Notas iniciais
Bom, desculpem a demora.
Decidi que não vou dar um dia certo para publicação dos capítulos pois não vou ser capaz de cumprir.
Ah, sei lá, agora o resto da história é mais fácil de ser escrito e tals. Dependendo do meu rendimento, talvez eu poste os dois últimos capítulos no mesmo dia, tipo You Never Know.
Esse capítulo é cheio de ação e novidades. Espero que aproveitem!
Obrigado pelo feedback.

Respiro fundo. Respirar fundo se tornou um ótimo hábito pra um cara como eu: um cara que anda a pé pela cidade mesmo tendo um carro na garagem e que acompanha uma sequência de filmagens em que pessoas próximas morrem.

E eu não consigo deixar de remoer a ideia de que, seja o que tenha sido esse ritual, não funcionou.

Não funcionou mesmo.

E dói.

Sinto pena ao pensar nos três se esforçando em algo que no fim não deu resultado. Sinto pena ao vê-los nessas filmagens com a esperança de que fossem capazes de dar a volta por cima naquela merda estranha.

Ainda estou no pátio da minha escola. Não ouço som algum além do som do tecido da calça sobre meus joelhos, os quais estou friccionando um contra o outro há minutos. Minhas pernas estão se mexendo involuntariamente, uma mania estranha que adquiri com o passar dos anos. Isso poderia e significa nervosismo pra muitas pessoas, mas no meu caso é apenas o tempo passando.

Depois que você aprende a selecionar seus amigos, você aprende a observar a sociedade. Pois você tem um grupo limitado de pensamentos que combinam com o de outras pessoas, e com esse pensamento combinado, com esse sentido aguçado, você é capaz de ouvir e observar tudo melhor. Capaz de observar quais atos geram tais reações. Aprende melhor a decidir qual caminho escolher, mesmo que ambos pareçam horríveis.

Pois você já viu alguma pessoa tomando o pior caminho e não vai ser estúpido o suficiente para pegar o mesmo.

Acho que minhas reflexões já não estão fazendo tão sentido quanto faziam antes.

Acho que já mencionei isso.

Play.


Uma falha de estática. Outra falha de estática. Um zumbido estranho e imagem ganha um tipo de foco surreal. Quase como se não devesse estar conseguindo obter aquele tipo de foco.

A câmera foi posicionada acima de algo alto, presumo que seja uma geladeira. É fácil de discernir, pois vejo a pata de um pinguim no canto da tela. As janelas no fundo estão fechadas, e está escuro.

Existe uma mesa no centro. Há velas acesas sobre ela, e isso me deixa muito tenso pois não consigo deixar de relacionar isso com magia. Posso ver alguns móveis tipo armários e cadeiras além da mesa, e chuto que isso seja a cozinha do Rafa, pois não é de Will muito menos Carol.

Sofrendo com a dança do fogo bem acima delas, várias folhas repousam sobre a mesa. Posso ver que são sulfites. Existem livros antigos e eu não tenho ideia de onde eles se encaixam com o que pode acontecer. Sério, de onde Rafa tirou livros antigos que falam da morte?

Mas antes de qualquer palavra dita, eu sei o que está acontecendo. É o ritual.

Rafa aproxima-se da ponta da mesa e estica ambos os braços na horizontal.

- Andem logo, — ele diz um pouco sussurrando, chamando alguém fora do frame.

E eu sei quem ele está chamando.

- Porra, — ele continua, — eu tô falando sério, vamos acabar com isso de uma vez por todas!

- Mas.... – ouço Will dizendo no fundo.

- Mas uma ova, — Rafa devolve. A luz da vela ilumina o brilho do suor no pescoço dele. – Pelo amor de Deus gente, meus pais estão quase chegando.

Ah sim. Eu entendo muito bem o fato de não querer que seus pais descubram que você está lidando com rituais.

Rafa prende o olhar em ambos. Ouço suspiros.

Carol pára ao lado de Rafa e estica os braços, pegando na mão dele. Will posiciona-se no outro lado enquanto Rafa diz algo como “sim, ai mesmo”.

