Finais Felizes Na Ecomoda.
9 Capítulo 9: Uma história verdadeira
Notas iniciais
Patricia era a própria imagem da desolação ao terminar de assar pela décima-segunda vez os bolinhos que Nicolas tanto gostava, segundo Dona Eugênia. Quando chegou a casa de sua futura sogra apesar de saber que a convivência entre as duas não seria nada fácil, ela não imaginava o trabalho escravo que teria de suportar para agradar a mamãe de Nicolas.
Quando chegou Dona Eugênia a tratou muito cordialmente, como sempre, na frente de Nicolas. Entretanto quando ele saiu para a Ecomoda, a “bruxa” saiu do esconderijo. A primeira coisa que fez foi colocar Patricia para lavar louça, tadinha dela que nunca tinha quebrado uma unha, quebrou pelo menos três e apesar do seu choro insistente Dona Eugênia não sentia a menor compaixão. Depois teve que refazer a receita umas seis vezes pois não prestava atenção e acabava desonerando a massa e por fim deixou queimar quase onze vezes os bolinhos Patacóns (especialidade colombiana).
Ao acertar finalmente os patacóns, ela teve que novamente lavar a louça e por fim arrumar a mesa para o tesouro de Dona Eugênia degustar sua sobremesa favorita. Patricia estava com tanto ódio dentro de si, que desejava matar a futura sogra somente com o olhar. Ela nunca havia sido tão humilhada, nem mesmo quando Armando gritava com ela na Ecomoda. Certamente Dona Eugênia queria fazê-la desistir de casar com Nicolas, mas nem morta, nem morta ela iria deixar de se casar com o vice-presidente financeiro da Ecomoda. E Patricia guardava para si toda a sua raiva, esperando o momento certo de dar o troco na mamãe de Nicolas.
- Já terminou de arrumar a mesa, senhorita Fernandéz? Perguntou Dona Eugênia sentada no sofá enquanto Patricia colocava a bandeja com os bolinhos no seu devido lugar.
- Sim Dona Eugênia! Ela respondeu respirando muito fundo e contando até cem para não perder a sanidade.
- Ótimo. Apresse-se pois meu tesouro está chegando e não acho que vai agradá-lo ver a sua “musa-inspiradora” parecendo um trapo. Riu a mamãe de Nicolas.
Dona Eugênia acreditava piamente que tão certo Patricia descobrisse que não conseguiria enfrentá-la ou pelo menos suportar as situações que ela lhe imporia, desistiria de roubar o seu tesouro mais amado e precioso. Por isso imaginava todas as formas de tornar aquela moça com cabelo tingido na mais infeliz das mulheres, assim ela iria embora da vida de Nicolas. Mas Paty é determinada, presunçosa sim, mas determinada. Não iria abandonar assim o seu futuro promissor só porque a sogra queria transformá-la na cinderela. E dizia consigo baixinho:
- Pois se eu serei uma cinderela, vamos ver que fim terá essa madrasta má! E riu imensamente por dentro pensando no dia em que abandonaria Dona Eugênia e o próprio Nicolas, assim que ele comprasse o seu apartamento no nome dela, é claro, e pagasse uma boa mesada.

Mais um jantar a dois na suíte de Marcela Valencia, entretanto hoje ela estava mais disposta senão a falar pelo menos a ouvir. Michel pedira uma salada para ela e frutos do mar para ele.
- Dessa vez combinamos que não haveria tristeza e devo concluir que você não é muito boa de palavra, não? Ele riu.
- Desculpe Michel. Marcela sussurou.
- Desculpe Michel, sinto muito Michel, lamento Michel! Eu devo ser mesmo uma péssima companhia. Ele se entristeceu.
- Não por favor, não é isso. É que hoje amanheci com saudades dos meus irmãos. Marcela responde.
- Se é só isso porque não liga para eles? Michel pergunta.
- Será?
- Por que não? Eles não a atenderiam? Michel questiona.
