Filhos da Noite

21 Capitulo 21 - O que Precisa ser Dito.


[Adam – Néftis]

O conselho nunca possuiu os vampiros mais interessantes do mundo, quem dirá os mais sensatos. Vampiros egoístas, preocupados com suas fronteiras e sua influência sobre um pedaço do mundo... Todos sempre aguardando pela eternidade a oportunidade de aumentar seus poderes, uma oportunidade de ficarem ainda mais altos na cadeia alimentar, subindo e subindo na escada do poder, até a sua inevitável queda. Alguns tentariam subir novamente, outros, se contentam apenas por continuarem vivos e aceitam sua posição no solo e os últimos... A queda é a última coisa que irão sentir.

Eu não usava elevadores, o maldito prédio me pertencia e não havia motivo para evitar minhas próprias escadas, devagar, degrau por degrau, um pensamento a cada passo e então a enxurrada, a invasão dos meus ouvidos com vozes assustadas no topo, o cheiro insosso do medo que vinha daqueles vampiros, suas confusões em pensamentos, assustados, raivosos, invejosos... “Fracos!” Pensei. Eu não ligava, na verdade até esperava um desfecho rápido desse encontro. Contudo, essa sensação especifica eu não iria ignorar, minha mãe, encurralada, jamais indefesa, mas havia a sensação de ansiedade no ar e com certeza não seria um lorde nessa situação.

— Porque eu mesmo já resolvi essa questão! – Entrei na sala falando diretamente com todos, sem bater, sem anúncios. “A casa é minha afinal.” Pensei.

— Meu Príncipe! – Parecia até ensaiado, todos levantando ao mesmo tempo para dizer a mesma frase. Na ponta da Mesa Vulcânica minhas mães sorriam levemente.

— É sempre bom quando se reúne aos nossos encontros. – Maximilian se apressou em ser o primeiro a falar sozinho.

— É bom revê-lo também meu lorde. – Respondi.

— Vão! Mostrem respeito. – Lady Anastasia Baiun estava empurrando seus filhos na minha direção, não deveriam ter mais de oito imaginei observando o pequeno casal com seus cabelos loiros, havia uma certa nostalgia comigo. Muitos séculos atrás eu e Nefetari teríamos a mesma timidez ao conhecer outros vampiros.

— É uma honra, meu príncipe. – Começou o garoto com uma curta e travada reverência. A menina seguiu o irmão, sem olhar diretamente para mim mais de uma vez, ou dizer algo. Claramente ela era a mais tímida da dupla.

— É toda minha em conhece-los. – Respondi sorrindo. – Agora voltem a sua mãe, ainda estamos em reunião, certo? – Ambos concordaram e correram para a genitora a quem acenei com a cabeça.

Todos queriam um momento da minha atenção e eu lhes dei o que queriam, fui muito bem educado para tal situação, manter a postura, evitar falar demais, não matar ninguém... Eu me coloquei ao lado esquerdo da minha mãe, minha cadeira ao seu lado na ponta da mesa enquanto a de Lilian era a primeira do lado direito da mesa.

— Vão prosseguir? – Questionei a mesa toda. Após uma troca rápida de olhares, todos estavam sentados novamente.

— Se me permite, Meu Príncipe. – Esteno nem é membro do conselho, assim como eu não sou. Ela veio com o pai e se achou no direito de levantar e usar a palavra. Lordes mais velhos não teriam essa ousadia. – Como matou o Belmont?

— Do jeito que se mata humanos! – Menti o obvio. – Não é um segredo matar humanos Esteno. Atingir artérias, bater um pouco mais forte, acertar o coração, um corte certo. Eles são mais fracos e mais fáceis de matar.

— Humanos comuns são fáceis de matar, meu príncipe. – O pai a apoiou. – Um Belmont, entretanto, você, sua mãe, Lady Lilian... Eu mesmo e outros presentes já tivemos histórias com eles.

— Satisfaria o conselho a simples descrição de que o caçador que enfrentei não tinha a habilidade ou equipamento necessário para me superar ou complicar qualquer situação? – Perguntei retoricamente. – Os golpes certos com a espada encerraram a luta sem motivos para preocupação.

