Notas iniciais
Nesse capítulo Aaron e Piper começam a se aproximar... ou não. Leiam e descubram!

Assim que me aproximei Piper apontou seu arco para mim. Ergui minhas mãos em rendição.

– Desculpe te assustar.

– Não se preocupe – ela respondeu baixando o arco e voltando a fitar o horizonte, assumindo uma expressão preocupada no rosto.

– Você ainda pensa em fugir, né? — sentei-me ao lado dela.

– Como sabe disso?

– Eu também já fui novato, sei como é se sentir absolutamente incompreendido, enquanto todos à sua volta já passaram exatamente pela mesma situação.

– Há quanto tempo está aqui?- Ela perguntou depois de mais ou menos um minuto de silêncio.

Então mostrei meu cordão pendurado no pescoço com sete contas de argila, cada uma com um desenho diferente.

– Cada conta corresponde a um verão passado aqui, eu tinha onze anos quando minha mãe me trouxe aqui.

– Você não foi atacado?

– Não. Minha mãe me protegeu escondendo a minha identidade de mim, enquanto eu não soubesse quem eu era, os monstros não viriam me perseguir.

– Mas mesmo sem saber quem eu era, eu quase morri ontem!

– A partir dos treze anos o cheiro começa a ficar mais forte. Como você já tem quinze, foi muita sorte ter chegado aqui viva.

Um silêncio constrangedor se instalou entre nós, até que eu reuni coragem :

–Sabe, Piper, você é diferente.

– Como assim? – Finalmente ela olhou para mim. Por algum motivo eu estava ansioso para que isso acontecesse.

– Não só pelo fato de você ser a única filha de Apolo morena e que não é simpaticíssima com todos, mas também porque aquele arco lhe escolheu entre centenas de campistas, mesmo que você não o desejasse. Acho que você tem algo diferente, talvez você seja uma grande heroína.

– Grande heroína?! – ela riu – Não sei nem se acredito mesmo nisso tudo, quanto mais ser uma grande heroína.

– Bom, um dia você vai acreditar. Não melhora nem piora as coisas, mas fica mais fácil de entender. E todos nós somos heróis aqui, simplesmente por estarmos vivos.

– Eu não fui nada heróica ao assistir um sátiro e um ciclope me salvarem enquanto eu estava amarrada.

Antes que eu pudesse pensar numa resposta, o familiar som de uma concha sendo soprada ecoou pelo acampamento. Levantei e estendi a mão para ela, que ignorou solenemente e se levantou sozinha, sacudindo a areia do seu jeans.

–é hora do jantar – Eu avisei, embora fosse bastante óbvio, enquanto a guiava para o refeitório, um grande espaço sustentado por colunas brancas, com mesas dispostas, uma para cada chalé, e uma fogueira no centro. Vimos centenas de campistas entrarem e se organizarem eu suas mesas. Ao entrarmos juntos no pavilhão, vi a Margo encarando, sentada ao lado de Messi, na mesa do chalé de Nêmesis. Seus olhos cor de mel realmente me assustavam, ostentando uma expressão fria e furiosa, mas até ali eu já deveria ter me acostumado. Não sei o que eu tinha visto nessa garota, pensei.

– Qual é a dela, hein? – Piper perguntou, sinalizando com a cabeça na direção de Margo.

Sem saber por que, eu hesitei, não queria falar disso para a Piper, mas quis ser sincero com ela.

– Minha ex. Longa história.

– Ali é o chalé de Nêmesis? A deusa da vingança, certo?

– Sim e... sim.

– Você ta ferrado. — Ela falou em tom conclusivo e saiu sem mais nem menos, se juntando aos seus irmãos na mesa do chalé sete. Ela não me queria por perto, estava claro, mas é óbvio que eu não iria deixar de tentar ganhar a confiança dela. Ela me intrigava. Eu precisava me aproximar dela, não me pergunte por que. Olhei para Margo e depois para Piper. É, talvez eu estivesse mesmo ferrado.

