Filhos da Lua e a Ascensão dos Corajosos.
54 Sem saídas.
Notas iniciais
Kan estava sendo levado por um corredor novamente. Seu ferimento causado por Matiel estava curado, mas a mancha de sangue ainda permanecia ali o lembrando do que passou. Dessa vez havia duas pessoas de branco na sua frente que usavam um chapéu na cabeça escondendo os cabelos claros, que quase todos os moradores da nave tinham, e as laterais de seus rostos. Pelo tamanho e face Kan podia dizer que eram jovens, mas que ele, com quinze anos no máximo, mas levavam o trabalho a sério. Na frente desses dois jovens, havia um par de soldados que conversavam mais relaxados, diferente de quando Jess estava com eles.
Logo eles entraram em uma sala branca e vazia, onde no centro havia uma estrutura de semicírculo branca, quase como um cômodo redondo de pouco mais de um metro de diâmetro em seu interior. O primeiro jovem o segurou e o guio para dentro da estrutura com a expressão nula. A seguir o circulo se fechou subitamente com um vidro azul claro. Kan se aproximou e assistiu os dois jovens mexendo em alguns armários escondidos nas paredes sem se importar com ele. Então o vidro se tornou escuro gradualmente e ele se afastou para o centro do lugar, um foco de luz em cima impedia de ele procurasse uma saída por lá. Milhares de lasers laranja vieram de diferentes direções e o percorreram de cima a baixo. A seguir o chão de aço começou a expelir um liquido e uma voz em diferentes línguas dizia uma mesma frase “mantenha um folego por quarenta segundos”.
O nível do liquido prateado cobriu o chão em poucos segundos e subiu sem interrupções enchendo o lugar. O traje o impediu de se mover, o mantendo no lugar, apenas observando. Quando chegou ao pescoço Kan tentou apenas tomar o máximo de folego que pode, pensando que o aviso dizia apenas quarenta segundos. Logo ele estava submerso se concentrando no ar em seus pulmões, mas o som do liquido invadia o seu ouvido e o perturbava para lembra-lo que estava preso ali, sem ar e sem saída. Ele suportou o máximo que pode e aquilo ainda não tinha acabado, então quando começou a liberar aos poucos o ar perdeu o controle, o liquido o invadiu, um gosto metálico e ácido, mas antes que aspirasse mais uma superfície apareceu sobre sua cabeça, ele foi até ela e engasgado tomou o ar enquanto o liquido desaparecia sob seus pés. Dukan se apoiou no chão cuspindo o liquido que incomodava os pulmões, garganta e até o estomago. O vidro se abriu e ele viu os dois jovens olhando-o com suas com expressões indiferentes.
–Ele não suportou muito. -disse um indo buscar algo em um dos armários.
–Eu disse para você não aumentar o tempo. – disse o que ficou.
–Na ficha dizia que ele era resistente... — comentou o outro voltando com uma injeção e cutucou Kan no pescoço. -Pronto. Agora não vai ter que se importar com o gosto desse liquido e mais nada do que vamos lhe fazer.- deu um sorriso para Kan e o ajudou a se levantar.
–Não é estranho tirarmos a consciência da mente dele, enquanto em alguns experimentos os cientistas não ligam muito... — disse o outro abrindo caminha para Kan sair do semicírculo.
–Você é idiota. Isso ajuda o que a gente faz. Ou você acha que ele iria ficar feliz assistindo o que fazemos?
Dukan andava ao lado dos dois ouvindo a discussão e logo perdeu a consciência entrando em um lugar escuro e silencioso em sua mente, mas não caiu.
***
Kan acordou deitado sobre uma maca de grade, em uma sala com outras iguais ocupadas por desconhecidos adormecidos. Ele se levantou e notou a diferença, ele estava limpo, com os cabelos ainda húmidos, desembaraçados e em um penteado e seu traje também revigorado.
–Não é um modelo muito elegante. Não é? -um rapaz na maca do lado disse ainda deitado. Os cabelos eram lisos e castanhos claros, imitando o tom de chocolate, a pele era branca com algumas sardas espalhadas sob os olhos que eram castanhos claros. Parecia ter passado pelo mesmo processo que Kan. Então o rapaz lhe lançou um olhar estranhando. -Como consegue fazer isso?
–Isso o que?
–Ficar sentado. Eu tentei algumas vezes, mas parece que esse traje é forte para mim. E às vezes dá choque...
O rapaz era menor que Kan, mas ainda muito bem fisicamente, talvez fosse esse um dos motivos de Dukan poder fazer algo que supostamente ele não podia fazer.
Logo os mesmos garotos de branco, que levaram Kan para isso, apareceram e percorreram o corredor entre as fileiras de macas lançando um olhar para ele ao passar, chegaram ao fundo do salão e falaram com uma mulher.
–São os seus acompanhantes?- perguntou o rapaz olhando Kan, que concordou. — Então não nos veremos. Ou talvez, se eles resolverem te dar um banho de novo. — e ele voltou a olhar o teto. — Espero que fique bem cobaia 351.
Os garotos vinham na direção dele e Dukan falou:
–Como se chama?
–177.
–Não. O seu nome. – Kan sentiu o traje começando a comandar seus movimentos enquanto os garotos esperaram no corredor vendo, e estranhado, o contato entre os dois.
–Meu nome? É um novato aqui?- estranhou o outro vendo Kan se afastar lentamente. — Neste lugar nosso nome é um numero, e é assim que fica tudo registrado.
Logo depois Kan, os dois garotos de branco e dois soldados distraídos e tranquilos andavam pelos corredores em um percurso entediante. Às vezes eles cruzavam com pessoas de jaleco, pessoas de branco e mais raras vezes com alguma outra pessoa com a mesma roupa que Kan, mas esses sempre com uma cara atordoada e desconectada da realidade.
De repente um toque aquecido atingiu sua mão e deixa algo antes de partir. Dukan olha ao lado e vê mais um dos jovens de branco e o chapéu que esconde as laterais do rosto.
–Isso vai nos ajudar a comunicar. – sussurrou a menina de franja olhando para frente e mantendo uma expressão nula.
Depois ela o olhou rapidamente para vê-lo e Kan notou facilmente uma pequena tatuagem abaixo do olho direito da menina, um triangulo dimensional prateado sobre a pele branca.
–Coloque no ouvido, não vou ficar falando alto. — disse ela logo depois.
O macacão não o impediu de fazer o rápido movimento, para colocar o pequeno ponto de som quase imperceptível em seu lugar. Então enquanto andavam e seguiam as pessoas a sua frente, Kan tentou não demonstrar o contato entre eles e a ouviu bem melhor e claramente quando ela falou “testando” repetidas vezes. Ele a olhou tentando faze-la parar e ela mal movias os lábios encarando a frente.
–Certo Kan. Parece que já podemos planejar algumas coisas. Mas quero que você também teste. Fale algo. Já estou achando que é mudo... — o olhou rapidamente pelo canto do olho.
–O que foi isso que fizera comigo hoje?- ela sorriu com o som da voz dele, mas essa reação logo sumiu.
–Uma higienização. Não é nada demais e não faz mal algum. É parte do cronograma de uma cobaia, para os novos e para os antigos que podem estar em um estado que interfira nos resultados dos experimentos.
–Você é a garota chamada Revier não é?- disse ele tentando imitar a forma de falar baixo e sem muito movimento na expressão.
–Cooper me chama de Revier, pois é o meu segundo nome. Pode me chamar de Nia. Chegamos.
Ela se desviou dos outros e seguiu pelo corredor o deixando para trás.
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