Notas iniciais
Minha primeira história.
Peguem leve.

13 de Maio de 2008


Tudo tinha sido tão normal pra ele. Escola, trabalho e casa. Não era ruim. Não era nem um pouco ruim comparado ao que estava prestes por vir. Mas ele não achava aquilo suficiente, queria mais emoção, então tudo o que faltou durante os 17 anos anteriores de sua vida vieram como um turbilhão. Ele deveria agradecer por cada passo que dava.

–James, você fez o dever de matemática?

Julie perguntou a James. A melhor amiga dele, sempre tinha sido. Ele sabia que ela não tinha feito e estava totalmente disposta a copiar a lição ,"dar uma olhadinha", como ela sempre dizia. Ele entregou o caderno a ela, sem respondê-la. Julie Carpenter era uma garota linda, os olhos claros refletiam algo incapaz de ser compreendido. Os cabelos castanho-claros eram lisos e compridos e tombavam macios sobre sua pele branca.

–Valeu querido! — Ela respondeu carinhosamente, com o lápis na mão e o olhar vidrado no caderno.

–É — ele respondeu, gostava de ser chamado assim por ela. Ela era carinhosa com poucos, um "amor" ou um "querido" vindo dela era o suficiente. James era um garoto alto e magro de aparência ótima. Os cabelos curtos escuros eram erguidos por um spray barato, e suas roupas carregavam logotipos de bandas que nunca iremos conhecer.

Ele batia a caneta na carteira impaciente. Aulas de química levam toda a eternidade e mais um pouco para acabar. Sinais que insistem em não tocar.

A classe naquele dia estava em silêncio, ninguém prestava atenção no que o professor dizia, geralmente faziam outras coisas nessa aula como dormir, bocejar e dormir. Ou copiar lições dos amigos e de outras matérias. Os únicos sons audíveis mesmo eram a própria voz do professor, o lápis de Julie riscando ferozmente a folha e os bocejos próprios e alheios. O sinal tocou como sempre assustando todo mundo.

Aula de matemática . O professor pediu a lição de casa e Julie foi uma das primeiras a entregar, um sorriso enorme no rosto e uma cara de pau maior ainda. James riu ao vê-la afobada ao tentar explicar uma de suas contas.

A aula passou estranhamente rápida, e para James, elas eram lentas e cansativas. O sinal bateu, assustando um bando de dorminhocos. Hora de ir, James como sempre saiu atrás de Julie, e Peter e Susan, seus outros amigos vinham logo atrás. Peter era uma versão mais robusta e larga de James, um pouco mais baixo. Os cabelos escuros e curtos estavam penteados desigualmente em meio a um emaranhado inacabável. Susan tinha os cabelos escuros e muito lisos, escorridos por suas costas brancas, expostas pela blusa que estava usando. Susan era adepta a um underground beirando o alternativo e o gótico.

Os quatro saíram juntos e entraram no ônibus em direção a casa.

A escola era separada do centro da cidade: era uma escola de São Francisco na cidade de Sausalito. Não era longe, mas havia uma ponte enorme: a Golden Gate. James era fascinado por aquela ponte desde criança, fascinado pela estrutura, altura, força, enfim, pelo modo em que tudo se encaixava.

Era uma da tarde, um dia frio. Haviam nuvens escuras por todos os lados. Estava prestes a chover e eles mal haviam entrado na ponte e sabiam que um trânsito maldito os aguardava.

James estava sentado ao lado de Julie, Peter e Susan logo atrás. Os alunos sempre sentavam nos mesmos assentos. Julie, com o fone de ouvido, cantava alto o suficiente para James ter um motivo pra tomar um Dipirona ao chegar em casa. Os amigos a toleravam. Mas todos tem limites e com a voz de Julie, esse limite se reduzia a zero.

–Julie, dá pra cantar mais baixo? — Peter perguntou.

O ônibus deu uma freada brusca. Os alunos balançaram inconscientes nos bancos.

O celular de James tocou. Ele pediu calmamente pra Julie cantar mais baixo. Ela não o ouviu e ele a cutucou e balançou o celular na frente dela. Ela parou. James conferiu na tela, era a mãe dele Christine, ele atendeu.

–James? — Christine perguntou no telefone.

–Sim mãe? — James respondeu.

–Onde você tá filho?

–Tô no ônibus mãe, na ponte.

