Chega de fingir que estou dormindo, é tedioso e só vai manter a minha tristeza por mais tempo. Abri os olhos e fitei a parede branca, sabia que os rapazes haviam saído há uns minutos, mas como foram os dois, não devem estar muito distante. Minha primeira ação foi tomar um banho, eu precisava de energias pro dia que prometia ser longo. Eram 9h da manhã e os raios do sol brilhavam através da janela apesar do clima frio. Peguei-me sorrindo, Por que eu estava sorrindo? Não me sentia mais como no dia anterior, ou como me senti quando acordei no meio da noite. Não havia mais dor, raiva ou frustração, em contraponto também não havia qualquer ansiedade em conhecer a minha verdadeira família, eu estava oca, não sentia absolutamente nada. Era como se meu cérebro tivesse passado a noite em um balde de gelo e agora estava completamente dormente, sem questões existenciais, sem piadas fora de hora, sem delírios de paixão, sem nada.

- Lu, que bom que acordou. Eu estava mesmo pensando em você, não que isso seja alguma novidade, mas me diga, o que quer pro café da manhã? É só dizer e eu arranjo.

- Acho que posso simplificar pra você – Caminhei na direção dele e segurei em seu braço – Ontem tive a impressão de ver uma padaria no fim da rua, acho que vou querer chocolate quente e pão de queijo.

- Seu desejo é uma ordem minha mestra. – Ele levou a minha mão aos lábios e beijou os meus dedos.

Acabei sorrindo tomada pela sensação que tive durante a viagem que tivemos para encontrar as feiticeiras, no quarto de hotel quando eu estava me arrumando para o festival e ele disse que eu estava “deslumbrante”, pensar nisso ainda me deixa ruborizada:

- Adoro o seu sorriso! – Nick fitou cada ponto do meu rosto, se concentrando mais nos lábios.

Então, também com um sorriso no rosto, ele entrelaçou os nossos dedos e caminhamos em direção a padaria onde sentei pra tomar o meu café da manhã enquanto Nick me observava. Uma pergunta meio fora de contexto me veio a mente, mas falei mesmo assim:

- Nick, se nem você nem o Josh trabalham, de onde vem o dinheiro?

- Quem disse que eu não trabalho? – Ele perguntou rindo bem humorado e se debruçando na mesa.

- Ah é que... Bem, como você nunca falou disso...

- Minha família fez vários investimentos ao longo dos séculos, alguns muito bem sucedidos se me permite dizer, e isso associado à nossa... Experiência de vida nos permitiu lucrar bastante, de forma que hoje praticamente só precisamos manter a aparência perante a sociedade. Somos muito ricos Lu, mas tem razão, eu não trabalho. – Ele deu uma piscadela bem humorada e eu ri.

- Achei que os vampiros se escondessem das pessoas, digo, você falou que se ficam muito tempo em um lugar são desmascarados. Como manter a aparência perante a sociedade desse jeito?

Ele entortou a boca, olhou para o lado e apoiou a mão em sinal de L no queixo para mostrar que estava pensando, ficou uma expressão muito fofa:

- Hum, como eu vou te explicar sem que você me jogue chocolate quente na cabeça?

- Ai ai Sr. Nicolas Fells, olha lá o que vai me dizer. – Ameacei em tom brincalhão.

- Bem, como eu te disse há um tempo, os filhos de um vampiro com uma humana nascem humanos, e se não beberem sangue vão continuar humanos a vida inteira. Meu clã existe há muito tempo e por isso a nossa família não é só de vampiros. Muitos dos humanos de sangue Fells sabem da nossa situação, trabalham pela família e guardam o nosso segredo.

-... Pera um pouco... – Fiquei bem séria e pus as mãos na cintura quando falei – Você está me dizendo que existem dezenas ou talvez centenas de filhos seus por aí? É isso mesmo Nicolas?

- Não. Eu sabia que você ia entender assim. Calma...

- “Calma”? – Joguei os braços pro ar – Como “Calma”? Não tem calma não.

