores e o diretor e falava algo que os fez correr em direção ao refeitório. Nenhuma pergunta foi respondida, já que o vigia parecia muito nervoso e havia voltado para o refeitório falando nervosamente ao celular. Todos os professores e o diretor o seguiram correndo e alguns alunos curiosos seguiram atrás, incluindo o time de futebol e as cheerleaders. Não houve tempo para nada, todos foram barrados na porta por alguns professores que tentavam evitar que os alunos vissem a cena e a garota debruçada sobre a mesa fosse ainda mais exposta. Mas existia outra porta que dava acesso a quem vinha de fora, e foi por ela que um garoto de cabelos acobreados passou e estacou ao ver a cena a sua frente.

POV. Edward.

Ganhamos! Era só no que eu pensava. O novato havia conseguido levar o finado time da FHS ao topo. Eu me sentia orgulhoso, feliz... Não havia palavras para explicar. Todos vieram me cumprimentar, desde o treinador e os companheiros de time até professores e o diretor. Nem preciso dizer que me senti orgulhoso né? Apenas fiquei chateado por meu pai não estar presente, mas ele tinha plantão no hospital e eu admirava sua dedicação ao trabalho; fiquei mais tranqüilo ao ver minha mãe descer as arquibancadas. Antes que eu pudesse chegar nela, Tânya pulou em meu pescoço me agarrando e beijando minha boca e me dando os parabéns. Não achei muito conveniente ser agarrado por ela na frente da minha mãe, me soltei gentilmente dela e corri pra perto da minha mãe, ouvindo seus protestos ao longe.

- Mãe! – falei abraçando-a e ganhando um beijo na bochecha.

- Parabéns meu filho! Você jogou muito bem! – ela me abraçava apertado enquanto eu guiava ela pra longe de uma Tânya meio enfurecida por ter sido dispensada.

- Obrigado mãe! Ainda bem que pelo menos a senhora veio... – fiz uma cara triste e ela sorriu.

- Seu pai tinha plantão hoje... Mas ele vai ficar feliz em saber que ganhou! E ele pode ver os vídeos que fizeram... – ela tentou me confortar e me senti melhor. Todos estavam agitados e saindo às pressas em direção ao estacionamento, Jacob daria uma festa e a escola toda iria.

- Eu sei mãe... – disse beijando-a na testa. – Vai ter uma festa na casa de Jacob... – disse e ela me olhou erguendo uma sobrancelha.

- Hum... Sei. Cuidado. Não beba demais e use preservativo. – disse séria e eu olhei espantado pra ela.

- Eu vi uma loirinha meio vulgar te agarrando, a mesma que esteve em nossa casa no Réveillon. Portanto, cuidado. – disse séria enquanto pegava o celular da bolsa e olhava cismada para o visor.

- Alô? – ela atendeu e eu olhei desconfiado, do outro lado da linha não se ouvia nada além de gritos e ela se afastou da multidão tentando identificar quem era, fiquei intrigado e resolvi acompanhá-la.

- Por favor, fale mais devagar. Não estou conseguindo identificar sua voz... – ela falava aflita e eu me aproximei.

- Esme? Ah meu Deus! Sou eu, Renée! Pelo amor de Deus me ajude! – a voz do outro lado gritava e minha mãe começou a andar rápido em direção à saída do campo e eu fiquei mais intrigado ainda.

- Ah Renée! O que aconteceu? Onde você está? – minha mãe estava quase chorando de desespero e eu comecei a ficar nervoso.

- Cheguei em casa e encontrei uma carta de Isabella... Era uma despedida Esme! Eu não sei pra onde ela foi! Estou na porta da sua casa, pensei que estivesse aqui... Meu Deus, minha menina! – a mulher gritava e minha mãe começou a chorar silenciosamente e eu não entendia o que estava acontecendo.

- Renée, se acalme Ok? Estou a caminho daí! Me espere. – minha mãe desligou o telefone e me olhou limpando as lágrimas.

- Aconteceu algo com sua amiga? – perguntei meio sem voz.

- Sim, e ela está desolada. Filho, vou correndo encontrá-la antes que seja tarde. Te ligo depois. – assenti e ela saiu apressada. “Quem era Isabella e que carta de despedida era essa? A menina fugiu?”. Não soube entender o porquê do meu coração se apertar, talvez dona Renée precisasse de ajuda. Estava saindo do campo quando ouvi o vigia gritar chamando a atenção de um grupo à minha frente e andar apressado em direção aos professores e o diretor, falando baixo e rápido. Ele parecia nervoso e logo o grupo o seguiu e ele correu na frente falando ao celular. Alguns alunos perceberam a movimentação e seguiram os professores, notei que iam até o refeitório e tratei de apressar o passo. Decidi ir pela entrada de fora, chegaria mais rápido. Meu coração ficou mais apertado quando estava chegando à porta e ouvi gritos e os professores pedindo para que saíssem.

Entrei apressado e quase caí com a cena que vi. A menina que quase toda a escola zoava, a nerd mais zoada da escola. Isabella! Estava ensangüentada sobre a mesa em que os ‘populares’ costumavam almoçar. Dois professores estancavam as hemorragias enquanto outros ligavam para a polícia e ambulância; estavam tão desnorteados que nem notaram minha presença. Senti um buraco se abrir no chão e me aproximei dela em choque.

- Ei, você não pode ficar aqui! – o professor Barney segurou em meus ombros, mas eu não me movia.

- Pro...Professor... Ela está morta? – minha voz falhou na última palavra e ele me olhou pesaroso.

- Não, mas seu coração está muito fraco. – ele disse com a voz embargada. Olhei para a mesa e vi um caderno vermelho, uma chave e dois envelopes; um deles era endereçado à mim. Fiz menção de pegá-los, mas o professor me impediu.

- Temos que esperar a polícia... – ele disse ainda me segurando pelos ombros.

- Mas um dos envelopes é para mim... – disse baixo. – E o outro parece ser para Tânya... – o professor olhou para a mesa e assentiu. Foi até lá e recolheu as coisas e voltou para perto de mim.

- Ela ainda está viva e não quero que ela seja mais exposta do que já foi. – estendeu os objetos para mim e me olhou sério – Guarde e entregue-os para a mãe dela. Se você está aqui dentro é porque parece arrependido de tê-la xingado hoje de manhã.

Meu coração se apertou ainda mais quando me lembrei do que fiz hoje de manhã. Grossas lágrimas desceram de meus olhos e eu peguei as coisas e me afastei. Professor Barney voltou para perto dela e logo a ambulância chegou e rapidamente socorreram Isabella, o diretor Funck acompanhou-a na ambulância e os outros alunos se espremiam na porta do refeitório tentando ver quem era a pessoa que estava sendo socorrida. Saí dalí antes que algum aluno me visse e segui para o estacionamento. Entrei em meu carro e dirigi completamente desnorteado em direção ao hospital. Lembrei-me de minha mãe e liguei para ela, o toque estava quase no fim quando ela atendeu com a voz embargada.

