Notas iniciais
Essa história começou há mais de um ano. Eu nunca encontrei um final apropriado para ela, até que o final me encontrou. Não sei se as palavras saíram certas. Não sei se agradei o final, que tanto pediu para ser escrito. Mas sei que é o que deveria ter sido. E aqui está ele.

Não estava assim tão frio.

No auge do inverno em New York, não estava assim tão frio. Contudo, o tempo congelou. A princesa. O lobo. Um olhar que durou por milênios, mas que foi só por alguns segundos. E então vieram as histórias. As verdadeiras, e as que contavam por aí. O lobo pequeno que roía restos deixado pela sua alcateia, o grande lobo mau que comia criancinhas más. A princesa que fugiu do tédio da nobreza, e a garotinha indefesa que foi salva por um príncipe encantado.

De repente, todas essas coisas pareciam ser as mesmas.

Como se aquele não fosse o presente. E as coisas que passaram não fossem passado.

Mas tudo fosse o mesmo instante. Acontecessem simultaneamente. Como se a relevância daquele único momento em que os olhos se encontram fosse tão esmagadora que transformava a noção do tempo. Fazia do passado, presente e futuro uma mentira. Uma armadilha de percepção.

Como se o universo inteiro se encolhesse e prendesse a respiração.

No segundo seguinte, uma longa inspiração.

E ambos desviavam o olhar ao mesmo tempo.

"Temos que conversar" era uma frase séria. E o Lobo não sabia exatamente o que dizer depois de ouvi-la. Porque, para ser sincero, nem mesmo nos seus piores pesadelos havia imaginado ouvir essas três palavras em conjuntos. Balançou os ombros, olhou para trás, através do vidro borrado da porta e as silhuetas impacientes do outro lado, e puxou o seu pacote de cigarros.

Branca respirou fundo.

Odiava o cheiro de cigarro. Mas não conseguia odiar o cheiro daquele cigarro. Bigby Wolf sempre comprava aquela marca, a pior de todas. Sentir o cheiro de tabaco de má qualidade queimando, para as fábulas, era a versão contemporânea de enxergar olhos de um lobo mau escondido entre a vegetação.

Para Branca, entretanto, não parecia assim tão ruim.

Por um momento, enquanto a fumaça dançava até o teto do escritório, ela se permitiu deixar de ser o que tinha sido desde que saiu daquela floresta. E tornou-se o que era, antes de fugir.

Só por um instante, voltou a ser menina. Com medo de lobos.

Seu medo agora, não era que ele fosse a devorar.

― O que aconteceu ontem... ― Branca tentou começar.

― Talvez eu deva tirar férias.

Havia medo também no tom de Bigby, mas ela não foi capaz de captá-lo. Em seus ouvidos, chegaram somente a ideia de que ele iria embora. Em seu coração, chegou apenas uma melancolia afiada como uma lâmina. Queria dizer “não vá”, mas o silêncio a engasgou.

― Talvez Glasgow. ― Não havia nada na Escócia para o Lobo, mas ele tentou manter a expressão neutra.

― Você deveria ficar... ― Depois que as palavras escaparam de sua boca, pensou em corrigir. Ou tentar adicionar algo mais profissional como “para o serviço de xerife”, mas, no meio do caminho, desistiu. Havia aberto um pedacinho da alma, e havia tanta pressão que ela escapou inteira. ― Eu não conheço nada, nem ninguém aqui.

É claro que ela conhecia. Mas ele entendeu o que ela queria dizer. Sorriu.

― Com você me pedindo assim.

Não estava assim tão frio.

Mas o sorriso torto dela era como a volta do Sol em mil anos de inverno.

Devagar, o medo foi abaixando os braços. Tornando-se cada vez menor. E menor, e menor. Diminuía proporcionalmente com a distância entre os dois, dançando lentamente por aquele escritório, tentando encontrar um ao outro, sem parecer que queriam correr.

Deus, mas como queriam.

― Foi a minha palidez que te fez mudar de ideia? ― Branca de Neve levantou uma sobrancelha ao perguntar, como se o provocasse. E, de fato, o fazia.

O sorriso do lobo nasceu de soslaio, e congelou em sua boca, mas cresceu nos olhos que se esticaram devagar. E Branca achou que nunca tinha visto algo tão bonito assim em toda a sua vida.

― Foram suas sobrancelhas, na verdade.

