Finais Felizes
8 Capítulo 8
Joshua dedicou o resto do dia à concertar o buraco na parede causado pela fúria dos titãs ontem, já Nick saiu sem me dizer pra onde ia, apenas resmungou alguma coisa para o irmão em uma língua que eu não conhecia, mas juro que ouvi ele dizer algo sobre a Julie. Eu tenho sérias dúvidas quanto a essa feiticeira, tá legal que ela foi a única gentil comigo na mansão de Serenity, mas por que tem tantos segredos com o Nick? To com uma pulga atrás da orelha dês de que ele me deixou sozinha na caminhonete pra falar alguma coisa com ela, se isso não tivesse acontecido o Joshua nem ia conseguir me pegar.
Meu vampiro só voltou depois do jantar e foi convidado pela Sra. Moura para jogar buraco, mas recusou e passou direto pela sala segurando a minha mão e fazendo um gesto para o irmão segui-lo, entramos no escritório e ele fechou a porta:
- Pega! – Disse jogando alguma coisa para Joshua.
- O que eu faço com isso?
- Engole e morre engasgado...
- Nick! – Me assustei com o tom dele.
- Ah Luiza, é um anel, o que ele faz com aquilo?
Joshua bufou e olhou para o outro lado pra não começar uma discussão:
- Tá tudo bem Nick? – Perguntei preocupada e ele me puxou para o seu peito num abraço forte.
- Está. Agora está.
- E para quê eu vou querer esse anel? – Perguntou Joshua apoiando os quadris na escrivaninha.
- A Julie enfeitiçou. Sem isso você só atrapalha a gente, com ele pode andar sob a luz do sol.
- Interessante... – Comentou o mais valho pensativo enquanto analisava a joia.
Eu estava olhando pra ele quando Nick virou o meu rosto e me deu um selinho:
- O que aconteceu? – Sussurrei.
- Nada. Não se preocupe.
Escutamos a dona Shirley anunciar na sala que iria começar a partida de Vispara e Nick saiu do escritório dizendo que queria participar. Joshua voltou a sentar na poltrona perto da janela onde estava lendo o livro de poesias, e ficou foleando o livro com uma mão e girando o anel na outra. Enquanto isso eu fui para a cozinha beber um copo de água e encontrei minha mãe guardando a louça do escorredor:
- Você está bem próxima desses dois, não é Luiza?
- Ah, eu não diria que sou próxima dos dois.
Só do Nick, mas eu não vou falar isso.
- Toma cuidado minha filha. Não é bom uma moça ficar trancada no escritório com dois homens.
- Que isso mãe, só estávamos conversando. Os dois têm muitos problemas e eu só estava tentando ajudar o Joshua e o Nick a...
- Joshua?
Droga! Esqueci do nome falso.
- Daniel mãe. Tá vendo, você me deixou confusa.
- E quando o Nicolas passou a te chamar de Lu? Pensou que eu não tinha reparado?
- Não mãe. Eu não pensei nada. Fica calma que está tudo bem.
- A briga de ontem foi por sua causa, não foi?
- Não eu... Eles não têm porquê brigar por mim... Por que está me fazendo essas perguntas?
- Só estou tentando te proteger. Sou a sua mãe.
- Eu sei mãe. E agradeço a preocupação, mas eu já não sou nenhuma criança, e sei me cuidar.
Ela me lançou um olhar que dizia “É assim que você se cuida?”, mas não falou mais nada e eu saí da cozinha. Caminhei lentamente até a escada e subi os dois primeiros degraus, depois virei e olhei se os vampiros continuavam em paz, como a resposta foi positiva, subi os outros degraus e entrei no meu quarto. A intenção agora era tomar um banho no meu banheiro, então já estava levantando a blusa quando ouvi:
- Sua mãe está mesmo preocupada.
Tomei o maior susto e me virei para a cama:
- Credo Josh, quase que você vê o que não devia.
Ele me olhou confuso e eu pensei que não tinha entendido que eu ia tirar a roupa:
- Josh?
