Filhos da Lua e a Ascensão dos Corajosos.
72 Um lugar em que ele não esteve.
Notas iniciais

Um despertador chiou no quarto inteiro, e tudo estava escuro quando Dukan se sentou na cama compreendendo onde estava, e não era em sua cela ou em seu quarto. Quando as luzes se acenderam automaticamente seu companheiro de quarto, ainda desconhecido, havia caminhado até o armário na escuridão e jogado um cabide com o uniforme liso sobre a cama. Dukan não precisou separar a roupa de recruta, pois dormiu com ela, apenas precisava vestir a parte superior, que tinha se livrado pra dormir melhor, sobre a regata branca que era parte do uniforme.
O outro recruta parou diante dele, por um ligeiro segundo, o encarando. E então pegou algumas coisas na própria mochila e se direcionou para a porta dizendo de forma sem muita emoção e um pouco impaciente:
–Me segue. E pegue as suas coisas.
Dukan pegou os mesmo itens de dentro da mochila e foi levado para uma área de higienização: pias, ralos e chuveiros e tudo mais que teria em um banheiro havia no cômodo amplo. Um espaço cheio de outros recrutas que organizadamente se preparavam para começar o dia.
Algumas horas depois, Kan estava em alguma parte da grande área da seção de Jess, em uma monótona aula de estratégia. Sempre observando tudo sem mudar a expressão séria, mesmo quando um ou outro soldado ficava o encarando com um brilho de raiva ou desprezo nos olhos; Se eles sustentassem o olhar por muito tempo um monitor de patente maior chamava a atenção do oponente de Kan, e não dele. Mesmo assim Dukan sentia que eles falavam dele, observavam e o maldizia de longe, e sabia que mesmo que estivesse desmemorizado aquela não seria uma situação confortável para estar.
Em uma hora livre, que poderia ser de almoço ou de intervalo, Kan seguiu seu companheiro de quarto, que havia ficado por perto na maior parte do tempo, e descobriu que aquele lugar que Jess comandava era bem grande. Além da área com cobaia que conheceu, havia um complexo completo para o treinamento e capacitação dos soldados-recrutas. E agora Dukan mapeava um salão claro, cheio de mesas com duas cadeiras espalhadas, e em uma parede um trecho com dez portas pequenas de metal brilhante com um painel ao seu lado, onde cada soldado escolhia o que iria comer tocando e deslizando o dedo na tela até que encontrasse uma combinação de alimento que agradasse.
Quando chegou a vez dele, Kan pensou em como ia fazer aquilo que não entendia. A tela mostrava uma lista com as palavras: proteínas, carboidratos e vitaminas, uma tabela acima e vazia indicava o que ele tinha escolhido. Por alguns segundos, a mais que qualquer outro ali, Kan clicou em um monte de coisas, mesmo sem saber o que era.
Os dez que chegaram com Dukan logo saíram e outra dezena chegou para escolherem sua refeição. Alguém atrás dele riu de suas escolhas e depois com um sotaque que estendia o som do R disse apenas para ele andar logo. Kan se virou e viu um soldado que chegava à altura dele, mas era magro e o encarava. A seguir este foi educadamente empurrado para o lado pelo colega de quarto de Kan, que deu um olhar impaciente para o loiro forasteiro motivo das risadas dos recrutas em volta, e se aproximou da tela em que ele mexia, com movimentos ligeiros e equilibrando na outra mão a própria comida, apagou a tabela confusa que Kan, criou e escolheu organizadamente cada coisa que seria consumida. Logo que terminou as escolhas a porta de metal ao lado se abriu com a bandeja e tudo pedido. O recruta pegou-a e entregou à Dukan, o empurrando levemente para longe do tumulto e das risadinhas na fila.
–Escolha um ou dois de cada opção, se você quiser. Mas não uma coleção de tudo, como estava fazendo. Apenas o necessário.
Depois de dizer isso o soldado seguiu a frente, indo o mais longe do centro do salão, onde era comum um grupo de mesas fazerem parte de uma conversa única, e se se acomodou em uma das muitas que estava livre e ficavam bem próximo da parede.
Dukan ia se sentar na cadeira da mesma mesa que o outro se sentou, mas algo a travou, impedindo de ser puxada. O soldado havia esticado as pernas sobre a outra.
–Desculpe – disse depois de ver a reação de Kan -, mas não precisa sentar-se comigo. Tem mesas livres aqui do lado.
Era um antissocial, era uma das conclusões que Kan tirou daquele ser, e talvez o soldado também escondesse um leve ar altruísta com ele.
Após muito tempo comendo a estranha gosma que era o alimento de uma cobaia, Dukan teve muito prazer em mastigar as coisas. Comida normal finalmente, pensava, e era muito boa, mesmo estando em uma nave era igual a da terra.
O salão de esvaziou com o passar do tempo. O seu colega de quarto, na mesa ao lado, parecia sem interesse em terminar com os itens da sua bandeja e petiscava as coisas de vez em quando, assistindo tudo com pouco interesse.
–Não temos que ir fazer alguma coisa? Um segundo tempo de treinos e coisas assim?- Dukan se cansou de esperar um aviso ou algum superior aparecer para guia-lo para uma nova tarefa e perguntou.
O soldado, que sempre espiava o que Dukan fazia de soslaio, negou com a cabeça deixando o talher na badeja.
–Hoje estamos dispensados. A maioria vai voltar para a colônia para passar o “dia de folga” com a família. — ele respondeu nada animado, então se levantou e caminhou para deixar a bandeja junto de outras abandonadas.
Dukan o acompanhou bem satisfeito do que comeu. E depois o seguiu para fora do salão.
–Dukan, preciso que você me acompanhe. -a voz afinada interrompeu os dois recrutas de seguirem pelo corredor assim que saíram.
