Finais Felizes
3 Capítulo 3
Passamos a noite de sábado e amanhã de domingo só conversando, parecia que os assuntos não acabavam. Nós falamos de TV e cinema, depois passamos a falar de filmes de terror, aí ele começou a falar da visão que as pessoas tinham dos vampiros antes e de como é agora e riu muito quando eu contei que na época da escola tinha um grupo de garotas que só ficavam lendo romances de vampiros e diziam que elas também eram. Nicolas contou que no século XIX a reação era completamente oposta, as pessoas morriam de medo e foi um período de histeria coletiva beirando à paranoia, pessoas eram mortas e corpos eram perfurados com estacas quase todos os dias por os outros acharem que se tratava de vampiros. Ele concluiu dizendo que foi um período muito difícil para se alimentar. Estremeci, isso acontecia toda a vez que ele falava em sangue:
– Você está bem Luiza?
– To sim... É só que a ideia de você beber sangue... É um pouco perturbadora.
– Entendo – Ele deu um suspiro – Mas sabe que eu não faria isso com você não é?
Assenti com a cabeça, o que deixou ele mais tranquilo, e depois passei a observar meu reflexo no retrovisor:
– Mas e quanto aos outros vampiros? – Gaguejei – Eles não vão se importar de beber o meu sangue.
Nicolas engoliu em seco, murmurou que eu tinha razão e entrou em uma estrada secundária. A caminhonete começou a balançar com os buracos da estrada que logo acabou, estávamos no meio do nada, onde só havia mato:
– O que viemos fazer aqui? – Perguntei sem obter resposta.
Ele parou e desceu do carro, eu fui atrás dele sem saber o que estava acontecendo e me assustei quando Nicolas se virou para mim, agarrou a minha cintura e começou a correr me carregando pra Deus sabe onde. Caí no chão de repente e ele sumiu de vista em meio o mato:
– O que isso significa?
– Você tem razão – Sua voz era firme, mas eu não sabia de onde estava vindo – Os outros vão para cima de você. Precisamos dar um jeito nisso.
– Como assim?
– Quero que vá para o carro.
– Maravilha, mas eu não sei onde está o carro.
– Exatamente. Quero que dê um jeito de chegar lá e ao mesmo tempo eu vou tentar te pegar. Não deixe!
Fiquei apavorada apesar de saber que ele não faria nada para me machucar, mas de qualquer forma eu tinha que fugir de um vampiro que tinha todas as vantagens possíveis sobre mim:
– Você é muito mais rápido e muito mais forte que eu – Gaguejei – Além disso, sabe onde estou, eu não sei ode você está.
– Use o que estiver ao seu alcance. O importante é não me deixar chegar perto demais.
Estremeci, o que ele queria dizer com “perto demais”? Escolhi um caminho onde o mato era mais baixo e comecei a correr, mas não demorou até Nicolas agarrar o meu braço e me puxar de encontro ao seu corpo:
– Lado errado. – Ele falou beijando o meu pulso e voltando a se esconder.
Só então me dei conta do quanto era uma tarefa difícil. Escolhi um novo caminho, onde tinha um rastro de terra, e corri por ele. Dessa vez avancei bastante até sentir aquele braço forte e gelado agarrar a minha cintura e Nicolas beijar o meu pescoço:
– O próximo beijo vai ser na boca, então é melhor escolher o caminho certo.
Ele riu e tornou a se esconder. Eu estava muito nervosa, minhas pernas tremiam e minhas mãos estavam geladas. Como assim ele ia me beijar? Tentei respirar fundo algumas vezes na esperança de acalmar meu coração e aguçar os meus sentidos. Escutei o caminhar no mato, Nicolas estava se movendo para a direita, tentei me concentrar nele e em seus movimentos, foi quando entendi que o único caminho que eu não escolheria seria onde o mato é mais alto, pois não dava pra ver nada, mas era justamente o caminho certo. Avancei por esse lado sem interrupções, entendi que ele queria me dar vantagem para me pegar de surpresa quando estivéssemos chegando na caminhonete, e foi exatamente isso que aconteceu quando avistei a silhueta branca do meu carro.
