Finais Felizes
5 Capítulo 5
Ele me olhou assustado. Como é que eu sabia quem era aquela senhora? Dei um passo para trás e Nick segurou as minhas mãos, seus olhos imploravam para que eu ficasse, mas não era o certo. Não sei de onde tirei forças para sair da biblioteca.
As portas se fecharam atrás de mim e eu me vi sozinha no corredor. Tentei me distrair com as pinturas dos quadros, mas era impossível manter aquele vampiro longe da minha mente e acabei deixando que os meus pensamentos vagassem até ele. Nick era indiscutivelmente mais ameaçador na teoria do que na prática, mas não digo isso por ele não querer ficar sozinho com a mãe, qualquer um no lugar dele faria o mesmo. Acontece que desde sempre conhecemos os vampiros como, literalmente, monstros e apesar de não termos mais medo, ainda dá arrepios pensar em uma criatura noturna que passa despercebida e se alimenta de você. Mesmo a garota mais fanática por romances de vampiros tem que admitir que ficaria apavorada se entrasse no quarto e desse de cara com o Edward Cullen mostrando os dentes. Nick se mostrou diferente de tudo oque eu podia esperar, só nos conhecíamos oficialmente há quatro dias e eu já me sentia completamente a vontade com ele, nós conversávamos, brincávamos e... Outras coisas. Eu não me sentia de nenhuma forma ameaçada com a presença de um vampiro que ficava do meu lado vinte e quatro horas por dia e ele também não me olhava como a fera esfomeada que a cultura nos conta. Posso dizer que Nick é um amante e não um guerreiro.
Amante... Comecei a caminhar pelo corredor enquanto pensava na relação dessa palavra com os acontecimentos de mais cedo. Provavelmente boa parte do que ele me disse sobre seus sentimentos não era verdade, mas tenho que confiar na pessoa que viaja comigo, nem que seja pra me sentir melhor. E a minha reação foi sim exagerada afinal nós não temos nada sério foi só um beijo... Ou melhor, dois. Nick era de fato um conquistador e o jeito como as mulheres ficavam abobadas perto dele era a grande prova, mas eu não sou diferente das outras, ele me dobrava a sua vontade de uma maneira até frustrante.
Cheguei à cozinha, mas não me pergunte como. Encontrei Samantha e Ester jantando e elas me convidaram a fazer o mesmo. Não sei o que tinha no prato, mas tinha um sabor delicioso e eu dei grandes garfadas antes de fazer uma pausa e puxar conversa:
- O que podem me dizer sobre a mãe do Nick... Digo, do Nicolas?
- Serenity é uma feiticeira muito poderosa – Respondeu Ester sem levantar seu olhar do prato – A mais poderosa que já conhecemos. Ninguém tem tanta experiência quanto ela e nem tantos poderes.
- Mas Serenity é misteriosa – Completou Samantha – Talvez tenha tantos segredos quanto a própria natureza.
- Não entendi. – franzi a testa confusa.
As duas se entreolharam e suspiraram ponderando se deviam me contar:
- Só recentemente ficamos sabendo dos três irmãos vampiros – Confessou Samantha de cabeça baixa – Serenity jamais havia sequer comentado sobre os filhos até dois anos atrás quando começou a ter uns sonhos estranhos.
- Ela nos contou sua história e pediu que ficássemos de olho nos rapazes. – Ester quase sussurrava – Nós descobrimos que o pai deles, Murrihad, foi morto...
- É, isso Nick me contou. – Interrompi – o pai deles foi morto por um rival.
Ester ficou me olhando por um tempo antes de continuar:
- Só sabemos que ele foi encontrado morto e depois disso os rapazes não ficaram muito bem. Joshua passou a investigar obcessivamente a morte do pai, Guilherme ficou em choque, mas tentou agir normalmente, e Nicolas foi embora.
- Espera – Larguei o garfo – Então eles não estavam brigando pela liderança do clã?
Samantha me olhou como se não soubesse do que eu estava falando:
- Um não aceitava que o outro assumisse a liderança, mas nunca entraram em conflito.
Aquilo era estranho. Então por que o Nick me disse que estava brigando com os irmãos? Dei grandes goles do suco e me mantive calada. Caroline entrou na cozinha e também se sentou à mesa de madeira, ela pegou um copo de suco e continuou a explicação de onde as outras tinham parado:
- Em uma noite, estava tudo muito quieto no castelo onde moravam os vampiros, e quando já estava quase amanhecendo Guilherme também foi encontrado morto... Na noite seguinte Nicolas voltou e levou a culpa pela morte do irmão.
- Com o risco de perder outro de seus filhos – Ester me olhava fixamente – Serenity decidiu que era hora de interferir. Ela quis ajudar Nicolas de longe, lhe deu o anel que o permite andar no sol, apagava seus rastros mantendo os outros do clã distantes, mas...
