Fille de Père

Quando Vladmir e Susanna vieram falar comigo sobre o caso de um suposto assassino de mulheres, não conseguia imaginar que poderiam acabar falecendo. Ambos estavam, é claro, bastante preocupados com o assunto e com a jovem senhorita Bergerac. E embora Susanna não tivesse mencionado, seu marido, um velho amigo da Scotland Yard – um dos únicos funcionários pensantes da policia – me pediu, pessoalmente, para que caso seus medos viessem a se concretizarem, que eu me responsabilizaria pela guarda da senhorita Bergerac. Em vista dos anos de amizade, prometi.

Anne Bergerac jamais demonstrara saber que eu fora predestinado a me tornar seu tutor. Com certeza seu pai, já mais experiente, conhecedor de seu temperamento, sabia que tal situação seria uma afronta ao orgulho da jovem. Deveria ter mencionado meu nome pouco antes de morrer. Ela bateu à minha porta, completamente desolada, fazendo com que o luto de suas vestes fossem desnecessários. Enquanto John Watson, meu fiel companheiro, consolava nossa convidada, comecei a repensar a situação. A senhorita Bergerac parecia ser, como qualquer outra de seu sexo, uma mulher bastante emotiva. Seria complicado aturar tal comportamento, visto o estilo de vida que adoto.

Entretanto, tão logo o choro veio, ele se foi. Após alguns minutos desabafando em nossos ouvidos, a senhorita Bergerac mudou completamente sua tática. Adquiriu pulso firme, os olhos castanhos brilhando com sua determinação. Oferecia seus serviços em troca de um teto para viver. Presumindo que Vlad não falara nada a respeito da guarda, fingi estar desinteressado em sua oferta. Impaciente, ele se amotinou contra mim com Watson, atitude que considerei inaceitável, e ganhando a atenção de meu amigo, me convenceu a aceitá-la duplamente.

Ela se revelou uma ajudante excelente para a senhora Hudson. Contudo, com o tempo fora se tornando mais intrometida do que jamais imaginara ser possível. Sempre fazendo perguntas impertinentes, bisbilhotando pelo arsenal de armas... a única vez em que tentara arrumar meus papeis, recebera um sermão tão longo que jamais voltou a fazê-lo. Gostaria que tivesse funcionado com nossa senhoria também. Com o tempo também percebi que ela gostava de me ouvir tocar o violino, parecendo saudosa de alguma coisa. E embora meus poderes de dedução fossem excelentes, não conseguia desvendar o mistério por detrás daqueles olhos hipnotizados.

Dois dias depois de sua chegada, Watson insistiu para que tirássemos um retrato. Tanto eu quanto a senhorita Bergerac parecemos relutantes quanto a isso, mas no fim, cedemos. Faz exatamente uma semana que está conosco, e confesso que estou começando a me acostumar com a presença dela. Sempre lendo seu amado Edgar Allan Poe durante a folga e o chá. Gostaria de saber o que a mente feminina via nesse escritor. Existiam mentes mais brilhantes do que a dele... De qualquer forma, hoje seria uma daquelas noites em que seria difícil para nos livrarmos da senhorita intransigente.

_ Bem Watson, acho que essa noite deveríamos procurar pelo amigo de nosso suspeito. Uma sexta-feira, acredito que seja o melhor dia para se pegar um homem em um bar noturno. – comentei, soltando uma longa nuvem de fumaça com meu cachimbo.

_ Um bordel você quer dizer?... Perdão Anne, — desculpou-se meu amigo. – Não é certo falar sobre tais assuntos na frente de uma dama...

_ Não se preocupe John, — retrucou ela com o mesmo ar superior de sempre. – Sou grandinha o suficiente para saber o que acontece em um “bar noturno”.

_ Então Watson, devemos nos disfarçar e sair à caça deste tal senhor Parker. – aprecei-me em dizer, visto a dúvida de até onde aquela conversa chegaria.

Sorrindo de lado, ela fechou o livro com violência, como sempre fazia antes de fazer um pedido ao qual a reposta seria impreterivelmente não.

_ Poderia acompanhá-los senhor Holmes? – perguntou da forma mais inocente possível. – Ficaria encanta...

_ Sei muito bem de suas preferências por assuntos que não são de seu interesse senhorita Bergerac. E como sabe, a resposta é não. – respondi simplesmente, pondo-me de pé. – Vamos Watson, precisamos pensar em disfarces convincentes.

Subimos até o segundo andar, ouvindo as reclamações e murmúrios da senhorita Anne atrás de nós. Ela era uma criaturinha impossível, cuja companhia conseguia passar de agradável a insuportável em segundos. Não obstante a insistência da dama, John e eu deveríamos continuar a nos preocupar com nosso trabalho. O bordel frequentado por Parker ficava no porto bem próximo ao cais, então, logicamente deveríamos parecer com marinheiros... seria complicado.

Após algumas horas, conseguimos a aparência perfeita e subimos no coche que nos levaria até as docas. Percebi que havia outro veículo nos seguindo, mas, não havia como alguém saber aonde estávamos indo. Ao aportarmos nas docas, no entanto, a porta do outro coche se abriu, revelando a senhorita Bergerac, vestida com um de seus vestidos mais conservadores. Confesso que apenas meu cavalheirismo não me proibiu de espancá-la.

_ O que está fazendo aqui? – perguntei, caminhando até ela.

_ Observando. – ela me respondeu dando de ombros.

_ Pois vai observar a paisagem de volta até Baker Street senhorita! – bradei com fúria. – Como se atreveu a desobedecer a uma ordem direta minha?