— E novamente como já dito, vocês não devem se preocupar com isso. – Minha mãe assumiu a palavra e voltei a me sentar. – A reunião era apenas um encontro para esclarecer nossas intenções quanto a possibilidade de novas guerras vampíricas que não irão acontecer e a atualização acerca da congregação de caçadores e dos Belmonts não são mais um perigo para os presentes nessa mesa. – Quase todos suspiraram quando ela terminou de falar, agora poderiam se alimentar e rumar de volta para os seus lares.

— Eu desejo a palavra. – Lady Kelpie solicitou. Ao menos ela ainda tinha o respeito de pedir a anfitriã da noite. Que concedeu. – Você irá assumir seu lugar no conselho agora que retornou, meu príncipe?

— Não há cadeiras vagas neste conselho, minha senhora. – Respondi novamente uma pergunta que não deveria nem ser feita. – E eu não tenho nenhum interesse em substituir minha mãe de maneira tão precoce, se é que algum dia irei.

— Então por qual motivo ela e lady Lilian o despertaram agora? – Lorde Dan se intrometeu.

— Acho que não entendi. – Respondi para ele.

— Sua mãe o despertou em um tempo de relativa calmaria, meu príncipe. – Maximilian sempre tinha que aproveitar a conversa. – Há anos não havia envolvimento com Belmonts e a mais de meio século não nos reuníamos nesta mesa. Após seu despertar ambos os eventos citados aconteceram em um intervalo curto, estamos em seu estabelecimento, logo, discutindo uns com os outros, acreditamos que fariam um anuncio oficial.

— Parece que falaram muito sobre o assunto lorde Wyvern. – Minha mãe resolveu entrar na conversa. – Muito mais do que poderia ser discutido e ponderado antes desse encontro. Há algo que queiram compartilhar?

— De forma, alguma minha rainha. – Ele se defendeu. – Apenas a curiosidade para entendermos melhor a situação em que todos nos encontramos, já que a senhora havia dito que não havia planos para acordar nosso príncipe tão cedo durante nosso último encontro.

— Bom! – Eu me levantei – Apenas para sanar a curiosidade dos presentes. Ela não teve envolvimento com meu despertar, nem ninguém nesta mesa. Eu acordei em minha cripta sem o envolvimento de vampiros ou humanos. – Expliquei.

— Os estímulos externos do mundo moderno não são suficientemente fortes para acordar um vampiro em repouso. – Lorde Rocha finalmente se fez ouvir. – Temos uma quantidade considerável de dormentes ao redor do mundo, se houvesse algum fator externo ocasionando despertares... Acredito que teríamos visto a essa altura.

— Nós não viemos aqui para questionar quem despertou, quem senta nas cadeiras ou para discutir senhores! – Kwimer foi quem deu a resposta. – Viemos para atualização e apenas isso, informação compartilhada e a garantia de que ainda estamos todos os membros fazendo um trabalho correto em seus territórios.

— Eu não teria respondido melhor. – Minha mãe se levantou agradecida pela resposta dura do lorde para os outros. – E sendo assim quero dar essa reunião como encerrada.

Todos em volta da mesa assentiram e se levantaram, permitindo que mais uma vez aquela afronta a natureza que era a mesa vulcânica voltasse para o seu “limbo” até o próximo momento em que fosse necessária.

— Agora que todos já falamos e estamos calmos. – A porta se abriu, cerca de dez pessoas entraram, todos lindos e jovens, completamente hipnotizados. – Diretamente da sua terra natal Lady Baiun. – Comentei. – Essa noite nos alimentaremos da equipe de dançarinos do Ballet Bolshoi! – Haviam sorrisos na sala agora, sorrisos famintos e de desejo, o grupo de garotos e garotas parados a nossa frente havia transformado os ânimos do ambiente.

— Como pretende explicar o desaparecimento dessas pessoas famosas? – Lilian me repreendeu me puxando para junto da minha mãe.

— Eu coloquei todos sob hipnose e deixei as duplicatas no lugar, todos estarão no mesmo lugar essa noite. E infelizmente houve um vazamento de gás que levou tudo pelos ares, deixando todos do lado de dentro mortos. – Expliquei gesticulando a explosão. – Não podemos servir “aleatoriedade” para os lordes e como não temos mais sacrifícios entregues a nossa porta.