Marcela tinha mesmo saudade de Daniel e de Maria Beatriz, mas principalmente de Daniel porém tinha medo de ter notícias sobre a Ecomoda e sobre Armando.
Michel percebendo sua falta de ação, pegou ele mesmo o telefone e deu a ela.
- Vamos não saio daqui enquanto você não matar a saudade! Ele riu.
- Está bem. Ela sorriu sem jeito.
Discou o numero da casa do seu irmão e em poucos segundos reconheceu a voz do outro lado da linha.
- Alô quem fala? Perguntou Daniel.
- Alô Daniel, sou eu Marcela, sua irmã. Não reconhece mais a minha voz? Ela riu.
- Maninha achei que você tivesse sido tragada pela terra. Ele fala num tom sério. Quando pretendia dar notícias de que está bem?
- Desculpe tem sido meio conturbado para mim estes dias. Mas eu iria ligar logo, você me conhece Daniel.
- Estava fugindo não é? Daniel pergunta friamente.
- Fugindo? Ela não entende.
- Sim Fugindo. Pois imagino que você já saiba que o Armando trocou você pela ex- assistente. É Claro como ele sempre quer ficar com tudo, não poderia recusar uma presidente tão inteligente. Daniel falou friamente.
Ela ia falar o nome de Armando, mas não pronunciou pois Michel estava bem na sua frente e ela não queria colocá-lo a par de toda a sua história.
- Não houve nenhuma troca Daniel. Ela responde seriamente.
- Pois não é o que parece maninha. Veja só, você ficou contra mim para que ele assumisse a presidência da Ecomoda, claro que era uma troca, o seu voto por um noivado. E agora que você não tem mais nada a oferecer, ele troca você pela economista que agora tem a empresa nas mãos. Armando sempre soube fazer bons negócios quando lhe convém. Daniel fala friamente.
- Eu não fui um negócio Daniel! Marcela chorava de ódio e tristeza.
- Não? Vejamos ele era seu noivo quando precisava do seu voto, agora que não há mais voto porque não há empresa, ele anda suspirando pelos quatro cantos da Ecomoda dizendo que Beatriz Pinzón Solano é a mulher da sua vida. Daniel fala cinicamente.
- Por favor pare Daniel! Marcela implorava ao passo que Michel não compreendia o que estava se passando entre ela e o irmão.
- Parar? Sim você deveria ter parado com o seu ego em querer Armando a todo custo, passou por cima da sua familia, por cima de mim que a tenho como a pessoa mais importante da minha vida. Enquanto que para ele você foi somente um negócio, um arranjo que lhe convinha enquanto tinha o que oferecer.
- Você está me magoando Daniel. Marcela chorava desesperadamente.
- Você me magoou primeiro Marcela! E agora está recebendo o troco pelo amor desmedido pelo Armando que te fez preferí-lo aos seus de sangue. E não demore muito a voltar pois poderá perder o casamento deles, e quando chegar já encontrá-lo casado e com filhos. Daniel desligou o telefone sem dar tempo Marcela responder.
Marcela caiu no chão em prantos e Michel foi abraçá-la.
- Não. Ela gritou como se estivesse com uma dor insuportável. Por favor me deixe só! Eu te imploro Michel saia daqui, me deixe só!
- Mas estou muito preocupado com você, não posso deixá-la assim! Michel falou desesperado.
- Eu vou pegar água para você! Ele falou.
- Não, eu não quero nada! Ela gritou.
A sua dor era tamanha que Marcela só conseguia desejar a morte. “Trocada”, “você foi um negócio” as palavras de Daniel poluiam a sua mente e lhe produziam uma dor lancinante dentro de si e em todas as partes do seu corpo. Michel com muito cuidado a segurou no colo e a deitou na cama. Ela nem ao menos protestou, tão morta estava para si que nada mais lhe importava.
Michel percebendo que ela tinha algo muito grave resolveu tomar medidas drásticas e ligou para a sua amiga Catalina Angel, para saber o que se passava com Marcela Valencia.