A risada baixa dela era quase inaudível, mesmo assim, ela colocou a mão na frente da boca. Como se fosse má educação rir daquela maneira. Mesmo assim, não o impediu de ouvir e embriagar-se com o som.

― Eu gosto dos que se apegam aos detalhes ― confessou.

― Eu sou um detetive, Branca. Me apego tanto aos detalhes que acabo esquecendo o todo, você iria me adorar.

O tempo novamente congelou, mas desta vez, foi culpa dela.

Quando agora, já tão pertos um do outro, eles se olhavam. Ela piscou os olhos ao ouvir aquilo, moveu o ombro direito um tanto para frente, como se envergonhada, baixou o olhar e sorriu.

Aquelas palavras nasceram no fundo de sua garganta. E talvez tenham ficado num casulo por algum tempo, mas, agora, ganharam asas de borboletas. E voavam até alcançar sua boca, e foram sopradas devagar, passando suavemente pelos seus dentes e então os seus lábios até chegarem aos ouvidos do Lobo.

Como um uivo.

― Eu iria me apaixonar.

Um lobo solitário era um lobo sem lar. Destinado a vagar por caminhos incertos a procura de alguma estabilidade temporária. Contudo, naquele instante, Bigby Wolf teve um lar. Por um segundo perfeito, morou na voz dela.

No segundo seguinte, se encolheu.

Porque aquele calor lhe era vagamente familiar. Apesar de fazer tanto tempo, Bigby já teve um lar antes. E ainda se lembrava do quanto doeu quando foi embora.

Boa parte do que era ficou lá. Com a alcateia que já nem existia mais. E se encontrasse uma nova alcateia e novamente a perdesse? O que conseguiria levar para seguir em frente seria o suficiente para ainda ser um lobo? Ou se tornaria agora mais do que uma lenda: um fantasma?

Branca não era cega para hesitação dele. E, num segundo, viu a si mesma presa na mesma armadilha. Não era necessário sequer fechar os olhos para visualizar o futuro. Via-se o beijando. De novo. Mas então percebeu que esse futuro não era ali.

Aquele futuro mora entre o sonho e a ilusão.

Era um futuro que ela se perguntava se deveria matar, e viver em um mundo cinza. Ou deixar viver, e morrer de dor.

― Eu não posso te dar um “felizes para sempre”, Branca.

A frase durou apenas alguns segundos, mas se assentou no local por um bom tempo. Tornou-se tão grande que não parecia mais haver espaço. Ela tentou mostrar um sorriso que acalmasse os ânimos, mas seus lábios tremiam, insistindo em não se abrir.

― Para sempre é só aqui ― Branca sussurrou tão baixo que parecia nem ter dito.

Não era difícil prever o que viria a seguir. E, pelo pouco tempo que aquela eternidade durasse, eles não se moveram. Apenas olharam. Apenas contemplaram o abismo, esperando que o abismo os contemplasse de volta. Sentindo as sensações que despertaram na primeira vez em que se viram, e que por todos esses longos anos se estenderam. O eriçar dos pelos, o coração pulando, as pupilas dilatadas.

Não estava assim tão frio.

Mas a alma tremeu por um instante. O suficiente para fazer com que o cigarro escape da boca, e que a princesa tenha que colocar as mãos atrás das costas. O ar que havia entre os dois era sufocante. E o silêncio no olhar que gritava mais alto do que qualquer pedido de socorro.

― Glasgow, então.

― Glasglow... ― o Lobo confirmou, tentando levantar os olhos.

E muitas outras palavras, olhares e temperaturas foram experimentadas por eles, até o final daquele dia. Mas, no final, tudo o que restou foram os passos pesados dele até a porta, e o horizonte dela que se tornou costas vestidas numa camisa social branca.

E talvez ninguém soubesse, mas eles sabiam.

Que o fim é um conceito limpo demais para o que realmente acontece. As coisas apodrecem, começam a feder e infectam os lugares em que passou. As pessoas em que tocou. Se desmoronam e levam consigo toda a tênue firmeza do conceito que demoramos tanto tempo para concretizar e convencionar-se a chamar de “eu”.

É por isso que alguns amores não devem ser vividos.

Porque, quando a vida bate, é possível revisitá-los e se convencer de que ainda existe amor no mundo.

É por isso que alguns sonhos precisam ficar na gaveta.

Porque é fatalmente perigoso viver com eles realizados.

É por isso que essa história não teve um começo.

Para que nunca houvesse um fim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!