Filhos do Destino
4 Capítulo 04
– E aí minha irmã? O que achou de seu futuro marido? Eu não disse que ele seria lindo?
– Mais devagar Bri! Você fala demais e muito rápido.
– Já você… Se fosse mais devagar andaria para trás. Não disse uma palavra no jantar, parecia que não estava lá. Mesmo para você aquilo foi um exagero!
– Brigit, se lembra de quando eu contava para você sobre meus sonhos? E sobre o príncipe destes sonhos que iria me amar e se casar comigo? E quando você e a mamãe insistiam que eram tolices? Insistiram tanto que eu acreditei.
– Aquelas besteiras? Você passava os dias pensando nesses sonhos. Por isso ninguém falava com você, é difícil se aproximar de alguém que vive fechado no próprio mundo.
– Mesmo depois que parei com aquelas fantasias as pessoas não falavam comigo!
– Tudo bem, parei! Vamos deixar este assunto para lá. E o que seus sonhos tem a ver com o jantar? Não me diga que estava sonhando acordada enquanto estávamos com seu futuro marido?!
– Claro que não estava sonhando acordada! E ele não é meu futuro marido! É apenas um possível pretendente.
– Ele não é seu marido ainda! Tenho muita fé que será seu marido! Agora responda a pergunta que te fiz!
– O rapaz que aparece em meus sonhos, e sim, eu ainda tenho aqueles sonhos, é o Jonathan. Ou melhor, eles são idênticos como se fossem o mesmo homem.
– Não é possível, minha irmã! Você deve estar impressionada com a beleza do Jonty!
– Você me conhece, Brigit Anne Bouville Archer Taylor. Sabe que eu não me impressionaria a ponto de me enganar com algo assim. Eu estou falando sério! Cresci sonhando com o Wallace, e lhe digo com toda certeza que o Jonathan é idêntico a ele.
– Isso é muito estranho Beth, e perigoso. Se contar para mais alguém poderão achar que você é louca!
– Evidente que não contarei para ninguém, só disse para você e nem para a mamãe falarei. Ela iria perder a cabeça! Imagine, se as pessoas soubessem iriam se afastar. Não de mim, isso elas já o fazem, mas de vocês... Eu seria considerada louca ou bruxa e a reputação atingiria vocês também.
– Eu não ligo para estas pessoas! Apenas fico preocupada com você. Mas se pensarmos, sem medo, sobre os seus sonhos… Pode ser então que Jonathan seja o homem da sua vida!
– Eu te amo minha irmã! Adoro este seu otimismo e bom humor.
– E por falar em bom humor, ouviu a mamãe dizer que somos muito amigos dos Stonen? Muito amigos! A senhora Mary Anne Bouville Archer é a pessoa mais mentirosa e jocosa que conheci!
– Pois é. Você é mesmo muito parecida com a mamãe!
***
A sineta da porta dos Archer toca logo cedo. A empregada, Lucille, apressa-se para atender, já imagina quem seja, foi avisada que o pretendente da senhorita Elizabeth chegaria para o café-da-manhã. Finalmente a querida Beth, adorada por todos os funcionários da casa Archer, encontrara o futuro marido.
“Que tudo dê certo!” — Pensa consigo a empregada enquanto beija o crucifixo pendurado no pescoço.
Ao abrir a porta, Lucille se impressiona e quase perde o fôlego com a beleza do rapaz, conduz Jonathan até a sala de estar, local onde Beth, Mary e Joseph estão esperando a chegada da visita.
O desjejum seria feito em uma varanda coberta, a incrível mesa já estava posta e cheia de variedades. Jonty, que não estava com muita fome, ao ver as deliciosas opções sobre a mesa se viu faminto.
– Decidimos fazer esta refeição aqui fora, para aproveitar o raro sol de Londres. Espero que não se importe, Jonathan! — Diz Mary sorridente.
“Em outras épocas e situações eu teria me envolvido com uma senhora como esta! É mesmo uma senhora muito charmosa!” — Relembra Jonathan consigo.
– Não me importo senhora Archer! Até achei de muito bom gosto e a mesa está perfeita! Vocês, os Archer, sabem como fazer uma recepção excelente!
Enquanto caminhava para seu assento, Jonty pôde, com a proximidade e luz do sol, analisar melhor sua futura esposa. Feições delicadas, gestos discretos e comedidos, bonita mas não linda. A quietude da garota se manteve desde o jantar da noite anterior, mas algo mudara. Seus olhos pareciam mais presentes agora.