— É um maravilhoso presente. – Lorde Nián veio me agradecer. Ele parecia pronto para avançar sobre aqueles humanos, estáticos como estatuas.

— Um momento. – Pedi e fui até Anastasia que ainda estava sentada com os gêmeos. – Não vão aproveitar?

— Eles ainda não tiveram sua primeira experiência com mastigação, meu príncipe. – Explicou ela, era obvio que estava hesitante sobre deixar que os dois se alimentassem junto do grupo mais velho.

— Querem fazer isso comigo? – Perguntei dirigindo-me as crianças, era improvável que alguém se aproximasse da presa que eu selecionasse. Ambos encaravam a mãe, esperando que ela respondesse por eles.

— Podem ir queridos. Aprendam com nosso príncipe! Será uma história para compartilharem em casa e para recordar a experiencia. – Ela os encorajou com isso e ambos me acompanharam, um de cada lado segurando minha mão. Esteno me encarava perplexa do outro lado, claramente esperando que eu a tivesse convidado para se alimentar comigo.

— Escolham um. – Falei e após um momento de conversa eles selecionaram a primeira garota da fila. – Ótima escolha. – Fiz com ela nos seguisse até os bancos próximos, todos começaram a escolher suas presas depois de nós, a maioria compartilhando a presa. Eles se sentaram nos bancos, ficando mais altos e posicionei a garota entre nós três, indo para trás dela em seguida, para manter a visão do salão. – Eu irei para o pescoço e vocês dois para os pulsos, um para cada. Mordam, sintam a pele dela sendo perfurada, bebam o sangue dela e sintam sua vida sem pressa.

Minha mãe dividia um humano com Lilian ainda no mesmo local que encerraram a reunião, Lorde Nián e Dan também compartilhavam do outro lado do salão, os Lone Pine haviam se isolado os três com seu rapaz de escolha, Alcina estava sozinha no meio do salão e praticamente dançava enquanto consumia sua presa, Kwimer dividia com seu filho, Lorde Rocha também estava sozinho com um rapaz, os quatro Wyverns presentes escolheram duas jovens e dividiam entre si, vez ou outra Esteno olhava procurando por atenção da minha parte. Apenas Anastasia continuava sem se alimentar, observando os filhos realizarem sua primeira alimentação da fonte, com certeza ela não imaginava que esse seria o cenário, contudo, parecia feliz que fosse dessa forma. “Poucos poderiam dizer que o príncipe os convidou para isso.” – Pensei enquanto sinalizava para que ela se juntasse a nós. Devagar ela passou pelo grupo de vampiros, poucos prestavam atenção a ela, todos imersos no momento, ela ficou à frente, bloqueando minha visão do restante.

— Há um lado livre. – Falei tocando a pele da nossa vítima do lado esquerdo do pescoço. – Seria um desperdício do sangue de alguém tão talentoso se a senhora das terras de origem não desfrutasse.

— Eu agradeço. – Ela respondeu antes de juntos voltarmos nossa atenção para a presa em nossas mãos. No fim apenas nove dos dançarinos foram consumidos ali e o que sobrou acabaria se tornando minha próxima refeição por alguns dias.

Todos os vampiros presentes, antes preocupados e discutindo, prontos para armar suas alianças gananciosas... Agora reduzidos a uma única necessidade, a um único desejo que todos compartilhavam, tal como feras “desprovidas” de raciocínio, todos os lordes tinham apenas um sentimento e um pensamento agora, a SEDE.