–Ah, olha, antes de chegar em casa, passa no mercado e me traz um cigarro?

–Ok mãe, trago sim, tchau. — Ele desligou e suspirou esperando a luz do celular se apagar. Christine havia tentado largar o cigarro várias vezes. Conseguia por alguns dias e destruía todo o esforço com uma recaída. Era outra recaída agora.Três dias voando pelo espaço. Ele tentava ajudá-la, mas ela simplesmente não queria a ajuda dele. "Eu comecei a fumar sozinha e vou acabar com isso sozinha" dizia ela sempre que ele tentava algo.

Julie voltou a cantar mais empolgada ainda. O céu se fechou completamente. Estavam no meio da ponte quando ouviram um barulho alto, um rangido. Silêncio total. Outro estrondo maior ainda, todos se levantaram do banco, procurando saber de onde vinham os barulhos. O ônibus deu uma chacoalhada violenta. Vários alunos caíram e gritaram, pessoas começavam a saír dos carros e a ponte começou a tremer e não parou mais.Todos estavam assustados.

–É um terremoto! — James ouviu alguém dizer no meio da gritaria. James se lembrou de ter visto na TV alguns dias antes sobre terremotos na costa leste dos Estados Unidos. Houve um empurra-empurra, todos desciam dos carros e os alunos, do próprio ônibus. James puxou a mão de Julie e empurrou os alunos no corredor do ônibus para andarem logo, não havia tempo a perder.

O céu ficou mais escuro, o ônibus continuava chacoalhando. Com muito esforço, conseguiram descer do ônibus, Peter e Susan logo atrás. Carros escorregavam e batiam-se uns nos outros e a ponte rangia. Se houvesse algum lugar pouco seguro naquele momento, era a ponte. Alarmes de carros, gritos, era terrível. James segurou com força a mão de Julie e começou a correr em direção a saída da ponte. Peter e Susan fizeram o mesmo. A ponte chacoalhava mais forte, produzia estrondos que James pode ter certeza que poderiam ser sentidos e ouvidos a quilômetros de distância. A ponte iria cair. Cabos vermelhos e enormes, firmes como nunca até aquele momento, despencavam lá de cima e faziam um barulho muito alto ao cortar o ar úmido.

Então James viu Sarah e Samarah, irmãs gêmeas que estudavam com ele, correndo juntas lado a lado até a ponte dar uma virada brusca, dois carros se chocaram e um grito horrível foi ouvido. Os carros prensaram uma das gêmeas no meio deles. Havia sangue por todo lado. Um pedaço dela caiu no chão.

A outra irmã horrorizada gritava. Outros carros se chocaram e James viu uma lataria sendo arremessada com força na outra irmã, a acertando em cheio e a partindo ao meio.

É, aquilo estava longe de ser um terremoto sem vítimas. Julie gritou. James olhava pra aquela imagem, sem acreditar.

James mais do que depressa puxou a mão de Julie e voltou a correr. Era muito mais do que um terremoto. Logo à sua frente, James reconheceu a camiseta do time da escola, era Josh, um antigo inimigo.Nessa hora, James viu a sombra de algo se movendo no chão, olhou pra cima e avistou um cabo enorme indo na mesma direção de Josh . O cara pareceu que percebeu o cabo e parou bem a tempo. O cabo passou raspando no corpo dele. Nesse momento a namorada dele, Stephanie, correu em direção a ele abraçando-o.

O cabo voltou e acertou ambos, que estavam abraçados, jogando-os para fora da ponte. Dezessete anos de memórias sendo reduzidos a uma massa molhada de corpos sem vida.

James tremia e suava, ainda corria o quanto podia. Em determinado momento, uma sensação estranha o fez parar e segurar num poste e em Julie. Foi um grande acerto.

A ponte deu uma virada brusca, derrubando muitos carros e pessoas no rio e James viu Oliver, um amigo de Josh sendo arremessado contra a cerca e caindo no rio. Mais estalos e estrondos, aquilo não parava, e pesava na cabeça dele. Era assustador o fato de que as pessoas que James nunca vira na vida morriam de qualquer jeito, ali na própria frente. James voltou a correr e enquanto corria, tinha certeza que era a pior cena de sua vida.