Rafa pega na mão de Will.

Carol solta uma risada nervosa. Eu não consigo fazer nada além de rir com ela.

Acho que isso é difícil demais pra nós dois.

Rafa manda outro olhar frio pra Carol e ela se engasga pra retomar o ar com a risada invasiva.

- Desculpa, — ela diz e fecha os olhos.

- Bom, — Rafa começa, lançando um olhar nervoso ao redor e para Will – o site dizia que as pessoas que vão fazer o ritual, devem unir as mãos.

- Ok,– Will disse impaciente — Checado.

- E então deveríamos recitar essas palavras,– ele aponta para um local em especial numa página que eu percebo agora que está em destaque.

Carol abre os olhos e se aproxima.

- Você tem certeza de que isso não é uma merda que vai nos deixar com uma maldição e tals? Pois olha, eu já assisti filmes de terror o suficiente...

Eu riria alto se estivesse com eles.

Rafa se prepara pra responder ironicamente quando parece se dar conta de que Carol está totalmente séria.

- Tenho. Eu tenho sim.

Ela concorda e suspira.

- Então é só dizer? – Will pergunta agora, tensão crescendo.

Rafa franze a testa e balança a cabeça.

- É sim. Acho que é só repetir algumas vezes. Eu só achei isso em relação ao ritual.

- E como vamos saber se estamos livres? – Carol pergunta. Bom ponto Carol.

Rafa pensa por um segundo.

- Honestamente eu não sei.

Honestamente ele não sabia. Ah, as incertezas da vida.

Rafa vira sua atenção para o livro. Carol e Will fazem o mesmo.

E então Rafa começa a repetir duas frases, lidas no livro. Carol e Will deixam o silêncio e começam a repetir aquilo também.

É um diálogo em latim, que só após a décima repetição eu consigo pegar mais ou menos o que eles estão dizendo.

Sim, estou arrepiado novamente. Eles estão dizendo algo como “Aferte Spiritum Meum Retro – Extinguere anuum ab anima mea”.

E eu estou ficando tenso, pois não tenho ideia do que esse inferno significa e estou com medo de descobrir.

E eu ainda estou aqui nas arquibancadas do pátio da minha escola. Mas sinto que estou com eles.

Nada está acontecendo. Nada está acontecendo. Nada está...

Uma vela da mesa se apaga e deixa apenas um rastro rastejante de fumaça pelo ar. Meu coração dá um salto. Era impossível aquela vela ter se apagado daquele jeito... Com aquelas janelas fechadas e...

Will e Carol também perceberam. Agora Rafa também percebeu. Mas os três continuam repetindo aquilo. Ah, o que seria dos filmes de terror sem um pouco de burrice?

Não sei por que ambos continuam dizendo aquilo. Meu coração diz que eles estavam desesperados. Mesmo que estivessem no escuro, eles queriam estar armados. E foi o que eles fizeram.

Acho que esse é o sentido de viver. Lutar no escuro.

Outras velas estão se apagando. Meu Deus, e se aconteceu algo do tipo: coisas voando naquela noite e eu nunca soube disso? Meu Deus, mas que merda...

BLAM!



Respirar fundo. É tudo o que você precisa. Pois você pode...

Acho que eu nunca mais serei o mesmo após ter visto o que acabei de ver. Ok, eu estive caindo num lance sobrenatural nos últimos dias, acreditando em tudo que vi nesses DVDs – pois é verdade, — mas meu coração jamais estaria preparado pra ver o que aconteceu.

Inadvertidamente, meu polegar pausou o DVD. E estou encarando o seguinte.

As janelas da parede da cozinha estão totalmente abertas. Uma claridade súbita invadindo a cozinha que parou no meio do caminho. Rafa está totalmente desfocado, pois correu se abaixar. Will está congelado olhando pras janelas. Carol está olhando pro chão, mas seus cabelos estão espalhados num tipo de corte de cabelo sensacional a La explosão.