Ela não conseguiu terminar e Caroline tomou a palavra:
- Mas quando ele te conheceu, por algum motivo Serenity decidiu que já era hora de falar pessoalmente com o filho. Acontece que Nicolas te trouxe junto.
O ar na cozinha de repente ficou pesado, eu senti um arrepio me percorrer a espinha e tive vontade de sair correndo. Escutei passos suaves no corredor e Julie entrou com uma expressão meiga:
- Não façam isso irmãs. Luiza fez uma pergunta simples por ser uma garota curiosa... E vocês a fizeram se sentir uma intrusa entre nós. Como se ela já não estivesse bastante assustada com tudo o que aconteceu recentemente.
Na verdade, antes eu não estava assustada, mas agora estava. As feiticeiras me davam mais medo que os vampiros. Julie se virou de volta para o corredor e falou comigo por cima do ombro:
- É melhor que você vá dormir. A conversa daqueles dois ainda vai demorar.
Ela me guiou até o quarto, afinal sozinha eu jamais o encontraria novamente. Julie parecia a mais boazinha entre as feiticeiras, e antes de me deixar sozinha no quarto disse que eu podia usar as roupas que estavam nas gavetas e pediu que não me importasse com o que as outras falaram “Elas estão frustradas por não entenderem o que esta acontecendo”. Pensei em dizer que estava tudo bem já que eu também não entendia, mas fiquei calada e ela se foi.
Resolvi enfim explorar o banheiro. Era grande e tinha uma janela colorida posta bem no alto, mas o que chamou mesmo a minha atenção foi a banheira de barro. Tomei um banho demorado e depois vesti uma camisola de seda branca que ia até os joelhos. Me deitei para dormir, mas não conseguia pegar no sono, eu me virava de um lado para o outro pensando se tinha feito a coisa certa em deixar o Nick sozinho, quero dizer, nem as próprias servas confiavam em Serenity. Mas ele também não tinha sido honesto comigo, porque me disse que estava brigando com os irmãos? E a maior pergunta da noite era, em quê a minha presença interferia nos planos dessa família maluca?
Tinha morcegos na minha cachola, até os carneirinhos que eu estava contando foram atacados por um vampiro. Meus sonhos estavam repletos de perigos e sempre me dava mal até que o barulho da porta me despertou. Eu não estava acordada de verdade, só o suficiente para ter noção do espaço a minha volta. Vi a figura embaçada de Nick entrar e trancar a porta, ele deitou ao meu lado e me deu um selinho antes de me puxar para seu peito e ficar quieto. Finalmente adormeci em paz.
Quando abri meus olhos novamente estava sozinha na cama, as cortinas do quarto estavam fechadas e apenas um único fio de claridade me indicava que já era dia. Estendi o braço para abrir as cortinas, mas uma voz grave me fez mudar de ideia:
- Por favor, não faz isso.
Me virei para olhar para Nick, ele estava sentado em uma cadeira de frente para mim, mas seus olhos estavam fixos no chão. Bastou uma olhada rápida no travesseiro ao meu lado e entendi o porquê da escuridão:
- Por que tirou o seu anel? – Perguntei esfregando os olhos.
- Não quero mais nada que venha dela. – Ele permanecia sério.
- A conversa com a sua mãe foi tão ruim assim?
- Serenity deixou de ser minha mãe há muito tempo. E nada do que ela disse ontem vai mudar a minha opinião. Além disso...
- Além disso...? – Pressionei quando vi que a frase estava prestes a morrer.
- Ela me pediu pra fazer uma coisa que não estou disposto a fazer.
- Que coisa?
- Não é importante. Esqueça.
Como assim “esqueça”? Continuei olhando para Nick, mas ele realmente pretendia dar o assunto como encerrado. Por fim me levantei e passei a mão pelo cabelo para tentar desmanchar o ninho de pássaros que tinha se formado, depois me espremi entre as cortinas, tomando cuidado para passar o mínimo de sol possível, e fui para a sacada. De lá fiquei observando as flores do jardim, eram lindas a noite, mas de dia tinham um encanto indescritível. Me demorei ao contemplar a estranha rosa azul de pontas vermelhas, algo nela me chamava atenção, mas não acreditava que fosse só a aparência.
Entrei novamente no quarto, Nick estava deitado na cama e eu fui para o banheiro lavar o rosto, quando voltei ele ainda estava na mesma posição e não parecia que ia mudar:
- Oque você está sentindo? – Perguntei preocupada.
- Nesse momento, fome – Nick me lançou um olhar estranho que me fez arrepiar – Sai do quarto Luiza.