- Filho? – pigarreou tentando controlar o choro.

- Mãe! A senhora está com a dona Renée ainda? – perguntei já sentindo minhas lágrimas se formarem.

- Sim filho... Estamos na delegacia... – sua voz estava grossa devido ao choro. Senti um arrepio ao ligar os fatos, claro! Isabella era filha de Renée, aquela que eu salvei no meu primeiro dia de aula em Forks, a que eu covardemente humilhei hoje de manhã apenas para não perder a merda do meu ‘status’.

- Mãe... – eu não sabia como contar. – Isabella está a caminho do hospital... – escutei minha mãe arfar e senti minhas lágrimas descerem. – Ela foi encontrada ensangüentada no refeitório da escola. – disse quase sem voz e escutei um gritinho agudo; o telefone foi desligado e eu acelerei mais ainda, precisava chegar naquele hospital logo.

Finalmente cheguei e estacionei de qualquer jeito. Entrei desesperado e corri para o balcão de informações, meu pai estava de plantão, pediria para falar com ele.

- Boa noite! – disse ofegante tentando recuperar o fôlego e secar minhas lágrimas.

- Boa noite... – a atendente olhava para o computador e arregalou os olhos quando me viu. – Edward! Está tudo bem? – ela parecia preocupada e então eu me lembrei que ela se chamava Anna.

- Não estou bem Anna, preciso ver meu pai. É muito urgente! – disse com a voz rouca e ela assentiu.

- Ok, fique calmo. – ela se levantou e saiu detrás do balcão vindo até mim. – Seu pai está em uma emergência. – meus olhos se arregalaram, Isabella já estava aqui e eu precisava vê-la.... – Vou deixá-lo entrar porque sua mãe está aqui e vai precisar de você. – assenti minimamente. – Não posso deixar a recepção então terá que entrar sozinho. – assenti e ela me olhou triste. – Passe pelas portas duplas e vire à esquerda. Siga pelo corredor e logo chegará na sala de espera da ala de emergência. – assenti agradecendo e disparei pelas portas duplas correndo pelo corredor até chegar na bendita sala.

O clima era o pior possível. Todos os professores, incluído diretor, vice e o conselheiro estavam ali. Alguns conversavam, outros choravam e uns apenas olhavam para o nada. Olhei para as poltronas do canto e vi minha mãe e dona Renée sentadas. Minha mãe abraçava Renée que chorava copiosamente e tremia muito, estava praticamente em choque. Minhas lágrimas que haviam cessado por alguns minutos voltaram com força. Aproximei-me das duas e ajoelhei aos pés de Renée segurando suas mãos. Esme me fitava chorando silenciosamente.

Não havia o que dizer. Renée apenas me olhava e apertava minhas mãos. E eu me obrigava a ser forte para confortá-la, tentava a todo custo não pensar no que estava acontecendo naquela sala. Tentava não pensar no corpo quase sem vida que estava lá. Eu era um dos responsáveis. Eu sentia que ela estava mal por culpa de muitas pessoas, mas sentia que naquele momento, todo aquele sangue que eu vi fora de seu corpo era culpa minha. Chorei mais ainda ao pensar que poderia ter evitado parte disso. Estava há algum tempo ali com Renée e minha mãe quando senti meu celular vibrar, tirei do bolso e vi o nome de Tânya no visor; não estava em condições de atender ninguém, muito menos ela. Ignorei a chamada e vi que tinha mais dez ligações perdidas. Desliguei o celular e voltei a afagar as mãos da mãe da única pessoa que me interessava no momento. Isabella.

Nem sei quanto tempo ficamos ali. Aos poucos a sala foi esvaziando e restaram apenas o diretor Funck, o professor Barney, eu e minha mãe, além de Renée. Nenhum de nós falava nada e nem chorava. Apenas esperava. Minutos depois meu pai saiu de uma das salas de emergência com uma expressão cansada no rosto. Ele puxou uma cadeira ao centro da sala e gesticulou para que nos sentássemos à sua frente. Nos movemos em silêncio e expectativa. Meu pai olhou para Renée e afagou suas mãos, minha mãe apertou mais ainda seus braços ao redor dela. Então meu pai falou:

- Renée, se importa de eu falar sobre Isabella na frente de todos? – perguntou com carinho e ela apenas assentiu para que ele falasse. Vi meu pai suspirar profundamente e olhar fixamente para minha mãe por segundos antes de voltar a falar. – Por causas ainda não muito bem esclarecidas, Isabella deu entrada neste hospital com os pulsos e o braço direito feridos profundamente com cortes de faca... – ele fez uma pausa e meus olhos arregalaram. Renée chorava silenciosamente e eu imaginei a dor que ela deve ter sentido ao fazer isso em si mesma. O diretor e o professor nada falavam, suas expressões eram de puro choque, assim como a de minha mãe.

- Ela estava alcoolizada, fui informado que encontraram uma garrafa de whisky na mesa em que ela estava. Também havia uma cartela de analgésicos vazia. O que significa que ela quase não sentiu dor ao se golpear, efeitos da bebida e do remédio.

- Como ela está? – minha voz quase não saía e meu pai me olhou com a expressão angustiada. Todos olhavam pra ele esperando uma resposta que ele parecia não querer dar.

- Ela está por um fio... – disse com a voz embargada e Renée já não controlava os soluços. – A hemorragia foi profunda e ela perdeu muito sangue... Mas essa ainda não é a pior parte. Isabella está muito debilitada devido a uma anemia profunda. Realizamos um checkup nela e não sei especificar a quanto tempo, mas os exames acusaram uma grave baixa de nutrientes no seu organismo. Não sei se era do seu conhecimento Renée... – ela negou com a cabeça e além de soluçar, seu corpo tremia com espasmos violentos. O professor Barney sentou-se ao seu lado e a abraçou junto com minha mãe.

- Ela está sedada, estamos tentando reverter o quadro. Já fizemos duas transfusões e ela vai precisar de pelo menos mais duas. – ouvia meu pai dizer e eu instintivamente me levantei e fui até ele, que me olhava confuso.

- Pai, qual o tipo sanguineo dela? – ele me olhou carinhosamente, entendendo o que eu queria dizer.

- É o mesmo que o seu, filho. – Renée me olhava confusa.

- E tem o suficiente para ela? – perguntei e ele me olhou preocupado.

- Não a quantidade que atenderia ela e outros pacientes. – disse pesaroso temendo a reação de Renné.

- Me autorize a doar. Vou agora mesmo se for possível. – eu estava chorando mais uma vez. Ele assentiu e disse antes que eu fosse correndo para a sala de doação.

- Eu autorizo filho, mas primeiro preciso terminar de conversar com vocês. – assenti e voltei a me sentar ao lado de minha, que afagou minha bochecha.