“O que a boca dela não fala, os olhos dizem. Se ela falasse o quanto seus olhos expressam… Esta jovem seria uma tagarela insuportável. Seus olhares especulativos e escrutinadores me perfuram. Acho que conversar a sós com ela será algo interessante.”
Mesmo depois de terminado o café, nenhuma palavra fora dita por Beth mesmo com Mary tentando pescar, sem sucesso, um mísero comentário da filha. Joseph, que também dissera pouco durante a refeição, anuncia a hora do passeio dos futuros pretendentes.
Os jovens se levantam e Jonathan oferece o braço para Elizabeth que, de modo imperceptível, estremece com o contato físico.
Beth nunca ficou tão próxima a um rapaz e isso já traria uma emoção forte. Tudo se intensificava com o fato de Jonathan parecer tanto com seu Wallace. Sempre foi uma pessoa de poucas palavras, mas a presença daquele cujo o semblante e gestos eram rigorosamente iguais aos de seu fictício amado, Wallace… Aquela presença a deixava ainda mais calada, agravava sua timidez, ficava sem fôlego, com coração palpitante e muito nervosa.
Enquanto estavam tomando o café, Elizabeth tentava, discretamente, perceber o quanto Jonty e Wall eram parecidos. O mesmo cabelo negro; os olhos de um azul tão claro, quase transparentes; as sobrancelhas grossas, que davam ao olhar um ar de perigo; cílios volumosos, que com toda certeza muitas garotas invejavam; o maxilar quadrado e o nariz reto, tão másculos; e lábios perfeitamente ajustados ao belo rosto.
Concluiu que, além da aparência, tinham muitas outras similaridades, o modo como falavam, suave e firme; o sorriso, nunca amplo demais, meio de lado e que exalavam sedução e atrevimento; os olhares eram atenciosos, penetrantes e tiravam o fôlego; o modo como ambos inclinavam, ligeiramente, a cabeça para o lado quando estavam prestando atenção em uma conversa. Enfim, seriam idênticos se Wallace fosse real.
“Como eu quis que Wallace existisse! Como eu rezei para que ele viesse dos meus sonhos do século XII diretamente para hoje, 1847, e me fizesse a garota mais feliz deste mundo! Como eu desejei poder, de verdade, ficar olhando por horas aqueles olhos de lagoa cristalina até me afogar. Será que meus pedidos foram atendidos?”
Tantas perguntas que, provavelmente, nunca seriam respondidas. Como poderiam ser tão parecidos? O que aquela semelhança queria dizer? Era coincidência? Beth estava ansiosa pelo passeio pois tinha certeza que sozinha com Jonathan teria mais coragem para conversar com ele. Poderia fazer perguntas para saber se haviam mais semelhanças, se ele também tinha sonhos parecidos com os dela. Talvez poderia diminuir as dúvidas conhecendo-o melhor.
***
Isadore Stonen, Dore, era uma moça extremamente linda, considerada a perfeição em forma de donzela. Uma cabeleira dourada, sedosa e volumosa, olhos castanhos esverdeados, pele sedosa e rosada, curvas de mulher e rosto de uma linda garota. Extrovertida sem parecer vulgar, delicada sem parecer mimada, religiosa sem parecer beata e sorridente sem parecer tola. Filha de uma tradicional e próspera família burguesa de Londres, estava prestes a ser apresentada à sociedade, seus pais dariam um baile com este propósito.
Era cortejada pelo também burguês Alfonse Gretway. Dore e Alf estavam de namorico há algum tempo, ainda não tinham um compromisso sério, os pais de ambos fingiam não saber da relação que ainda era casta e respeitosa. Todos esperavam pela apresentação da garota no baile para formalizar a situação do casal.
Dore gostava muito de Alfonse mas não era apaixonada pelo mesmo. Isadore sempre teve a sensação de que algo mais fervoroso e emocionante, um amor ardente, uma paixão arrebatadora lhe esperava. Porém, com medo de acabar solteira, um terror para qualquer mulher respeitável da época, decidiu que não poderia esperar ou acreditar nesta intuição.
Resolveu que tivera sorte de encontrar alguém como Alf, alguém por quem tinha um carinho cheio de ternura, alguém que a respeitava e, acima de tudo, alguém que a amava em demasia. Aprenderia a amá-lo com mais intensidade com o tempo. Seria uma mulher feliz.
Estava apreensiva com o baile, faltava apenas uma semana. Não aguentava mais esperar, tudo seria mágico e lindo, muita gente importante havia sido convidada. E finalmente, depois do baile, ficaria noiva de Alfonse.
Fale com o autor