Final Fantasy VII - Haku Ryuu No Saga
15 Capítulo 15 - Levante-se!
Notas iniciais
Se por um acaso eu dissesse que estava com medo, mas muito medo mesmo, seria algo muito fora do normal? Porque eu estava morrendo de medo e olha que a última vez que senti medo foi há, mais ou menos, quarenta anos. Pois é, quarenta anos. Mesmo com minha aparência quase infantil, 18 anos é apenas a minha idade humana, na realidade, eu tenho 200 anos de existência.
Há mais ou menos uma semana foi a minha conversa com a equipe toda, contando tudo que eles mereciam saber, admito que a reação deles foi uma tremenda surpresa para mim, todos reagiram bem a minha confissão. Depois disso, o elo entre mim e Cloud foi feito, deixei um selo em seu peito para que ele pudesse se conectar mais a mim e aprender a controlar a nova força que recebeu.
O maior problema tem sido o trauma que ele desenvolveu a respeito do seu oponente macabro, pelo que sei, a habilidade dele é justamente a de criar um trauma psicológico e físico no oponente, impedindo-o de lutar novamente, é justamente ai que eu entro.
Escolhi um bastão de metal para treinar com Cloud, tenho treinado de mãos limpas, mas hoje, quero ver até onde vai esse trauma e o que ele realmente causa no corpo humano. Como das outras vezes, Cloud está com a arma em punho, segurando-a com as duas mãos, seguro o bastão e foco meus olhos nele:
–Está bem, pronto para começar ?
–Pronto! — Consegui escutar o som metálico da espada em suas mãos-
–Muito bem então, pode vir!
A Buster foi erguida pelo loiro que não demorou de vir contra mim, inicialmente ele conseguiu se mover bem sem intervenções. Em certo momento porém, usei o bastão na posição em que se usa uma lança, tiro e queda. Cloud travou no lugar e logo caiu de joelhos, todo trêmulo e seu peito cintilava bastante, exibindo o problema, apoiou seu peso na enorme espada e se levantou com a respiração bagunçada, os olhos levemente arregalados:
–Cloud! — Ajudei-o a se erguer-
–Obrigado........-Abaixou a cabeça, muito ofegante-
–Não acha que é bom parar? — Abaixei o bastão-
–Na..Não....Vamos continuar.
–Não precisa forçar...
–Eu consigo.
–Certeza?
–Sim, vamos de novo. — Teima o loiro empunhando a espada-
Fiquei com receio de continuar com aquilo, temia muito pelo estado mental dele, não que tivesse ficado louco ou algo do gênero, mas um trauma daquele tipo é extremamente perigoso. Dei um longo suspiro antes de tentar de novo, de novo e de novo, Cloud tombou em todas as vezes que ergui o bastão naquela fatídica pose, sempre no mesmo estado e por isso dei fim ao período de tentativas, mesmo contra a vontade dele.
Cloud ficou um bom tempo sentado na parte de fora da nave de Cid, cabeça baixa e espada no chão, num estado de total deprimência que me incomodou muito, não evitei suspirar:
–Sem resultados de novo? -A voz grave de Berret se fez presente-
–Infelizmente, ele trava no mesmo ponto, o trauma é mais forte do que eu pensava.
–E como podemos ajudar esse loiro a voltar a ser como antes?
–Sinceramente, eu não sei.
–Isso é mal, muito mal – O moreno suspirou e foi até o amigo- Vamos lá, animação Cloud, vamos conseguir resolver isso.
–Resolver? Tentamos várias vezes Berret, várias vezes e.......O único resultado é minha falha.
–Não pegue tão pesado consigo mesmo, é um trauma pesado cara.
–Por isso mesmo que eu acho que deveria parar com isso....
–Parar?
–Eu não vou conseguir Berret, cheguei ao limite.
–O que? Desistir assim? O que deu em você ? -O moreno aumenta o tom da voz-
–Abra os olhos cara! Tive os órgãos rasgados, mutilados, quase morri se não fosse por Azera. Mas e agora? Não consigo nem lutar por mais de 5 minutos sem cair travado no chão.-Cloud demonstrava grande angústia na voz e no olhar-
–Se recomponha Cloud Strife! -Berret levantou-se, trazendo o rapaz loiro consigo-
Apenas fiquei observando a cena, outros integrantes da Avalanche se aproximaram pelo tom de voz do ciborgue. Tifa foi quem me chamou mais a atenção, segurando nos ombros do loiro com tanto afinco e dizendo em voz alta para ele se levantar, se recompor e não desistir mesmo que ele afirmasse querer largar tudo. Pensei mais um pouco sobre o que eu poderia fazer a respeito da situação toda, acabei por encontrar uma possível solução.