- Precisamos descobrir a causa dela ter tentado o suicídio, que é o que ela infelizmente tentou fazer... – disse com a voz embargada. – E temos que descobrir a causa da anemia, para podermos tratá-la da maneira correta. O que souberem a respeito disso vai ajudar e muito. — disse e olhou profundamente para Renée. – Eu vou fazer o impossível para salvá-la. Mas agora preciso que você descanse, vou receitar um calmante natural para que você durma algumas horas, Esme querida, você vai ficar com ela? – minha mãe assentiu e Renée falou fracamente.

- Doutor, eu não entendo o porquê dela ter feito isso. Eu não sabia que ela estava doente, ela nunca me contou nada! Mas eu fui relapsa, não cuidei dela como deveria... – ela recomeçou a soluçar e Esme lhe afagou os ombros.

- Você a ama Renée! E ela sabe disso! Você leu na carta... – minha mãe tentava acalmá-la. – Nós vamos descobrir o que aconteceu e Carlisle vai cuidar dela... Agora você precisa descansar... – meus pais e os demais presentes tentavam levantá-la quando ela olhou para o meu pai e implorou:

- Salve minha Isabella, salve meu anjinho! – ela chorava muito e meu pai não segurou as lágrimas. – Ela nunca fez mal a ninguém! Salve meu tesouro! Ela é tudo que eu tenho! – ela repetia as palavras chorando alto e quase gritando. Todos tentaram acudi-la e meu pai chamou enfermeiros que entraram com uma maca e a colocaram nela.

- Acompanhe a dona Renée e minha esposa até a enfermaria, por favor, administre um calmante, ela precisa de repouso. Peçam para que Kevin, o motorista da ambulância acompanhe-nas até minha casa. Obrigado. – todos assentiram e deixaram a sala.

Então eu desabei e chorei até soluçar. Ela nunca tinha feito nada para provocar ninguém, eu nunca tinha feito nada para impedir que ela fosse agredida. E agora ela estava à beira da morte numa cama de hospital. Doar uma bolsa de sangue era muito pouco. Naquele momento eu permitiria que drenassem todo o sangue do meu corpo, se isso fosse salvá-la.

Meu pai voltou a se sentar e então o professor Barney, que passou todo o tempo calado, começou a contar a versão correta dos fatos, aproveitando que Renée não estava lá, isso a faria passar mal de verdade.

- Doutor Carlisle e diretor Funck, creio que o que falarei agora deixará claro o motivo de minha querida aluna Isabella estar entre a vida e a morte. – meu pai e o diretor olharam pasmos para o professor, que se apressou em continuar contando. – Isabella era vítima de bullying, não presenciei agressões físicas, mas as verbais não eram raras durantes minhas aulas. – as expressões eram de puro choque de realidade, é claro! Que motivos Isabella teria para tentar se matar se não fosse por isso? A expressão de meu pai foi do choque à fúria em minutos. Ele me fitou estarrecido e eu apenas assenti.

- Professor, o senhor tem certeza? – o diretor perguntou ainda em choque. As conseqüências do Bullying iriam além da tentativa de suicídio de Isabella. Elas atingiriam cada um dos envolvidos.

- Sim. – tomei coragem e respondi. – E eu me arrependo até o último fio de cabelo de tê-la destratado hoje. – disse e simplesmente quis morrer naquele exato minuto.

- Você era responsável pelas agressões também? – meu pai me perguntou ainda em choque pelo que ouviu.

- Não. Mas nunca impedi. Ela era vítima de constantes agressões físicas e humilhações. – meu pai me olhava com vergonha, enquanto o professor Barney parecia orgulhoso de minha coragem em admitir e assumir meu erro. – E tenho a prova. Ela deixou um diário sobre a mesa, está no meu carro. Eu vou entregá-lo ao senhor e depois de lê-lo, pode entregá-lo para o diretor. – meu pai me olhou ainda envergonhado por minha atitude e assentiu. Fui correndo até o carro e peguei o diário ainda manchado de sangue, ignorei as cartas, decidi que as leria mais tarde.

Voltei para a sala e encontrei os três homens com expressões pensativas. Entreguei o diário ao meu pai e ele me pediu que fosse até a sala de doação, pedi licença e saí de lá praticamente correndo. Cheguei à sala fiz todos os procedimentos necessários e me sentei para começar a doar. Fechei meus olhos e várias imagens invadiram minha mente. A primeira vez que a vi e impedi que ela fosse atropelada, o choque que senti ao tocá-la e como fiquei confuso quando ela me olhou assustada, o modo como Jacob a ofendeu; as imagens de todas as provocações que presenciei ela sofrer; as poucas vezes que vi ela apanhar; o dia da corrida na aula de Educação Física, me enchi de orgulho por ela ter conseguido dar a vitória a nossa equipe, quase enfartei ao vê-la desmaiar logo após a chegada e a falta de notícias que nunca vieram, nunca soube o porquê dela ter desmaiado. Lembranças do último Réveillon invadiram minha mente. As ofensas de Tânya, e minha surpresa ao ver o quanto ela estava linda naquele vestido azul, a dor que vi em seus olhos quando percebi que ela tinha me visto beijando Tânya. Ela não sabe, mas eu a segui quando ela correu e vi quando caiu e se machucou, no momento em que eu ia oferecer ajuda vi Jacob e Tânya se aproximando e tratei de distraí-los para que não a vissem. Como se alguém fosse vê-la sem que fosse para humilhá-la. A enfermeira tocou meu braço me fazendo abrir os olhos.

- Já terminamos o procedimento de doação. Por favor, vá até a cantina e coma alguma coisa, depois disso, seu pai pediu para que vá repousar no sofá que tem no consultório dele. – ela disse e eu apenas assenti. Fui até a cantina e comi sem nem ao menos notar o que era; dirigi-me rapidamente até o consultório e vi uma mochila com minhas roupas, fui até o banheiro que tinha ali e tomei um banho rápido, voltei à sala e me joguei no sofá deixando que novas lembranças me tomassem.

Fechei os olhos e vi seus lindos olhos cor de chocolate, seus longos cabelos castanhos, sua pele branquinha, sua boca vermelha e carnuda. Apertei mais os olhos e vi seu olhar de dor, a sensação de estar perdida; vi seus cabelos soltos como se formassem uma cortina à sua volta; vi sua pele alva marcada por hematomas e sua boca cortada e inchada. Abri e fechei os olhos e a vi debruçada sobre uma mesa, coberta de sangue com os olhos fechados e o corpo quase sem vida.

