Filhos do Dutch
1 Unshaken
Notas iniciais
"Você sabe, tudo o que importava para mim era a lealdade. É tudo o que eu conheço. É tudo em que sempre acreditei."
(Arthur Morgan)
Mesmo no fim é possível encontrar um propósito. Eis a certeza que ainda o movia e o mantinha de pé. Seu corpo já desistira. Pobre homem morto ambulante! Sua aparência lembrava um cadáver precariamente ressuscitado por alguma força desconhecida. Buscando proteção atrás de uma série de rochas, atirava sem parar contra os Pinkerton tentando subir o desfiladeiro, em algum ponto do caminho logo atrás de si. Precisava ganhar tempo para ajudar Marston a escapar.
Espero que aquele idiota se salve.
A respiração pesada, dificultosa. O corpo enfraquecido pela doença esgotava suas últimas reservas de energia. Os pulmões pareciam comprimidos, quase impedidos de cumprir sua função vital. Uma tosse violenta o acometeu, fazendo-o eliminar muco e sangue.
A adrenalina corria forte nas veias semimortas. Os tiros passavam zunindo por ele. Levantou, apontou e disparou o revólver Schofield que empunhava na mão direita. Mais adiante, abaixo dele, um dos detetives ganhou um terceiro olho sangrento e caiu gritando no abismo.
Aproveitou a pequena brecha para continuar subindo com cuidado porque as sombras da noite eram traiçoeiras. Queria encontrar uma posição melhor para emboscar os inimigos que vinham chegando.
Inesperadamente um vulto saltou sobre ele, agarrando-o pela cintura. Desequilibraram-se e resvalaram pela borda, gritando. Mergulharam no precipício por alguns metros até que uma ravina, esculpida na montanha pelas chuvas ao longo de só Deus sabe quanto tempo, interrompeu sua queda.
Seus pulmões, já prestes a entrar em colapso, reclamaram com o impacto, causando mais uma crise severa de tosse. Com as mãos apoiadas no chão, tentava se levantar. Não muito longe dele, o agressor também se erguia. Micah Bell. O rato que vinha envenenando a gangue Van Der Linde.
Arthur viu-se tomado por uma onda de emoções conflitantes. Algo em tudo aquilo não parecia certo. Sabia que precisava lutar e a raiva o inflamou, mas em algum ponto nas profundezas de seu cérebro havia essa voz insistente alertando que uma peça ali não se encaixava.
Ah, vaqueiro. Não sabe o quanto esperei por isso!
Antes que se levantasse, um chute nas costelas cortou sua respiração estertorosa.
Sempre se achou melhor do que eu, não é?
Um novo chute devastador no flanco. Sua vista escureceu, quase apagou de vez.
Se pelo menos eu não estivesse tão doente…
Apesar de sua condição crítica, lembrar-se de seu propósito fez renascer uma centelha de vida no fundo de seus olhos azuis.
Reaja!
Os dois homens rolaram engalfinhados, urrando e trocando socos.
Ergueram-se a um só tempo, ainda agarrados.
Você vai morrer, Pulmão Podre.
Cenas confusas e aparentemente aleatórias, como se resultassem da memória de algo ainda não vivenciado.
Rastejava em direção ao Schofield caído a metros dele.
Você não vai alcançar aquela arma, vaqueiro.
Novos lampejos.
O bico do sapato lustroso de Dutch esmagando seus dedos para evitar que finalmente empunhasse o revólver.
Vocês dois! Parem já com isso.
Uma sensação estranha de alheamento dominava Arthur Morgan, como se ele testemunhasse aqueles acontecimentos pelos olhos de outra pessoa. Surpreendeu-se ao ouvir sua própria voz vindo de longe, como um trovão distante.
Ele é o rato, Dutch. Eu sei disso, e você também sabe.
Não dê ouvidos a ele, Dutch! Ele está alucinando. Vamos embora, você e eu ainda podemos conseguir.
John conseguiu. A tosse e a respiração chiada não disfarçaram a inflexão triunfal em sua voz. Nós, não.
Uma nova mudança brusca nas imagens.
Agora ele estava sozinho. O ar mal entrava em seus pulmões apodrecidos pela enfermidade. Ferido e abandonado.
Meu pai me deixou para morrer.