- Lu... Espera, não é assim...

Não quis escutar, que bom que já tinha terminado o café da manhã, se não teria perdido a fome. Levantei-me empurrando a cadeira de forma brusca e saí da padaria. Eu tinha deixado Nick para trás, mas em um instante ele já caminhava ao meu lado. Minhas pernas estavam praticamente trotando para ir mais depressa, mas ele acompanhava com facilidade:

- Posso explicar agora ou a senhorita pretende dar a volta no quarteirão?

- Fala de uma vez. – Respondi ríspida sem diminuir o passo.

- Eu nunca tive filhos Luiza, mas tive vários irmãos. Nem todos eles eram vampiros, pra dizer a verdade nenhum era, e muitos deles tiveram filhos e netos. Viveram suas vidas e morreram como tinha que ser. Guilherme, Joshua e eu fomos os únicos vampiros Fells de sangue no clã, os outros foram transformados. Por isso os membros humanos da família que eu falei são de certa forma meus sobrinhos, não filhos. – Ele deu um sorriso bobo e travesso esperando que eu retribuísse, mas não pude, pois juntei umas peças perigosas desse quebra cabeças.

Parei bruscamente na calçada o que obrigou Nick a voltar alguns passos:

- Na estrada, quando você me explicou pela primeira vez essa coisa toda de clã, você disse que só os descendentes da família original podem ter filhos.

Ele assentiu com a cabeça:

- Sim, e daí?

- “E daí”? – Joguei os braços pro ar outra vez – E daí que o meu pai biológico é vampiro Nick.

- Ah. – Ele só disse isso e retomou a caminhada.

Minha cabeça estava cheia novamente, tinha se recuperado da dormência de mais cedo e os estragos prometiam ser grandes, por isso demorei até perceber que o meu vampiro já estava a uns cinco metros de distancia e tive que correr para alcança-lo:

-“Ah”? É tudo o que você tem a dizer?

- O que você quer que eu diga?

- Não sei, e não importa. Não faz diferença o que eu quero, você sempre sabe o que eu preciso...

Caramba, como desejei não ter dito essas palavras. Foi a vez de Nick parar bruscamente e eu tive que voltar três passos:

- Você estava acordada?!

- Não exatamente...

- O quanto ouviu?

- Eh, o final eu acho – Baixei a cabeça e fiquei brincando com os dedos – Deu pra ouvir quando você disse que não queria me amar.

- Então acho que não estamos falando da mesma conversa – Levantei os olhos só por um segundo e pude vê-lo franzindo a testa e me colocando na mira dos hipnóticos olhos azuis – Porque eu nunca disse que não queria te amar.

- Disse que não queria se aproximar de verdade, pra mim isso é a mesma coisa...

- Mas não pra mim Luiza – Ele levantou o meu rosto e prendeu o meu olhar no dele – Pensar em você, estar perto de você, e até amar você... São as melhores coisas que já me aconteceram. Eu sinto que ganhei o dia no momento em que você acorda e olha pra mim com esses lindos olhos topázio. Sei que nada de ruim vai acontecer quando você ilumina tudo com seu sorriso. E quando te beijo... – Nick chegou bem perto e roçou o lábio no meu – Bem, posso dizer com certeza que não existe nada melhor nesse mundo.

Avançou os milímetros que faltavam e me beijou de verdade, foi um beijo apaixonado e feroz, como já não acontecia há um tempo e eu desejava loucamente. Meus braços tinham se enroscado em seu pescoço e ele apertava a minha cintura me puxando contra seu peito forte. Só ele! Só ele tem esse poder, essa capacidade de me fazer esquecer dos problemas, das preocupações e ignorar o resto do mundo. Só ele é capaz de me mostrar que nada mais importa, apenas isto, este momento, nossos lábios, nós dois.