- Ah, desculpa. Nem percebi.
- Tudo bem. – Ele sorriu – Gostei de Josh. É menos formal.
- Então posso te chamar assim?
- Se eu puder te chamar de Lu...
- Não pode! – Rosnou uma voz perto da janela.
- Como vocês entram no meu quarto desse jeito?! – Me assustei.
- Eu estava falando com a dama. – Disse Joshua ignorando completamente o meu espanto ao ver a facilidade que os dois tinham de invadir os cômodos da casa.
Nick encarou o irmão com seriedade e o clima ficou desconfortavelmente pesado:
- Tá legal – Suspirei – Saiam os dois do meu quarto que eu quero tomar um banho e ir dormir.
O caçula virou o rosto e olhou para o chão enquanto Joshua se levantava da cama e caminhava na direção da porta:
- Boa noite Lu. – Pensei que o Nick fosse voar no pescoço do irmão por essa provocação, mas ficou quieto.
Fiquei parada em frente a porta esperando que o outro também saísse, mas Nick despreocupadamente deitou na minha cama e ficou lá:
- Ei – Reclamei – Você também tem que sair.
- Não, acho que não.
- Não estou perguntando se você quer.
- E eu estou dizendo que não vou.
Bufei e fechei a porta para tentar evitar que a conversa fosse ouvida do andar de baixo:
- Por que está fazendo isso?
- Luiza, eu nem percebi quando ele deixou a sala. Não vou sair de perto de você enquanto o Joshua estiver te rondando.
- Ele não tá me rondando.
- Está. Caso você não tenha percebido ele está.
Suspirei e virei o rosto pra não rir, quando foi que eu me tornei tão desejável? Nick permanecia deitado do mesmo jeito e eu olhei para o banheiro antes de comentar:
- Eu queria tomar um banho.
- Toma.
- E nesse meio tempo você vai ficar aí? Até depois quando eu voltar?
- Sim. Qual o problema?
- O problema é que a minha mãe acabou de chamar a minha atenção por ficar trancada com vocês no escritório, imagina se ela souber que você fica trancado no meu quarto?
Ele riu e veio rápido na minha direção me prensando contra a parede, começou a beijar o meu pescoço enquanto sussurrava:
- Aí a gente vai ter que pensar numa explicação pra dar pra minha sogrinha.
Precisei de muita força de vontade pra afastar o corpo dele do meu:
- Tá bem. Se quiser ficar no quarto, fica. Eu não vou mais discutir esse assunto.
Peguei o meu pijama e me tranquei no banheiro. Fiquei filosofando enquanto a água quente do chuveiro batia nas minhas costas. Será que esse ciúme todo do Nick tem fundamento? E o Josh, será que só quer provocar o irmão? Não quero me tornar o jogo desses dois. Será que é assim sempre que um deles arranja namorada? E ainda tem a minha mãe, vou precisar de uma boa desculpa se não conseguir tirar o Nick do meu quarto essa noite.
Saí do chuveiro e vesti meu pijama, a noite estava um pouco fria, então era calça comprida e blusa meia manga, mas nem parecia roupa de dormir, poderia sair na rua que ninguém ia notar. Voltei pro quarto e sorri ao encontra-lo vazio, a final o Nick tinha mudado de ideia, que bom. Sentei na cama e pus o notebook no colo, estou sumida das redes sociais há tanto tempo que meus amigos estão quase colocando o meu nome na lista dos desaparecidos. Tinha um trilhão de perguntas sobre o “acidente” que eu sofri, e me limitei a dizer que estava tudo bem e não tinha sido nada grave. No final já estava dano ctrl+C ctrl+V nas respostas todas:
- Quer sorvete? – Nick entrou no quarto trazendo um pote com duas bolas de sorvete de flocos.
- Quero. Flocos é o meu favorito.
Peguei o sorvete e ele sentou do meu lado pra tentar espiar o computador;
- Ei, vampiro curioso, sai pra lá.
- O que você tá fazendo?
- Acalmando a galera quanto ao acidente de carro que o Josh inventou.