Nicolas agarrou o meu tornozelo, o que me fez cair no chão, me arrastei depressa e estendi o braço para agarrar um pedaço de galho que estava caído ali perto, o vampiro me girou e a estaca na minha mão foi parar a milímetros de seu peito. A respiração dele ficou curta e acelerada e seus olhos se prenderam aos meus enquanto ele esperava para ver o que eu faria:
– Desculpa. – Falei com uma voz fina enquanto afastava a madeira do corpo dele.
– Não se desculpe – Nicolas se pôs de pé e me ajudou a levantar – Você usou o que tinha a seu alcance e eu estou orgulhoso, apesar de ter ficado sem o beijo e ainda ter corrido o risco de tomar uma estaca no peito.
Eu larguei o galho e ele colocou o braço sobre os meus ombros enquanto andávamos em direção ao carro. Voltamos para a estrada principal e avançamos em silêncio por vários quilômetros enquanto eu pensava:
– Então a estaca de madeira pode mesmo matar um vampiro?
– Não – Ele me olhou de rabo de olho – Mas quando uma estaca atravessa o coração, nós ficamos paralisados. Na verdade, madeira é uma das poucas coisas capazes de nos torturar de dentro pra fora... Quero dizer, se entrar um pedaço de madeira no corpo de um vampiro, ali fica doendo e incomodando e a ferida não se fecha com tanta facilidade.
– Então como se mata um vampiro?
– Acha mesmo que eu vou te ensinar como me matar?
– Você sabe mil e um jeitos de me matar, eu só to querendo igualar o jogo.
Ele riu bastante antes de focar a atenção na estrada e se tornar pensativo, por fim respondeu a minha pergunta:
– Existe mais de um jeito de matar um vampiro. Você pode cortar a cabeça fora, desmembrar ou tacar fogo. Não tem muito o que falar, é só isso.
Só isso? E ele acha pouco? Sinceramente não me imagino tacando fogo em alguém ou cortando a cabeça, eu só faria isso em um vídeo game:
– Está tudo bem Lu? Você ficou quieta de repente.
– Estou bem, é só... Lu? – Estranhei o apelido.
Ele riu um pouco antes de falar:
– É, resolvi que vou te chamar de Lu agora.
– E quem te deu permissão?
– Eu me dei permissão. – Ele respondeu com ousadia.
– Então eu vou te chamar de Nick.
– Por mim tudo bem. – Ele deu de ombros.
Não tínhamos mais o que falar então ele ligou o rádio e ficamos quietos. Quando começou a anoitecer, chegamos em uma cidadezinha que estava tendo uma festa na praça central, apesar de não ter começado ainda, já tinha gente dançando e o Nick quis muito participar:
– Vamos Lu... Olha, a gente procura um lugar pra se hospedar por essa noite e curtimos a festa, vamos embora quando você decidir, mas vamos nos divertir? Só essa noite?
Seu olhar implorava e eu acabei cedendo. Combinamos com os donos de uma pensão que passaríamos a noite e íamos embora logo depois do café, na verdade foi só olhar para o Nick e a dona do lugar tentou nos convencer a ficar pros três dias da festa pagando só metade do preço. Fomos para a suíte e meu companheiro de viajem ficou olhando pela janela as pessoas terminarem de arrumar as coisas para a festa, enquanto eu me tranquei no banheiro e tomei o banho que meu corpo pedia há dois dias. Quando saí do chuveiro, Nick começou a me apressar de uma forma insistente e irritante e disse que ia quebrar a fechadura se eu não abrisse a porta. Só tive tempo de me enrolar na toalha:
– O que foi? – Perguntei irritada olhando para ele.
Seu corpo se paralisou e ele ergueu as sobrancelhas enquanto me olhava de cima a baixo várias vezes. Eu ainda estava molhada e contava apenas com uma toalhinha branca para me cobrir, quando me dei conta disso corei dos pés à raiz dos cabelos. Nick sacudiu a cabeça para voltar a si e falou com dificuldade:
– Eu sei que as suas roupas estão sujas... A dona da pensão deixou aquelas encima da cama para você...
Ele se virou de costas, não conseguia pensar e olhar para mim ao mesmo tempo. Honestamente eu achei isso o máximo. Caminhei até a cama e peguei as roupas que ele tinha falado:
– Ela fez isso por vontade própria? – Perguntei pensando na capacidade hipnótica dele.
– Mais ou menos. – Ele respondeu ainda de costas e eu ri voltando ao banheiro para me vestir.