[Belle – Apartamento Meyer]

Eu não tinha notícias de Alexander já faziam alguns dias, a congregação havia entrado em contato algumas vezes, até Padre Lucas havia falado comigo, informando a respeito da viagem que faria com Hanzo até a Grécia, informando brevemente sobre o destino de Alexander e seus irmãos que partiriam em alguns dias.
Nesse meio tempo eu havia me encontrado com Adam novamente, mais de uma vez e de diversas formas eu podia dizer que novas sensações e descobertas me fascinavam, assim como ele me fascinava a medida que nos tornávamos mais e mais próximos, fosse em nosso estado físico, intelectual ou espiritual, era tão rico estar com ele e da mesma forma que eu me permitia sentir quando estava ali, ele também vivia aquele momento, se não na mesma intensidade que eu, em uma até maior, cada palavra compartilhada, cada momento único que ele certamente já havia experienciado antes, assim como eu já havia tido minhas experiências anteriores, cada um deles era de uma maneira pouco descritível.
Contudo, no presente momento não havia Adam, não havia Alexander também, havia apenas eu, Belle e minhas novas áreas de aprendizado. Qualquer pessoa que não fosse do nosso mundo ficaria chocado ao ver meu apartamento sem os feitiços de disfarce que escondiam a verdadeira aparência das coisas que estavam ali dentro, não era um tipo de laboratório bruxo como os que vemos em filmes, mas, haviam semelhanças, a começar pelas raízes que estavam penduradas para secar, quantidades excessivas de plantas exóticas e alho, cerca de quatro aquários com especímes aquáticos não catalogados oficialmente, meus grimórios abertos com suas ilustrações e línguas desconhecidas para as pessoas ao nosso redor.
Eu estava empenhada em um feitiço novo, proteção magica transportável através de um frasco. Os ingredientes haviam sido preparados e misturados no dia anterior, me deixando até surpresa de ver itens relativamente comuns na composição como pimenta vermelha e gengibre. Agora eu recitava o encantamento com aquela mistura rodopiando no ar sobre a palma da minha mão, perdendo a coloração e consistência de uma mistura aleatória de ingredientes para um liquido semelhante a geleia em tons alaranjados e dentro daquele corpo gelatinoso era possível observar o que estava descrito no grimório como “cristal em chamas”. Encerrei o processo engarrafando três frascos e depositando todos na dimensão de bolso que Adam me ensinou a criar, era excelente para evitar o acumulo de itens mágicos que meu apartamento acomodava anteriormente.

— Eu deveria visita-los. – Falei sozinha olhando para a Janela, ainda sem saber como os Belmonts me receberiam após esses últimos dias, Alexander não falava comigo desde a última troca dos seus curativos e os outros dois ainda não tinham tido a oportunidade de conversar adequadamente comigo. Essa poção era pra eles, pra ajudar os três com o que quer que fossem enfrentar nessa viagem, afinal ajuda nunca é demais quando se esta frente a frente com um perigo desconhecido.

E como se meus pensamentos pudessem ser lidos e até mesmo antecipados, me ligaram da portaria, informando sobre um visitante que eu não esperava. Não hoje pelo menos, só pedi que liberassem e aguardei que chegasse e para mais uma surpresa, ele bateu na porta ao invés de ir entrando.

— Isso não é muito habitual. – Falei abrindo-a. – Não esperava que viesse me visitar.

— Eu também não esperava ver você tão cedo. – Admitiu Alexander ainda parado do lado de fora.

— Vai entrar ou não? – Perguntei virando de volta para minha sala.

— Obrigado pela recepção. – Ele debochou me seguindo, parando para observar como as coisas estavam dispostas pelo ambiente. – To vendo que andou ocupada por aqui. E novas aquisições também. – Comentou tocando o grimório central.

— Uma feiticeira deve treinar tanto quanto um caçador. – Respondi e me sentei, sinalizando o sofá a minha frente para ele. – Pode se sentar.

— Eu concordo que o aprimoramento pessoal nunca é demais. – Falou antes de se sentar suspirando, deixando o silencio esquisito preencher o espaço entre nós. Olhando um para o outro.

— Veio para uma competição de encarada e respiração? – Questionei sem mover meu olhar.

— Não vim. – Ele respondeu por fim. – Eu acredito que você já saiba da minha viagem. – Confirmei. – Bom, se realmente forem dragões e se realmente o ultimo fragmento estiver com um deles...

— Vai pedir pra cuidar dos seus irmãos? – Interrompi-o.