Eu não deveria estar achando isso engraçado ou sensacional, mas é o meu lado engraçado nervosinho tomando conta pra eu não perder a cabeça. Isso é demais pra todos nós.

As janelas se abriram num baque horrendo. E isso foi a coisa mais found footage do mundo, mas as janelas se abriram num golpe e os três quase cagaram suas almas pra fora tamanho o susto.

Junto comigo.

Algum tipo de força ou vento macabro abriu as janelas da cozinha de Rafa.

Play.

Rafa some embaixo da mesa. Will fica ali, esperando algo maior acontecer. Ele não queria perder nada. Carol está engasgada num grito longo e sem fim.

Fim do grito. Fim do vento. As janelas estão parando de balançar.

MAS QUE MERDA! – Rafa exclama.

Droga!– Carol grita, as mãos na cabeça num ato desesperado, — EU TÔ FORA! VAMOS WILL!

E Will fica ali parado.

Eu não sabia que... – Rafa continua — Merda, eu não imaginava, eu...

Eu quase morri.– Will conclui muito sério, após o que pareceu ter sido um ano de reflexões.

Isso faz quatro de nós, Will.

Desculpa galera! — Rafa repete, tentando mudar o jogo.

Me deixa Rafa! Me deixa!

Carol limpa o nariz na manga e se afasta em direção a porta, aí que ouço outro “blam”. Mas Carol não grita dessa vez. Ela apenas espera.

Já Rafa, literalmente limpa a mesa com as mãos, retirando as velas, os livros, os sulfites, tudo de uma vez só, — e jogando numa caixa próxima que eu não tinha reparado antes. Acho que os pais dele chegaram nesse momento.

QUE MERDA É ESSA? – a voz ecoa na gravação.

VÃO EMBORA AGORA! – Rafa grita para Will e Carol. E Will sai do frame e desaparece com Carol.

RAFAEL QUE MERDA É ESSA? – ouço uma voz igual de Rafa, mas muito mais potente.

Isso é feitiçaria? — a mãe de Rafa entra no frame e pega uma das folhas que ele não foi capaz de esconder.

Rafa apenas ignora tudo aquilo. Eu sei que ele terá uma longa história para contar. E pela expressão em seu rosto, ele sabe disso.

Ele apenas anda em direção a câmera e desliga.

E eu estou mais uma vez sozinho.



Droga. Parece que o DVD #3 é bem maior do que os outros. Eu gostaria de ter um sinal do motivo.

E eu me dou conta que não tenho pensado sobre a camada de gelo ao meu redor nas últimas horas. Esse sou eu, esquecendo coisas. Pelo menos não é algo tão importante.

De fato é algo importante, mas não quero correr o risco de desabar numa cachoeira de choros inacabáveis. Eu não quero que esse gelo derreta. Ainda não.

Acho que só a camada de gelo sabe como foram as facadas todas as vezes que Carol tem aparecido nesses vídeos. Cada aparição, um golpe. E quanto mais me aproximo do final, maiores os cortes vão ficando. Até que uma hora a camada vai estar muito danificada. E estarei descongelado pra chorar.

Estou ficando depressivo demais. Está ficando frio aqui.

Meu celular toca. Não me dei conta que o mesmo estava no meu bolso nas últimas horas. Observo na tela, é minha mãe.

– Oi mãe, — eu digo calmamente.

– Vinicius, — ela diz afobada, quase como se estivesse há horas tentando falar comigo. Então eu tiro o celular da orelha e observo o canto que mostra o número de chamadas perdidas.

Sem chamadas perdidas. Estou salvo.

– Que foi mãe?

– Tudo bem? – ela pergunta num tom de quem não quer nada.

– Tudo mãe. Claro que sim.

Na verdade estou passando por uma experiência muito sobrenatural e não quero ser perturbado mãe, mas de resto, tudo bem.

– Hummmm, — ela começa, e eu sei que é um aviso indicando que ela vai se lembrar de algo em segundos... Ah mãe, eu te amo... – você vai vir almoçar em casa?