Abri meus olhos e estava ofegante. Por que eu não tinha agido antes? Ela tinha mexido comigo desde a primeira vez que a vi, mas tive medo da ameaça de Jacob e decidi me ‘aproximar’ dela de longe, apenas quando ninguém olhava. Cada lembrança que vinha à tona me fazia lembrar o quanto eu gostava dela e não havia assumido pra mim mesmo. Somente quando a menosprezei hoje cedo que me dei conta. Assim que saí daquela sala eu me odiei profundamente por ter feito aquilo. Eu pensei em voltar, mas tinha o treino. A merda de um treino. A culpa me domina, e nem me sinto feliz de admitir que eu a amo. E nem posso dizer, porque ela está sedada. Já não conseguia controlar os espasmos violentos que faziam meu corpo tremer. Chorava sem pudores e sem medo de ser visto ou ouvido. Ela não vai te ouvir. Era apenas isso que me matava, ela não podia me ouvir pedindo perdão ou soluçando de tanto chorar por medo, um medo avassalador de perdê-la.

Chorei tanto que acabei adormecendo. Não sei dizer ao certo se dormi, porque vi o rosto dela em minha mente a noite toda. Acordei com mãos afagando minha cabeça e abri lentamente meus olhos e encarei meu pai, que me olhava com um misto de dor e tristeza.

- Bom dia filho... – disse baixo sentando-se ao meu lado. – Como se sente? – fitei-o por uns instantes e resolvi desabafar:

- Me sinto o pior ser que existe... – ele engoliu em seco e afagou meu ombro. Sentei-me ereto e ele veio sentar-se ao meu lado.

- Filho, eu sei que está arrependido das coisas que fez e deixou de fazer... Mas gostaria que soubesse de uma coisa: estou feliz, de certa forma, por ter assumido seu erro e mesmo tardiamente, tomou coragem para fazer alguma coisa a respeito. – me surpreendi com sua declaração, meus olhos ainda inchados pelo choro da madrugada ardiam. Eu iria chorar de novo.

- Pai... Eu não mereço. Não estou dando um de coitado, mas a situação na qual me encontro eu mereço ser ignorado. – ele me olhou pesaroso e passou a mãos pelos cabelos.

- Não, não merece. Você não é digno de pena ou mártir. Mas fez algo certo pelo menos. Veio até aqui, prestou seu apoio à Renée, doou seu sangue e entregou o diário que é uma prova importante do que aconteceu com ela. – ele disse calmamente e eu fitei-o triste.

- O senhor leu o diário? – perguntei relutante e ele assentiu com os olhos ficando úmidos.

- Eu, o professor Barney e o diretor Funck lemos o diário e a carta que Isabella deixou para a mãe. Esme deixou comigo. Renée sabia as causas da tentativa de suicídio da filha, estava escrito na carta. – lágrimas silenciosas desciam de seus olhos e eu suspirava pesado, tinha medo de perguntar sobre o conteúdo. – Nós três ficamos chocados, ela sofreu muito Edward... Sofreu de verdade. – ele tentava controlar as lágrimas e eu assenti.

- Pai, eu... – comecei a falar, mas parei quando ele me abraçou.

- Filho, ela escreveu sobre você e sobre muitas coisas na verdade, e descobrimos muito sobre ela. A Dra. Katrina que é psicóloga analisou algumas descrições do sofrimento de Isabella e constatamos que infelizmente, ela tem problemas sérios de saúde. — estaquei e ele me fitou pedindo permissão para prosseguir, apenas assenti.

- De acordo com algumas passagens do diário, o sofrimento diário fez com que ela desenvolvesse psicose. Ela tinha um alterego imaginário que a induzia a cometer atos de mutilação e a vomitar o que comia, ou seja, ela acabou por conseqüência desenvolvendo bulimia. – olhei em pra ele em choque. Cada passo que a ‘investigação’ avançava, mais medo me dava das descobertas que faziam. Fui surpreendido quando meu pai colocou o diário sobre seu colo e abriu algumas passagens. A primeira que ele me mostrou foi do nosso primeiro ‘encontro’:

Forks, 22 de Setembro de 2003

Querido Diário

Eu não sei por onde começar… Hoje quase fui atropelada por Jacob, mas um príncipe de olhos verdes e cabelo acobreado me salvou! SIM!!!! Ele é lindo querido diário. Se chama Edward Cullen e é novo na cidade. Edward me salvou e senti todas aqueles sintomas de quando se está apaixonado… Será mesmo? Eu queria tanto que Edward sentisse o mesmo por mim… Sim, eu sei, ainda hoje o conheci, mas se você o tivesse visto estaria se derretendo tanto por ele como eu estou agora. Mas ele é demasiado para mim… Um garoto como Edward Cullen nunca se iria interessar pela Monstra ou a Isafeia.

Me senti lisonjeado, exceto pela parte em que ela se menosprezava. Meu pai me olhou com carinho e abriu em outra página marcada:

Forks, 14 de Dezembro de 2003

(....)

Já disse que estou perdidamente apaixonada por Edward Cullen? Pois é… Ele é simplesmente perfeito… Sempre que tenho a sorte de não ter pesadelos é com aqueles lindos olhos verdes e lábios perfeitos que sonho.

Meu coração transbordou ao ler esse trecho. Ela me amava e eu não merecia tamanha admiração. Olhei para o meu pai com os olhos turvos pelas lágrimas que mais uma vez se formavam e ele abriu o diário em uma nova passagem, dessa vez sua expressão estava muito séria.

Forks 30 de Dezembro de 2003

OMG OMG OMG OMG!!!!!!!!!!!!

QUERIDO DIÁRIO! AHHHHHHHHHHHHH ESTOU TÃOOOOO FELIZ!!!!

Ok, parei…

Querido diário, você não imagina o que aconteceu hoje… Renée chegou a casa e me apresentou para sua nova amiga Esme Cullen. SIM! CULLEN! É, a mãe de Edward. E sim, ela é simplesmente linda como eu havia imaginado. Não quero nem imaginar a perfeição que deve ser o senhor Cullen… Mas voltando ao que realmente importa…

Minha mãe está radiante com sua nova amiga. Na verdade sua única amiga já que mais de metade da cidade nos odeia. Eu já expliquei o porquê de tanto ódio por nós né? Não? Pois bem, basicamente minha mãe engravidou de um cara desconhecido, e ganhou o rótulo de vadia da cidade… Que bando de ignorantes…

Enfim. Mas OMG! Ainda não dei a melhor noticia! Esme nos convidou para ir à festa de virada do ano em sua casa.

Resumindo: EU+EDWARD no melhor dia do ano. *--*

Estou muito mais magra, minha roupa está ficando muito larga. Será que ele irá me notar?

Me deseja sorte querido diário.

Beijo de Bella.

Eu li e fiquei cabisbaixo, foi naquele dia que eu vi ela fora da escola pela primeira vez, ela estava linda. Vestida de azul e parecia feliz, estava iluminada. Lembrei-me da imagem dela e sorri fraco.

Mais uma vez meu pai nada disse e abriu outra passagem.

31 de Dezembro de 2003

(...)

