Filhos da Cerejeira

1 Capítulo 1: Debaixo dos seus olhos


21 de fevereiro de 1997, Hungria.
Se naquele tempo Nicolas Klaus soubesse o que o aguardava quando ele chegasse em casa ele talvez nem tivesse saído no dia anterior para a casa do seu melhor amigo e padrinho do seu filho, Richard Baxton que mora na Rússia.

Nicolas tem 15 anos e é casado com Katheryne Yoake, de 16 anos, que adquirira seu sobrenome Klaus. E também com ela tivera um filho que estava para completar 2 anos de idade. Os dois viviam sós na casa deixada por Madeleine e Trevor Yoake, os pais de Katheryne e, sem muita orientação tiveram seu primeiro filho de uma forma muito precoce.

Nicolas já estava para entrar em sua modesta casa de 950 metros quadrados.
Sorridente ele adentra pelo salão principal e não estranha o silêncio, pois eles não têm criados. Moram somente ele, sua esposa e seu filho. Nicolas caminha até a cozinha para beber água e encontra com Katheryne que estava preparando o almoço.

— Katheryne! – Sorriu Nicolas.

— Meu amor, que saudade! – A alegria transbordante de Katheryne a faz correr para os braços de Nicolas. – Você está com fome? Eu já estou terminando.

— Não se preocupe, eu vou ver Raphael e depois vou tomar um banho. – Beijou a esposa na testa. – Quando eu terminar do banho eu venho almoçar. – Nicolas sorri para Katheryne.

— Ele acordou bem cedo hoje chorando bastante, mas bastou mamar um pouco para que caísse no sono novamente. – Katheryne ironiza o ocorrido. – Vá acorda-lo, daqui a pouco ele vai ter que se alimentar de novo. – Deu as costas para Nicolas.

— Vou lá por que eu já estou morrendo de saudade do meu garoto! — Saiu da cozinha e subiu as escadas correndo em direção ao quarto de Raphael e quando entrou se deparou com o quarto vazio. Enquanto ele estava em choque e sem reação, um gato laranja de duas caudas sai pela janela, mas quando Nicolas repara o felino ele sente uma leve vertigem e deixa de lado a existência do gato.

Bastou ver o berço sem Raphael para que as lágrimas de Nicolas escorressem automaticamente. Seus joelhos bateram no chão como um meteoro que atinge a Terra. A expressão de pânico em seu rosto demonstrava o quão sem ação aquele garoto tinha ficado.

Ele olhou debaixo do berço, dentro do guarda-roupa e até mesmo nas gavetas dos móveis e não obteve nenhum sinal de Raphael. Rindo um pouco, Nicolas desceu as escadas e foi até Katheryne.

— Que brincadeira sem graça Katheryne, já pode dizer onde ele está. – Nicolas seca as lágrimas.

— Do que você... – Katheryne virou-se para Nicolas e ao ver seus olhos vermelhos imediatamente deixou os pratos caírem no chão. – Nicolas? O que aconteceu? – Aproximou-se.

— Vamos Katheryne, não tem mais graça onde está Raphael? – Sorriu.

— Um forte arrepio e uma fraqueza nas pernas tomaram conta do corpo de Katheryne. – Meu amor... Eu o deixei... Eu... Nicolas... – Katheryne entregou-se aos prantos nos braços de Nicolas. – Raphael... O meu filho! Não é possível! O que fizeram com o meu bebê?! – Soluços.

— Nicolas se solta dos braços de Katheryne e dá dois passos para trás. – Por algumas horas... Katheryne... Foram só algumas horas que eu fiquei fora... – Continua a andar para trás.

— Não Nicolas... Por favor... Não faz isso comigo... – Katheryne estende as mãos para Nicolas.

— Você deixou que levassem Raphael... O nosso filho... Ele deve estar perto. Acredito que vou poder rastrear o Hana dele com facilidade, mas quanto a você... – Nicolas fica de costas e olha por cima do ombro para Katheryne.

— Nicolas! Não! – Katheryne abraça Nicolas por trás.