Ah é verdade. Almoçar... Isso parece tão distante da minha realidade agora.

– Acho que não mãe, — eu começo, forçando-me a não gaguejar... – Eu vou comer um lanche no shopping.

Minto. Acabei de mentir pra minha mãe. Isso não é comum.

– Certeza? – ela pergunta cheia de si – pois eu fiz lasanha.

Viro os olhos. Não consigo deixar de soltar um sorriso. Lasanha é meu prato favorito. Genérico, eu sei, mas basicamente eu sou fácil de ser pego pela barriga. E me sinto culpado, pois a lasanha é um tipo de aperitivo pra me chamar de volta pra casa.

Ela está sozinha em casa e fez lasanha. Meu Deus.

– Muita certeza mãe, — eu retorno – mas eu vou gostaria que você guardasse na geladeira pelo menos dois pedaços grandes, pra eu comer quando chegar em casa. Tudo bem?

Vem um silêncio do outro lado da linha e eu quero morrer.

– Claro que guardo. A Sheila e a Vic estão aqui.

– Ah, — eu solto aliviado. Ela não está tão sozinha. Sheila e Vic são as melhores amigas da mamãe. Ela não fez lasanha sozinha. Ela não vai almoçar sozinha. Estou me sentindo melhor. – então diz pra elas não comerem tudo.

– Eu vou dizer, — ela diz rindo. – Onde você tá?

– Eu, — eu solto, sem ter me preparado, — eu... eu tô andando...

– Achei que você disse que estava no shopping.

Décimo strike?

– Eu estou indo pro shopping, mãe. Se acalme, eu vou ficar bem.

– Tudo bem Vini, — ela diz num tom de que “ok, não vou te atazanar,” — tudo bem. Eu te amo, okay?

– Eu sei mãe. Eu também te amo. Beijo.

– Beijo.

Aguardo ela desligar o telefone. E ela não desliga. Então, lentamente eu afasto o celular da orelha e desligo.

Alguém ainda me ama. Estou feliz.

E eu percebo que acabei de esquecer toda uma merda indistintamente sobrenatural por alguns segundos. Acho que esse é o momento em que você está se acostumando. O momento em que seus olhos já se ajustaram o suficiente pra enxergar no escuro.

BLAM! – e eu ouço na minha mente os sons da janela se abrindo.

BLAM! – novamente, acho que sou muito fraco pra esvaziar minha mente.

BLAM! BLAM! BLAM!

Que bom que não estou indo dormir. Pois eu não conseguiria. E agora, em plenos pulmões, eu me lembro novamente do grito longo da Carol.

Isso é triste. Isso é muito triste. E aqui estou eu, repetindo pensamentos.


PLAY.



A imagem na câmera não passa de um borrão escuro. E existem buzinas. E existem passos apressados. E me dou conta de que estou encarando os tênis de Rafa e os tênis de Carol deslizando sobre uma calçada movimentada da região. Conheço essa calçada tão bem que juro que posso até sentir o cheiro que permeia por lá. E eu tenho certeza de que vou continuar vendo essas calçadas até o grupo chegar a algum lugar.

E o que o Will disse? – Rafa perguntou, ainda confuso.

Eu também estou confuso, só peguei metade da conversa.

Você trouxe essa merda... – Carol diz suspirando.

Não é merda, é minha câmera.

Carol suspira. E é o suspiro de quando ela está apenas puta da vida. Você deveria ter medo, Rafael.

Will disse – Carol começou... — que precisava respirar um pouco.

Lembro-me de ter encontrado Will naquela manhã. Sim, eu me lembro. Ele estava com muito sono e pareceu calcular morbidamente cada palavra que me disse.

Estranho. Pelo menos no dia.

Acho que todos nós precisamos respirar um pouco...

Sabe por que eu vim Rafa? – Carol pergunta numa voz fria.

Rafa continua apenas andando, câmera filmando seus passos. Ele não quer responder. Ele tá sentindo os golpes dela vindo.

