Filhos da Noite

3 Capítulo 2 – APROXIMAÇÃO


Nora vivia em uma casa de fazenda no limite de Coldwater. Sem vizinhos a não ser pela fazenda ao lado que era da minha família e vivia o caseiro Viktor. Ele era amigo do meu pai.

Estacionei e desci do carro. O jardim estava em volto de uma névoa sinistra. Mas já tinha me acostumado com isso. Encontrei Nora fazendo a lição de casa. E Dorothea, a governanta, fazendo o jantar. A mãe de Nora trabalhava em uma empresa de leilão, coordenava leilões imobiliários e de antiguidades. Ela viajava muito e nós ficávamos sozinhas.

Era bom ter um senso de liberdade.

— Demorou. — Nora comentou.

— Estava tocando.

— Você sabe que pode tocar o meu violoncelo.

— Sim, mas lá eu tenho mais inspiração. Sei lá. — Dei de ombros.

— Como foi a escola? — Dorothea perguntou.

— Tenho um novo parceiro de biologia. — Nora respondeu.

— Isso é uma coisa boa ou uma coisa ruim?

— Vee era a minha antiga parceira.

— Humph. — Dorothea estava limpando o resto de lasanha de uma caçarola. — Uma coisa ruim então. — Nora suspirou concordando. — Me conte sobre a sua nova parceira. Essa garota como ela é?

— Ele é alto, moreno e irritante. — Nora respondeu e eu escondi o sorriso enquanto sentava ao seu lado no outro banquinho de bar.

— E você? — Dorothea perguntou me encarando.

— Eu não tinha parceiro. Agora tenho um. Não é dos piores. — Comentei.

Apesar de não me dizer nada sobre ele. Eu poderia dizer que já tinha convivido com pessoas muito piores.

As 9 horas Dorothea terminou o jantar e trancou a porta quando saiu. Nora piscou as luzes da varanda duas vezes e ela buzinou de volta.

— Quer jantar? — Perguntei arrumando a mesa.

— Não estou com fome.

— Se importa?

— Não. Pode comer. — Sorri.

Sentei a mesa e me servi de macarrão. Eu estava com muita fome.

— Não sei como consegue comer igual um dragão e continuar magra. — Ela comentou.

— Achei que quem tinha inveja disso era a Vee. — Nora revirou os olhos.

— Não é inveja.

— Isso eu sei.

— Só fico impressionada com o tanto de comida que você come.

— Genética. — Dei de ombros.

Me servi de uma coca cola.

— Fez a lição?

— Sim.

— E a de biologia?

— Provavelmente vou levar bomba. — Resmunguei. — Não vai ser a primeira.

Minha entrada na faculdade com certeza dependeria da grande fortuna da família Crawford. Não das minhas "ótimas" notas.

Eu era uma boa aluna. Nora sempre puxava minha orelha. Mas não me importava tanto com as notas quanto ela. Não me importaria por receber uma nota ruim. Não fazia sentido se preocupar. Mas ela não. Ela arrancava, se desdobrava para conseguir notas boas.

E era por isso que eu sabia que ela faria qualquer coisa para achar Patch.

Nora pegou o telefone da cozinha e olhou a palma da mão.

Enquanto terminava o jantar ouvia sua ligação.

— Estou ligando para ver se podemos nos encontrar hoje à noite. Sei que você disse que está ocupado, mas...

— Nora. — Consegui ouvir as palavras de Patch pelos pensamentos de Nora. — Achei que você não fosse ligar. Nunca.

— Bem podemos nos encontrar ou não?

— Acontece que não posso.

— Não pode ou não vai?

— Estou no meio de um jogo de sinuca. Um jogo de sinuca importante.

— Onde você está?

— No Fliperama do Bo. Não é o seu tipo de lugar.

— Então vamos fazer a entrevista no telefone. Tenho uma lista de perguntas bem... — Ele desligou.

Ela ficou encarando o telefone depois me encarou.

— Ele desligou na minha cara. — Ela resmungou e eu mordi o lábio tentando não rir.

— Eu vi.

— Ai que ódio! — Ela falou rabiscando no papel sem parar. — Onde fica o Fliperama do Bo?

— Você que deve saber, morou sua vida inteira aqui. — Falei.

Ela voltou a pegar o telefone. Pelos seus pensamentos eu sabia que ela iria ligar para sua mãe.

— Sou eu. Só estou checando. Tenho lição de biologia para terminar depois vou para a cama. Me ligue no almoço se você quiser. Te amo.

Levantei e fui lavar a minha louça, Nora passou por mim e pegou uma moeda de 25 centavos de uma gaveta.

— Cara eu vou. Coroa eu fico.

— Isso não está acontecendo. — Murmurei a encarando.

Ela jogou a moeda no ar depois a achatou na mão.

— Não está mais nas minhas mãos agora. — Ela falou. — Pegue o seu casaco.

— O que? — Perguntei.

— Você vai ir junto.

— Mas... Nora... — Suspirei.

— Eu não vou ir lá sozinha. Vai saber o tipo de lugar que é aquilo?

— Ah claro que eu posso dar uma voadora em alguém que mexer com você. — Debochei.

— Uma voadora não. Mas uns chutes já ajudam. Por favor.

