Finais Felizes
14 Capítulo 14
Recuei alguns passos assustada com a transformação, mas então algumas das criaturas de gelo rugiram e avançaram me lembrando de que Jeferson não era meu maior problema. As feras correram na minha direção com sorrisos sanguinários, mas a forma lupina de Jeferson pulou na frente delas servindo como escudo. Os dentes enormes roçaram em sua pele fazendo escorrer um pouco de sangue, mas ele não pareceu se abalar, rugiu de volta e atacou arremessando com os dentes uma das criaturas contra as arvores. Mais e mais o atacaram sempre batendo os dentes para nos lembrar de que devíamos temer, mas o enorme lobo negro a minha frente não estremecia por nada, ele continuou enfrentando as feras e, apesar da desvantagem, vencendo.
As criaturas de gelo não sangravam, mas sempre que seus corpos se chocavam contra as arvores, eles despedaçavam e isso dava espaço para Jeferson se concentrar nas outras. Mais da metade da alcateia tinha se desfeito quando o lobo negro saltou para perto de mim rosnando e balançando o pescoço, levei muito tempo para entender o que ele queria e percebi que quando as feras se despedaçam, não morrem, pouco depois se moldam novamente no lobo de gelo sanguinário. Finalmente obedeci Jeferson, peguei seu casaco no chão e montei em suas costas me agarrando com força em seu pelo escuro. É agora que eu morro, não tem jeito! Que tipo de demente se mete numa enrascada dessa?! O que será pior, congelar até morrer na floresta branca ou ser dilacerada por lobos de gelo?
Fui jogada para trás logo no primeiro movimento do lobo negro, mas felizmente consegui me segurar no pelo macio de sua nuca. A neve passava sob seus pés num imenso borrão branco e eu mal conseguia acompanhar o movimento de suas patas. O vento da floresta branca já é cortante normalmente, mas a velocidade em que estávamos parecia que eu me moldaria em uma estatua de gelo. Grunhidos a nossas costas chamaram a minha atenção e percebi que as feras ainda nos seguiam. Jeferson tentou desviar delas cortando por entre as arvores, mas algumas ainda estavam bem próximas e tentavam morder seus calcanhares. O lobo negro deu uma breve freada incentivando duas das criaturas a saltarem em sua direção, mas logo desviou em um passo ágil fazendo com que as feras se chocassem uma com a outra e assim se despedaçassem. As outras pareciam estar muito longe e não nos acompanharam no resto do caminho.
Chegamos finalmente em uma gruta extremamente alta no pé de uma montanha que se estendia até as nuvens. Estalagmites e estalactites cobriam o local, exceto por uma parede de gelo tão transparente que parecia vidro. Em suas laterais havia estreitas aberturas que levavam a um espaço oco completamente feito de gelo. Puxei a capa vermelha para acomoda-la melhor sobre os ombros, minha temperatura não havia alterado, mas a menção a tanto frio me deixou apreensiva.
– É isso – A voz de Jeferson me fez dar um salto, ele estava novamente em forma humana – Esta é a cachoeira de gelo.
– E como ela vai responder as minhas perguntas? – As palavras saíram sussurradas, como se eu não quisesse ser ouvida, mas ele ouviu.
– Vê o espaço atrás dela? – Assenti com a cabeça em resposta – Quero que entre ali por um instante.
Obedeci sem questionar, não tenho nada a perder tentando. Como eu havia pensado, a passagem era estreita, e tive um pouco de dificuldade na travessia. Se for precisar de mais experiências como essa, é melhor começar uma dieta. A luz que irradiava do topo da caverna parecia a luz do dia filtrada por algo azul, seu tom cobria tudo na caverna, principalmente o espaço onde me encontrava. Jeferson pediu seu casaco, que por algum motivo eu ainda segurava com força e então tirou de um bolso interno dois vidrinhos e uma pecinha de madeira, ele despejou o liquido dos vidros nos dois lados da parede de gelo e depois se afastou mandando que eu também recuasse o máximo que a câmara permitia. Obedeci-o e alcancei a outra extremidade, nesse instante Jeferson murmurou alguma coisa em latim e arremessou com força a peça de madeira contra a parede de gelo, ela era tão fina que não tive dúvidas de que iria quebrar, então fechei os olhos e me encolhi para não ser atingida por estilhaços.