— Não! Você sabe que vamos todos. – Respondeu sem perder o foco. – Eu vim aqui para admitir uma coisa muito importante. – Ele se segurou por alguns instantes, olhando em volta como se as paredes tivessem ouvidos. – Você estava certa, sempre esteve. Eu me algemei a vida de caçador, a minha responsabilidade, a persona que esperavam de mim, o guerreiro que eu deveria ser. – De maneira inédita eu não iria interrompe-lo agora, não com essas frases. – E eu ainda estou preso a isso, não é algo que eu posso deixar, algo que eu vá perder... Isso faz parte de mim, é uma parte de mim.

— Vai dizer que a sua miss. – Ele tapou minha boca.

— É uma parte de mim. Mas, não é tudo que eu sou! – Ele admitiu e tirou a mão da minha boca. – Eu sou um irmão, sou caçador, sou amigo, sou um péssimo quase namorado se é que em algum momento chegamos a nos considerar isso...

— Alexander...

— Não, eu quero concluir. – Ele pediu sem me dar tempo para responder. – Você merece mais do que eu te dei, mais do que o pouco que tenho dedicado a você! O apoio que falhei em te dar, o ombro, o carinho... Toda essa ausência que eu criei, que fez com que fosse possível um vampiro, alguém sem nenhuma conexão com você, se aproximar e entregar tanto, que a sua lealdade a ele não é negociável.

— Para Alexander! – Pedi em vão.

— Eu só quero deixar claro. – Ele segurou minhas mãos. – Eu sei qual foi minha falha e sei que não são palavras, ou uma conversa inteira, pequenos gestos... Eu preciso me dedicar a arrumar tudo, mostrar nas minhas ações o quanto estou disposto a seguir conosco, da maneira correta ao menos uma vez na minha vida.

— E-Eu... – Tentei argumentar antes dele tocar nossas testas, tão próximos, quantas vezes estivemos mais próximos que isso e agora era a primeira vez que eu podia sentir o calor que vinha dele para mim, uma sensação tão diferente...

— Eu amo você Belle! E planejo demonstrar isso quando voltar. – Ele falou, agora meus olhos já marejavam, eu ainda não iria chorar, não queria chorar na frente dele mais uma vez. – Eu prometo que farei o possível por nós, a mesma dedicação que tenho com a congregação, com a família e com meus treinos também será dedicada a você.

— Eu não tenh... – As palavras não iriam se formar. Não agora.

— Não precisa me responder hoje. Eu precisava te dizer isso e quando eu voltar, terá tido esse tempo para si, para pensar sobre tudo. – Ele beijou minha testa. – Eu vou voltar para você. – Ele se dirigiu a porta.

— ESPERA! – Eu gritei e ele travou. Fiz os frascos aparecerem flutuando a sua frente. – Isso se chama baba de fênix. Eu sei que o nome é péssimo, mas, o efeito é impedir que sejam queimados! Vocês precisam levar. – Expliquei e ele sorriu pegando os três.

— Muito obrigado! Eu direi a eles que os fez para nosso desafio juntos. – Ele abriu a porta. – Quando voltarmos avisaremos primeiro você, para que fique com a gente lá em casa pelo menos uma noite antes de todos serem informados no nosso retorno.

Dito isso ele saiu disparado, fechando a porta com cuidado. Eu escutei seus passos até que sumissem nas escadas mais baixas, em seguida agucei meus ouvidos para que pudesse escutar quando sua moto fosse se afastando gradativamente ate que então havia meu silencio novamente.

— Por que o amor tem de ser tão complicado para mim? Por que não posso simplesmente alcançar minha felicidade? Cada vez que passo um obstáculo algo novo surge para me dividir, me matar lentamente e desmembrar meu psicológico! – Eu reclamava sozinha enquanto chorava. O que eu poderia fazer agora? Como lidaria com essa situação emaranhada na qual me coloquei? Eram questões e mais questões a minha frente, cada uma parecendo uma muralha, chocando-se contra o meu corpo sem defesas, logo eu deitei em posição fetal no chão de madeira, sentindo meu próprio abraço me passar segurança. – O que acontece agora?