- Vai mesmo chama-lo assim?
- Vou. Por quê? Está com ciúmes?
- Não. – Ele respondeu fechando a cara e virando pro outro lado.
- Relaxa Nick, foi só brincadeira.
Ele forçou um meio sorriso e passou o braço pelos meus ombros. Baixei a tampa do notebook e o coloquei no criado mudo junto do pote de sorvete pela metade:
- Então... O que mais a Julie te disse?
- Han? Como assim?
- Você esteve com ela hoje mais cedo, não é? Então, o que ela te disse?
- Ah, nada. Só enfeitiçou o anel mesmo.
- E levou o dia inteiro? – Arqueei uma sobrancelha.
- Tá achando que magia é coisa fácil? Deixa de ser ciumenta Lu.
- Não é ciúme.
- Claro que não, é ego ferido.
- Ah, não brinca com essa frase que eu ainda não esqueci aquela manhã depois da festa.
- Está bem, desculpe.
Ele estava rindo, estava sorrindo e aproximou os lábios dos meus, mas alguma coisa o fez parar e se enrijecer. Seus olhos ficaram muito mais azuis, mais intensos do que quando brigou com Joshua, e este de repente invadiu o quarto com seus olhos tão verdes que quase brilhavam. Os dois ficaram imóveis por um momento e eu pensei que fossem começar a brigar de novo, me apavorei. Abri a boca para tentar perguntar o que estava acontecendo, mas num reflexo Nick agarrou a minha cintura e me colocou contra a parede, amortecendo o impacto das minhas costas com o braço e usando o seu corpo como escudo pra me proteger dos cacos de vidro que começaram a voar sem que eu entendesse o que se passava:
- Finalmente a caçada dá resultados. – Disse uma voz que eu não conhecia.
O corpo de Nick não deixava que eu visse nada do que estava acontecendo no quarto, mas eu pude entender que alguém que eles conheciam tinha atravessado a minha janela:
- Vá embora. – Rosnou Joshua perceptivelmente irritado, e o rosto do irmão mostrava que este também não era um poço de tranquilidade.
- Nicolas e Joshua Fells – Continuou o homem – É uma pena ver que o nosso clã está tão mal representado. O assassino e o irmão mais velho que tenta encobrir. Vocês são mesmo uma decepção, que bom que Murrihad não viveu para ver isso...
- Lave a boca pra falar do meu pai! – Nick tremia de raiva, e eu sabia que era a única coisa que o impedia de partir pra briga.
- Não estou falando nada que não seja verdade – Continuou o outro – Que pai se orgulharia de ter como filhos dois covardes que não são capazes nem de se esconder direito? Qual é rapazes, dois anos? Esperávamos perseguir Nicolas pelo menos por um século, e sob a liderança de Joshua, por que se soubéssemos que ele ajudava o irmão, muitos de nós teriam desistido da caçada. Acho que superestimamos os herdeiros do clã.
- Calado ou eu arrancarei pessoalmente a sua cabeça. – Nick olhava o outro vampiro por cima do ombro sem me soltar.
- Acho que não fará nada dada a sua atual condição Nicolas. Não pode sair dessa parede ou eu mato a sua amiguinha.
- Não conseguiria mata-la antes que eu arrancasse o seu coração. – Joshua parecia confiante a pesar de tudo.
- Acho que se esqueceu da base da nossa sociedade Joshua, nunca estamos sozinhos.