Só quero que Edward goste de mim. Só quero um amigo, que não seja fruto de minha imaginação fértil.

(...)

Não há mais o que dizer. Ela só queria uma única oportunidade de ser aceita e alguém que a recebesse com carinho. Meu pai me olhou e resolveu falar antes de me mostrar mais uma passagem.

- Filho, estou lhe mostrando esses trechos para que entenda o quanto ela gostava de você. E o quanto esse sentimento era importante pra ela. Era algo que a mantinha na luta. – assenti e ele prosseguiu. – Não perguntei se você queria ler o diário, mas acho conveniente que saiba os sentimentos dela em relação à você.

- Pai, eu posso lê-lo depois. As passagens que o senhor está me mostrando, por hora são suficientes. Eu quero que isso seja usado como prova contra aqueles que a agrediram. Até os que foram coniventes, como eu. – meu pai se mostrou surpreso com minha afirmação e assentiu suspirando.

- Respeito e admiro sua decisão meu filho. Só estou lhe mostrando apenas alguns trechos exatamente porque ele será levado pelo diretor daqui a pouco. – assenti. – E além do mais, a última passagem que quero lhe mostrar leva ao desfecho que tivemos ontem. – me olhou preocupado.

- Eu quero ler pai, pode me mostrar. – ele assentiu e rapidamente chegou ao final do diário.

24 de Maio de 2004

Querido diário… Hoje é um dia especial. Não só pelo facto de eu estar a escrever duas vezes no mesmo dia, mas por realmente esta ser a ultima.

Sim… Hoje será a ultima vez que irei escrever.

Não fique triste, eu não troquei você por outro. Simplesmente hoje será o meu ultimo dia de vida…

Na verdade os últimos minutos…

Eu não preciso de explicar para você os motivos… Porque você já os conhece a todos.

Mas posso dizer que hoje, Edward acabou com toda a minha razão, com minha vontade e talvez com o pouco que restava de minha sanidade.

Ele me humilhou… Ele… Ele que nunca me havia humilhado, que nunca me zuou… Ele que era o único motivo que me fazia quere acreditar que podia existir alguém diferente….

Seja como for. Agora já é tarde de mais.

Eu só quero agradecer a você querido diário. Por jamais me ter julgado, por ser simplesmente o que eu sempre quis e precisei. Alguém que simplesmente parasse e me escutasse.

Você… Um pequeno caderno. Você é o mais real que eu tenho. Você não tem sangue, não tem veias, não tem alma, não tem vida. Você é um objeto inanimado.

Mas ainda assim, é o meu melhor amigo.

No momento estou aqui na escola, bebendo Whisky e tomando analgésicos. E claro, estou partilhando meus últimos minutos de vida com você e Gabbe. Sim, Gabbe. O fruto da minha loucura..

Mas olhe só, eu Isabella Marie Dawyer estou sentada na mesa dos populares. Não é o máximo???

Ugh… Acho que estou ficando bêbada querido diário.

Seja como for… Nunca fui boa com despedidas…

O que posso dizer mais?

Obrigada por me escutar. Obrigada por existir. Obrigada por não me julgar.

Adeus.

Beijos da Bella.

Um buraco se abriu em meu peito e a dor me rasgou por inteiro. Se antes eu suspeitava, agora tinha certeza de que eu era o fio que a prendia na linha da vida. E eu cortei esse fio ignorando e humilhando um ser que nada tinha feito pra merecer isso. Meu pai fechou o diário e me abraçou, saiu da sala para encontrar o professor Barney e disse que voltava logo. Naquele momento nenhuma lágrima desceu de meus olhos e eu tomei uma decisão: todos aqueles que a fizeram sofrer iriam pagar. Eu ajudaria o diretor e a mãe dela a processar todos aqueles que a agrediram. Eu faria justiça por ela e por todos da escola que sofreram com o Bullying. Eu faria a diferença por ela, eu deixaria de ser uma sombra que assiste para ser uma sombra que age contra a violência.

Levantei-me e me arrumei, passei na cantina e comi rapidamente, sem nem prestar atenção no que estava comendo. Ignorei meu celular desligado e nem me preocupei em dar notícias aos meus ‘amigos’. Voltei para a sala de espera da emergência e não vi ninguém ali. Abordei uma enfermeira que me indicou a sala de espera da UTI. Gelei. Andei rapidamente até lá e quando entrei na sala vi minha mãe e dona Renée sentadas. Me aproximei delas e me ajoelhei aos pés de Renée.

- Antes de mais nada dona Renée, gostaria de pedir perdão. – ela me olhou surpresa e minha mãe afagou meus cabelos.

- Perdão? – ela me olhou cética e eu assenti.

- Sim, perdão. Por nunca ter ajudado sua filha, por nunca ter defendido. Por nunca ter reagido. Por estarmos aqui neste hospital enquanto ela está naquele quarto sedada. – ela me olhou séria e me puxou para um abraço.

- Edward, nada que faça agora a trará de volta sã e salva e sem traumas. Mas sinto que algo em você está mudando por causa dela. E que vai lutar para que se faça justiça. – olhei no fundo de seus olhos e assenti; ela sorriu fraco e eu afaguei a mão de minha mãe que me olhava tentando adivinhar como eu me sentia. Sentei-me ao lado de Renée quando meu pai entrou na sala e puxou uma cadeira para sentar-se de frente para nós.

- Bom dia Renée, sei que já nos falamos hoje, mas ainda não passei o boletim médico de Isabella. – prendi a respiração, minha vontade de vê-la era absurda e eu nem sabia se podia ou não. – Como vocês sabem, ela está na UTI... – todos assentimos. – E estamos tentando de todas as formas reverter o quadro de anemia, mas infelizmente está num estágio avançado e temo que não haja mais tempo. – a voz de meu pai ia falhando a cada palavra. Renée estava estática, talvez porque não acreditasse no que estava ouvindo, assim como eu. – Nós retiramos a sedação durante a madrugada e esperamos que ela acorde a qualquer momento.

- Eu quero estar lá quando isso acontecer. – Renée cortou meu pai e se levantou rapidamente. – Se ela está indo, eu preciso estar perto. Quero estar com meu anjinho... Minha Isabella... – meu pai assentiu e virou para minha mãe.

— Está bem Renée, vá até a enfermeira Carla e avise que você entrará na sala. Ela irá prepará-la para isso. Querida, você irá também?

- Sim... – minha mãe respondeu fracamente e as duas saíram da sala. Estava indo atrás quando fui impedido por meu pai, que barrou minha saída da sala.