Catalina como sempre o atendeu com muito carinho, mas ela ficou muito preocupada quando Michel lhe falou do estado deplorável em que Marcela se encontrava. Lhe falou sobre o pouco que havia ouvido da conversa entre Daniel e Marcela e sobre como a chamada fora letal para ela.
- Michel, meu querido não sei como vou lhe contar sobre tudo o que aconteceu na Ecomoda. Mas lhe direi apenas que Marcela Valencia era a noiva de Armando Mendonza e que agora Armando está com Betty.
- Era por ele que Betty estava enamorada? Michel perguntou.
- Sim Michel.
- E agora ele está com Betty? E Marcela está aqui abandonada? Ele não fez esta ultima pergunta mais, Catalina percebeu que era exatamente isso o que ele queria dizer.
- Michel não está sendo fácil para Marcela, ela é muito apaixonada pelo Armando e já me confessou que se não casasse com ele, não casaria com ninguém mais. Catalina não queria revelar tanto sobre Marcela, mas circunstâncias desesperadoras pediam ações drásticas e ela sabia que se Michel soubesse de tudo poderia ajudá-la melhor.
- Entendo agora o porque de tanta tristeza nela, o porque de dizer-me que todos a abandonavam. Michel fala tristemente ao compreender a dor de Marcela.
- Te peço Michel que cuide bem da Marcela, ela parece ser muito forte mas na verdade é bastante frágil, principalmente quando se trata de Armando.
- Eu cuidarei dela com todo o meu coração Catalina! Te prometo.
Michel voltou ao quarto e encontrou Marcela ainda imovél na cama, encolhida como se fosse um bebê. E sem saber ao certo o que dizer a ela, contou-lhe uma história real.
- Sabe Marcela quando eu era mais novo viajei ao Brasil, especificamente para o Rio Grande do Sul e lá conheci a história de uma mulher encantadora que diziam ter olhos de floresta. O seu nome era Manuela de Paula Ferreira, quando o Rio Grande estava em guerra contra o império, seu tio Bento Gonçalves chamou para ajudar em suas tropas um italiano chamado Giuseppe Garibaldi. Giuseppe era um revolucionário, um desbravador e um guerreiro sem igual. Ao vê-lo Manuela se apaixonou profundamente por ele e dedicou a sua juventude a nutrir a paixão que sentia por ele. Ele se apaixonou por ela também, mas o destino era mais forte do que o desejo de ambos de estarem juntos e um dia em uma batalha ele conheceu Anita. E descobriu nesta Anita o grande amor de sua vida, ela era uma guerreira como ele e não tinha medo de segui-lo aonde quer que fosse. Com o tempo Manuela soube que o seu amado já não mais lhe pertencia e ao invés de encontrar um novo amor, ela preferiu esperar que o seu amado recuperasse a razão e voltasse para os seus braços.
Marcela se interessou pela história e prestava muita atenção em tudo o que Michel lhe contava, ela se via em Manuela pois também perdera um grande amor, o amor de sua vida.
- E o que aconteceu? Marcela perguntou em terna voz.
- Alguns anos mais tarde, Anita faleceu. Manuela com certeza achou que agora Garibaldi retornaria para ela, pois a mulher que lhe havia roubado o homem dos seus sonhos já não mais existia.
- Ele voltou para ela? Marcela perguntou esperançosa.
- Não Marcela. Ele nunca voltou para ela. Porque apesar de gostar profundamente de Manuela, o amor da sua vida seria para sempre Anita.
Marcela derramou uma lágrima e perguntou:
- E o que aconteceu com Manuela?
- Manuela esperou Garibaldi por toda a sua vida! Envelheceu esperando que ele retornasse para ela. Manuela não casou, não teve filhos e não viveu sua vida, viveu apenas de sonhos e lembranças do passado. E morreu sozinha! Michel terminou com uma voz triste e amarga.
- Por que você me contou esta história? Marcela perguntou.
- Por que de alguma forma Marcela, você me lembra Manuela.
Michel beijou o rosto de Marcela ternamente e a deixou sozinha para refletir em seus próprios pensamentos.

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