Eu vim, pois eu não tinha nada pra fazer... Pois eu não posso chegar perto do Vini, pois senão eu vou contar tudo pra ele...

– Eu não estou tapando sua boca... – Rafa completa num tiro.

A questão não é essa...

Uma pausa. Ambos estão escolhendo as palavras.

Rafa, — Carol começa... – toma cuidado com o que você vai dizer pra essa garota.

Eu vou, — ele diz.

E eu espero que sim, Rafael.

Outro silêncio.

A câmera é desligada. Esse foi literalmente um take inútil. E estou oblívio ao fato de que fui mencionado. E eu simplesmente espero o DVD ser ejetado no mesmo instante, o que não acontece. Então eu levo a seta do mouse até o canto e descubro que ainda existe muito, mas muito footage aqui. Acho que Rafa estava ficando sem DVD’s virgens em casa.

Estranho.

E então a câmera é ligada novamente.

O que seus pais disseram sobre ontem? – Carol pergunta.

Um ótimo ponto a ser levantado. Acho que minha mãe me faria uma lasanha. Acho que meu pai me chutaria de casa.

O de sempre, — Rafa devolve... – “O que você tava fazendo Rafa?”, “O que eles tavam fazendo aqui, Rafa?” “Rafael Rafael você vai se dar mal” “Era macumba?”...

E Rafa disse isso num turbilhão profundamente intenso, mas muito, muito sereno. Como se aquilo fosse uma reza muito diária.

Carol concorda. Ah – eu me lembro dela dizendo.

Ah.

Ponto pra mim.

Na verdade,– Rafa começa, — eles não querem me ver com vocês...

Carol solta uma risada nervosa.

Eu realmente também não queria te ver. Pois te ver me lembra dessa merda e me lembra daquelas janelas...

Nem me fale,– Rafa solta, um pouco exausto.

Outros passos em silêncio. Cadê essa Emery?

E você... você olhou a filmagem de ontem a noite?

Rafa soltou um suspiro. Acho que o fato de filmar tudo e não apagar nada estava definitivamente o perturbando.

Na verdade sim.

E?

E nada, — Rafa ri nervosamente. – Nada mesmo.

Que bom – Carol conclui. — Pois se você me dissesse que viu um fantasma na filmagem, oh, eu juro que ia te matar... simplesmente por você existir e me falar do fantasma na filmagem.

E eu não consigo segurar a risada.

Acredite, eu não mentiria. Não depois do que eu passei.

– Chuva de sangue, não é? Como você descreveu...

E eu não consigo evitar o flashback da chuva de sangue de Henrique sobre Rafa. Até acho que Rafa se recuperou rápido demais. Rafa se recuperou rápido demais da morte de Léo.

Não que ele conhecesse Léo, mas não é todo dia que se vê um cadáver fresquinho e deformado.

É o instinto de um câmera-man, o lado maldito do meu cérebro chuta.

Acho que eu me recuperei rápido demais. Pois é tudo um filme. Isso não aconteceu comigo. Eu não me recuperaria tão rápido quanto Rafa.

Chuva de sangue...Você precisava ver a reação da mamãe...

Rafa pareceu descarrilar no meio da frase. Ele suspira.

Não foi fácil nem pra mãe de Rafa, imagino. Primeiro seu filho escapa de uma explosão num clube. Ai então ele vê um cadáver. Então toma uma chuva de sangue. Então faz feitiços em casa.

Não é fácil pra ninguém.

Desculpa,– Carol diz.

Ok.

Ele desliga a câmera.



Falhas de estáticas. Ah, o que é um footage sem falhas de estática? É tipo avião sem asa...

Esquivo-me da memória de uma música que um dia Carol já gostou. Estou tentando fazer isso desde que fiquei sabendo das coisas, e não tem dado certo. Pois cada centímetro quadrado do meu quarto grita Carol.

A câmera revela um borrão misto de cores e letras, e assim que eu me esforço para distinguir alguma coisa, o som de máquinas, pessoas e bipes vem à tona. Então a câmera para de balançar, e eu tenho um ótimo ângulo de Emery.