- Filho, eu não acho que seja uma boa idéia você estar presente quando Isabella acordar. – ele disse calmamente e eu olhei bravo. – Você leu a última passagem do diário dela... Não sabemos qual será sua reação se ela te ver. Uma crise nervosa não seria bem-vinda agora... – eu ouvia e sentia vontade de sumir. “Mas é claro que você não pode entrar lá com flores, bombons e um sorriso! Ela não está aqui por um motivo feliz, e sim, porque tentou se matar!” minha mente praticamente me estapeava com a verdade. Limitei-me a assentir e me sentei em uma das cadeiras da sala.

- Eu vou até o quarto dela acompanhar seu estado, farei o possível para que possa vê-la. – senti o tom de promessa na voz de meu pai e assenti mais uma vez. “Paciência eu até tenho, só não tenho tempo” pensei comigo mesmo e resolvi ligar meu celular pra ver se Alice tinha me ligado. Com toda essa confusão acontecendo, me esqueci da minha baixinha. Ao verificar as mensagens e ligações perdidas; muitas eram de Tânya e Jacob, duas de Alice e uma que me intrigou, não conhecia o número e resolvi ligar de volta. Depois de dois toques uma voz feminina que eu não reconheci atendeu.

Alô? Edward?

- Sou eu... Quem fala?

- Acho que você não vai se lembrar de mim... Eu sou Ângela Webber e queria saber notícias sobre Isabella...

- Ah sim... Vocês são amigas? E como sabe que estou com ela?

- Bom, hoje as aulas foram suspensas. O diretor fez uma reunião com todos os alunos no campo... Disse que as aulas estarão suspensas por dois dias, estão investigando um caso grave de Bullying que ocorreu... – respirei fundo... Acho que o diretor não seria insensato de divulgar o nome dela... – Ele não disse o nome, mas informou que um aluno está hospitalizado por conta disso... Meu instinto me levou até Isabella. Implorei pra Srta. Cooper me passar seu número... Deduzi que estaria com ela. – fiquei surpreso e curioso com as palavras de Ângela. Como ela sabia que eu estaria aqui?

- Fico feliz que o diretor tenha resolvido investigar o caso a fundo, e mais ainda por ele não ter dito que ela está aqui. – senti ela respirar fundo. – E você adivinhou, estou no hospital... Você ainda não me disse se são amigas. E como sabe que eu estaria aqui? – ela riu fraco antes de responder.

- Não somos amigas, mas ajudei ela muitas vezes. Principalmente depois das surras que levava.­ – ouvi sua respiração se tornando mais pesada, acho que estava começando a chorar. Meus olhos começaram a ficar úmidos de novo. – Nunca me aproximei muito, tinha medo de assustá-la... Mas sempre percebi seus olhares furtivos na direção dela... – suspiramos juntos, pesarosos. – Tinha esperanças de que você a salvasse... – minhas lágrimas vieram com força e não contive alguns soluços. Ângela esperou pacientemente que eu me acalmasse. Quando voltamos a falar, nossas vozes denunciavam nosso choro.

- Eu fui covarde demais pra isso... – disse quase num sussurro e ela suspirou sentida.

- Edward, o que realmente aconteceu? Sei que não sou amiga dela, mas me dói saber que ela está hospitalizada por ter sofrido nas mãos daqueles hipócritas! – sua voz agora estava alterada e eu dei um longo suspiro antes de contar a ela.

- Antes de mais nada eu peço por favor que seja discreta, o que eu contar não pode sair daqui. Temos que respeitar ela e a mãe... – Ângela murmurou um “Sim” preocupado e eu prossegui. – As conseqüências do Bullying atingiram Isabella profundamente. De acordo com alguns sintomas que puderam analisar ela desenvolveu psicose, bulimia e não duvido que uma depressão estivesse presente também... – ouvi um arfar do outro lado da linha e meus olhos voltaram a ficar úmidos ao me lembrar da cena de ontem. – Isso tudo estava levando-a para um caminho sem volta.. Sem ter coragem de se abrir com alguém ela foi se fechando cada vez mais nesses problemas... Ontem eu fui idiota o suficiente para destratá-la e isso foi a gota d’água. Isabella foi até a escola durante o jogo e tentou suicídio. – parei de falar ao ouvir um grito abafado. – Ângela?

- Meu Deus! Como pude ser tão relapsa e ajudá-la apenas de vez em quando? Devia ter me aproximado mais dela... Devia ter forçado uma amizade... – ela repetia as palavras num sussurro e minhas lágrimas desciam enquanto eu repetia as mesmas palavras dela. – Mas ela está bem né? Ela não conseguiu se matar não é? – a voz dela se tornava cada vez mais histérica e eu balancei a cabeça, pesaroso, antes de responder.

- Infelizmente Ângela, acho que nós dois não teremos tempo de reverter isso... – ouvi mais um grito abafado e prossegui. – Como conseqüência da bulimia ela está com uma anemia muito profunda... E perdeu muito sangue ao fazer cortes profundos nos dois pulsos e no braço... – ouvi do outro lado da linha um choro sentido e abaixei minha cabeça deixando minhas lágrimas molharem o chão.

- O estado dela é muito grave? – ela falou depois de alguns minutos de silêncio.

- Sim... – sussurrei. – Ela passou a madrugada sedada, recebeu transfusões... Mas meu pai disse que está sem forças... — nossos choros se tornavam mais intensos. – E você tem razão sobre meus olhares pra ela. Gostei dela desde o primeiro dia que a vi. Mas fui covarde demais para admitir... E estou aqui desde ontem...

- Ainda tenho esperanças que ela se salve. E de alguma forma você pode ajudá-la... Sabe que pode testemunhar contra os agressores e fazer justiça não é?

— Sim, e estou cuidando disso. Eles vão pagar. Assim como eu vou. Mas meu preço será o mais alto de todos se ela não resistir... – voltei a soluçar e chorar com força.

- Edward, conte comigo OK? Eu também me ofereço para testemunhar e se precisar de uma amiga, você tem a mim. Acho que posso imaginar a dor que sente... Mas se puder falar com ela peça perdão... – sua voz foi ficando mais embargada enquanto ela falava. – Mas se você ver que ela realmente está indo... Deixe-a ir... Se ela estiver sofrendo e sem forças, não a segure aqui... – eu não pude falar mais nada depois de ouvir isso. Ouvi ela murmurar um “cuide-se e me dê notícias” antes da ligação cair.

Nem sei quanto tempo fiquei ali chorando. Mas ao sentir meus olhos arderem demais eu me levantei e fui até o banheiro me recompor. Voltei à sala de espera e conferi as mensagens, eram dos meus “amigos”, perguntando onde eu estava e se eu já sabia da suspensão das aulas. Ainda comentavam da investigação e falaram com deboche que um aluno estava internado. Graças a Deus não tinham dado pela falta dela. A bile subiu rasgando minha garganta quando li uma mensagem de Tânya, me convidando para um “cineminha mais tarde”. Resolvi que o melhor caminho era ignorar. Estiquei minhas pernas e fechei os olhos para tentar descansar o corpo um pouco quando senti um toque familiar em meus ombros.

