Filtro Solar
5 4.
Notas iniciais
“Somewhere far down, there was an itch in his heart, but he made a point not to scratch it. He was afraid of what might come leaking out.”
Death[1]
4.
Durante as primeiras semanas, Gabriel se arrependeu diversas vezes de como ele havia conduzido a conversa que terminara de maneira tão desastrosa. Tentou entrar em contato com Ana de todas as formas possíveis, sem sucesso. Ela o havia excluído de todas as redes sociais, não respondia a nenhum e-mail e havia bloqueado seu número do programa de mensagens de seu celular.
Mais tarde ele veio a descobrir que a garota havia se obrigado a passar pelo menos um mês longe da internet para conseguir manter a posição firme que havia tomado. Quando ela voltou a utilizar o computador, trocou o e-mail e considerou seriamente mudar o número do celular, com medo do garoto fazer ligações internacionais apenas para obrigá-la a ignorá-lo.
Ela estava convencida de que tinha tomado a decisão certa e, quanto mais o tempo passava, mas ela confirmava a sua opinião, uma vez que se sentia progressivamente melhor, mais distante do menino.
Sentia falta dele, não se engane. Ela adorava ter alguém do Brasil com quem pudesse trocar confidências. Adorava espiar um pouco da vida que ela poderia ter, caso seus pais houvessem se mantido no país. Em alguns sentidos, Gabriel tinha a oferecer a ela algo que ninguém mais podia. Ela sentia que a amizade dele, o jeito dele tratá-la, era muito diferente daquele com o qual estava acostumada, e se afastar daquilo fora imensamente difícil.
Mas ela sabia que não podia manter-se em contato se aquilo significasse sofrimento para ele. Ela não acreditava no amor à distância, e por mais que gostasse do garoto e do tempo que haviam passado juntos, sabia que poderia se apaixonar novamente por outra pessoa, eventualmente. Não seria justo prendê-lo a um relacionamento que não tinha a menor esperança de um futuro.
Era melhor puxar o curativo logo de uma vez, deixar a ferida exposta, para que a ferida sarasse mais rápido. Gabriel, contudo, não reagiu como a maioria das pessoas reagiria. Depois de algum tempo ele aceitou que não conseguiria mais falar com ela, por mais que tentasse, mas em momento nenhum deixou de sofrer com o que havia acontecido. Ela ainda lhe aparecia em sonhos e devaneios, e ele ainda mantinha o bilhete que ela lhe deixara quando teve de se despedir.
“Sempre sua” ela escrevera, e ele tentava se enraivecer com a mentira. O que ele mais gostava no bilhete não era nada escrito. Era a pequena parte do papel, já imperceptível, onde ela havia deixado cair uma lágrima. Era impossível não chorar quando ele abria o papel. Por vezes ele imaginou a ironia de ver uma de suas lágrimas cair ali, junto da dela.
Ele contou apenas a um amigo o que acontecera e o garoto tentara lhe animar, chamando-lhe para sair e se divertir, mas Gabriel criara uma aversão à praia. Na verdade, ele nunca mais vira outro pôr-do-sol. A sua menor idade não permitia ir para boates, e logo a dura rotina de estudos fez com que os esforços dos amigos fossem inúteis.
Sua mãe ficou preocupada, e uma vez chegara até mesmo a sugerir que ele visitasse um psicólogo, mas o menino se negava a participar, insistindo que não tinha problemas, e que estava apenas muito atarefado na escola, com a preparação adiantada para o vestibular. Na verdade, ele tentava se focar nos estudos inutilmente, e passava a maior parte do tempo mergulhado em seus livros de literatura.
No começo leu tudo o que podia encontrar na sua frente, menos os livros de romance. Lia vorazmente, mais de um livro por semana, às vezes três ao mesmo tempo. Passava tardes inteiras em livrarias, enquanto dizia a família que estava na biblioteca do colégio, estudando. Gastava sua mesada por lá, e logo começou a pedir um pouco mais para os pais no fim do mês. Eles não se incomodaram. Pensaram que o menino estava saindo de casa e que estava gastando o dinheiro se divertindo, o que não era, de todo, mentira.