— Sua irresponsabilidade será refletida no nosso casamento. Não seremos mais rei e rainha deste lugar como costumávamos sonhar. Sugiro que você ateie fogo em tudo. – Se solta dos braços de Katheryne e caminha para a porta.

— O que você vai fazer? Nicolas... – Limpa os olhos.

— Vou procurar nosso filho em cada canto, viela, túnel ou arranha-céu deste mundo. Eu vou trazer Raphael de volta nem que para isso eu tenha que virar o planeta de cabeça para baixo. Agora me esqueça como seu marido. – O corpo de Nicolas se transformou em um feixe de luz azulada e foi em direção ao céu.

— Katheryne encosta na parede e desliza até o chão chorando, ela mantém sua cabeça apoiada nas pernas enquanto treme e soluça. – Por favor... Traga-os de volta... Artêmis... Traga meus dois amores de volta... Por favor!

Se esse fato misterioso não tivesse sido contado, ninguém entenderia boa parte da história. Nicolas é um garoto que durante toda sua vida reservou suas dores dentro de si mesmo e essas dores fizeram com que ele se tornasse uma pessoa amável por fora... Somente por fora... Nicolas é o último da linhagem milenar chamada de Klaus.

Nicolas não teve a chance de crescer com sua mãe e nem muito menos com seu pai. Toda sua família foi exterminada por um ataque da família Vaccun. Nicolas tinha um irmão mais velho, o que lhe foi dito sobre seu irmão... Nicolas foi achado pelos aliados dos Klaus, os pais de Katheryne. Eles disseram para Nicolas que o encontraram no meio dos destroços da Fortaleza Klaus sendo pisoteado pelo seu irmão Honoo Klaus. Depois disso Honoo nunca mais foi visto e seu Hana nunca foi rastreado e com isso Nicolas é informado da morte do seu único parente que poderia estar vivo.

Retomando. Com a cabeça cheia de preocupações, Nicolas retorna à Rússia e foi pedir ajuda ao seu melhor amigo, Richard Baxton. Richard não pensou duas vezes sobre o assunto e saiu pelo mundo com Nicolas para procurar Raphael.

Cego de ódio e desespero, Nicolas confrontou incontáveis pessoas as quais ele julgava como “inimigos”. Richard é católico praticante e, mesmo desrespeitando as regras da sua religião, Richard não deixou de ajudar Nicolas.

A busca de Nicolas e Richard durou 12 anos. Durante esse tempo Nicolas cresceu mais, se desenvolveu, amadureceu e fortaleceu suas habilidades e, o que ele fez seus poderes? Perdeu o controle sobre eles e com isso tornou-se um quase inútil em combate. Aí você se pergunta: Ele passou 12 anos destruindo tudo e agora é um inútil em combate? A fraqueza de Nicolas eram suas emoções e, a perda de Raphael foi o que o deixou mais desestruturado afundando-o em uma forte depressão silenciosa.

12 anos depois...

22 de setembro de 2011. No Egito, Hatem Seth mora no Cairo com seus dois irmãos mais velhos, Akins e Hathor. Hatem compartilhava quase o mesmo passado que Nicolas, a diferença é que ele afirma ter visto seus pais morrerem de forma covarde.

Ele tem 24 anos e seu corpo é bem cuidado e malhado, de pele morena e cabelos cobrindo a testa. No Cairo ele é conhecido como “O Arquimago” por ter facilidade no domínio das magias. Os sentimentos afetivos de Hatem ainda o deixavam confuso, mas sua tristeza sempre ficou estampada em seu olhar.

— Já faz mais de 13 anos... E não há um dia que eu não pense em vocês... Pai, mãe. Crescer sem vocês dois está doendo mais a cada ano. Meus irmãos sempre me confortaram, mas não é a mesma coisa. Eu consigo senti-los tão perto... Isso aperta ainda mais o meu coração... – Apoiado na janela de sua casa, Hatem diz suas palavras olhando para o céu azul enquanto suas lentas lágrimas deslizavam pelo seu rosto.

Outra diferença que Hatem e Nicolas tinham, é que Hatem sempre descarregou tudo que sabia em seus combates, mesmo estando com grandes buracos na mente e no coração.