Não escutei barulho de nada se quebrando, então abri os olhos e vi que o lugar estava tomado por uma espécie de aurora boreal. Não dava para ver mais nada na caverna de gelo, apenas as cores e eu. Chegou a hora, preciso pensar na minha pergunta. “Quero saber quando e onde posso encontrar a minha mãe”. Tudo ao meu redor estremeceu e eu me vi sobrevoando a cidade em que estava com Josh e Nick. Não era como se voasse de verdade, apenas estava em um plano diferente. As terras sob mim foram se movendo mostrando o caminho que deveria seguir até que eu o reconheci, estava indo para o hospital onde minha mãe está internada. “Anita Swan! Quero encontrar Anita Swan!” Corrigi minha pergunta. Eu definitivamente não a vejo como minha mãe. O ambiente estremecei e fez um barulho como se protestasse, mas desviou a rota para algum lugar entre as arvores, me levou para uma cidade antiga com traços históricos, uma joia para os turistas que visitam a região, já estive aqui uma vez com meu pai quando tinha sete anos, ele estava servindo de guia para um primo distante que veio visitar.
Não parei na cidade, o caminho continuou por uma longa trilha até um acampamento cigano não muito atraente. Um calendário lunar passou diante dos meus olhos indicando um mês, talvez quisesse dizer que seria daqui a um mês. Alguma força me puxou para dentro da maior das tendas e então eu podia me mexer, estava por conta própria.
Alguns homens entraram atrás de mim e estremeci, mas não perceberam a minha presença, eles não me viam. Claro, eu não estava ali. Caminharam pelo lugar distraidamente, conversavam e riam muito. Suas roupas eram coloridas e folgadas, adornadas com faixas e sinos. A aparência deles tinha traços que lembravam os indianos, como cabelos escuros e pele morena, mas falavam como antigos europeus. Nem todas as palavras me eram compreensíveis, pois parecia que havia alguma língua misturada a nossa em seu dialeto, mas de qualquer forma eles falavam sobre as comidas do estoque, então o assunto não me interessava.
Alguém atravessou uma cortina nos fundos da tenda e caminhou até os homens que eu observava. Tratava-se de uma mulher com saias compridas e coloridas, sua pele era mais clara que a dos homens, assim como seus cabelos que não eram negros, e sim castanho escuros. Meu coração disparou apavorado quando ela virou de frente para mim, parecia que estava olhando através de um espelho uma versão fantasiada minha. Aos poucos fui pensando em coisas que me acalmassem, por exemplo, comparando-a a mim sua pele é mais morena, seus cabelos são mais compridos e seus olhos são mais fechados enquanto o desenho da sobrancelha é arqueado lhe dando a aparência sedutora e ao mesmo tempo perigosa. Um dos homens a cumprimentou chamando-a de Anita, então não restam duvidas.
– Mesmer vai querer saber o que aconteceu na cidade – Disse um dos homens – Não levaremos a culpa por suas brincadeiras.
Anita lhes ofereceu um sorriso seguro e falou com a voz calma:
– Eu posso lidar com Mesmer. Cuidem para que o nosso convidado aproveite da hospitalidade Ravna.
Os homens sorriram maliciosamente e caminharam para os findos da tenda de onde Anita rinha vindo. Escutei gritos de protestos de alguém que parecia muito assustado e então sons como animais devorando sua presa. Seja lá quem era a vítima, parou de gritar. A mulher sentou em uma das almofadas do chão e ficou contornando o bordado de outra com as pontas dos dedos enquanto cantarolava uma música baixinho.
A imagem ao meu redor começou a embaçar e então a diluir, aos poucos comecei a ver a caverna de gelo e do outro lado Jeferson sentado no chão com as mãos na cabeça... Ele é um vampiro como os outros, mas odeia isso, odeia a si mesmo. Vampiros são uma espécie perigosa, não importa o clã. “O que será que aconteceu naquela noite para o vampiro recuar quando viu Jeferson?” Não era a minha intenção fazer essa pergunta, mas a cachoeira levou em consideração. O ambiente estremeceu e a aurora boreal retornou, o mesmo calendário lunar passou pelos meus olhos, mas não consegui acompanha-lo dessa vez, era o passado, muito no passado.
Não sobrevoei área nenhuma, apenas me vi perdida no meio de um vilarejo antigo. As roupas e carroças me fizeram pensar em algum período da idade média, mas não sabia como fazer para me localizar. Novamente não podiam me ver, mas eu reparei na pessoa que vestia a mesma capa vermelha que estou usando agora e a segui por entre as arvores. Andamos bastante pelo caminho de neve, mas meus pés não afundaram dessa vez. Ela parecia apressada a medida que a noite caía, e quando chegou na casa que conheci, começou a chamar pelo filho. A casa parecia maior na época, acho que tinha alguns cômodos a mais, talvez tenha sido derrubada e uma nova tenha sido erguida no lugar, mas honestamente não sei. O pequeno Jeferson veio saltitando por entre as arvores, sua alegria era infantil e a mãe ajoelhou para que ficassem da mesma altura, nesse momento o capuz vermelho caiu revelando os cabelos longos e pretos, e o rosto que eu conheço bem. Julie?! Cambaleei para trás, não consigo acreditar que a mais gentil das feiticeiras é a mulher que abandonou o filho por causa de um vampiro. Suas palavras foram quase inteiramente levadas pelo vento, mas entendi quando ela disse:
– Meu querido, preciso que vá para o seu quarto e não saia por absolutamente nada. Ouviu bem? Não saia por nada.