Aquele foi o dia mais cinzento e chuvoso da semana, ficamos na nave boa parte do tempo graças a chuva, mas o clima dentro a nave estava pior que o vento e a chuva. Todos estavam muito tristinhos, meio depressivos eu diria, permaneci no telhado da nave para me aproveitar do frio da chuva e para poder pensar bem no que fazer. Minha maior preocupação era a sensação ruim que o vento me trazia, a sensação de que meu tempo para resolver esse problema era mais curto do que aparentava.
Finalmente a noite chegou sobre Midgard e todos estávamos juntos, jantando silenciosamente e aquilo realmente me incomodou. Berret e Cid animaram o clima pesado e logo era uma piada atrás da outra, até Cloud ria mas eu não, aquela sensação aumentava mais a ponto de minhas escamas aparecerem na pele das minhas mãos, não é bom sinal. Disfarcei o máximo que deu até o final do jantar, todos se despediram e seguiram cada um a seus quartos, estávamos todos cansados.
Fiquei um pouco mais no saguão da nave mas não fiquei sozinha, Tifa logo se sentou ao meu lado, calada e meios tristonha, viro os olhos para mim como em uma súplica:
–Azera....
–Sinto muito Tifa, ainda não consegui – Virei-me a ela-
–Eu.......não aguento vê-lo assim, querendo desistir, derrotado....
–Eu sei, mas é muito mais complicado do que parece.
–Não há nenhuma forma de ajudar além dessa? Por favor, tem que haver outra...
–Eu tenho uma mas, é arriscado.
–Por que?
–Ele teria que lutar fisicamente com ele mesmo e até o dia de hoje, apenas dragões foram até lá, humanos não suportam a pressão da altitude.
–Mas vai ajudá-lo?
–Eu tenho oitenta por cento de certeza que vai.
–Por favor, Leve-o até lá, eu te suplico!
–Tifa...
–Ele tem parte de um dragão nele não é? Ele vai aguentar, eu sei......Que vai.....
–Está bem, levarei Cloud até lá. -Sorri em conforto a ela-
–Obrigada...
Suspirei, pedi licença a ela e fui até onde o loiro dormia, estranhando não vê-lo no quarto mas o cheiro dele me guiou para a sala de treinamento onde pude vê-lo empunhando a Buster Sword, golpeando o ar:
–Achei que desistiria, Soldier -entrei calmamente na sala-
–........Só quis tentar de novo, antes de jogar tudo para o ar.
–O que acha de tentar algo um pouco mais arriscado mas com maior chance de êxito?
–O que? — abaixou a espada e olhou para mim curioso-
–Tem um lugar mais apropriado, mas é arriscado....Humanos não conseguem respirar naquela altitude toda- sorri desafiadora -Mas você possui um pulmão e um coração de dragão não é? Vai conseguir respirar.....ou será que vai preferir ficar ai nessa pose de perdedor?
–.....
–Eu te salvei porque você tem potencial, não se acha um soldado com tantas habilidades e dons como você. Levante-se Cloud Strife, honre seus amigos, sua equipe, honre o coração e os pulmões que você recebeu! — Aumentei um pouco o tom da voz, dando ênfase em minhas palavras- Você foi salvo para continuar lutando, vencendo e não para ficar ai no chão, levante-se!
Cloud olhou-me estático, respirou fundo e se levantou apoiado no cabo da espada e ficou em pé, firme e acenou um sim com a cabeça, sorri de lado e o mesmo afirmou que queria ir ao lugar que mencionei agora mesmo, apenas concordei e fui com ele até o saguão da nave onde Tifa ainda estava sentada:
–Cloud? — A morena virou-se-
–Tenho que te pedir desculpas Tifa, agi como covarde e preocupei a todos, eu não vou desistir.
–Cloud...Graças aos céus!-Abraçou-o carinhosamente-
–Eu vou conseguir me livrar disso, eu vou- acariciou os fios longos dela-
–Tenha cuidado.-depositou um suave beijo nos lábios do loiro-
Esse é, sem dúvida, o casal mais bonitinho que eu conheço, se preocupando um com o outro com tanto afinco que não pude segurar o sorriso, precisava ajudá-lo por Tifa também. Depois dessa despedida, sai da nave para esticar minhas asas, precisaria de muita força para passar pela muralha de vento que cercava o lugar onde iriamos, Cloud se aproximou meio receoso mas confiante:
–Vai se transformar para irmos?
–Sim, num tamanho menor porque ir em forma humana é desconfortável para você.