- Filho? Está dormindo?

- Não pai... – disse ainda de olhos fechados.

— Sua mãe levou Renée para casa, ela precisava tomar um banho e comer alguma coisa... – abri os olhos e o encarei com expectativa.

— Ela acordou não é? Como ela está? Dona Renée pode falar com ela? – falava rápido e meu pai suspirou triste com meu desespero.

- Ela ainda está acordada... Mas está muito fraca, estamos alimentando-a por sonda. Nenhum de nós conseguiu interrogá-la sobre o que aconteceu... – encarei-o mais surpreso ainda. – Isabella não está falando quase nada. Ela apenas pediu perdão a Renée e as duas choraram muito... Deixei que ela descansasse um pouco porque quero levá-lo lá... – meu pai falava baixo e com os olhos úmidos, muito úmidos. Meu desespero se tornou maior ao ouvir as palavras de Ângela em minha mente “Mas se puder falar com ela peça perdão... E se você ver que ela realmente está indo... Deixe-a ir... Se ela estiver sofrendo e sem forças, não a segure aqui...”. Tentei engolir o choro que se formava e olhei decidido para o meu pai.

- Acho que só falta eu para soltar suas mãos não é? – disse com a voz embargada enquanto via lágrimas silenciosas escorrerem pelo rosto do médico mais dedicado que já conheci.

- Filho, eu fiz tudo o que pude e mais um pouco... – assenti lutando com minhas lágrimas que insistiam em inundar meus olhos.

— Eu sei pai... Ela já estava indo quando chegou neste hospital, só estava esperando que eu Dona Renée soltasse suas mãos... – ele pareceu concordar comigo e antes que me debulhasse em lágrimas mais uma vez eu me pus de pé. – Então me leve até lá para me despedir do meu anjo. – dito isso nos levantamos e seguimos em silêncio até o quarto dela.

Paramos diante daquela porta e meu coração já se despedaçava aos poucos. Carlisle entrou primeiro e verificou se estava acordada e os seus sinais vitais. Voltou a abrir a porta e antes que eu entrasse ele me alertou.

— Tente ficar o mais calmo que puder... Fale com ela com o seu coração... Saberá o que dizer... – assenti e ele me olhou com um misto de dor e tristeza. – Se aproxime dela devagar, eu ficarei no aqui no corredor, toque o botão de emergência caso algo aconteça... – suspirei pesadamente antes de ganhar um abraço dele e entrei no quarto sorrateiramente.

Isabella estava deitada olhando para cima e coberta quase até o pescoço, a temperatura de seu corpo devia estar baixa; ela tinha olheiras profundas, mas sua pele alva ainda a deixava bonita. Seus lábios estavam rachados e quase sem cor. Forcei minha concentração nas palavras que diria a ela e sentei-me na cadeira ao lado de sua cama, pousando minhas mãos sobre minhas coxas. Respirei de maneira audível para que ela notasse minha presença e vi seus olhos se abaixarem aos poucos até pousarem sobre mim. Seus olhos revelaram seu espanto e sua respiração tornou-se ruidosa, pude ouvir através do aparelho ligado ao seu coração que os batimentos estavam acelerados. Sorri fraco e estiquei minha mão para tocar muito de leve a dela. Isabella não ofereceu resistência e nos encaramos por alguns minutos antes que ela quebrasse o silêncio.

- Você... – disse com voz muito fraca e vi gordas lágrimas caírem de seus olhos cor de chocolate. Com a mão livre toquei bem de leve seu rosto secando as lágrimas e tentando controlar minha respiração respondi:

- Eu... – ela continuava me encarando com espantos e a respiração pesada. Seu coração ainda batia acelerado, tanto quanto o meu. – Estou aqui mesmo sendo tarde para te pedir perdão. – baixei a cabeça ao ver ela chorar alto e minhas lágrimas desciam livres pelo meu rosto. Apertei um pouco mais sua mão e afaguei seu rosto enquanto falava com a voz rouca. – Eu fui um covarde por não ter me aproximado de você e mesmo não tendo mais tempo eu preciso que você me perdoe, se acreditar no meu arrependimento... – ela suspirou e apertou minha mão.

- Mesmo sendo tarde você ainda está aqui e por algum motivo sinto que não quer desistir de mim... – ela respirou fundo e vi um traço de dor em seus olhos.

— Ainda estou aqui porque me dei conta de que amo você desde a primeira vez que te vi...Mesmo não merecendo seu amor por ter me comportado como um imbecil.... – minhas lágrimas desciam com mais força e ela voltou a chorar alto, soluçando. – Mas eu farei justiça por você, ainda tenho tempo de colaborar para que os responsáveis paguem... Eu juro a você... Juro... – ela assentiu brevemente e chorava soluçando quase sem forças. – Eu sei que sonhou por muito tempo em ouvir isso, e eu peço perdão por dizer tão tarde: eu amo você Isabella. E mesmo deitada nesta cama de hospital quase sem forças eu te acho a garota mais forte e linda que já conheci... – disse tentando controlar minha voz enquanto ela apenas chorava. – levantei-me e inclinei minha cabeça em sua direção e toquei meus lábios nos dela de maneira leve. Ela suspirou e forçou sua boca de encontro à minha e entreabriu os lábios; nossas línguas se tocaram de leve e lhe dei o beijo mais carinhoso e amoroso que pude. Não durou muito tempo, mas foi perfeito e ficaria gravado em minha mente pelo resto da vida. Repousei sua cabeça no travesseiro e ela sorriu fracamente antes de me dizer entre lágrimas:

— Mesmo sendo tarde, você tem meu perdão e eu te am... – não deu tempo de ouvir o resto da frase, ela se contorceu de leve na cama e seus olhos foram se fechando como se estivessem muito pesados apertei o botão de emergência e segurei sua mão desesperado. Meu pai entrou na sala no exato minuto que os aparelhos começaram a apitar e eu vi pela última ela suspirar fracamente antes de ir... Meu pai me puxou e eu soltei suas mãos enquanto sussurava.

— Eu te deixo ir meu anjo... – depois disso só me lembro ter sido puxado para fora da sala enquanto enfermeiras entravam rapidamente no quarto e fechavam a porta.

Durante todo o tempo que permaneci com os olhos fechados eu vi Isabella e todas as imagens que eu tinha dela foram passando. Não me lembro de como vim parar no mesmo sofá que dormi a noite passada. Nem sei que horas são e se ainda é ‘hoje’. Só sei que agora, mais do nunca, eu não deixarei ninguém impune pelo que ela sofreu. Nem mesmo eu.