Correndo ao lado deles, estavam Peter e Susan, até Peter tomar a dianteira, com Susan logo atrás. Então James viu algo vindo em sua direção, parou e fechou os olhos. Sentiu como se tivessem jogado um balde de água quente nele. Mas era diferente, era sangue na boca dele. Abriu os olhos lentamente, imaginando a cena que iria encontrar. Peter estava caído no chão, um parafuso de ferro enorme enroscado em seu crânio, expondo boa parte do cérebro.

Foi nessa hora que James ficou sem reação. Dessa vez fora Julie quem puxara a mão dele e a de Susan, ainda mais chocada. Pularam por cima do corpo de Peter e correram, estavam perto agora. Foi então que James retomou seus sentidos e voltou a ativa, tomando a frente de Julie como deveria ser e continuou, puxando-as pelas mãos.

Do nada James ouviu um barulho e sentiu a mão de Susan escapar da dele, olhou pra trás e viu ela caída com um poste de luz em cima da cabeça. No mínimo a força da queda havia esmagado o crânio dela, havia sangue por todo o lado.

Todos os gritos que deveriam ser audíveis nem passavam mais pela cabeça dele, ele se isolara e mal sabia o que estava fazendo, só queria estar com Julie em algum lugar seguro. A ponte ainda balançava e James arriscou dar um olhar para trás. Era como o fim do mundo, corpos, carros e fumaça. Ainda pode ver uma explosão matar Colin, Michael e Emma, três de seus colegas numa pancada só.

James corria, com Julie atrás, até chegar num aglomerado de pessoas, perto da saída. Correu e puxou Julie, passando no meio do povo, empurrando, apertando, e ali, sentiu soltar a mão de Julie e pegá-la no ar, umas duas vezes, ainda sem olhar pra trás. Finalmente, ele conseguiu chegar em terra firme e sentiu um remorso, mas ao mesmo tempo um alivio enorme por estar vivo, se virou pra abraçar Julie, mas viu que quem estava pegando na mão dele era uma menina de uns sete anos, chorando desesperada.

James olhou ao redor, procurando desesperado, mas Julie tinha ficado pra trás.

–Fique aqui está bem? — James disse para a menina. Ela concordou com a cabeça, ainda soluçando e chorando, procurando por algum conhecido.

James estava disposto a salvar Julie e entrou mais uma vez na ponte, que agora parava de balançar, mas o aglomerado de pessoas ainda era grande. Passou mais uma vez, empurrando muita gente. Infelizmente ele estava no sentido contrário enquanto todos queriam sair, e isso dificultava muito a sua travessia.

Avistou Julie a uns vinte metros, que pela expressão no rosto procurava desesperada por alguém. Nesse momento, que deveria ser um alívio, seu coração gelou.

Ele viu tudo desabar atrás de Julie: carros, pessoas, a estrutura da ponte até alcançar Julie e a levar junto. Não havia chance pra ninguém, a ponte estava oficialmente desmoronando. A chuva começou a cair. James então, chorando, sentiu o peso da dor. O mundo em câmera lenta. Caiu de joelhos no chão, esperando que o mesmo o engolisse.

O desabamento em cadeia da ponte chegou até ele. Sentiu o chão cair e se viu livre no ar, imponderável para sempre. Estava voando mais rápido e a cada milésimo de segundo, mais próximo de um carro afundando na água. Fechou os olhos, disposto a encarar com dignidade seu triste fim.

–Julie, dá pra cantar mais baixo?

James abriu os olhos, ele estava no ônibus do lado de Julie. O acidente nunca havia acontecido, mas ele tinha certeza de que algo estava errado. Nesse momento, o ônibus deu uma freada brusca, assim como na visão dele. Ele então tirou o celular do bolso e olhou pra tela. Três segundos depois, a tela do celular acendeu. O nome de sua mãe, Christine, apareceu na tela do celular.

–James? — perguntou a mãe dele no telefone. Ele fechou o celular devagar, o guardou no bolso e sem acreditar naquilo. Virou se de um jeito que pudesse ter uma visão ampla de seus amigos e disse:

–Temos de sair daqui. Agora!

Nessa hora, Peter e Susan pararam de conversar e olharam pra ele. Julie, conhecendo as expressões assustadas do rosto de James, tirou o fone e prestou atenção nele.

–Hã? — Peter perguntou, ele tinha ouvido James, mas achou que era uma brincadeira.