Essa frase mais pareceu um sinal pra alguma coisa, e logo eu entendi pra que. Gritos foram disparados pela casa toda acompanhados de um barulho que lembrava ataque de animal. Nick deve ter ouvido algo a mais, pois se entortou de um jeito que permitiu que eu visse Josh ser atacado por alguma coisa, ele jogou esse novo vampiro pela janela e partiu pra cima do que estava primeiro no quarto. Nick me pegou nos braços e tentou me tirar do quarto. As paredes do corredor estavam banhadas em sangue e eu vi através da porta aberta de um dos quartos, os restos da dona Shirley espalhados por sobre a cama. Nick me pôs no chão pra poder se defender da criatura que pulou em seu pescoço, ele jogou o outro contra a parede e enfiou a mão dentro de seu peito arrancando uma coisa vermelha meio roxa, minha reação seria gritar, mas Nick me segurou de novo e descemos as escadas. Haviam mais vampiros no andar de baixo, e outra vez Nick teve que me soltar para se defender, dessa vez alguém me agarrou por trás e eu quase morri de susto até perceber que era Joshua também tentando me tirar da li. Acho que na casa haviam sete vampiros no total, e a essa altura menos dois. Josh atravessou a porta da frente e me colocou no chão quando o mesmo vampiro que ele tinha jogado pela janela o atacou, dessa vez a vida não foi poupada e de novo ver o coração me fez ter vontade de gritar.
Joshua me mandou correr para longe e voltou para dentro para tentar ajudar o irmão. Não sou suicida, então minha vontade era fazer exatamente o que ele disse e correr o mais rápido que eu pudesse para o mais longe que eu conseguisse, mas um grito me fez mudar completamente de ideia, era o grito do meu pai, seu último grito e eu só consegui correr na direção dele. Ouvi Nick me chamar de louca quando eu cruzei a porta, mas ele estava muito ocupado pra me parar e Josh também não estava a vista, então eu entrei no escritório e vi o corpo do meu pai caído no chão. Me debrucei encima dele e tentei reanima-lo, mas era inútil:
- Abaixa! – Gritou uma voz que eu não reconheci na hora, mas obedeci imediatamente.
Ouvi um estrondo como uma arma atirando e minha mãe me puxou pra perto dela:
- Mãe – Falei com os olhos cheios de lágrimas – Balas não adiantam.
Ela deu de ombros, não sei onde conseguiu aquela arma, e se aproximou do vampiro que tinha sido atingido. Ele ainda estava no chão e com uma faca enorme, minha mãe cortou a cabeça dele:
- Use sem hesitar – Ela jogou uma pistola bastante estranha pra mim – Acho que só sobraram mais três...
- Dois. – Disse Joshua largando um corpo.
- Vocês tão juntos nessa?! – Me apavorei.
Ninguém prestou atenção no que eu disse e quando saíram do escritório percebi que a munição era de madeira. Corri para a sala e vi a mão de um dos vampiros atravessar o estomago da minha mãe, atirei e ele cambaleou pra trás, Nick o segurou e Josh arrancou o coração. Depois Joshua correu pra segurar a minha mãe antes que ela caísse no chão e Nick se virou para mim, mas nessa hora senti alguém me puxar para trás de forma violenta e me usar de escudo:
- Nem mais um passo Fells – O Vampiro que nos atacou no quarto estava segurando os meus braços com força, e aquilo estava machucando – Ou eu quebro a sua namorada.
Senti que a circulação de sangue do meu corpo não estava mais chegando nas mãos, e parecia que os meu ossos iam rachar:
- Larga ela Gasper, ou vai ser pior pra você. – Ameaçou Nick, mas sua voz saiu mais assustada do que irritada.
- Vocês vão me matar de qualquer jeito... O mínimo que eu posso fazer é deixar um presentinho.
Senti os dentes rasgarem a pele do meu pescoço e o sangue quente escorrer, a dor dessa mordida era infinitamente maior do que a de Josh. Gasper não pretendia poupar a minha vida, ele ia me retalhar. Joshua ainda servia de apoio pra minha mãe e Nick estava paralisado, como se quisesse correr em minha defesa, mas soubesse que seria pior se fizesse isso. Senti a ferida esquentar, e muito, parecia que estava pegando fogo dentro de mim e eu comecei a chorar. O vampiro me soltou como se tivesse tomado um choque e se afastou depressa, mas não estava fugindo, Nick correu pra me segurar antes que eu caísse no chão e com a visão turva fui capaz de ver Gasper cambalear pela sala com fumaça saindo de sua boca. Ele gritava de desespero, implorando ajuda e por fim caiu no chão sem poder mais se mover.
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