Meu pai me acordou e aconselhou que eu fosse pra casa, ainda eram quatro horas da tarde e o velório estava marcado para as sete da noite. Isabella havia falecido às onze da manhã, de complicações causadas pela anemia e a perda de sangue devido aos ferimentos. Dona Renée ainda não tinha voltado para o hospital e meu pai foi comigo até em casa após ligar para minha mãe, dariam juntos a notícia para ela. Acho que neste momento não consigo mais chorar, estou a quinze minutos embaixo do chuveiro tentando deixar a água quente me lavar de toda a culpa e dor que sinto. Toquei mais uma vez meus lábios e me lembrei do primeiro e único beijo que trocamos...

******

Estou fazendo as coisas mecanicamente há exatamente quatro semanas. O velório foi triste, muito triste. Eu e dona Renée não saímos de perto do caixão, ela estava com um vestido azul e o rosto parecia sereno. Ângela estava lá conosco, assim como meus pais e o patrão de Renée. Na escola houve um verdadeiro reboliço quando a noticia foi dada, os professores avisaram alguns alunos e rapidamente a notícia se espalhou. Boa parte da escola compareceu, assim como os pais de Jacob, Jéssica, Tânya; além dos próprios, e mais alguns alunos que a agrediam. Renée teve um ataque de fúria muito maior do que o meu ao vê-los e os professores tiveram que forçar a saída deles, que além do fato de desconhecerem as agressões, ficaram indignados quando Renée começou a gritar a plenos pulmões que seus filhos mataram sua Isabella. Eles foram proibidos de comparecer ao enterro e eu ainda não consigo falar disso. Renée desmaiou e eu entrei em estado de choque. A ficha das minhas ações caiu e eu não suportei o peso das conseqüências.

A escola decretou uma semana de luto e na volta o diretor chamou todas as pessoas citadas no diário de Isabella para tomar os depoimentos, um delegado estava presente. Apoiada pelo patrão, meus pais e equipe de funcionários da escola, Renée abriu um processo e um boletim de ocorrência contra todos os citados no diário por agressão de menor, coerção, calúnia e difamação. Para facilitar as investigações e impedir as represálias, o diretor nos reuniu na quadra e explicou todo o ocorrido, desde o Bullying sofrido por Isabella até seu suicídio, a conseqüência da dor que foi causada a ela. Muitas pessoas se comoveram e fizeram homenagens a ela, colocando flores em seu armário. Todos os ‘indiciados’ foram ouvidos e sofreram as conseqüências no que se aplica à escola. Eu assinei uma advertência por constrangimento e omissão, este último foi meu pedido, e fui suspenso durante três dias. Jacob, Tânya e os demais foram advertidos e expulsos da escola. O processo judicial foi mais duro, já que Tânya, Jéssica e Jacob tinham completado dezoito anos antes da morte de Isabella. Foram condenados à três anos de prisão em regime semi-aberto e também a uma pena comunitária, que incluía a limpeza de vias públicas e instituições assistidas pelo governo. Os demais menores foram condenados a prestação de serviços comunitários durante um ano e meio. Os pais responderam pelo processo. O clima na escola ficou pesado por um tempo, e as ações contra o Bullying foram de fato intensificadas, o conselheiro da escola desenvolveu, com minha ajuda, um método mais discreto: os alunos que se sentiam ameaçados enviavam uma denúncia por email, que era investigada de maneira anônima. Os poucos alunos que praticavam Bullying eram ‘pegos’ no flagra sem saberem quem os denunciou. A paz aos poucos começava a reinar na FHS.

10 anos depois.

Ao longo desses dez anos muita coisa mudou. O tempo não aplacou a dor, mas trouxe conseqüências para os que a causaram, e eles pareceram aprender a lição. Todos os alunos daquele ano ficaram marcados pela morte dela. Aliás, eu ainda não deixei de amá-la. Desde sua morte o meu ‘último ano do colegial’ não foi mais o mesmo, continuei jogando e a cada ponto que fazia eu dedicava a ela olhando diretamente para o céu. E a cada vitória do time eu me lembrava daquela noite. Não fui ao baile ou comemorei minha formatura.

Nesse meio tempo eu e Renée nos aproximamos muito e ela me adotou como um filho. Até hoje temos uma parceria que começou há dez anos quando eu e meus pais a incentivamos a continuar com o negócio que seu ex-chefe havia deixado para ela. Minha mãe e ela são como irmãs e isso a ajudou a seguir em frente.

Incentivado pelo amor que Isabella tinha pelos números e como forma de homenageá-la, eu me formei em Matemática. Voltei para Forks e comecei a dar aulas na FHS, meu objetivo era trabalhar não só para ensinar os alunos, mas também cuidar para que, pelo menos lá, não ocorresse mais tragédias desse tipo. No quesito ‘vida sentimental’ eu me conformei a levar uma vida casta. Não sentia vontade de estar com ninguém. A última pessoa que beijei permanece em meus pensamentos até hoje e não sairá de lá tão cedo. Meu amor por ela, inacreditavelmente para alguns, cresceu mais ainda todos esses anos. Divido ele apenas com uma linda garotinha que agora dorme nos meus braços enquanto eu penso nela. Dois anos após minha volta a Forks e já estabilizado quanto aos meus dois empregos: as aulas e com Renée, eu decidi adotar uma criança. Quando fui visitar o orfanato me apaixonei a primeira vista por um bebê de um ano que tinha sido abandonado no orfanato logo após nascer. O processo não durou muito e logo eu era oficialmente pai. Tinha acabado de completar vinte e cinco anos. Inevitavelmente eu me lembrei de Isabella. A bebê tinha os cabelos castanhos quase do mesmo tom que os dela e coincidentemente, tinha olhos verdes como os meus. Escolhi chamá-la de Marie, em homenagem à minha amada.

Renée ficou muito comovida e a adotou como neta e amou a homenagem. Hoje, com vinte e sete anos e a minha Marie com três eu posso dizer que estou mais calmo. Me sinto mais vivo e mais forte para continuar meu trabalho. A dor ainda permanece, mas hoje eu consigo sorrir quando lembro dela. Renée diz que ainda falta um pedaço de seu coração, mas resolveu dar o perdão aos que lhe tiraram seu anjo, depois de cinco anos do ocorrido, começaram a aparecer aos poucos, cada um dos que ela processou. E ela se mostrou nobre ao perdoá-los. Nunca mais falei com eles, mas soube por Ângela, que escolhi para madrinha de Marie, que todos eles amargam terem feito isso até hoje.

E posso dizer que, se pudesse voltar atrás, teria salvado meu anjo, assim como ele me salvou de ser um covarde. Graças à ela eu saí das sombras e hoje posso ser como um anjo para aqueles que precisam. Aprendi da forma mais dura que quem sofre Bullying precisa de mais do que apoio, eles precisam ser trazidos de volta do caminho da dor.

Notas finais
Quero agradecer de antemão à todos que lerem, comentarem, favoritarem, recomendarem.

Prestigiem a autora da fic que inspirou este finale, leiam http://fanfiction.com.br/historia/356367/O_Diario_De_Bella/

Beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!