Sentei ao lado de Hannah na mesa do meu chalé, e o jantar se sucedeu sem mais surpresas, a não ser no final, quando Quíron chamou Piper e Lindsey para o centro, para apresentá-las e logo uma aura colorida começou a pulsar ao redor de Lindsey, com todas as sete cores do arco-íris, então toda a mesa do chalé de Íris explodiu em palmas e vivas e ela foi se juntar a eles. Piper estava desajeitada com toda aquela atenção, e olhou para mim algumas vezes. Sr D disse ainda algumas palavras de incentivo decoradas, claramente desinteressado e olhando para sua taça com uma expressão sonhadora no rosto.

Depois que todos foram dispensados, corri até Piper, que estava seguindo para seu chalé apressadamente – aliás, ela foi a primeira a sair do refeitório – e quando cheguei perto dela ela parou e me olhou, esperando que eu dissesse alguma coisa, e então percebi que eu não tinha planejado nada para falar e fiquei ali, com cara de tacho, esperando que um buraco se abrisse sob meus pés e me engolisse. Ela soltou um risinho.

– Desculpe eu parecer um idiota, é que não sou muito bom com seres humanos e...

– Então porque você veio atrás desse ser humano aqui? – ela perguntou e logo assumiu uma expressão diferente –Olha, desculpe eu ser tão grossa com você, é que...

– Não tem problema.

– Quando eu comecei a ter frustrações eu... me escondi sob uma mascara de indiretas e alfinetadas...

– Esquece.

–... para tentar fazer com que os outros pagassem pelos meus sentimentos e...

Ela estava à beira das lágrimas. Agarrei de leve os ombros dela e disse:

– Piper, esquece, você não tem que me explicar nada. Eu sei o quanto você está estressada, durma um pouco. Amanhã você estará melhor, eu prometo. – Peguei o arco que ela apertava com a mão direita, tanto que suas juntas estavam brancas e senti uma vontade de abraçá-la mas... Não Aaron, pensei, você não pode se aproveitar de um momento de fraqueza para se aproximar dela. Acompanhei a garota em silêncio até a porta de seu chalé e quando ela olhou para mim, sua expressão me fez pensar que ela me daria um soco mas não. Ela me abraçou. A culpa não foi minha, ok?

– Obrigada, Aaron. – Ela pegou o arco de minhas mãos e quando seus dedos finos e frios tocaram de leve os meus, um calafrio se espalhou pelo meu corpo e meu estômago deu voltas. O que aconteceu com você, AJ? Pensei. Fiquei parado observando a porta fechada mesmo depois de Piper ter passado por ela, até que Alice bateu em meu peito e me empurrou, brincando.

– Fica esperto, hein garanhão?

Shawn vinha logo atrás e antes de entrar, fez sinal de “estou de olho” para mim e passou pela porta. Scarllet os seguiu dando um risinho.

***

Além de algumas noites de insônia por causa de uma certa pessoinha aí, a semana se passou sem mais problemas.

Piper foi incrivelmente incrível nos treinamentos de arco e flecha e na parede de escalada, e pareceu se adaptar bem com todo o acampamento, exceto com Augustus, filho de Héstia, que por algum motivo prometeu lançar-lhe um feitiço que a faria dançar eternamente; e por Layla Jones, conselheira chefe do chalé de Afrodite, que simplesmente não gostou dela e prometeu fazer da vida dela um inferno. Embora todos saibam que ela promete isso a todos os novos campistas e não faz nada.

Lindsey se desenvolveu nas aulas de artes marciais, fazendo todos repensarem seu conceito sobre uma garota frágil que não gosta de briga. Além de, é claro, na montaria de pégasos. Ela nos contou que um pegaso a visitou no orfanato lhe alertando que corria perigo, e lhe falou sobre o acampamento. Ela acreditou nele e fugiu, caindo nas garras das empousai – sim Quíron nos contou o que aquelas criaturas eram.

E, se eu conhecia bem o meu amigo Shawn, diria que ele estava apaixonado; até que, ele confirmou:

– Ei, cara! Acho que estamos no mesmo barco – Ele comentou na sexta-feira, enquanto nos dirigíamos á beira do lago onde iniciaríamos o famoso jogo amistoso entre os chalés: o capture a bandeira. E para isso, é claro, estávamos devidamente preparados com armaduras e elmos de guerra.

– Como assim?

– As garotas, cara. Elas não estão nem aí para a gente.

– Do que você está falando?