Mas sua força de vontade durou apenas alguns meses. Até que se permitiu ler um dos livros sobre amor e sobre relacionamentos, daqueles que surgem do nada e que todos não conseguem parar de mencionar. Chorou pela primeira vez em meses antes mesmo de chegar ao fim da história e deixou o livro de lado, coisa que nunca havia ficado antes.
Tentou novamente o e-mail antigo de Ana, o celular dela e as redes sociais. Tudo continuava a mesma coisa, e ele começou a se desesperar.
Quando as notas do colégio começaram a chegar, sua mãe começou a tomar atitudes mais drásticas. Cortou sua mesada e contratou um tutor particular, para acompanhá-lo nos estudos depois das aulas.
Gabriel odiava o homem no início, mas percebeu que a sua presença o forçava a mergulhar nos exercícios da escola, e logo se viu aproveitando o tempo com uma distração obrigatória. Se antes ele estava escapando para os mundos irreais da ficção, agora mergulhava fundo na biologia, física e matemática. Qualquer coisa para não lidar com a dor enorme que sentia no peito toda vez que se permitia viver no mundo real.
Passou de ano raspando, e comemorou o alívio apenas para perceber, no dia seguinte, que estar de férias era ainda mais desesperador. A solidão o obrigou a arrepender-se profundamente de não ter ficado em recuperação.
Ele já não tinha ninguém que pudesse considerar como amigo próximo. Até mesmo aquele para quem contara sobre Ana desistira dele depois do primeiro semestre de depressão. Em um primeiro momento, Gabriel o acusou de abandono. Apenas muito tempo depois aceitou que, talvez, ele mesmo tivesse a mesma reação, caso algum de seus amigos resolvesse se trancar em casa por meses sem fim. Há apenas um tanto que as pessoas conseguem aguentar, antes de te deixarem ir.
Sentiu o mesmo em relação aos pais, quando eles partiram mais uma vez para a casa de praia. Daquela vez, Gabriel fizera tanta questão de ficar que eles não o obrigaram a acompanhá-los. Ainda assim, ele sentia-se injustiçado em ter apenas duas opções: ser abandonado em casa ou voltar ao lugar onde conhecera quem o deixara naquela situação. Mas sabia que a única maneira de criar uma terceira opção era ser sincero com os pais. Ele nunca soube o que era aquilo.
Foi nesse estado de solidão e desespero que, no meio do verão, depois de uma semana sozinho em casa, o menino abriu seu e-mail e viu uma resposta de Ana. Seu coração pulou do fundo de seu estômago, um lugar do qual não saía há muito tempo. Ele nem sequer conseguiu sorrir, tamanha a sua ansiedade.
“Hey...
Como você anda?
Espero que não com muita raiva de mim...”
Ele estava. Estava com muita raiva. Ou pelo menos estivera, há cerca de alguns segundos, mesmo sem perceber.
“Eu sinto muito por ter desaparecido desse jeito. Mas eu fiz o que achava que era o certo. Dar um tempo para eu deixar tudo o que aconteceu um pouco de lado e seguir com a minha vida. Espero que você tenha conseguido fazer o mesmo...”
Gabriel sentiu seu coração despencar novamente para o lugar no fundo do estômago onde ele passara o último ano quase inteiro.
“Eu sinto a sua falta. Really... Gostava de ter alguém com quem eu me sentisse mais próxima, para conversar abertamente. Talvez seja coisa de brasileiro, não sei, mas com você, a conversa flui mais fácil. Eu me sinto mais confortável...”
E lá estava seu coração novamente, ameaçando pular garganta afora.
“Será que a gente podia conversar? Eu entendo se você achar que é cedo demais, mas se não for, eu adoraria te ver de novo. Não vou estar no Brasil esse ano. Meu pai ficou preso no trabalho, então passamos os feriados aqui... Estou de férias ainda, e imagino que você também... Será que você poderia tirar uns minutinhos da sua agenda para mim? Eu imagino que você tenha outras garotas para quem dar atenção, mas se puder estar online hoje às 19h (seu horário), eu ficaria muito feliz de poder te ver de novo.”
Ele olhou para o relógio e constatou que ainda era de manhã. Amaldiçoou tudo a sua volta, preparando-se para o que seria o dia mais longo de todo o ano. E olha que aquele ano havia se arrastado tanto quanto ele.