Rastejou até a borda da ravina e apoiou as costas em uma rocha, contemplando a paisagem. As sombras pouco a pouco se retraíam. Não tardaria a raiar o dia. Respirou fundo, ciente de que aquela era a última vez que faria isso.
Como alguém que de forma inexplicável simultaneamente vivenciava e testemunhava aquilo, lembrou-se das projeções exibidas na tenda erguida nos limites de Valentine, onde, por alguns centavos, narravam histórias intercaladas com imagens.
O sol se levantou no horizonte, envolvendo o mundo com seus braços de luz.
E assim como acontecia quando o projetor na tenda concluía a exibição, de repente tudo ficou escuro e silencioso.
***
Em um sobressalto, Arthur abriu os olhos e sentou-se em sua cama. Passando as mãos pelo cabelo, olhou ao redor e reconheceu sua barraca. Tranquilizou-se ao perceber que tudo não passara de um sonho. Um sonho que o intrigara. Parecia tudo tão real!
Deixou sua barraca com o seu chapéu Apostador nas mãos, parou em um barril e jogou uma água no rosto.
Apesar de ser quase noite, o acampamento estava em plena atividade. Sentada a um canto com um livro em mãos, Mary Beth aproveitava as últimas luzes do dia para avançar em suas leituras. Kieran escovava os cavalos e deteve-se um momento para acenar quando Arthur passou por ele. Sentado no chão sobre as pernas cruzadas, Charles concentrava-se na confecção de novas flechas. Javier dedilhava uma velha canção sobre o México enquanto Tio e o Reverendo dividiam uma garrafa ao redor da fogueira. Não viu os outros, deviam estar todos envolvidos com seus próprios afazeres.
Alcançou a beira do penhasco e olhou para a paisagem que se estendia majestosa adiante.
Já fazia quase uma semana que estavam acampados ali em Horseshoe, um grande mirante que não distava muito da cidade pecuarista de Valentine. Quando tudo desandou após Blackwater e precisaram fugir, refugiaram-se bem ao norte, em Colter, um povoado abandonado no meio da neve, onde infelizmente tiveram que enterrar dois membros do bando. Depois de muitos percalços, por ora, conseguiam se estabelecer por ali até que Dutch decidisse o que fazer. A gangue era procurada pela Lei, tinham que evitar chamar atenção.
Ainda impressionado pelo sonho, Arthur afastou-se do pessoal. Enrolava um cigarro quando ouviu uma voz às suas costas:
− Está tudo bem, Morgan? Você tá pálido, parece que viu um fantasma.
Voltando-se, se deparou com Micah Bell fitando-o com genuína preocupação.
Os dois homens estavam bastante próximos desde que, por ordem de Dutch, Arthur libertara Bell da cadeia em Strawberry onde, com certeza, ele teria sido enforcado. Apesar de inicialmente Arthur não ir muito com a cara do loiro de bigode, uma amizade bastante improvável se formava desde então e, ao que tudo indicava, evoluía para uma sólida irmandade.
Micah se achava na fila do jantar, pronto para tomar o ensopado preparado por Pearson, quando viu o amigo caminhando em direção ao penhasco com uma expressão agitada. Imediatamente largou o prato e foi checar o que se passava.
− Acho que estou bem, sim. – Arthur não pareceu muito convincente.
− Posso não ter sido criado junto com ocê, mas já te conheço, sei quando está mentindo. Não consegue esconder nada de mim, vaqueiro. Desembucha logo.
O sonho de fato deixara uma marca em Arthur e, sentindo mesmo que precisava desabafar, contou pormenorizadamente, sem esconder nada.
Micah o ouviu com atenção o tempo todo, a sobrancelha alteada. Quando Arthur concluiu o relato, Bell nem disfarçou sua indignação:
− Eu? Um rato? Acha mesmo que eu faria uma coisa dessas, Morgan?
− Não. Claro que não. – Arthur negou também com a cabeça ao responder – Foi um sonho muito estranho, mas não tenho culpa. Sabe como é esse tipo de coisa, a gente não escolhe com o que vai sonhar.
− Concordo. Mas esse sonho seu é muito sem pé nem cabeça. Eu nunca ia te ferir. Você salvou meu pescoço em Strawberry. Te devo a minha vida, diacho!