[Lilith – Roma Antiga]

Apodrecendo mais uma vez, agora com inúmeros corpos abaixo de mim e ao meu lado, todos destruídos, desfigurados, massas de carne e ossos rodeadas por moscas e sangue, o cheiro forte da decomposição atraía todo tipo de carniceiro, pequenos corvos, urubus, lobos... Mais de uma vez eu os via vir até a pilha que jamais parecia diminuir, contudo, nenhum deles vinha até mim, nenhum para encerrar meu sofrimento de uma vez, será que até as feras me rejeitariam? Estaria eu condenada a aguardar até esse corpo se desfazer conscientemente?
Quando o sol baixou naquele terceiro dia, eu escutei, novamente o som dos seus passos na grama e na terra, saindo do esconderijo entre as arvores para que pudessem se saciar com o banquete. Porém, nessa noite as coisas estavam diferentes, perceptíveis desde o momento em que cruzaram o limiar das arvores e não seguiram até a pilha de corpos, a alcateia parada olhando para mim.
De trás das feras mais passos eu ouvi, esses agora eram diferentes, com certeza não era animal, e não vinha com armadura ou sandálias, quem quer que fosse, era um humano de fora de Roma. O passo pesou por alguns instantes antes que ele surgisse, uma figura hercúlea e descalça, com um par de olhos marrom escuros transbordando selvageria e ferocidade, quase como se fosse tão desprovido de humanidade quanto as bestas que estavam ao seu lado. Haviam cicatrizes em seus braços e no seu peito, uma barba espessa no rosto escondia sua boca.

— Isso certamente é atípico. – Ele falou, provavelmente em um volume mais audível do que eu estava capaz de processar. Ele deu poucos passos antes de ajoelhar próximo ao meu rosto. – Eles fizeram algo realmente monstruoso com você.

Eu não respondia, não tinha força para isso, estava presa no meu silencio, talvez ele fosse capaz de encerrar meu sofrimento.

— Fraca demais. – Ele deduziu tocando meu cabelo. – A obra de Deus era o objetivo deles, mas, pra mim isso é mais uma afronta, desfazendo a criação originalmente feita a imagem do criador... Para dar lugar a algo que destruiu sua beleza outrora tão invejada.

Eu ainda não dizia nada, Só esperava que esse discurso levasse ao final que ele parecia pronto a me entregar. Finalmente.

— Eu posso encerrar isso mulher. – Ele disse e se levantou. – Seria simples, rápido e você teria seu descanso. – Eu queria isso. “Por favor”. Pedi em pensamento. – Porém, o que fizeram com você, com todas essas pessoas... Com as crianças...

Eu fervi por dentro com essas palavras, morrer ainda era tão convidativo, entretanto, esse caminho seria bom apenas para mim, quem mais iria saber? Quem iria parar o Imperador? Quem acabaria com os exageros e caprichos desses homens loucos com complexo de deus, acreditando que podem dobrar a vida e a natureza as suas próprias vontades egoístas.

— Sim, você está entendendo. -Ele se abaixou novamente, era como se pudesse ler minha mente. – Eu lhe darei o presente da noite, e com ele, todos os poderes que as trevas me entregam, serão também seus, além dos que já possui agora sem poder usufruir de tal força. – Ele me tomou em seu colo como se não fosse nada, gentilmente se aproximando e então eu senti, a leve irritação na pele e a perfuração no meu pescoço, minhas ultimas forças indo embora do meu corpo e então a separação fria de nossos corpos. – Agora beba! – Ele ordenou após furar o próprio pulso e colocá-lo junto a minha boca, algumas gostas de sangue caíram em meus lábios, automaticamente fazendo meu corpo se mover para segurar aquela fonte de vida inexplicável e satisfatória ao meu alcance, como se fosse realmente tudo que eu precisava para continuar a viver.

Sua ultimas palavras para mim após se afastar, agora pela última vez foram: “Agora sua nova vida começa e a atual vida deles encontra sua ceifa.”

Eu nunca mais vi aquele vampiro, ou talvez o tenha encontrado sem reconhecer quem era, sem a certeza talvez. Mas, uma coisa era certa, eu segui seu conselho, eu realizei minha vingança, mais de uma vez contra aqueles que tanto mal entregaram ao mundo e as vidas que deveriam ter cuidado ao invés de explorar. A humanidade não merecia esse mundo. Eu me tornei para eles o pesadelo vivo que antes eles haviam sido para mim e eu garanto. Satisfação é um dos melhores remédios para um coração ferido.