Sai para o corredor com as pernas tremendo, ele seria capaz de me atacar? Cambaleei pela casa nervosa e assustada, e acabei encontrando Serenity. Sua figura magra e frágil se aproximou com um sorriso simpático e ela me chamou para tomar café da manhã no jardim. Baixei os olhos até a minha camisola pensando que devia ter trocado de roupa, mas Julie se aproximou e me entregou um penhoar de seda branco. Sabe, aqueles robes super chiques que as ricaças das novelas usam sobre as camisolas. Fiquei me achando. Agradeci o gesto e me apressei em vestir, caminhei com a senhora até o jardim onde havia uma mesa posta cheia de pães e bolos. As outras feiticeiras não se juntaram a nós, então imaginei que Serenity queria levar um papo comigo:
- No corredor você parecia assustada – Ela começou a conversa – Houve algum problema com o Nicolas?
- Não, de jeito nenhum. O Nick não me machucaria.
- Está certa disso?
Mais ou menos, mas eu não ia dizer isso pra ela:
- Estou sim. Confio no Nick.
Evitei o contato visual enquanto bebia o suco:
- Então Luiza, me fale. Como conheceu o Nicolas?
- Ah, ele se hospedou na pensão dos meus pais.
- E não teve medo quando descobriu que ele era um vampiro?
- Um pouco. Quem não teria? Mas... Não tenho mais.
- E oque acha dele beber sangue?
- Para ser sincera não me agrada, mas... Por que está me perguntando isso?
- Meus filhos são monstros, eu os perdi há muito tempo... Não gosto de ver você tão perto de um deles, é perigoso...
- Não vejo o Nick como um monstro – Senti alguma coisa queimar dentro de mim – Para mim ele não é perigoso.
Serenity ficou em silêncio por um instante, ela estava usando um vestido marrom e seu cabelo estava preso em um coque. Seus olhos verdes e enrugados estudaram cautelosamente o meu rosto antes que ela falasse:
- Não é com você que eu me preocupo.
Alguma coisa na forma como ela disse a palavra você me deu um arrepio na espinha. Embora a sua aparência fosse inofensiva, algo dentro de mim dizia que eu precisava tomar mais cuidado com aquela mulher do que com o Nick e com as quatro feiticeiras juntos. Ela fitou por um momento o meu copo de suco pela metade e depois voltou a se virar para mim:
- Confia mesmo no Nicolas?
Olhei para o suco antes de responder:
- Com a minha vida. E eu não sei oque você colocou no suco, mas não vai me fazer mudar de opinião.
Me levantei de uma vez só e voltei para dentro da casa, atravessei os corredores guiada pelo instinto e, trêmula, abri a porta do quarto sem me importar com a ameaça que o Nick me fizera mais cedo:
- Quarto escuro não é caixão pra vampiro ficar trancado!
Ele riu da minha frase e se aproximou depressa, enxugou as lágrimas grossas que escorriam pelo meu rosto e me abraçou forte. Apertei o rosto contra seu peito e me permiti chorar, a noite de ontem e a manhã de hoje tinham deixado o meu estado emocional em nível crítico. Não sei como Nick conseguiu fechar a porta e me deitar na cama em uma fração de segundo. Me aninhei junto ao seu peito e ele sussurrou ao meu ouvido:
- Oque ela fez com você?
- Na verdade – Solucei – Ela não fez nada, ninguém fez nada, eu é que estou muito nervosa.
Ele acariciou o meu cabelo e depois se inclinou, dando vários beijos pelo meu rosto até chegar na boca:
- Não Nick! – Me afastei depressa – Tinha alguma coisa no suco que eu bebi, pode te fazer mal.
- Não vai me fazer mal.
- Como sabe?
- Serenity disse que se você estivesse hipnotizada, isso acabaria hoje. Seja lá oque ela te deu, era para quebrar hipnose.
Pensei por um momento:
- Então quando me ameaçou mais cedo... Você já sabia que ela ia fazer isso?
- Não. Peço desculpas por falar com você daquela maneira. Foi horrível. Mas acontece que esse lugar não está me fazendo bem.
Seus olhos vagaram sem rumo pelo teto bege e Nick ficou calado, sentindo raiva de si mesmo por não se controlar. Lhe dei um beijo na bochecha e ele prendeu seu olhar no meu:
- Vamos embora.
Concordei com aquela decisão e fui pro banheiro trocar de roupa, quando voltei Nick estava me esperando no corredor, insisti para que ele levasse o anel, não iriamos longe sem aquilo, e ele acabou concordando. Não vimos mais Serenity, e Julie nos mostrou a saída, fazendo um sinal para Nick pouco depois que atravessamos. Ele me pegou nos braços e correu até a caminhonete onde disse:
- Me espera aqui. Preciso falar uma última coisa com a Julie, mas é rápido.
Fiz que sim com a cabeça e ele correu de volta para a floresta. Me virei para entrar no carro e senti uma pressão muito grande no pescoço antes de cair desmaiada.
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