–Vai ter um acidente, um terremoto — James falou tentando ser o mais calmo possível — Eu vi, na minha mente, tudo acontecia tão rápido, vai ter um terremoto, a ponte vai chacoalhar e vai cair, é sério! — James começou a chorar, metade do ônibus olhava assustado pra ele e depois começavam a rir. Julie falou com uma expressão de dó e dúvida no rosto:

–James, o que é isso?

James não respondeu e começou a levantar do banco, ele estava confuso.

–Vem cá cara, você tá drogado? — Peter perguntou.

James explodiu:

–Eu não tô drogado nem nada do tipo, ok? Eu vi na minha mente, vai ter um acidente e todos vão morrer!

–Olha James, você não tá bem, se acalma cara! — Julie falou no tom mais calmo que pode. Ela estranhou, James não era assim.

Ele chorava e falava ao mesmo tempo, tremendo. Não era uma brincadeira dele.

–Ui! Caramba! — James ouviu Josh dizer, muitos riram.

O ônibus andou mais um pouco, cada segundo desperdiçado ali era muita coisa.

–Não tenho tempo pra idiotas — James respondeu.

–Não tem tempo pra idiotas? — Josh perguntou sarcasticamente — Não tem tempo pra você né? "vai cair,vamos morrer" — Josh disse sério.

–Vou descer — James disse. -Venham comigo , é serio!

Julie chacoalhou a cabeça e disse: -Ok! -mas sua cara não demonstrava o mesmo. Ela fuzilava James com o olhar mas no fundo estava preocupada. Ele passou no corredor todos olhando pra ele, rindo ou curiosos.


Peter disse a Susan:

–E agora?

–Vamos ver o que esta acontecendo né — Susan disse.

Peter levantou e Susan foi logo atrás.

–Onde você pensa que vai? — Disse o motorista a James.

–Mudei de idéia, vou a pé.

O ônibus não era só da escola, o motorista não era responsável por ninguém.

–Vai então!!! — Guinchou o motorista, apertando o botão.

James estava na porta do ônibus quando ouviu Josh dizer, do primeiro banco:

–Fala pra sua mãe que eu vou pegá-la de tarde. Era o fim da picada. James se descontrolou, voltou até o banco de Josh e meteu um soco no rosto dele. Josh se retorceu de dor no banco, Stephanie xingava James, e ele voltou e saiu correndo do ônibus com Julie, Susan e Peter.


–Isso não vai ficar assim! — Gritava Oliver, amigo de Josh, olhando o amigo segurando o rosto, como se o soco fosse derrubar o olho dele.

Oliver saiu correndo, Josh logo atrás e Stephanie, que pedia pra Josh se acalmar. Nem precisou dizer nada ao motorista e ele apertou o botão da porta, de novo. Josh, Oliver e Stephanie desceram.


Emma, amiga de Julie, costumava ser alucinadamente supersticiosa: tudo o que fosse dito para ela, ela acreditava, ou achava que era algum tipo de praga, então bastou James ter falado do acidente que talvez acontecesse e ela ficou louca pra descer. Michael, seu namorado, quando se deu conta, percebeu Emma na porta do ônibus e não teve outra escolha senão correr atrás dela.

James andava correndo, enquanto os amigos o cercavam de perguntas.

–O que foi aquilo no ônibus, cara? — Peter perguntava, tentando acompanhar os passos rápidos de James.

–Eu prometo que vou acabar com você se você não me pagar um táxi, pra me levar pra casa! — Susan disse tentando acompanhar os passos silenciosos de James, que corria pela área destinada à pedestres.

Então finalmente ele falou, com a voz entrecortada, por estar correndo. Josh e os amigos vinham atrás também, Oliver gritava algo que James nem tentou entender.

–Eu vi um acidente acontecer na ponte, foi tudo muito real! — Disse tentando se acalmar, ainda andando e correndo em passos largos.

–Mas como assim um acidente? — Peter falou — Cara,você deve ter dormido ou visto fantasmas, estamos na ponte dos suicidas!

James finalmente saiu da ponte e se encostou numa das cercas, ainda nervoso. Os amigos o cercaram, enchendo de perguntas. James não sabia o que tinha acontecido, só sabia que seria o mais falado da escola por semanas consecutivas.

Josh chegou também, foi pular em cima de James e a terra tremeu.

Josh parou. Todos pararam. A terra começou a tremer,assim como na visão de James.