Emery não é nada diferente da garota que vi na balada há alguns dias atrás. Agora ela está com o cabelo amarrado num rabo de cavalo muito comprido, que pende do lado de seu pescoço, e está usando um tipo de uniforme avental de um supermercado próximo.

Ela não parece nem um pouco contente.

Ok, — Emery diz lançando um olhar pra câmera e de volta para alguém, que obviamente é Rafa, - não vou nem perguntar qual é o lance da câmera.

Rafa não diz nada. Emery lança um olhar um pouco distante do local em que Rafa está, e presumo que seja Carol. Que também não diz nada.

Repita tudo isso olhando dentro dos meus olhos.

– Eu não vou repetir...– Rafa manifesta, uma mão gesticulando na frente da câmera – você precisa nos levar a sério.

Como é que vocês querem que eu leve vocês a sério?

Duas pessoas estão mortas, Emery – Carol diz pausadamente, para fazer um efeito maior.

Emery lançou um olhar questionador a Carol e mordeu os lábios.

E que diabos eu tenho a ver com isso? – ela disse fazendo uma expressão de “eu estou me lixando”.

Gosto de Emery. Mesmo com ela agindo um pouco vadia com a Carol. Ela é uma daquelas garotas expressivas e que gesticulam muito.

Espero que ela esteja viva.

E o que acontece,– Rafa diz, — é que você não quer nos ouvir. Pois você sabe que faz sentido.

Emery vira os olhos.

Pelo amor de Deus, você veio no meu emprego,– Emery aponta para o chão, — falar comigo, — Emery aponta pra si mesma, — pra me contar sobre uma lenda boba?

– Não é uma lenda boba, Emery. Estamos sendo honestos com você.

Estamos torcendo pra que sejam coincidências... – Carol disse tentando levantar um astral. – Eu estou.

Ela estava.

Emery deu um tapa na prateleira de leite condensado e seu rabo de cavalo chicoteou entre o pescoço. Ah, os gestos.

São coincidências! – ela gritou repentinamente e Rafa recuou. Então ela olha ao redor e eu percebo que ela conseguiu mais atenção do que planejava.

São coincidências, — ela diz muito mais baixo agora. – São apenas coincidências... Eu só tive uma sensação forte e só. Não tem nada a ver com o que vocês estão dizendo...

Emery tira um pano do avental e joga por cima do ombro.

Desculpem horror geeks, mas alguém aqui precisa trabalhar.

Emery balança os braços num gesto de adeus e se afasta rindo. Dando as costas para Rafa, Carol... e eu.

E após três passos de Emery, a voz de Rafa vem num baque.

No clube, você viu que Léo foi o primeiro a morrer, não é?

Emery congela repentinamente. Seu corpo pende no mesmo local por um instante e ela fica ali. Entendo aquilo com um sim.

Droga, é um sim.

Emery olha para o chão.

E depois foi o Henrique.

Emery suspira. Aquele suspiro poderia significar muitas coisas, mas eu entendo como um gesto de dúvida e descrença.

Ela vira-se novamente, de frente para a câmera.

Como é que você sabe disso?

Ela parece um pouco abatida. Parece que levou um choque. E eu acho que esse choque foi causado pelo download súbito das memórias de um acidente que ela viu e que nunca chegou a acontecer.

Venham comigo,– ela diz. – Falem enquanto eu trabalho.

Rafa e Carol andam em direção a Emery, e ela volta a andar.

Sabe... – Emery diz, o tom de voz muito mais calmo, — eu me vi morrendo.

Ela suspira. Incapaz de continuar. Uma mão aparece no ombro dela – Carol.

É estranho morrer, sabe... Você se sente muito pesado, dolorido, mas ao mesmo tempo está voando. E depois que essa fase passa... então você entende o quanto tudo é mais fácil depois de ser testado uma vez. O quanto é mais fácil acompanhar um jogo após saber as regras...

Luto pra entender totalmente o que acabei de ouvir. Processando...