Nia estava encarando o loiro de uma forma fria e sem expressão, como a maioria dos que faziam a mesma função que ela. O soldado, que nem se deu ao trabalho de dar seu nome á Dukan, observou-os fixamente e estranhando por um momento. Kan não demorou e concordou seguindo depois atrás da menina sem questiona-la ou se despedir do outro.
Sérios os dois seguiram pelos corredores e então foram para um elevador bem largo, que mais parecia uma sala sem moveis, onde vários outros recrutas e ajudantes conversavam. No alto da porta brilhava uma faixa de letras brilhantes que mostrava informações e os andares em que iriam parar durante o percurso, porém, naquele momento, apenas indica ‘Colônia’. A descida dos milhares de metros foi bem rápida. Dukan se deixou ficar próximo da parede enquanto cada metro era percorrido e milésimos de segundos.
Quando os dois chegaram à parte baixa da nave, o grupo se dispersou em um clima de folga que não se poderia imaginar em um lugar daquele. Logo que chegaram à colônia e ficaram sozinhos na plataforma do elevador, Nia sorriu vendo Dukan observar atentamente a praça central: larga, cheia de plantas, pessoas com crianças e outras coisas que quase o fazia se esquecer de onde estava.
–Achei que agora que você pode andar um pouco mais livre, seria legal te mostrar como é aqui... Nessas ultimas horas.
A menina parecia mais solta ali e admirou a vista um pouco também.
Depois Nia Revier o levou para conhecer a maioria dos comércios dos térreos dos prédios, uma passagem rápida pelas portas, pois tudo estava mais cheio do que o costume porque grande parte dos funcionários subalternos e do instituto de pesquisa em cobaia foi dispensada para essa noite que comemorava a queda do criador.
A seguir eles estavam no pequeno apartamento de Nia, ela queria mostrar para Dukan como era onde eles moravam. Não tinha muito que se ver lá. Com exceção do banheiro isolado, era um único cômodo amplo que servia de quarto, sala e cozinha. Havia uma cama perto da janela, dividindo espaço com um sofá de dois lugares, uma tevê e uma mesa com um par de cadeiras, mas a cozinha era apertada e separada de tudo por um balcão estreito. Tudo com poucos móveis e poucas coisas para decorar.
Kan mal viu as coisas, ou compreendeu o que eram, e Nia o arrastou para fora, e subiram para o alto do prédio. No terraço alto, ele podia olhar pra cima e ver através de um denso vapor distante a estrutura sobre a cabeça deles. Cinzenta, escura e á milhares de metros o lugar onde ele esteve desde que chegou. Uma sensação de que aquilo podia desabar sobre ele passou rapidamente por seus pensamentos, mas a garota, com um sorriso por poder mostrar aquilo e assistir suas reações, o cutucou e mostrou bem mais adiante estendendo o braço. Em um horizonte, onde não havia mais prédios iguais, surgiram campos retos e sem fim, de diferentes tons de verde e outras cores; mas distante arvores distintas e bem organizadas em sua área geravam frutas; e do outro lado havia galpões brancos com escritos enormes em suas paredes que eles não podiam ler daquela distancia, mas armazenavam ou pré-processavam o que era cultivado ou produzido.
–A área de trabalho dos subalternos. — disse Nia o vendo observar tudo. -De lá que vem o que precisamos e pra onde vai o que não precisamos. Além de campos de cultivos e tudo mais, também tem uma área onde esta os híbridos; distantes o suficiente para manter a colônia em paz se algum deles fugir... Podíamos ir lá, mas qualquer viagem leva algumas horas, e não temos todo esse tempo.
Dukan olhou a menina e ela parecia levemente abatida olhando a paisagem.
–Tem certeza que quer fazer isso? Sair daqui?
–Sim. — Dukan não pareceu ficar satisfeito com a resposta, então ela continuou: — Para você, ver tudo isso deve mostrar que aqui não é tão ruim. Mas tudo isso é tudo que é a nave. Além daqui só faltaria eu conhecer a área dos controladores... Eu já vivi uma década e meia aqui, Dukan. Conheço tudo a ponto de em um blecaute de luz saberei onde pisar em qualquer lugar que esteja... E acho que o Espaço não é lugar para nós que... que temos um planeta inteiro e que precisa de ajuda.
Pouco tempo depois, a lua se tornava escura e o Estado ficava a sua sombra. Dukan e Nia desceram para as avenidas, chegaram à praça e a atravessaram tomando o papeis de assistente e recruta sérios. No centro da praça havia um palco sendo preparado nos últimos detalhes, com luzes e tudo mais, como se ali fosse ter o show de alguém muitíssimo importante. Nia sussurrou avisando para que Kan parasse de ficar olhando como se nunca tivesse visto, pois alguns infelizes soldados sem folga vigiavam a área, então Kan teve conter a vontade de observar tudo e seguiu em frente. Eles chegaram ao elevador, agora sem ninguém o esperando ou saindo, Nia apertou o botão de invocação do transporte e ele se abriu vazio, os deixando mais tranquilos ao entrar.
Enquanto subiam a menina pareceu ficar mais pálida e séria, não por habito, mas porque algo a perturbava. Ela cruzou os braços em torno de si e tentou controlar a sensação que começava a se destacar em seu peito. Estava chegando a hora. A hora que ela ia quebrar as regras e jogar tudo que viveu no ar. Se tudo desse errado a vida dela acabou, e se desse certo ia finalmente por os pés em um espaço sem tetos ou paredes para todo o canto; um lugar que não era controlado por ninguém. Ia conhecer o que era desconhecido. Entretanto o sucesso dependia do que vinha na hora a seguir e na capacidade que ela apostou que Dukan teria para leva-la embora.
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