O beijo ávido foi sucedido por selinhos carinhosos até finalmente abrirmos os olhos e afastarmos os rostos, mas permaneci nos braços de Nick, nos braços daquele que sempre sabe o que dizer. Que sabe o que preciso e quando preciso dele. Que pode ser bobo e infantil se movido pelo ciúme. Que apesar das ameaças, não guarda magoas e perdoou quase que imediatamente o irmão que há menos de um mês jurava de morte. Que faria qualquer coisa para me proteger. E que incontestavelmente me ama.

- Quando disse ao Joshua que não queria me aproximar de verdade, em momento algum quis dizer que não te amava ou que não queria amar. Apenas pensei que... Se eu conseguisse ficar longe, a sua vida seria mais fácil. Eu fui um desastre pra você, desde o primeiro dia. Se nunca tivesse posto os pés na pensão... Sua família estaria aqui agora...

- Cale a boca Nick! – Falei séria soltando os meus braços do pescoço dele – As coisas aconteceram do jeito que tinham que ser, e se não fosse assim eu jamais saberia a minha verdadeira natureza...

Aquela pergunta voltou a minha mente, a pergunta que iniciou essa discussão, a danada que iria me atormentar daqui pra frente:

- Nick, nós somos irmãos?

O vampiro afastou o rosto ainda mais do meu, seus olhos de abriram assustados e ele pareceu mais frio e mais pálido do que o normal, mesmo pra alguém como ele:

- Não. Mas é claro que não Luiza. Entre irmãos não rola o que tem entre a gente, não pense nisso.

- Mas apenas a família original pode ter filhos. – Senti meu estômago dando um nó.

- N-Não vamos pensar nisso agora. – Ele gaguejou – Não é uma questão importante.

- Mas é sim – Me soltei de seus braços – É uma questão importante.

- E-Eu...

- Não precisa ser assim. – A voz baixa de Josh ressoou atrás de mim liberando Nick da resposta que ele não tinha – Também andei pensando nesse assunto desde o relato da sua mãe, afinal é uma questão que atinge todos nós. Nicolas, Guilherme e eu estamos fora da lista de suspeitos, pois nenhum teve filhos. Não soube de nenhum caso que meu pai tenha tido depois de minha mãe, muito menos um tão recente quanto dezenove anos atrás pode ser. Mas eliminar essas possibilidades apenas torna tudo ainda mais preocupante.

- Você acha... – Nick estava recuperando a cor, mas ainda parecia assustado – Acha que Alastor ou Jenevive podem estar entre os ancestrais da Luiza?!

- isso seria muito ruim? – Perguntei confusa, me sentindo uma completa leiga nesse mundo o qual eles vivem.

- Sim minha cara, seria ruim. – Disse Josh chegando mais perto de mim e segurando a minha mão, Nick pareceu não notar, ou não se importar – Decerto não seria tão ruim quanto aceitar que jamais um de nós a teria por se tratar de nossa irmã caçula, mas descender de Alastor ou Jenevive indicaria um clã completamente diferente e talvez desconhecido. Os originais não mantinham contato e simplesmente sumiram no mundo, é raro as criações se encontrarem, mas quando acontece resulta em desastre e quase sempre exposição da nossa identidade. Foi assim durante boa parte dos séculos XVIII e XIX, disputa por comida, território e um verdadeiro cenário de caça as bruxas.

Cambaleei para trás com o susto:

- Está me dizendo que toda aquela perseguição e chacina aconteceram porque clãs de descendência diferentes se encontraram?

- Quando um tenta derrubar o outro... Os dois caem. – Murmurou Josh, provavelmente falando consigo mesmo.

Maravilha, não podia ser mais perfeito, ou eu sou inimiga natural dos do homem que amo, ou sou a irmãzinha dele. Será que dá pra piorar? (não pergunta Luiza, sempre dá)

- Eu... Quero ficar sozinha. – Falei para os dois e sai andando em direção ao hotel onde me tranquei no quarto e desabei no sofá em estado de choque.

Estava completamente desorientada de novo, e ainda nem era meio-dia. Fiquei olhando para o ventilador de teto tentando acompanhar o movimento das hélices, mas é claro que não conseguia. Por fim escutei um barulho ao meu lado e quando me virei para olhar tomei um susto que me fez cair no chão:

- Julie?! O que você está fazendo aqui? – Perguntei incrédula ao ver a bela feiticeira de feições asiáticas parada bem ao meu lado.