E depois? – Rafa perguntou interessado.

E depois eu acordei.

Uma história profunda, se pararmos pra analisar.

Depois que eu saí da boate, eu tive meio que uma sensação de que o meu pesadelo era um destino. Que mesmo saindo da boate, eu estaria fadada a morrer...

É disso que Rafa está falando. Bingo.

Apenas observo as inúmeras prateleiras desaparecendo ao fundo.

E acreditem, se eu consegui reconstruir minha confiança com o mundo desde aquela noite... vocês acabaram de destruir.

Eu sinto muito Emery,– Carol diz calmamente. Ela realmente sente muito. Pois eu conheço a voz de “sentir muito” da Carol.

Eu apenas sinto muito em não ter tirado mais pessoas de lá... Enfim agora é tarde,– Emery diz respirando fundo.

Nós todos sentimos muito,– Rafa diz.

Emery desvia do grupo e desaparece atrás de uma portinha. Rafa para com a câmera e espera.

Emery reaparece atrás de um balcão, touca branca na cabeça. Ela estica luvas de látex nas mãos e encara ambos novamente.

Se tiverem que falar mais alguma coisa...

Ouço Rafa respirando agora. Ele tem muita coisa pra falar. Muita coisa pra perguntar.

Ouça, eu não sei se você está acreditando na gente ou não... – Rafa diz.

Ainda não, — Emery diz abaixando-se atrás do balcão e pegando alguma coisa. Reaparecendo em seguida.

Mas eu preciso que você me conte quem é que morreu depois do Henrique.

Ninguém morreu depois do Henrique, Rafael. – Carol diz calmamente. Yep, ela está certa.

Na visão!

Emery franze a testa.

Eu só me lembrei da ordem em que as duas pessoas morreram quando você mencionou...

Emery pressiona um botão numa máquina reluzente e barulhenta.

Humm... então vamos tentar o seguinte... eu fui o terceiro a morrer na sua visão, não fui?

Emery lança um olhar pasmo pra Rafa.

As coisas não funcionam assim...

Você tem que nos contar!– Carol diz quase num gritinho.

Acredite, — Emery diz, — eu realmente contaria. Mas eu não me lembro de quem morreria. Era muita correria e muita fumaça no local... Eu não gosto nem de me lembrar.

Emery coloca alguma coisa na máquina e empurra. O equipamento produz um som estridente e Emery lança um olhar rápido e nervoso pro mesmo, antes de voltar-se para Rafa.

Isso é tudo?

Não, claro que não...

Então obrigada, preciso trabalhar,– Emery diz repentinamente e prepara-se para dar as costas, pra dar seu adeus pra ambos da maneira mais brilhante possível. O que não acontece.

Repentinamente, Emery volta num tropeço para a máquina barulhenta. Carol grita e eu percebo que Emery está presa.

Me ajudem! – ela grita, uma expressão de pânico e horror estampada em seu rosto.

E Rafa está recuando com a câmera. Ele apenas viu demais nos últimos dias. Ele não quer ver mais.

Emery lança um olhar de misericórdia para Rafa, e continua tentando recuar da máquina.

SOCORRO! – Os gritos parecem ecoar pelo local.

E eu honestamente não acredito que vou ver mais alguém morrer. E eu me assusto com o fato de que já não estou me preocupando em cobrir os olhos ou coisas do tipo.

E Rafa está recuando.

E eu sei que não aguento mais ver e pensar nisso.

Meus pulsos! – ela grita lançando olhares fervorosos pra todos os lados. MEU DEUS, onde estão os colegas de trabalho dela? Faz algo Carol!

Rafa recuando.

Tem lâminas aqui!

Surpreendentemente, Carol que estava um minuto antes com a mão na boca desentalando um grito, agora voou sobre o balcão. Eu não consigo mais ver Emery, pois Carol está arremessada sobre o balcão, tapando a. Carol está tentando salvá-la.

Carol... – Rafa geme numa tosse. Acho que Carol nunca ouviu esse gemido do Rafa.