*-*-*-*-*-*-*-*-*
Antes do almoço Gabriel já tinha feito a barba e ido à rua cortar o cabelo. Ficou frustrado por ter feito tudo tão rápido. Comeu em um restaurante em menos de uma hora e voltou para casa. Disse a si mesmo que um filme iria fazer com que o tempo passasse mais rápido, mas não conseguiu ficar sentado no sofá por tempo suficiente para terminar de assisti-lo. Eram três da tarde quando ele lembrou que seu quarto estava bagunçado. Subiu imediatamente para arrumá-lo, já que ele serviria de pano de fundo para a conversa que aconteceria mais tarde.
Às quatro, ele encontrara uma garrafa de suco de maracujá na dispensa. Ele nunca tinha preparado suco antes, mas leu as instruções e descobriu que era mais fácil do que imaginara. Reclamara mentalmente, esperando que aquela atividade tomasse mais tempo do seu dia. O suco não fez nada para acalmá-lo.
Eram seis da tarde quando sentou em frente ao computador e ligou o programa de conferências de vídeo on-line. Ana ainda não estava online, aparentemente.
Bufou, impaciente, e voltou a surfar a internet. Reorganizou seus livros em uma ordem ligeiramente diferente na estante. Tomou banho e se perfumou, sem saber exatamente por quê. Estava se olhando no espelho, arrumando o cabelo, quando ouviu o som da chamada vindo do computador ligado.
Correu e se jogou na cadeira, que rolou um pouco para longe do monitor. Riu de si mesmo, estranhando o som da alegria genuína que escapava por entre os dentes. Respirou fundo e aceitou a chamada.
A imagem de Ana apareceu à sua frente e ela lhe sorriu de modo nervoso. A imagem não estava ideal, como sempre, mas Gabriel pensou que aquilo era a coisa mais linda que já vira. Perdeu o ar por alguns segundos.
— Hey! – ela disse, e ele fez força para guardar o som da sua voz no fundo da mente, para poder ouvi-la quando quisesse.
— Hey...
Um silêncio preencheu o quarto em seguida, sem que nenhum dos dois soubesse como continuar a conversa. Foram alguns segundos até que a menina voltasse a falar.
— Como você está?
— Bem... – ele respondeu, tentando inutilmente não soar nervoso. – É... E você?
— Muito bem, também...
Mais uma vez, o silêncio preencheu o quarto. Gabriel passara o dia imaginando milhões de maneiras como aquela conversa poderia acontecer, mas em nenhuma delas o silêncio era um grande participante. Isso nunca havia sido um problema entre os dois. Até mesmo quando ele passava longos períodos calado, ela sempre sabia como preencher o silêncio. Por um momento, ele chegou a considerar que talvez ela estivesse tão nervosa quanto ele.
— E aí? Como estão os preparativos para a faculdade? – ela finalmente perguntou.
— Estressantes – ele respondeu, sabendo que era o que ela esperava ouvir. Na verdade, aquilo tomara muito pouco da sua mente no ano que passara, por mais que a escola colocasse cada vez mais pressão. – E por aí?
— Por aqui também. O sistema é bem diferente, e todo mundo acha que aqui é mais justo, mas eu não sei... Eu acho que é, no mínimo, tão problemático quanto aí...
— Eu duvido – riu-se ele, ainda incapaz de esconder a sua alegria nervosa.
A conversa, finalmente, fluiu. Eles riram, contaram algumas histórias sobre o ano que se passou, falaram do verão e dos feriados, e, por meia hora, nada parecia ter acontecido desde a última vez em que haviam se visto. Os dois agiram como se ainda estivessem naquele telhado olhando para as estrelas, deitados um ao lado do outro, ou na pedra da praia, vendo o sol se por.
Nota do(s) autor(es):
Tem certas coisas que as pessoas sabem que é um erro, mas sentem uma necessidade incontrolável de tentar, mesmo que para se certificar.
Outras coisas são simplesmente estúpidas.
Por cerca de trinta minutos, e não mais do que isso, eles voltaram no tempo. Quando Ana suspirou, deixando para trás o peso que carregava por pensar ter machucado Gabriel para trás, as coisas começaram a sair dos trilhos.
— E aí? Como as garotas andam te tratando?