A ponte começou a fazer barulho, James e todo o resto dos alunos que desceram da ponte se agacharam, olharam pra cima pra ver se havia algo que pudesse despencar sobre eles. James começou a chorar, o terremoto chacoalhou cada vez mais, todos gritavam, pessoas que estavam nos carros na ponte ou aceleravam e saiam loucos com os carros, e outros largavam o carro e saíam correndo a pé, deixando o carro ali mesmo. Ou era medo, ou esperavam que fosse um terremoto simples de terça-feira. Estavam severamente errados. A terra chacoalhava com uma força incrível, as árvores ao redor se quebravam em seguida, James nunca tinha sentido um terremoto com aquela força. Foi aí que os cabos da ponte começaram a se soltar, a ponte começou a ranger muito alto. Logo vários carros se aglomeraram na mesma saída da ponte, e sair dali só era possível a pé.

James e o grupo se afastaram da ponte, cambaleando, mas só por segurança, sem tirar os olhos da incrível catástrofe que acontecia ali na frente deles, prevista por um pirado da escola. Era horrível, pessoas e carros caiam da ponte com as balançadas que ela dava de um lado pro outro. Era ruim mesmo a própria sensação de ver a ponte perfeita, se destruindo ali. Os garotos que, querendo ou não escaparam com James, sabiam que era mínima a chance deles terem sobrevivido se não tivessem escapado com ele, e olhavam horrorizados do chão que tremia, a ponte que se destruía, e a expressão de horror no rosto de James.

O chão parou de tremer, James ouviu suspiros de alívio por todo o lado, mas no meio da confusão de sentimentos, ele sabia que o pior estava por vir. Os últimos cabos arrebentaram, um estrondo, e todos assistiram o desabamento da ponte. Eles viram a ponte virar escombros do começo ao fim, era como num filme. Tudo caiu na água e começou a chover.

Agora na perspectiva de visão de todos onde deveria existir uma ponte, existia um vão, um buraco enorme. Todos sentiram na pele a destruição, e olhavam pro rio, engolindo lentamente cada carro, cada pessoa, e viam boiar cada pedaço de ferro ou concreto que a água não poderia engolir. Aqueles segundos de silêncio, só eles puderam sentir o quanto doía. Então James se viu, sentado no chão, cercado de pessoas, conhecidas ou desconhecidas, chorando, e se deu conta do aglomerado de pessoas que tinha chegado, e só agora ouvia Sarah, chorando, sem a irmã gêmea por perto, que devia ter ficado no ônibus. James nem tinha visto quando ela tinha saído. Só naquele momento James percebera Julie chorando em sua ombro, Susan chorando com Peter, só agora percebera que dentre vários alunos da escola que pegavam aquele ônibus, havia só um pequeno grupo.

Ninguém falou nada enquanto as ambulâncias, policiais passavam, pessoas desesperadas procuravam por alguém e um grupo de adolescentes estava ali no canto chorando.


Logo os pais daqueles jovens foram chegando, as mães desmaiavam quando viam que os filhos estavam bem. James viu uma mulher que correu a Sarah e a abraçou. Ambos deram uma olhada ao redor e viram a resposta nos olhos de Sarah e a abraçaram mais forte, desatando a chorar ainda mais.

Outros pais apareciam, nervosos, procurando impacientes por seus filhos, que James sabia que nunca iriam voltar.

–Como vocês estão aqui se o ônibus estava lá? — Alguém gritava pra eles. Mais outra família que James conhecia, vizinhos dele, pais de uma menina que estudava com James desde que eram crianças, procuravam por ela entre os garotos.

–Ela não veio? — Perguntou a mãe dela à James, que olhou pra ela e disse sem pensar.

–Não sei.

A mãe da menina começou a chorar abraçando o marido. "Calma amor, ela pode ter ido na casa da Angel" dizia o marido dela, se agarrando ao último fio de esperança.

James a vira no ônibus, ela estava na ponte.

James voltou a chorar de novo, ele podia ter tentado convencer mais pessoas. Julie parecia ter percebido o porque de James voltar a chorar e disse de um jeito doce, capaz de acalmar James.

–Você fez o que pôde, Jay.

Logo os pais de todos foram chegando, sobrando só Julie e James. Quando a mãe de Julie chegou, ela também chorou ao vê-la. A abraçava, apalpava de um jeito pra ver se tudo estava no devido lugar.