Eu nunca conheci esse lado da Carol. Esse lado heroico que só aparece nas horas mais críticas.

Acho que nunca existiu uma hora tão crítica entre ambos de nós.

E estranho, Carol nunca me contou sobre uma garota morrendo com os pulsos cortados numa máquina barulhenta...

Estou sendo cruel...

E então vem o grito da Emery. Um grito longo e angustiante em que eu sei onde vai acabar. E existe um CLANK! E então eu ouço outro grito de Carol. E então o grito da Emery acaba. Há um som de borracha sendo rasgada e então Carol é lançada de volta para o lado em que estava.

E eu não estou vendo mais Emery do outro lado do balcão.

Meu coração está querendo atravessar minha garganta e ir embora. Emoções demais para o pobre órgão.

Carol está caída no chão. Assustada. Com medo de olhar.

E então é assim que Emery morreu.

- Carol! – Rafa retoma um tipo de coragem e vai correndo ajudar Carol.

Nunca desligando a câmera.

Rafa estica o braço, levantando-a. Então Carol lança um olhar preocupado para o outro lado do balcão, e eu percebo que não há sangue.

Qual é, Rafa tomou uma chuva de sangue.

Rafa tenta segurar Carol, impedi-la de ter tal horrível visão...

E Emery levanta-se de pé do outro lado do balcão, encarando a manga rasgada da blusa de frio que vestia por baixo do avental e um dedo muito longo, que eu entendo como a luva de látex que foi pega nas ferragens da máquina. Não há sangue, muito menos pulsos cortados.

- Eu... eu te salvei, — Carol diz.

Meu Deus, você a salvou Carol. Você a salvou Carol.

- Você salvou ela Carol! – Rafa abraça-a.

- Deem o fora daqui! – Emery grita. – AGORA! VAZEM DAQUI!

Emery não está morta.

- SUMAM!

Carol lança a Emery um olhar de piedade, e esse olhar corta meu coração. Carol está confusa, e eu também estou com tal reação.

Acho que Emery estava com muito medo.

- VÃO EMBORA!

Então Carol vira-se para Rafa e lhe dá um olhar de confusão.

O braço livre de Rafa estica na frente da câmera e gruda no braço dela. Então Rafa vira a câmera em direção ao corredor e começa a sair correndo.

E eu sei que está puxando Carol com ele.

E a câmera é desligada.



Eu sei que sou uma montanha-russa de emoções. Mas nos últimos dias, simplesmente parece que o meu carrinho está apenas subindo num aclive sem fim. Uma subida eterna.

É essa a sensação de acumular muito e não descarregar nada. Subir para sempre, e nunca cair. Nunca deixar a bola cair.

Mas o que acontece, é que o meu coração não é uma montanha-russa de emoções. Ele é apenas um pobre órgão que faz o que deve ser feito. E têm executado suas funções muito bem, pelo menos nos últimos dezoito anos.

Mas eu estou com medo de possíveis falhas. Pois isso tudo é demais para mim. E eu não consigo deixar de repetir isso. Isso é demais pra mim.

Isso é demais, demais, demais para mim.

Não posso deixar de negar que estou hiperventilando com a possibilidade de Emery nunca ter morrido.

Não posso deixar de negar que estou morrendo só de pensar que a lenda online acabe por aqui e que realmente Carol e Will cometeram suicídio.

Não me contento com o fato de que estou torcendo pra que uma maldição tenha jogado ao invés de suicídios terem sido planejados.

E eu decido, preciso vê-la. Preciso ver Emery.

Mas minha mente caótica aponta algo, e se ela já estiver morta? Talvez Rafa, Carol e Will não tenham durado tempo suficiente pra presenciar isso... Eu preciso ver isso até o fim pra ter certeza...

Acho que sou uma montanha-russa de incertezas. Pois minhas incertezas sim, elas é que estão subindo e descendo em jatos de ar comprimido. E definitivamente, isso não é bom.

Notas finais
Enfim, quero reviews. É.
Muito provavelmente, a fic terá 13 capítulos.