Ele, que já estava rindo, se esforçou para não mudar de expressão.
— Bem, como sempre me trataram...
Um breve silêncio voltou preencher o quarto, e ele sabia que ela estava esperando que ele devolvesse a pergunta. Gabriel simplesmente não conseguiu se forçar a fazê-la.
— Por aqui está tudo bem também... – ela disse, mesmo sem ser perguntada. Parecia despreocupada, tranquila. Realmente acreditava que Gabriel havia superado tudo o que haviam passado. Ela, com certeza, já deixara tudo para trás. – Tem um menino que me chamou para sair. Eu disse que não, mas não sei por que disse isso. Eu gosto dele.
Se Gabriel passara o ano inteiro com o coração no estômago, naquele momento ele sentiu uma lâmina penetrar fundo, rasgando tudo o que tinha por dentro com um frio toque de metal.
— Uhm... – ele fez, sem conseguir pensar no que responder.
— Sei lá... Você me conhece muito bem. Sabe que eu não sou de ficar fazendo esses joguinhos. Sabe que eu costumo ser direta.
— Bem direta... – Gabriel disse, tentando rir, novamente.
— Pois é... Eu simplesmente fiquei nervosa quando ele falou comigo e inventei uma desculpa. Me senti uma menininha de quinze anos. Odeio isso...
— É, eu também... – disse ele, desesperado para mudar de assunto. Ela voltou a falar antes que ele tivesse alguma chance de tentar.
— E você não sabe o melhor de tudo? – o sorriso na boca da menina, pela primeira vez, disse a Gabriel algo que ele não gostou de ouvir – O nome dele é Gabriel...
— Está brincando?! – Seu nome ainda ressoava nos ouvidos. Sua voz passou surpresa no início, e ela reagiu rindo.
— Não! Incrível, não é?! Eu devo ter alguma coisa por...
— Você só pode estar brincando! – repetiu ele, batendo com força na mesa. As linhas em seu rosto se contorciam da maneira como passaram o ano inteiro querendo se contorcer. Ele já não tinha mais controle do que sentia.
A menina se assustou na outra ponta do continente, sem saber como reagir no primeiro momento.
— Não dá pra mim... – ele disse, entre o ranger furioso dos dentes e as lágrimas entalando sua garganta. – Isso é demais para mim...
— Gabriel, eu... – Ela lentamente foi tomando consciência do que estava fazendo.
— Por que você fez isso, Ana? Por que você sumiu?! Por que você me abandonou?!
— Eu não te...
— Abandonou! E agora quer chegar aqui e me falar de um outro cara?! De um outro Gabriel?!
— Eu... Me desculpa, eu não sabia que...
— Então deveria saber! Foi você quem disse que eu não precisava dizer nada...
Ele apoiou as mãos na cabeça e deixou as lágrimas correrem, em frente ao computador. Um ano de lágrimas guardadas no peito, saindo de uma hora para outra, sem controle.
— Eu acho que essa conversa foi um erro... – disse Ana, com o maior aperto no coração que já sentira.
— Não! – ele exclamou, chamando a atenção da menina. – O seu maior erro foi ter sumido para início de conversa...
— Não, Gábi... Eu sumir foi a melhor coisa que eu podia ter feito. Será que você não vê que eu te faço mal?! Eu estou vendo isso agora. Eu não devia ter te procurado... Me desculpa...
— E quem é você para saber o que é melhor pra mim?! – A menina não sabia responder a pergunta. – Hein? Você sumiu e eu tive o pior ano da minha vida. O pior! Eu fui de mal a pior no colégio e me salvei no último segundo. Eu me afastei dos meus melhores amigos. Eu não saio mais de casa, e gasto todo o meu dinheiro em livros e filmes para que eu consiga me distrair e não pensar em você! Eu não falo com mais ninguém, não faço mais nada, a não ser fugir de você... Porque você fugiu de mim, e não me deu outra escolha...
A menina começou a chorar do outro lado do monitor, sem saber o que dizer.
— Você disse que o ano estava bem e...
— Eu menti! Menti, ok?! Me desculpa, mas eu estava animado demais para pôr um fim nisso. Para ter você de novo do meu lado. Para que a gente pudesse ficar junto de novo. Mas eu não consigo fazer isso ouvindo sobre um outro Gabriel! Não dá pra mim...