–E o Jay? — James ouviu a mãe dela perguntar e viu que Julie apontou pra ele.

–Que bom! — James ouviu ela dizer. A mãe de Julie era legal com James, assim como o pai dela, então James podia arrastar Julie pela cidade inteira, e eles deixavam. Confiavam nele.

Julie estava indo embora mas antes virou se pra James e sussurrou um "tchau". James fez o mesmo.

Logo a mãe dele, Christine, o assustou, voando com um abraço.

–Que bom, que bom, não acredito! — Ela dizia o abraçando.

–Como é possível, você tá bem? — Ela perguntou, se separando do abraço.

–Tô bem sim mãe, tô sim — James respondeu a abraçando de novo.

–Vamos embora James. É melhor.

–Vamos sim.

James seguiu Christine até o carro que estava estacionado um pouco longe da ponte, haviam muitos carros na região.

–Você sentiu o terremoto mãe?

–Não senti, vi na TV que ocorreu principalmente na área da ponte e saí correndo. Os seus colegas estão todos bem? Mas peraí — Christine parou pra pensar — Por que vocês estavam lá na rua, mas e o ônibus?

Por um momento James havia se esquecido de sua visão e achou que não era bom contar aquilo a sua mãe.

–Mãe, apenas alguns alunos eu sei que estão bem, o resto estava na ponte quando desabou.

–Oh meu Deus. E os seus amigos?

–Peter, Susan e Julie estão bem.

–Que bom.Tomara que todos estejam bem — Christine disse mas James sabia que eles não estavam bem e ainda mais na visão, James vira o quanto seria difícil pra qualquer um escapar. Mais uma vez se lembrou da visão. Como era possível?

À volta pra casa foi silênciosa. No caminho, James viu que o estrago maior tinha sido na região da ponte, ou talvez , só na própria ponte, as casas e prédios do caminho até a casa, estavam intactos. James chegou em casa e subiu pro quarto. Christine ficou na sala. James deitou na cama e ficou olhando pro teto e voltou a ter aquela sensação ruim, mas sempre vinha a sua mente a mesma pergunta. Como?

As horas passaram. James acabou dormindo a tarde toda. Acordou e se lembrou de tudo de imediato. Confuso, desceu pra comer algo. A mãe dele via na TV: "Especialistas dizem que é um dos terremotos mais fortes da história dos Estados Unidos.Voltamos agora com o nosso enviado especial ao vivo, direto da err... Golden Gate".

O jornalista falou muita coisa, James só olhava as imagens de helicóptero da ponte desmoronando. Só conseguiu ouvir "talvez o maior desastre da Califórnia" e ''dezenas de mortos."

–Que horror ! — James ouviu Christine dizer várias vezes, olhando chocada pra TV.

–Que horror mesmo -James completou.

James comeu algo e subiu, deitou na cama de novo, absorto em pensamentos, dúvidas e medo. "Quem não estaria?", ele se perguntava.

O celular dele tocou, o assustando. Era Julie.

–Jay?

–Oi Julie.

–Você tá bem ? — ela perguntou.

–Tô sim, e você? — ele respondeu, mas ele não estava.

–Tô melhor agora, mais calma, aquilo foi realmente horrível né?

–Foi sim, vários colegas devem ter morrido, muita gente...triste — Ele falou.

–Como você sabia? — Julie perguntou, cortando James.

–Han? — James respondeu.

–Do acidente — Julie disse incrédula, como se James tivesse rido de algo.

–Ahn — James respondeu — Eu não tenho idéia. Eu vi a ponte chacoalhando, vi todos morrerem e acordei. Tudo que aconteceu na minha visão começou a acontecer de novo, e eu tirei vocês de lá e ...

–E realmente aconteceu — Julie completou — Cara, isso é muito estranho, você costuma ver isso sempre?

–Não, foi a primeira. Olha, tchau Julie, durma bem.

James estava cansado. Julie com certeza queria saber mais da visão, mas James estava sem saco, e tinha motivos suficientes. Peter e Susan também ligaram, mas foram mais diretos, queriam saber da visão e não fizeram cera que nem Julie. James enrolou eles, deitou na cama e ficou pensando por um tempo, até dormir.

Notas finais
Então, é isso..Espero que gostem. Obrigado !!!