— Hatem? Está tudo bem? – Akins chegou até Hatem e colocou a mão em seu ombro demonstrando a preocupação com o irmão.

— Está sim. – Secou as lágrimas e sorriu.

— Se você quiser conversar sobre qualquer coisa e inclusive sobre nossos pais, você pode sempre contar comigo. Eu sempre vou estar ao seu lado. – Akins aperta a mão de Hatem.

— Eu sei disso Akins. Não precisa... – Hatem e Akins ouvem batidas na porta.

— Quem será? – Estranhou Akins.

— Tenho quase certeza... – Hatem fica com uma expressão facial mais séria.

Akins abre a porta e vê o Faraó. Apesar de estar em 2011 este cargo ainda existe, mas sua função é diferente. Esses Reis são apontados pela própria Sakura e cabe a ele manter a ordem no mundo sendo o representante de justiça para aqueles que possuem Hana, porém este Faraó não era tão amado quanto os anteriores. Muitos boatos diziam que o Faraó sofria de dupla personalidade ou que algo maior o controlava, mas as pessoas tinham certeza de que ele não era uma pessoa normal.

— Família Seth. A que pontos chegamos? Foi necessário eu mesmo ter que vir aqui cobrar as dívidas que vocês fizeram. – O olhar de desprezo do Faraó cai sobre os dois irmãos e logo em seguida chega Hathor.

— O senhor só precisa nos dar um pouco mais de tempo e nós pagaremos tudo! – Disse Hathor tentando convencer o Faraó.

— Tempo, tempo, tempo... Já faz quanto tempo que vocês pediram tempo? – Questionou.

— O que nossos pais deixaram era muito, mas infelizmente acabou. – As palavras tristes de Akins não penetraram no ouvido do Faraó.

— Genki e Annelize. Eu duvido que eles tenham deixando grande coisa para vocês. Sempre foram tão inúteis. – O deboche do Faraó enfurece Hatem.

— Não fale assim deles! – Hatem grita com o Faraó. – Não abra sua boca maldita para falar dos meus pais!

— E você acha que está falando com quem, jovem Seth? – O olhar frio do Faraó fixa-se ao de Hatem.

— Estou falando com você mesmo! – Caminhou para diante do Faraó. – Eu não acredito que Osíris ou a Mãe tenham te escolhido para ser o Faraó.

— Quanta afronta. Guarde minhas palavras Seth. Se continuar com esse comportamento você irá para o mesmo buraco que seus pais! – O Faraó dá as costas e caminha para fora da casa.

— Volta aqui! – Hatem corre na direção do Faraó e algo invisível o joga para trás.

— Hatem! Faraó o que você fez?! – Hathor vai até seu irmão e o ajuda a se levantar.

— Vocês foram avisados. Espero não ter que voltar aqui ou as consequências serão inimagináveis. – O Faraó vai embora escoltado dos seus guardas.

— Hatem... – A preocupação de Akins não supera a determinação de vingança de Hatem.

O protagonismo da história conta com 6 personagens e, 2 deles já foram apresentados. A próxima casa que será visitada é a de Hinatsu Hitsugi. O oposto de tudo aquilo que se espera de um herói. Com quase a mesma idade que Hatem, Hinatsu é dotado de extrema burrice e falta de atenção. Ele nunca foi bom com técnicas mágicas já que seus pais voltavam as habilidades para as lutas de corpo a corpo.

O modo desajeitado de Hinatsu era compensado com sua força e velocidade. Ele é capaz de levantar grandes cargas de peso sem esforço. Não era qualquer par de olhos que conseguiam acompanhar seus movimentos.

Sempre sorridente Hinatsu nunca teve motivos para ficar triste até mesmo por que em sua vida a tristeza não tinha vez. Ele mora com sua mãe Hina, seu pai Krister e seu irmão mais novo Yoni Hitsugi, também no Cairo.

Ele dedica sua vida ao treino com a sua mãe que é sua grande instrutora.

— Pode vir frango! – Hina estala os dedos. – Já se cansou?