– Lindsey... e Piper.

– Você gosta das duas? – Me fiz de cínico, pois o rumo daquela conversa não me agradou muito.

– Eu... acho que gosto da Lindsey. Você gosta da Piper, ta na cara!

– Não está tão na cara assim, está? – com qualquer outra pessoa eu negaria na hora, mas eu não conseguia mentir para o Shawn – Será que ela percebeu?

– Provavelmente, mas o jeito dela diz que ela está com a cabeça em outro lugar. Em outra pessoa talvez. – O Shawn lia expressões corporais muito bem.Aquilo me deixou nervoso, raciocinei por um momento até que Shawn perguntou — E a Lindsey, você acha que ela me acha atraente?

Não pude deixar de rir. O Shawn, seguro de si, boa auto estima, guerreiro nato, que consola e aconselha seus amigos com a maior segurança, estava nervoso por causa de uma garota. E ainda por cima fala “atraente”. Na boa, quem é que fala isso hoje em dia?

– Brother, é você quem lê expressões, não eu. – Consegui dizer quando me recompus das gargalhadas – E se diz “gato”, “pegável”, “gostoso”, qualquer coisa menos “atraente”.

Ele reprimiu o riso fazendo um ruído estranho com a garganta, e logo sua expressão ficou séria quando chegamos à beira do Zéfiro, onde a maioria dos campistas estava reunida e outros ainda chegavam.

– O assunto morreu.

Assenti com a cabeça quando ouvi uma voz de garota atrás de mim.

– Que assunto? – Viramo-nos e vimos Piper de elmo e armadura, com seu arco na mão, e a Lindsey só não estava lá por que o chalé de Íris normalmente fica de fora desses tipos de jogos. Ela sorriu para nós, o que fez meu estômago improvisar uma dancinha frenética – Oi, rapazes!

– Oi – Respondi, disfarçando o máximo que pude – Preparada para seu primeiro capture a bandeira?

– Mais ou menos. Meu plano na verdade é me esconder no topo de uma árvore e atirar dali.

– Acho melhor não sair espalhando seu plano por aí, se fossemos de times diferentes você ia se dar mal.

– Mas nós não somos de times diferentes.

– Okay – Shawn se manifestou – Silêncio os dois.

Nos calamos, mas ainda assim perdemos as primeiras palavras do instrutor de esgrima, Sr Jackson – Sim, é esse mesmo que você está pensando; Percy Jackson, a lenda viva do acampamento meio sangue – que estava ao lado de Quíron e do Sr D, que pra variar, parecia desinteressado.

– ... caso tenham esquecido, a meta dos times é capturar a bandeira do adversário, que deve estar bem visível. A fronteira é o riacho. Todos os tipos de armas (que não sejam de fogo, é claro) são permitidas. Evitem mortes e mutilações ao máximo – nisso o chalé de Ares começou a murmurar, é assim toda sexta. – Eu sei que é difícil. ÁS SUAS POSIÇÕES!!

Nisso, metade dos campistas atravessou o riacho, e nós e a outra metade, corremos para um canto num círculo tumultuado, o nosso time, o azul, era composto pelos chalés de Apolo, Hefesto, Atena, Dionísio, Nike e Hebe, enquanto o restante, exceto os chalés de íris e Hypnos, foram para o outro lado. Isaac Bloom, conselheiro-chefe do chalé de Atena foi para o cento do círculo.

– O chalé de Apolo fica na retaguarda defendendo a bandeira, escondidos e acertando qualquer um que se aproximar. Nike, Hebe também ficam na defesa, só que à vista. Hefesto, e Dionísio atacam logo de cara, dando cobertura para que o chalé de Atena chegue à bandeira em formação C. Fiquem de olho especialmente nos filhos de Ares e Hermes. E não dêem ouvidos às filhas de Afrodite. SE ESPALHEM! VÃ! VÃO! VÃO!

Todos urraram de empolgação e correram para suas posições, eu fiquei bem na beira do riacho ao lado de Barbara, minha irmã mais nova e quando o som da concha sendo soprada ecoou pelo bosque, trocamos um sorriso cúmplice e atravessamos o riacho correndo.

Notas finais
Pra quem estão torcendo? Comentem aí ;)