— OK. — Murmurei e ela sorriu.

Nora pegou o mapa e saiu da casa enquanto eu a seguia em silêncio. Ela entrou no seu fiat spider chocolate e a encarei. Respirei fundo antes de entrar. Enruguei o nariz para o couro branco dos bancos.

A viagem foi de meia hora até chegarmos ao local. Nora estacionou e eu lancei um olhar para a placa. Fliperama do Bo, Paintbal do Mad Black e Salão de Sinuca do Ozz.

— Que coisa patética. — Murmurei.

Havia pichações nos furos e bitucas de cigarro por todo o lugar.

— Vai mesmo fazer isso? — Perguntei e ela respirou fundo.

— Eu preciso.

Nora dirigiu para dentro e estacionou, nós descemos do carro e ficamos na fila esperando passar pelas cordas.

Enquanto um grupo estava pagando Nora agarrou meu pulso e me puxou entre as pessoas para o labirinto de sirenes e luzes que piscavam.

— Acham que merecem um passe grátis? — Alguém gritou.

O caixa se aproximou.

— Não estou aqui para brincar. Estou procurando por alguém.

— Se quiser passar por mim, tem que pagar. — Ele colocou a mão sobe o balcão onde tinha colado o preço da entrada.

15 dólares e só aceitavam dinheiro.

— Se eu não voltar em dois minutos, pago os quinze dólares. — Nora falou antes de me soltar. Ela passou por baixo das cordas e correu para a arcada.

Arregalei os olhos. Nora tinha sido abduzida. Só podia ser. Nunca que a Nora normal faria isso.

— Ei! — O caixa saiu atrás dela gritando.

— O que está fazendo aqui? — Me virei para Benjamin parado atrás de mim.

— Eu... Nora veio atrás do Patch. — Respondi colocando as mãos nos bolsos da calça jeans.

Tinha acabado de me arrepender de não pegar o casaco.

— Por um segundo achei que quisesse entrar para jogar.

O encarei. Se ele soubesse o quanto eu era boa em jogos.

— Você não sabe muito sobre mim, sabia? — Perguntei.

— Quer entrar?

— Hoje não. — Respondi. — Só estou esperando a Nora.

— Ela pode demorar. — Ele falou. — Está com frio?

— Não. Tudo bem. — Respondi saindo da fila e indo para o lado da parede.

Benjamin me seguiu e parou ao meu lado, ele encostou o ombro no muro e ficou virado para mim. Lancei um olhar para ele.

— Agora que está aqui poderia responder as minhas perguntas, não é?

— Que tal se você entrar e tentar me vencer na sinuca? Se conseguir... respondo suas perguntas.

— Melhor ainda. — Falei. — Que tal você ser bonzinho e me responder as perguntas. — Ele sorriu. — Eu não sou tão desesperada por nota quanto Nora. Fique à vontade se quiser responder.

— Não tem muito o que responder. — Seus olhos verdes me encararam. — Sério.

— O que quer aqui?

— Nós jogamos algumas sinucas. Só isso.

— É viciado em jogo?

— Não. Mas todos temos um vício.

Não consegui perguntar qual era o vício dele. Não consegui falar mais nada.

Ele ficou me encarando até que foi se aproximando. Recuei esbarando na parede e ele sorriu.

O que ele queria? Ele me conhecia a menos de 24 horas e já estava querendo me beijar.

Sabia que era bonita. Sempre soube disso. E graças a isso sempre consegui o que queria. Ler mentes e controla-las também ajudava muito. Abria muitas portas.

Mas às vezes, meu talento acabava se tornando meu castigo.

Benjamin continuava se aproximando então desviei dele bem a tempo de ver Nora saindo do lugar.

— Preciso ir. — Falei.

— Até amanhã. — Falou sorrindo.

Me apressei em alcançar Nora.

— E ai? — Perguntei.

— Ele é um babaca! — Ela respondeu antes de entrar no carro.

Lancei um olhar para onde Benjamin estava. Mas não o encontrei. Fiquei agarrada a porta do carro olhando em volta, mas não vi nada.

Não o vi nem mesmo na fila. Abri a porta do carro e entrei.

Aquele arrepio atrás da nuca de novo.

Quando chegamos em casa eu fui direto tomar um banho. Vesti meu pijama que era um short doll de malha verde normal e fui me deitar.

Olhei para o porta-retrato ao lado da cama e suspirei. Era uma foto de família. Sentia falta dos meus pais. Assim como sentia falta do meu irmão.

Éramos irmãos gêmeos e tínhamos nascido no dia 7 de abril e de certa forma tínhamos uma ligação. E essa ligação se mantinha presente onde quer que eu fosse, sempre sentia ele dentro de mim.

Aquilo chegava a ser estranho por que eu sabia que ele tinha morrido. Todos tinham morrido, somente eu tinha sobrevivido. O que era quase improvável vendo as fotos do acidente.

Mas milagrosamente eu tinha escapado, tinha ficado em coma alguns dias, quebrado o braço e tinha vários machucados pelo corpo. Mas eu estava viva.

Tudo o que eu lembrava daquela noite era os faróis do carro vindo na nossa direção. E uma luz. Uma luz que eu sabia que não era do carro.