Alcei voo somente para poder me transformar no ar, meu corpo draconiano formou-se num tamanho bem menor, semelhante ao tamanho de um cavalo afinal, um tamanho normal de um dragão é colossal e precisa de muita energia para se manter, eu quero poupar a minha para uma emergência. Pousei perto e me abaixei para que ele pudesse subir, segurou em um dos espinhos de meu pescoço e me levantei com calma, esticando as asas de novo já que não sou acostumada a levar passageiros nas costas.
Com mais um aceno para Tifa, tive a permissão para voar, a noite fria com céu límpido me deu boas condições para o voo. Procurei ficar numa altitude razoável para evitar de sermos vistos, afinal, um dragão branco não é lá muito discreto a noite. Bati minhas asas os mais rápido que meus músculos permitiram, queria chegar logo, precisávamos chegar logo, aquela sensação não havia passado. Cloud se manteve atento durante todo o percurso, meio receoso de cair de minhas costas mas procurei evitar os pontos de vendaval.
Como eu esperava, já podia sentir a forte corrente de vento aumentar, estávamos chegando mais perto. Pedi ao meu passageiro que mantivesse o corpo firme e concentrasse a respiração, eu começaria a subida contra a corrente e a pressão do ar só aumentaria mais. Quando cheguei na posição certa, iniciei a subida contra a força brutal do vento, fazia curvas e giros para contornar os pontos mais fortes porém a pressão só aumentou, Cloud já respirava com mais dificuldade a cada minuto, não estando acostumado a usar a força dos pulmões novos.
Fiquei preocupada pelo loiro, ele segurava firme e meio trêmulo, respirando irregularmente apesar das tentativas de se concentrar. Forcei as asas o máximo que pude e finalmente, quebrando a barreira de vento, avistei entre as nuvens o lugar que eu queria, no topo do pico mais alto que eu conhecia. Pousei na entrada da caverna, me abaixando para que Cloud descesse, agora mais acostumado com a pressão do ar. Caminhei pelo túnel com ele até onde queria, a entrada de um templo:
–Mas, que lugar é esse?
–Este é um templo erguido pelos ancestrais da minha raça – Continuei em minha forma dragão-
–Para que serve este lugar tão..alto?
–Deste ponto é muito melhor observar Midgard, a cidade que decidimos proteger, e claro, é o melhor e mais seguro lugar para cuidar do Lifestream.
–Do Lifestream? Como assim?
–Dragões foram as criaturas escolhidas para cuidar desse rio de vida do planeta e para cuidar dos humanos a muito tempo atrás, antes mesmo do grande desastre chamado Jenova.
–Antes de Jenova...
–Como criaturas milenares que possuem certa “magia”, nós podemos até mesmo purificá-lo mas é preciso muitos dragões para purificar um fluxo muito grande. Este lugar é para isso e para o aperfeiçoamento das nossas habilidades.-Caminhei até o centro do pátio- Gostaria de ver o que nós vemos, meio dragão?
–Ver o Lifestream...Mas a Shinra já nos permitiu ver quando usou ele como energia.
–O Lifestream é muito mais que isso Cloud, não é só aquela energia azul esverdeada indo de um lado a outro...O conhecemos em seu estado mais puro possível, mais belo. — Abri minhas asas e apenas me concentrei, meus olhos e a marca em minha testa cintilaram e o ambiente se tornou mais escuro, permitindo a nós ver o fluxo do Lifestream que passava ao nosso redor e embaixo de nós-
–Nossa, olha isso! -Os olhos mako percorriam a sala inteira, iluminada pela energia-
–É assim que ele realmente é, é assim que nós fazemos a manutenção dele se assim posso dizer.
–O que são esses pontos mais escuros?
–Eles representam todos os que agora fazem parte do Lifestream.
–Podem ver isso também? — Se mostrou realmente surpreso-
–Sim, nós podemos. Cada ponto novo que surge é mais um que se une a ele.
Observei um pouco a admiração nos olhos mako, Cloud me lembrava muita coisa de minha época de SOLDIER, lembrou-me de tantos companheiros humanos e dragões que perdi nessas batalhas, me lembrei de como os humanos se voltaram contra nós. Protegemos a cidade e seus habitantes por tantos anos, sendo escondidos em forma humana ou em forma normal e depois nos caçam, nos aniquilam, nos tem como meros troféus.
Balancei a cabeça para afastar um pouco essas lembranças, tinha um assunto primordial para resolver. Empurrei Cloud com o focinho e endireitei o corpo, expliquei a ele o que faríamos ali, ele aprenderia a usar todo o potencial que havia nele, humano e draconiano. Ele aprenderia a ser um híbrido, meio homem, meio dragão. Fui lhe dando as instruções que ele deveria seguir e enquanto ele obedecia, ia lhe contando mais sobre nossa origem, que habilidades tínhamos e como protegemos Midgard durante anos. Percebi que o rapaz estava conseguindo ter mais resultados ali, não estava sendo tão afetado inicialmente pelo trauma.