− Precisei atirar em metade do povoado para livrar seu couro da morte certa lá. – comentou Arthur, sombrio.
− Pois é. Esse é o tipo de coisa que não se esquece. Tenho uma dívida de gratidão. Nunca vou te machucar. E nem vou permitir que algo ruim aconteça com você. Sou um homem de palavra. Estou sempre do seu lado.
Era verdade. Em mais de uma ocasião Micah se mostrara leal, apoiando Arthur nas discussões, dando cobertura durante as missões. Cuidando dele como se fossem do mesmo sangue.
− Sei disso, Micah. Só fiquei impressionado com o sonho. Era muito real. Como se eu estivesse vendo o meu futuro.
− Futuro! – bufou Bell andando de um lado a outro – Futuro uma ova!
Olhou bem nos olhos do amigo antes de dizer:
− O futuro somos nós que escrevemos, brotha. Eu não sou do tipo que cospe no prato que come. Você me salvou, Dutch me acolheu. Vocês são minha família. Pelo amor de Deus, Arthur! Esse sonho maluco me pintar como inimigo, eu até entendo. Mas o Dutch? Ele criou você. Acha que ele te abandonaria quando você mais precisasse?
− Ás vezes ele age feito um idiota. Mas, em geral, é o melhor homem que eu conheço. – concordou Arthur, sincero.
− Isso mesmo. Dutch é um pai para nós. Como filhos dele, você e eu somos irmãos.
Respirando fundo, Bell deu de ombros quase se desculpando:
− Num sou nenhum santo. Já fiz muita coisa ruim na minha vida. Meu pai era um maldito degenerado, capaz de vender a própria mãe. Mas eu não sou meu pai. Sou um cretino sem modos, sei que às vezes passo dos limites. Podem me acusar de muitas coisas, mas sei ser leal. Nunca deixaria meus amigos, minha família na mão. Outras pessoas aqui, no entanto…
− O que está querendo dizer? – intrigou-se Arthur.
− Tô dizendo que não é comigo que deve se preocupar, Morgan.
Olhando ao redor para ver se alguém escutava a conversa, Bell se aproximou do amigo e abaixou a voz, como se segredasse:
− Quem é que anda por aqui de nariz empinado e peito estufado sob os suspensórios, sempre se rebelando e questionando as ordens do Dutch?
− Marston? – Arthur arregalou os olhos azuis.
− É você quem tá falando, rapaz. − Micah não reprimiu uma risadinha.
− Por que acha isso?
O riso morreu nos lábios de Bell ao responder:
− Já convivi com todo tipo de gente nesse mundo e posso te garantir que eu reconheço um traidor quando vejo. Pra começar, como confiar num sujeito que simplesmente deu as costas para vocês e sumiu no mundo? Quem garante que Marston não tava por aí se encontrando com os Pinkerton, dando com a língua nos dentes durante esse tempo em que ninguém soube dele? Sem falar na ingratidão. Não mostra respeito algum quando fala com o Dutch. Pra mim, não há candidato melhor para bancar o Judas do que ele.
Coçando a cabeça enquanto refletia sobre as palavras do amigo, Morgan olhou discretamente na direção da barraca de John, ocupada apenas pelo pequeno Jack no momento.
− Sei lá, Micah. Concordo que o Marston pode ser um palhaço arrogante, andando por aí com um ar de superioridade. Mas daí a achar que ele é um rato…
− Não seja ingênuo, vaqueiro. Um rato dificilmente se parece com um. Sei que vocês cresceram junto e tal, mas a traição sempre vem de onde menos se espera. Goste você ou não, existe um traidor nessa gangue, bem debaixo do nosso nariz. E, da forma como eu vejo, pode muito bem ser o Marston.
Micah tinha empunhado sua faca e começado a picar fumo para enrolar um cigarro. Vendo a expressão de dúvida no rosto de Morgan, parou o que estava fazendo, apontou a faca para o amigo e enfatizou:
− Um dia John Marston será responsável pela morte de cada um dos membros dessa gangue. Escuta o que tô dizendo. Em todo caso, mesmo se ele não for o vilão, ainda pode servir como peão no jogo.
Arthur abriu e fechou a boca, perplexo, seguindo o raciocínio de seu interlocutor:
− Abigail? Nah. Agora você foi longe demais. Ela é confiável.