— Mas mãe eu nem consigo te tocar! – Hinatsu levanta do chão.

— Se eu deixar você me tocar, você vai me bater e eu sei que isso vai doer. Você precisa se esforçar mais para me atingir. – Hina assume uma posição de luta. – Posso deixar meu corpo mais leve por ser uma dominante do Hana do vento, mas o seu é da terra. – Hina pega um pouco de areia no chão e estende a mão para Hinatsu. – O Hana do vento permite que eu mova meu corpo com mais leveza e por isso me deixa mais veloz, mas você com o da terra pode conectar-se ao solo e impulsionar mais seus pés para adquirir mais velocidade.

— Oi? – Hinatsu percebe que sua mãe estava falando com ele, mas ele não deu atenção.

— Seu idiota! – Ela vocifera contra o filho e corre até ele e, antes que ela possa golpeá-lo, uma aura negra envolve o punho de Hinatsu. Ele também tenta ataca-la, mas Hina consegue segurar seu braço.

Magia das trevas é algo facilmente conhecido por alguém no nível de Hina e ela percebeu que o que Hinatsu ia usar contra ela era algo que ela jamais o ensinaria.

— O que significa isso Hinatsu?! – Olhar sério para o filho.

— Pétala Demoníaca — Almas Famintas. – Ficou sem entender a atitude de Hina.
— De onde você tirou isso?! Como você teve acesso a isso?! – Segurou Hinatsu pelos ombros o sacudiu enfurecida.

— Já faz alguns dias. Uma moça de cabelos pretos disse que essa magia aumentaria o meu dano físico. Eu achei que... – A boca de Hinatsu é tampada com a mão de Hina.

A inteligência de Hina não foi passada para Hinatsu e ela logo se lembrou dos problemas que teve no passado contra essa magia e seus usuários.

— Ele já quer voltar... – Hina olha para baixo, respira fundo e logo olha para seu filho. – Você jamais deve usar essa técnica. Isso é coisa das trevas. Coisa de gente realmente má. – Impôs a ordem.

— Entendo... Mas o que isso faz? – A interrogação ainda rondava a mente de Hinatsu.

— Quando o usuário atinge a vítima, incontáveis espíritos malignos devoram toda a alma do ser que foi atingido. Em outras palavras... Essa seria minha passagem direta para o outro mundo caso você me atingisse. – O advertiu. – Embora a utilização não tenha sido de forma 100% eu acho melhor irmos falar com Hatem para que ele use alguma magia de purificação para impedir que seu corpo seja consumido por coisas ruins. – Puxou Hinatsu pelo braço.

— Soltou-se da mãe. – Hatem?! O... Arquimago?! Não mesmo! – Anda para trás com medo.

— Qual é o problema? – Hina coloca as mãos na cintura.

— Eu não gosto dele... Nunca gostei! Ele sempre foi todo exibido e cheio de si. E o jeito dele... Ele me assusta. – Relutante contra a mãe.

— Hatem é uma pessoa extremamente boa que foi submetido a coisas desagradáveis. – O sopro do vento faz Hina respirar fundo e ter seus olhos cheios de lágrimas. – O Hana de Annelize... – Sorri.

— Annelize era a mãe de Hatem, não era? – Juntou-se a Hina. – Acho que ela não gostava muito de mim.

— Não se preocupe com isso. Annelize e eu sempre fomos rivais e, sei que ela sempre foi uma grande guerreira. – Segura na mão de Hinatsu. – Agora vamos falar com Hatem.

— Vamos. – O rosto de Hinatsu é preenchido com seu largo sorriso.

Mãe e filho caminham pelo calor do Egito indo ao encontro de Hatem. Este basicamente é Hinatsu. Simples, desatento, compreensível e amigo de todos.

O maior defeito de Hinatsu sempre foi falar demais. Geralmente tudo que Hinatsu fala acaba acontecendo e na maioria das vezes são desastres.

Notas finais
O início pode ser algo confuso, mas é a base para algo grande ser construído. A história é imensa com várias tramas e arcos, espero de coração que vocês gostem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.