— Mas, Gábi... Quantas vezes eu vou ter que te falar que a gente não pode ficar junto? Que é fisicamente impossível?!
— Para com isso! Você sabe muito bem o que eu quero dizer! Hoje em dia eu não preciso mais estar do seu lado para estar junto de você.
— Mas é claro que precisa!
— Ana, não se faça de boba justo pra mim! Você sabe o que eu estou querendo dizer...
— Você que não se faça de bobo, Gabriel! – A menina começou a se irritar, deixando toda a culpa que sentia de lado. – Eu sei muito bem o que você quer dizer. A gente se fala, a gente se vê e não me surpreende se daqui a pouco a gente puder fazer algo próximo a se tocar via computador, mas isso não é ficar junto. Pode se comparar a ficar junto durante um mês, ou seis, mas vai ser sempre um sacrifício. Para as duas pessoas! Você sabe disso! A vida virtual pode substituir a real por um certo período de tempo, mas eventualmente, para a gente estar junto, precisamos literalmente ficar junto. Viver ao lado um do outro, falar, tocar e se entender. Se beijar... E não ficar dependendo da qualidade da imagem!
— Um dia a gente vai ficar junto – ele disse, não querendo reconhecer a verdade nas palavras da menina. – Um dia a gente pode. Eu não sei quando, nem como, mas a gente pode. Eu sei que você gosta de mim, Ana. Eu sei disso. Eu sei que a gente aguenta.
— Não, Gabriel. Eu não aguento. E você obviamente também não. É só você olhar para o seu estado nesse último ano. Me surpreende que sua mãe ainda não iniciou um tratamento de depressão.
Ana percebeu que talvez tivesse ido longe demais e se arrependeu das últimas palavras no mesmo momento em que saíam de sua boca, mas o menino reagiu de maneira inesperada. Talvez porque ele mesmo soubesse que ela não dizia algo completamente irreal.
— Ela tentou... – disse ele, depois de alguns momentos em silêncio. Ele se sentiu como um animal ferido, acuado em um canto.
— Então... – ela se pegou dizendo, aproveitando a oportunidade para conter a explosão de ressentimento do garoto. – Ela tem razão... você devia procurar alguém ou...
— Eu não vou procurar um psicólogo! Eu não tenho problemas!
— Você não precisa ter problemas para...
— Eu não vou procurar um psicólogo! – ele quase gritou.
Nota(s) do(s) autor(es):
É impressionante como a juventude, muitas vezes, vem carregada de orgulho e preconceito. Mais impressionante ainda são os tesouros que são perdidos assim.
Ana decidiu imediatamente mudar de estratégia, com medo que ele explodisse em lágrimas e desabafos novamente.
— Então procura alguém... Qualquer um pra conversar sobre isso. Sobre mim e sobre tudo. Fica com raiva de mim, faz o que você precisa fazer, mas bota isso para fora, Gabi. Ficar com isso só para você não está te fazendo bem... Você tem que entender isso.
— Eu entendo. Mas por que não pode ser pra você?!
— Porque isso só vai piorar as coisas, e você sabe disso. Eu nunca vou poder ser 100% honesta com você, para não te machucar, e você vai acabar se machucando de qualquer jeito...
— Eu não tenho mais ninguém, Ana. Eu me afastei de todo mundo. Eu não quero mais ninguém. Eu só quero você...
— Então faça isso sozinho. Quando eu tenho algo que eu não conto para ninguém, eu conto para mim mesma...
— Como assim?!
Ela respirou fundo, sem saber o que estava fazendo. Só podia torcer para dar certo.
— Eu escrevo, Gabriel. Esqueceu?
Ele não havia esquecido.
— Eu escrevo. E muito – ela continuou. – É incrivelmente terapêutico. Por que você não faz isso?
— Eu? Escrever? – Ele riu, mais nervoso e envergonhado do que já estivera.
— É! O que você quiser. O seu dia, os seus pensamentos. Faça versos me xingando. Ou então faça um diário. Ou conte uma história. Conte a nossa história... Sei lá... Escreva o que você quiser. Isso vai te conectar com você de novo. Vai te ajudar a se entender. E esse é o melhor passo que você pode dar agora...
— Eu não sei...
