Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra

11 Coração de Cristal, Sopro de Sombra


O retorno a Ael’Arkynis foi silencioso.

O teleporte nos trouxe direto ao salão principal da torre central, e mesmo ali — onde a magia pulsa nos vitrais vivos e as colunas cantam baixinho os nomes dos mestres antigos — havia um peso estranho no ar.

As palavras daquele ser nas areias ainda me assombravam:

“Você vai precisar matar… para salvar o mundo.”

Desde então, o Veio da Memória fragmentava pensamentos em minha mente. Eu via imagens que não lembrava ter vivido: mãos de prata segurando um cajado em chamas, uma criança chorando sob o luar, o símbolo da lua invertida entalhado numa rocha ancestral.

Mas nada era mais perturbador do que o que vi ao olhar para Kaelion.

A marca estava crescendo.

O sol negro antes contido na nuca agora se espalhava pelas costas, como galhos incandescentes atravessando sua pele. E embora ele escondesse isso dos outros, eu podia sentir. A luz dele estava lutando contra algo. E perdendo.

Na aula de Arcanomancia, com a Professora Lys.

— O mana não é apenas energia — disse ela, flutuando levemente sobre um círculo mágico. — Ele é memória, vontade e emoção.

— Por isso, aqueles de linhagem ancestral tendem a canalizá-lo de forma mais intensa — ela me encarou. — Às vezes... até instável.

As outras casas cochichavam.

Desde o deserto, minha presença incomodava mais.

Boatos sobre "a anômala da lua" já haviam se espalhado pelos corredores, pintando minha imagem entre temor e admiração.

Kaelion estava ausente.

Disse que precisava "respirar", mas eu sabia o que significava: o poder estava saindo de controle.

Silas me lançou um olhar de canto.

— Ele está na torre do norte. Sozinho. Você devia ir.

Assenti. E fui.

Torre do Norte. Terceiro andar. Quarto trancado.

Bati. Ninguém respondeu.

Senti a aura por trás da porta — instável, girando como um vórtice. Estendi o cajado e conjurei um feitiço de desbloqueio.

A porta se abriu… e o inferno revelou seu rosto.

Kaelion flutuava no centro do quarto, envolto por chamas negras e douradas. Seus olhos estavam abertos, mas completamente tomados por luz, e um círculo mágico — feito de símbolos desconhecidos — girava ao redor dele como uma armadilha.

— Kaelion! — gritei, mas ele não me ouvia.

O chão ao redor tremia. A madeira rangia. Os livros se incendiaram.

Avancei mesmo assim.

Toquei sua mão.

No instante em que meus dedos encostaram na pele dele, tudo parou — e fui tragada para dentro da própria mente dele.

Um mundo espelhado.

A paisagem era uma planície de vidro quebrado. Acima, um céu negro com uma única estrela: o sol negro, girando lentamente. E no centro… dois Kaelions.

Um, de armadura dourada, com olhos claros e expressão aflita.

O outro, envolto em sombras, com as veias escuras e o símbolo do sol invertido brilhando em vermelho profundo.

— Você não devia estar aqui — disse o Kaelion da luz.

— Eu vim te tirar disso — respondi, firme.

— Eu não posso sair. Não enquanto ele existir. — Ele apontou para sua contraparte.

O Kaelion sombrio nos observava, sorrindo de canto.

— Ela ainda não entende, não é? — disse a cópia. — Que eu não sou só parte dele…

— Eu sou o que o mantém inteiro.

A verdadeira versão abaixou os olhos.

— Ele é o resultado de algo que me fizeram… quando eu era criança. Um ritual. Um pacto. Minha mãe tentou selar, mas era tarde demais. Vita me escolheu para conter… o que Raven deixou para trás.

Minha respiração parou.

— Você é... o selo?

Ele assentiu, devagar.

— E a cada dia que passa… ele cresce. E eu… sumo.

— Isso não pode ser tudo, Kaelion. Você ainda é você.

O Kaelion sombrio riu.

— Ela acredita em destinos. Bonito.

— Eu acredito em você — corrigi, olhando nos olhos do verdadeiro. — E se você for feito para conter a escuridão… então eu sou feita para te ancorar.

Luz começou a emanar de mim.

Luz prateada. Pura.

A mesma que saíra do Veio da Memória.

O chão quebrou, e o mundo se desfez.

De volta ao quarto.

Kaelion caiu de joelhos, suando, arfando. Mas estava livre. A aura estava mais estável. A marca, embora ainda presente, havia regredido um pouco.

Ele me olhou como se me visse pela primeira vez.

— Você me puxou de volta.

— Eu sempre vou puxar — respondi. — Até que você não precise mais ser salvo.

Nos abraçamos. Pela primeira vez, sem medo.

Como dois que estavam quebrados… mas que, juntos, conseguiam se colar.

Horas depois, a academia tremeu.

Sirenas mágicas dispararam.

As torres brilharam em alerta.

Corremos para o terraço — e vimos.

Uma fenda no céu.

Negra. Pulsante.

Abrindo-se como uma cicatriz no tecido da realidade.

E dele, desceram criaturas feitas de névoa sólida, com olhos vermelhos e corpos que lembravam os antigos guardiões das ruínas lunares.

No alto da fenda, uma silhueta. Encapuzada. Com olhos roxos e uma foice em chamas.

“O selo está falhando.”

A voz era dele.

Raven.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.