− Confiável, Morgan? − Micah gargalhou − Vou te contar o que é confiável: Minha arma. Sabe qual é o problema? Ocê tá deixando a emoção atrapalhar seu julgamento. E isso é perigoso no nosso ramo. Eu entendo, ela é uma jovem bem bonita e tem um passado contigo. Na verdade ela tem um passado contigo, com o Bill, com o Dutch, com o Javier, com o Marston… Sinto pena do garoto. Acho que ele nunca vai saber quem é o pai de verdade.
− Você é doente. − reprovou Arthur com uma careta.
− Talvez. Mas sou assim porque aprendi da pior forma que não se pode confiar em qualquer um. Já botei demais a mão no fogo pelos outros e sempre saí queimado.
Dando dois passos em direção ao amigo, Micah o encarou bem de perto. Seu rosto era uma máscara de seriedade.
− Abigail Marston era uma mulher da vida quando conheceu vocês e se juntou à gangue. Quem sabe o que ela já precisou fazer para sobreviver, brotha? Só porque vocês todos montaram na dama não significa que ela seja confiável, ou que vocês são dignos da lealdade dela necessariamente. Aquela jovem não me parece o tipo de pessoa que levaria uma bala por você ou por mim. Nem mesmo pelo próprio Marston. Ela só se importa com o filho. Pessoas assim sempre têm um preço.
− E o que Abigail ganharia se entregasse Dutch e o restante da gangue?
− Anistia talvez? Acha mesmo que ela é grata e feliz porque vocês a tiraram de um bordel e trouxeram pra viver no meio de foras-da-lei? Outro dia ouvi ela brigando com o garoto porque ele falou que quer ser um pistoleiro quando crescer. Não espera criar o filho perto de criminosos, mesmo sendo ela também uma fugitiva da Lei. Mulheres são criaturas manipuladoras, Morgan. Se achar que nossas cabeças são a chave para a liberdade dela e do filho, pode apostar que a senhora Marston vai nos jogar aos lobos alegremente, sem pensar duas vezes. Não existe honra entre ladrões, meu amigo.
Arthur calou-se por um momento, seriamente em dúvida, mas impactado pelas palavras do outro. Enquanto refletia, Bell reparou em suas olheiras e seu ar cansado:
− Você está um lixo, irmão.
− Tenho trabalhado muito. − defendeu-se Arthur com um pequeno pigarro surgindo na garganta seca − Strauss me fez seu garoto de recados para cobrar os desgraçados que caíram em seu papo de agiota. Há alguns dias estive em um rancho das proximidades para coletar o dinheiro que o dono nos devia. O homem mal se aguentava de pé e disse que não tinha como pagar. Precisei ser um pouco mais convincente… Ainda assim não consegui arrancar um mísero cent dali. Hoje cedo soube que o infeliz morreu pela doença. Amanhã mesmo preciso voltar lá e cobrar a viúva. Ando cheio de toda essa merda.
− Aquele austríaco é mesmo um abutre. − concordou Micah e acrescentou − Mas não podemos negar que ele ajuda a colocar comida na mesa, principalmente nós tendo tantas bocas para alimentar e tão poucas mãos dispostas a trabalhar. Não se sinta mal, irmão. Você não tem culpa e esta gangue não faz caridade. O rancheiro sabia dos termos quando aceitou o empréstimo.
Batendo na barriga, Bell disse:
− Meu estômago está roncando depois de toda essa conversa. Vamos comer a gororoba do Pearson? Podemos jogar cartas depois. É claro, se você ainda não tiver cansado de perder pra mim.
Arthur deu uma sonora gargalhada:
− Quando você ainda estava aprendendo a segurar uma arma, eu já falia mesas de pôquer em pelo menos três estados, seu fanfarrão.
Foi a vez de Micah Bell rir:
− Vai sonhando, vaqueiro. Vai sonhando.
Passando os braços pelo ombro um do outro, os dois amigos rumaram para o caldeirão de ensopado do acampamento.
Sem pressa e exuberante, uma majestosa lua crescente se erguia acima da linha das árvores um pouco além do mirante Horseshoe, colorindo de prata o céu já escuro do estado de Nova Hanover.
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