O garotinho concordou com a cabeça e fez o que a mãe mandou, entrou na casa e foi para o quarto. Julie também entrou, mas foi direto para a cozinha, ela revirou as gavetas e armários, sempre pegando um ramo de uma mesma planta que estava escondida lá e então jogando fora. Fez o mesmo na sala e nos outros cômodos da casa exceto pelo quarto de Jeferson que permaneceu com a porta fechada. Aproximei-me de um ramo para ver se reconhecia, nunca vi pessoalmente, mas acho que sei o que era, verbena. Julie por algum motivo estava tirando a proteção da casa, então ela já devia saber que o vampiro estava vindo... Mas isso é loucura. Quando já não sabia mais onde procurar a verbena, nós ouvimos uma voz:
– Tudo isso é pra mim? Esforçou-se bastante para espantar os vampiros!
Julie correu para a cozinha e abriu o maior dos sorrisos:
– Você veio!
De onde eu estava, não conseguia ver com quem ela falava, mas meu estômago se revirava mais e mais a medida que eu me aproximava. Essa voz não pode ser de quem eu estou pensando! Não pode! Com cuidado entrei na cozinha e logo desejei mais do que tudo não tê-lo feito. Quem estava encostado na parede com seu sorriso malicioso e seu charme atrevido era Nick. O meu Nick! Isso me fez precisar segurar na parede para não cair no chão. Suas roupas eram da época, e reparei mais nas manchas escuras das mangas de sua camisa branca desbotada. Poderia dizer que era qualquer coisa para me fazer sentir melhor, mas sabia que era sangue. Seus cabelos pretos estavam apenas um pouco mais compridos e jogados para trás. Não dá! Ele é lindo de qualquer jeito.
– Não podíamos ter nos encontrado na taberna como sempre? – Perguntou Nick.
– Não. – Respondeu a feiticeira – Quero te pedir algo muito sério, e não pode haver testemunhas.
– Eu já sei o que vai me pedir – Ele passou a mão no cabelo – E a resposta é não. Não vou te transformar.
Então era isso que ela queria! Nick se virou em direção à porta e Julie correu e o abraçou.
– Por favor, Nicolas. Eu não tenho nada. As pessoas naquela vila maldita já me odeiam e me rejeitam. Meu marido está morto. – Ela forçou seus lábios contra os dele para um beijo e sussurrou – Quero ficar com você.
Meu sangue estava fervendo. É o meu namorado que essa vaca está agarrando. Respirei fundo para tentar manter o controle, mas não foi fácil quando Nick começou a retribuir as carícias. Meu estômago deu um nó. Julie continuava sussurrando no ouvido dele enquanto o meu vampiro lhe beijava o pescoço... E então a mordeu. Pensei que ela fosse agonizar com a dor, como aconteceu comigo, mas a feiticeira não demonstrou sequer que tinha percebido a mordida. Nick afastou brevemente os rostos e então encostou sua testa na dela. Ai que nojo esses dois!
– Talvez não seja de todo o ruim ter você comigo. – Murmurou o vampiro com um sorriso malicioso e manchado de sangue.
– Obrigada! – Sussurrou Julie em resposta com um sorriso radiante.
Nick afastou-a de si empurrando bem de leve e depois paralisou. Seu rosto estava extremamente sério olhando para algum ponto do corredor. Eu já sabia o que era, mesmo assim olhei e vi o pequeno Jeferson. A expressão no rosto do vampiro foi ficando cada vez mais sombria até que não restou nada além de raiva. Ele forçou o corpo de Julie contra uma parede e se inclinou em direção o seu ouvido, precisei chegar mais perto para ouvir:
– Você não tem nada? – Sua voz era quase ódio.
– Não. – Insistiu a feiticeira.
– E o que é aquilo? – Ele olhou brevemente para Jeferson e Julie começou a chorar – Cuide do seu filho!
Nick a largou e saiu da casa. A mulher chorava descontroladamente e escorregou pela parede até o chão. Ela gritava em protesto. O menino correu para ver se a mãe estava bem e ela lhe deu uma bofetada no rosto que doeu até em mim.
– Eu mandei você ficar no quarto! – Foi tudo o que ouvi ela dizer antes que tudo embaçasse e então a imagem se dissipou.
Me vi mais uma vez na caverna de gelo, com Jeferson dessa vez em pé olhando através da parede transparente. Devo ter demorado.
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