— Eu sei. – Ana sabia que tinha que ir. Na verdade, tinha que deixá-lo ir. Achara que um ano seria tempo suficiente para que ele se recuperasse, mas subestimou o efeito que aqueles dias juntos tiveram no menino. É impossível prever o tipo de reação que as pessoas têm às coisas. Para ela, fora difícil cortar o contato, mas no fim, aquilo tudo passou, como um bronzeado que some. Ela esquecera que as queimaduras que ele teve eram capazes de deixar cicatrizes, e que nunca é bom reabrir uma ferida antiga.
Ela estava com o coração partido de deixá-lo, mas sentia que fizera o que podia. O melhor a fazer agora, era deixar que o tempo tomasse seu curso. Ela se controlou para não chorar com a dor da perda de um amigo, e com a culpa que sentia por tê-lo machucado tanto, sem que soubesse o que fazia.
— Vai por mim. Faça o que eu estou falando, ok? – ela pediu e ele hesitou. – Me promete. Por favor.
— Ok. Eu prometo... – ele disse.
— Ótimo – ela não conseguia mais sorrir. – Agora eu tenho que ir.
— Não! Espera ainda não...
— Gabriel... É melhor assim... Por favor...
— Mais um pouco... – Ele nunca se sentiu tão humilhado em sua vida.
— Não dá... Não dá pra mim – ela disse, parafraseando o garoto. – Um dia, quem sabe, a gente se vê. Um beijo...
E, assim, a tela ficou preta. De novo.
*-*-*-*-*-*-*-*
Foram necessárias algumas semanas para que o menino finalmente cumprisse sua promessa para a garota e começasse a escrever. Começou com pequenos relatos confusos de suas experiências e sentimentos. Memórias. Algumas vezes tentava alguns versos desajeitados que nunca sairiam da gaveta. Quando os relia, via a grande carga emocional que colocava ali, sem que tivesse percebido quando o escrevia. Começava a se convencer que estava exagerando, apenas para, logo em seguida, mergulhar em outros relatos românticos e tristes.
Foi apenas algum tempo depois que ele decidiu escrever uma história de um daqueles amores de verão, impossíveis, que nunca poderiam se tornar realidade.
No final, ele descobriu que estava com muito medo de enfrentar tudo o que sentia. Quanto mais se forçava a rever e reviver através das palavras tudo o que vira e sentira, perto e longe daquela menina, mais ele se convencia de que talvez fosse melhor deixar tudo de lado.
Mas, ironias da vida, fora a vontade de cumprir a sua promessa para ela que o fez perseverar. E, uma vez vencido todo aquele medo, ele foi capaz de, aos poucos, tomar as rédeas de sua vida novamente. Foi árduo, as lágrimas pareciam não se esgotar e ele levou quase cinco meses para conseguir terminar de escrever, mas, relutantemente, no fim teve de admitir que fora uma decisão sensata. Tomou uma nota mental para que, assim que se sentisse seguro de si mesmo, agradecer a ela.
Ele não viu Ana desde então. Acreditava que talvez nunca mais voltasse a vê-la, mas decidiu ser cauteloso com a palavra nunca. Afinal, achava que nunca seria capaz de escrever uma história, ou de se apaixonar por alguém que não conhecia. A verdade, é que ele e Ana nunca se conheceram verdadeiramente. Tiveram poucos dias juntos, e alguns meses de conversas à distância. E ponto final. Conheciam apenas o que o outro deixara que eles conhecessem de si mesmos, e algumas poucas coisas que deixaram transparecer sem querer.
E, ainda assim, o amor que sentiram — verdadeiro ou fictício — deixou marcas. Talvez mais profundas nele do que nela, mas com certeza nos dois. Talvez eles devessem ter usado um pouco mais de filtro solar.
Um conselho do(s) autor(es):
Escrever é ótimo. É verdadeiramente terapêutico. A Ana estava cem por cento certa. Para variar.
Mas escrever dá trabalho. Se você for esperto, não vai seguir o meu exemplo.
Procure um psicólogo.
[1] “Em algum lugar, bem no fundo, havia um comichão em seu peito, mas ele fazia questão de não coçar. Tinha medo do que pudesse vazar dali.” ZUZAK, Markus. A Menina que Roubava Livros
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