Filhos de Mil Noites
1 Prólogo
Notas iniciais
Havia pessoas a chamando de bruxa, vaca, vadia. Pedras e comidas podres eram jogados nela. Lágrimas escorriam em seu rosto, esquentando-o. Ela gritava loucamente alegando sua inocência.
Ninguém a ouvia. Ninguém queria.
Grandes soldados seguravam e a puxavam por todo o caminho. Cambaleava caindo a cada passo, eles a agarravam com tanta brutalidade que fazia sua pele queimar.
Não conseguia alcançar seu poder para impedir, ele parecia não existir mais.
Uma pedra atingiu sua perna fazendo-a cair de cara no chão rochoso, rasgando seu rosto. Sangue cobria e se mistura com suas lágrimas, os soldados a agarraram pelos longos cabelos e a colocaram de pé.
Eles continuavam guiando-a até a forca montada no centro de uma cidade que não conseguia reconhecer. A cidade era pequena, suas casas eram feitas de pedras rústicas tornando a visão atemporal.
Como tinha parado ali? Não sabia a resposta.
Às lágrimas borravam sua visão fazendo-a ver apenas vultos. Mas, pelo que tinha percebido havia pessoas em uma praça, poucas árvores por perto e um prédio alto com um sinal desconhecido.
Seus gritos de inocência alegando estarem enganados eram retribuídos com deboche e mais pedras afiadas. O chão queimava seus pés, nos céus o sol brilhava alegre.
Por fim foi jogada no centro da cidade, na praça. Seu corpo era como um poço que não a pertencia, tudo estava errado de uma forma tão certa que a fez se questionar se não estava louca. Muitos alegavam que loucos não sabiam que estavam loucos, talvez esse fosse seu caso.
Limpou às lágrimas que borravam sua visão, espalhando seu sangue por todo seu rosto imundo. Suas pernas já não aguentavam mais seu peso, forçando-a a ficar ajoelhado diante daquele povo.
Um homem olhava para ela com certa piedade, ele estava mais perto que outros cidadãos. Era mais importante que outros, exalava poder, seus olhos eram profundos remetendo aos céus do inferno.
Com um aceno de mão sua, o povo se calou, felizes em apenas assistirem.
Então ele se aproximou, tampando a sua visão do sol.
— Fale o que quer entre nosso povo bruxa. Talvez eu a ajude.
Seus olhos brilharam com esperança. Tanta esperança que fez seu coração bater descompassadamente.
Com a voz desgastada e rouca respondeu:
— Não sou uma bruxa.
Lentamente um sorriso surgiu no rosto dele.
— Não é? — Ele levantou seu queixo, com a mão fria como o inverno, a forçando encará-lo diretamente.
Os olhos dele brilhavam como a morte. Ele era a morte.
E não seria sua salvação, sentia em sua alma, ele seria o fim. E não haveria começo depois disso.
— Sou inocente — sussurrou.
Ele estalou a língua, em descontente e se afastou, como se já tivesse escutado o bastante.
Olhares mortais a circundavam, não conseguia distinguir ninguém.
Conseguia ouvir às águas de um rio chamando-a a distância.
— Sou inocente. Sou inocente. — Continuava sussurrando e olhando freneticamente a todos a sua volta. — Inocente.
O homem com olhos infernais se aproximou novamente, raiva emanando ao se encalço quando agarrou violentamente seu braço direito e arrancando a manga de sua blusa, expondo seu frágil braço machucado.
— Você é inocente, minha querida? — sua voz era melódica, doce de ser ouvida. Poderia viver ouvindo essa voz. Doce e mentirosa.
— Sim — disse com um suspiro de esperança.
Ele sorriu maliciosamente.
— Então por qual motivo tem a Marca?
Ela sacudiu a cabeça, confusa. Não se lembrava daquilo, mas parecia estar lá deste sempre.
O rio continuava a cantar distante, uma música que conhecia.
Será que esteve lá sempre?
Não.
Não, aquele era o sinal das Bruxas. Não era uma delas.
O olho em sua pele, a encarava petrificado. Era completamente hipnotizante, parecia absorver toda a graciosidade presente na terra.
E não a pertencia, assim como ela não o pertencia.
— Você é uma bruxa! — vociferou o homem.
Todos concordaram, jogaram mais comidas podres em suas gastas roupas, pedras afiadas e xingamentos que nunca tinham sido proferidos a ela até aquele momento de sua vida.
Não era uma delas. Era inocente.
Fúria enchia seu sangue quando arranhava a tatuagem em seu braço. Suas unhas se encheram de sangue e pele, seu braço ficou dilacerado e coberto de sangue.
O olho parecia se divertir com sua falha tentativa. Ela o odiava.
Não sobraram mais lágrimas a serem derramadas, seus olhos estavam secos igual sua alma.
O tempo naquele lugar parecia passar rápido. Uma rapidez descontrolada — infinita.
O homem com olhos infernais já estava longe dela, mas outros dois brutamontes se aproximaram com sorrisos selvagens.
Eles seguraram seus braços, um homem de cada lado, arrastando-a contra sua vontade até à forca. Se debatia igual um animal indefeso entre os braços dos fortes homens, chutando e esperneando, mas nada adiantava, era mais fraca e estava destruída. Por dentro e por fora.
— Não por favor! Não sou eu, vocês pegaram a pessoa errada... por favor — implorava enquanto a corda foi amarrada em seu pescoço e colocada a força em cima de uma cadeira.
Aquilo não parecia a realidade, talvez fosse um pesadelo e logo acordasse.
Queria sua família, queria tanto eles. O aconchego do abraço de seus pais e as brincadeiras de sua irmã, queria aquilo.
Precisava deles.
— A bruxa, eu condeno à forca. Uma vida pelos milhares de que tirou. — Todos concordaram felizes. Assobios e aplausos foram direcionados a seu condenador.
Queria gritar quem era, queria chamar pela sua família, queria ofendê-los, queria matá-los.
Nada daquilo conseguiu. Sua garganta não obedecia a si mais, os nomes e todas as coisas que queria falar não saiam de sua mente. Tentava loucamente falar ou gritar algo, mas nada funcionava e ninguém parecia perceber.
Olhava desesperada a sua volta, quase caindo da cadeira.
Até que no meio da multidão viu uma mulher. Seu corpo e sua percepção de tempo pararam.
A sua frente encontrava-se, a Herdeira.
Ela, só que não ela.
Já que a Herdeira estava na forca, o que estava a sua frente era apenas seu corpo. Seus olhos a encaravam divertidamente, enquanto em seus lábios um sorriso sombrio surgia.
Queria alcançá-la e arrancar a bruxa de dentro de seu corpo. Mas era tarde demais para isso.
Com um empurrão do seu condenador, sua cadeira foi jogada de lado e seu corpo ficou suspenso no ar.
E com o barulho de seu pescoço se partindo, a Herdeira morreu.
Notas finais
Ps: História disponível no Wattpad.
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