–Ainda...Não consigo acreditar....Que você tem 200 anos! — Ofegou diante do esforço que fazia-
–Pois acredite, 200 anos meu caro- Soltei um risinho, apoiando a cabeça em minhas patas-
–Tem cara de adolescente ainda.-deu uma pausa-
–Posso parecer uma adolescente, mas só pareço apesar de ainda ser um dragão extremamente jovem.
–Jovem?
–Oras, minha ancestral, Zeras, tinha mais de bilhões de anos.
–Bilhões?
–É, dragões elementais vivem mais tempo que outros dragões comuns.
–Ainda acho muita coisa.
–Mudando de assunto, hora do verdadeiro teste. Você já conseguiu se acostumar com a pressão do ar então, vamos começar o verdadeiro treino.
–Como faremos isso?
–Agora você não lutará contra um robô ou algo parecido, vai lutar contra aquilo que lhe causou o trauma.
–O que? — Recuou um passo-
–Creio que o melhor meio de superar seus medos é enfrentando eles certo?
–O que pretende fazer?
Maneei com as asas e assim o fluxo de Lifestream desapareceu, voltei para a forma humana e movimentei as mãos, sussurrando baixo palavras em meu idioma, mas não palavras desconexas. Recriei a imagem do lanceiro e a coloquei diante do loiro, o clone já manejava a lança e a apoiava no chão:
–Cloud, chegou sua vez
–Mas...eu....eu não
–Ouça, você consegue...Tem que fazer isso!
–Azera, eu não vou conseguir.
–Confie em mim. -ponho a mão no peito do loiro- Confie no que está aqui e vai!
Ele respirou fundo e se levantou, com a espada em punhos, me afastei um pouco para deixá-lo livre, com a distância certa, ele avançou sobre a sombra que também foi na direção dele, ambos começaram a lutar. Fiquei muito preocupada com ele porque a cada levantar de lança, ele vacilava e quase caia, o peito ardendo em feixes. A cópia do lanceiro agia como se fosse o próprio, com rapidez e agilidade, golpeava sem dó e sabia lutar muito bem.
Cloud porém apresentava os mesmos empecilhos de antes, não conseguia força no corpo para lutar, pensei em intervir mas não podia, ele deveria superar sozinho mesmo que progredisse pouco. Como eu já previa, um golpe certeiro jogou-o no chão como da última vez e o clone ergueu a lança, repetindo a cena de quando ele quase foi executado. Eu só não esperava pela reação que viria.
Ele arregalou os olhos e percebi que entrou em choque por alguns minutos, vi sue peito cintilar e já esperava pelo despertar dos poderes draconianos nele mas, o que apareceu foi o contrário. A iluminação era cinzenta e só aumentou a marca de corrente que vinha pelo braço, ela desceu até parte das costas e do tórax, os olhos azuis dele se tornaram escuros, num tom de vermelho escuro.
Ele se ergueu num pulo e com uma agilidade muito superior, acertou a sombra bem no meio, desfazendo-a como consequência, me aproximei para conferir o estado dele e por um milésimo de segundo, eu poderia ter ganhado um ferimento grave por conta do calor da lâmina da espada, estava fervendo. O loiro descontrolado urrou baixo e veio correndo em minha direção, tentando me acertar, apenas desviei e o desequilibrei com um golpe na parte de trás dos joelhos.
Prendi o rapaz debaixo de mim, pondo força já que ele se remexia e espalmei as mãos na cicatriz, fazendo a parte dragão subjugar a outra parasita que não sabíamos que alojara-se nele. Foi voltando a si aos poucos e só o liberei de meu peso quando recobrou a cor dos olhos:
–Azera....mas...o que houve?
–Você conseguiu superar seu trauma eu acho.
–Consegui? E eu despeitei algo do elo?
–Não, despertou outra coisa.......Nada boa – vi as correstes em sua pele mais grossas e espalhadas-
–Como assim?
–Naquele dia, ele te infectou.
–Infectou? Mas com o que?
–Eu não sei, só sei que você ficou fora de controle e tentou me acertar...Preciso te levar de volta, acho que um bom descanso te fará bem, muito bem soldado -sorrio-
Não demorei de me transformar e levá-lo de volta, o voo foi calmo e evitei todos os pontos da barreira de vento e em poucos minutos estávamos na nave do Cid, Tifa ainda estava acordada quando pousei e veio nos receber. Ela e o loiro se despediram de mim e foram descansar, eu porém, demorei um pouco para ir. Aquela sensação ruim só aumentava.
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