Dali a pouco voltei ao quarto usando o vestido azul, rodado e drapeado na parte de cima. Dessa vez Nick manteve a tranquilidade, ele passou os olhos por cada parte do meu corpo enquanto eu tentava me concentrar em calçar as sandálias de tiras que faziam parte do look, mas não deixei de corar. Por fim me pus de pé em frente a ele e girei para mostrar o conjunto:
– E ai, ficou bom?
– Você está deslumbrante. – Ele sorriu abrindo a porta para mim.
Deslumbrante, gostei de ouvir isso. Caminhei ao seu lado sorrindo feito uma boba enquanto víamos como funcionava a festa. Ele esperou que eu comesse alguma coisa nas barraquinhas e enquanto isso ficou falando de como tinham sido as festas que ele já foi, as vezes pulava informações tentando não falar dos seus pares, quero dizer, das garotas que ele pegava no fim da noite:
– Você já se apaixonou? – Perguntei quando terminei de comer.
Ele ficou pensativo por um tempo antes de responder com sinceridade:
– Não. Nunca quis na verdade. Meus relacionamentos sempre acabam em uma noite e eu nem faço questão que durem mais que isso.
Suspirei e olhei para o chão, apesar de eu ter gostado de ele dizer a verdade, uma garota nunca esta preparada para ouvir isso. Nick segurou a minha mão e deu um jeito de puxar o meu olhar para o seu quando confessou:
– Não passo tanto tempo com alguém dês de que me transformei... Sempre tive medo do que podia acontecer. Mesmo antes da morte do meu pai, e de Joshua... Bem, você sabe. Eu não consigo ficar parado em um lugar só, o que é horrível para alguém que não consegue ficar sozinho.
Começou a tocar uma música mais lenta e ele me girou pela pista de dança:
– Para Nick, eu não sei dançar.
– Isso é só um pormenor. Deixa comigo.
“Pormenor”, adoro quando ele fala desse jeito. Nick colocou meus braços ao redor do seu pescoço e envolveu a minha cintura enquanto éramos embalados serenamente pela melodia que tomou conta da noite. Eu pude ouvir o reclamar de algumas mulheres invejosas que falavam coisas do tipo “O que essa garota tem de mais?” e “Não sei o que ele viu nela”, mas nada disso me abalou, afinal era comigo que ele estava dançando. Uma garota que estava olhando pra gente acabou esbarrando em uma das invejosas e sem querer derrubou um copo inteiro de refrigerante no vestido da mulher. Nick riu observando a cena com o canto do olho e colou a sua testa com a minha, nossos olhos se encontraram e de repente me pareceu que o mundo tinha desaparecido e só nós sobramos. Ele aproximou os lábios dos meus e brincou:
– Você não vai me perfurar com uma estaca vai?
Quase prendendo a respiração, formei meu último pensamento coerente:
– Eu to desarmada.
Ele sorriu e então me beijou. Não sei descrever aquele beijo, foi suave e ávido ao mesmo tempo, ele tentava ser delicado comigo e ao mesmo tempo tinha uma intensidade indescritível. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo, mas o Nick sabia e me conduziu de forma a beijarmos com a mesma intensidade. Uma de suas mãos subiu pelas minhas costas me puxando em direção ao seu corpo e os meus braços em seu pescoço também o apertaram trazendo para mim. Na minha mente era como se eu tivesse saído do meu corpo e observasse tudo de cima.
Por fim ele se afastou com relutância e ficou estudando o meu rosto como se nunca tivesse passado por nada do tipo antes. Sua testa estava franzida e ele trazia um sorriso tímido nos lábios, não sabia se me soltava ou não, e francamente eu não estava sentindo as minhas pernas e não sabia se ia conseguir ficar em pé sozinha. Lentamente as suas mãos deixaram o meu corpo e eu também recolhi os meus braços. Meu coração estava acelerado e eu não sabia o que fazer agora:
– Acho melhor eu voltar pra pensão. – Apesar do nervosismo, não gaguejei.
– Tudo bem – Ele me ofereceu um sorriso – Eu vou ficar mais um pouco.
Caminhei trêmula pela multidão e entrei na pensão sem sentir as minhas pernas, subi as escadas e quando entrei na suíte meus joelhos fraquejaram e eu acabei caindo sentada no chão.
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