- Fazia tempo que você não ficava sozinha. Tenho muitas coisas para te dizer.

- E por que eu precisava estar sozinha? – Perguntei cruzando os braços e tentando parecer desinteressada, mas ainda estava sentada (caída) no chão o que era ridículo.

- Nicolas... Como ele disse? “Não quer você metida com feiticeiras” é, acho que é isso.

- O QUE? – Pulei no lugar, indignada – E quem o Nick pensa que é pra decidir se eu falo ou não com as feiticeiras?

- Eh, não desconte em mim, só estava seguindo ordens.

- Eu sei Julie, não estou brava de verdade. Acontece que descobri umas coisas recentemente e estou confusa... Um tanto frustrada.

- Entendo. Quer saber de uma vez quem é o seu pai, não é mesmo? Acabei escutando a conversa entre você e os rapazes.

- Bem, é exatamente isso, se eu souber quem é o meu pai posso acabar com essas questões torturantes.

- Bem – Disse ela se aproximando e estendendo a mão para me ajudar a levantar – Você sabe quem é a sua mãe, isso já é uma grande ajuda, pode perguntar a ela.

- Isso seria ótimo – Disse finalmente de pé, mas olhando para o chão – Mas acontece que não temos ideia de que lugar do mundo ela pode estar nesse momento, e essa cidade onde eu nasci, é a nossa única pista.

- Bem, sei de alguém que pode te ajudar com isso. – Julie ficou com uma expressão nostálgica no rosto e caminhou em direção a janela.

Agora eu reparava que ela era só um pouquinho mais baixa que eu, trajava um vestido longo azul claro que se moldava em seu corpo magro com perfeição. Os cabelos longos e pretos cobriam suas costas, mas num todo a feiticeira era uma visão tão delicada que mais parecia uma boneca de louça:

- Não o vejo há muito tempo – Ela finalmente continuou a falar – Mas sempre foi muito bom em achar pessoas. O nome dele é Jeferson e tenho certeza que irá te ajudar com uma causa como essa.

- Onde podemos acha-lo? – Perguntei indo em direção a ela.

- Nós não Luiza, apenas você.

- Mas... O Nick não vai gostar nem um pouco disso.

- Imagino que Nicolas ficará realmente insatisfeito, mas onde Jeferson mora é proibida a entrada de vampiros.

- Como assim?

- Há um feitiço de proteção que impede a passagem de criaturas, incluindo vampiros... E feiticeiras.

- Quer dizer que você também não pode entrar? – Perguntei fitando os olhos negros de Julie.

- Não – Ela balançou a cabeça – Se estiver disposta te deixo o mais perto possível, mas a partir de lá seguirá sozinha até encontra-lo.

- Esse homem pode mesmo nos ajudar? – Perguntei com relutância, mas ela foi firme ao responder que sim – Então me mande ao seu encontro.

Julie pediu que eu fechasse os olhos e assim fiz, fiquei de olhos fechados por um tempo, um bom tempo até que um vento muito frio passou cortante por mim. Não sabia se podia olhar então permaneci com os olhos fechados, mas senti algo gelado que molhava os meus tênis e a barra da calça. Tentei ignorar tudo isso, mas comecei a tremer de frio e acabei precisando olhar ao redor. Eu estava em um lugar coberto de neve, parecia uma clareira em um bosque ou uma floresta, mas não era nenhum lugar que eu já tinha visto. Minhas roupas eram de verão e eu estava com muito frio, decerto Julie podia ter me dito para pegar um casaco... ou cinco. Olhei ao redor e constatei o que já sabia, eu estava sozinha.

Notas finais
Dessa vez não demorei tanto né?! :D
Por favor comentem, pois me incentiva a continuar a fic e ajuda a crescer como escritora. A opinião dos leitores é muito importante.