_ Foi bastante simples na verdade senhor Holmes, e devo dizer que esse tom de voz não combina com a falsa imagem de um cavalheiro que gosta de exibir pela cidade.

Senti meu rosto avermelhar-se. Como ela conseguia? Uma língua dessas deveria ser cortada em pedaços.

_ Vá embora senhorita Bergerac. Não é lugar para uma dama. – adverti, tomando meu caminho, rumo a entrada do pub.

Lá dentro, havia várias mulheres vestidas com suas roupas de coristas e homens pagando para tê-las por algumas horas. Nos sentamos no meio do salão, com vista para o palco. Watson logo me cutucou nos mostrando nosso homem. Seria difícil chegar até ele, visto o número de mulheres a sua volta. Um milagre. De repente, o pianista começou a dedilhar algo parecido com um jazz improvisado e uma mulher apareceu junta a mais oito coristas. Estava usando nada apenas um espartilho com uma cinta liga preta. Penas vermelhas nos cabelos castanhos... minha surpresa foi quando olhei para seu rosto com mais atenção.

_ Anne! – exclamou Watson, cuspindo a bebida que acabara de receber.

Ela pareceu sem saber o que fazer no início, então o que diabos estava fazendo ali? Quis me levantar e puxá-la por aquelas penas até em casa. Contudo, algo inesperado aconteceu. Ao nos ver, ela pareceu se acalmar e piscou. Fazendo sinal para o pianista, soprando o nome de uma canção... “Let me be good to you” fora o que havia entendido. As primeiras notas do jazz começaram a tocar e incrivelmente, ela sabia o que fazer. Possuía uma flexibilidade impressionante, Watson não conseguia parar de rir da nossa situação.

Quando o olhar da senhorita Bergerac cruzou com o meu, lancei uma olhada rápida em direção ao Parker, ao que ela me lançou um olhar confuso. Gesticulei que precisava de um papel que estava no bolso esquerdo do casaco. Ela piscou em resposta, descendo do palco, andando sugestivamente até a mesa dele, deixando que ele a tocasse, distraindo-o para pegar o papel. Parecendo ter conseguido ela deixou-o com suas outras admiradoras e veio em direção a nossa mesa, colocando o item conquistado sobre a madeira me olhando com um riso triunfante, enquanto cantarolava o refrão da canção.

_ Let me be good to you... – e saiu de volta para o palco, sendo aplaudida por todos os bêbados do bar, e Watson.

Saímos de volta para o cais em seguida, ela conseguira entrar pelos fundos, sendo confundida com uma das coristas. Ao ver-nos me dirigiu primeiro um sorriso constrangido e depois malicioso, o que me fez ficar ainda mais irritado

_ O sermão senhor Holmes, estou esperando. – disse ela, desdenhosa.

_ Sabia que eles poderiam tê-la...

_ Meu caro senhor Holmes, minha mãe possuia o mesmo talento para “conseguir o queria” de um fora da lei quando estava em um caso, foi motivo de brigas em minha casa mais de uma vez, contudo, papai sempre se mostrava agradecido. – cortou ela, tirando um fiapo de pena do cabelo.

_ Senhori...

_ O senhor conseguiu a informação que queria, estou certa? – abri o papel dobrado, e lá estava, a data e local do encontro que aconteceria entre Parker e seu mandante. Me resumi a acenar positivamente com a cabeça. – Pois então, só diga obrigado.

_ Onde aprendeu aqueles movimentos Anne? – perguntou Watson, recebendo um olhar reprovador de minha parte.

_ Como disse, minha mãe costumava ter de usar seus encantos femininos de vez em quando. Ela aprendeu com algumas das mais bem pagas coristas. – respondeu, parecendo estar um pouco constrangida.

O caminho de volta para Baker Street foi silencioso, embora algumas risadas entre John e ela acontecessem de vez em quando. Como poderia uma dama se portar daquela maneira tão vulgar? Susanna com certeza não aprovaria, mesmo que fosse tão boa quanto sua filha afirmara. Ao chegarmos em casa, chamei-a para falar sobre o assunto, ela, no entanto parecia estar indisposta.

_ Deve entender senhor Holmes que não preciso de proteção. – disse, se preparando para subir. Tomei-a nos braços, forçando-a a permanecer onde estava.

_ Agora escute senhorita, aceitei que viesse morar sob este teto, desde que se comportasse e seguisse as regras. Seu pai confiou sua guarda a mim, então não posso deixar que nada aconteça a sua pessoa. – disse, recebendo olhares mortais de minha protegida. – Portanto, não sairá mais dessa casa sem permissão minha ou da senhora Hudson, entendeu?

_ Perfeitamente. – desdenhou ela. – Agora, se não se importa, está me machucando. – a soltei de pronto. – De convidada passei a prisioneira?

_ Se quiser ver as coisas por esse ângulo. – retruquei indiferentemente. – Não irei proibi-la Bergerac. – registrei a falta de uso do senhorita, e por alguma razão, soou mais apropriado.

Ela riu.

_ Algum dia ganharei o obrigado que mereço? – quis saber com falsa meiguice, o que me fez rir também.

_ Veremos...Bergerac. – ela sorriu e subiu rumo ao quarto.

A cabeça dura, insubordinação e esperteza... Sim. Anne Bergerac era realmente a fille de père.

Notas finais
Consegui matar a saudade de Baker Street, pelo menos um pouco. Espero que gostem porque estava na minha cabeça há semanas. REVIEWS SEMPRE ME DEIXARAM FELIZ!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!